Pastagem de inverno para recria e engorda: validação de ILP
Fernando Penteado CardosoEng. Agr. Sênior - ESALQ-USP 1936, Fundador e ex-presidente da Fundação Agrisus. SP
Brachiaria ruzizienses plantada simultaneamente com o Milho em consórcio com Stilozantes cv. Campo Grande, em 06/04/09 e capim tanzânia + brachiaria ruzizienses, após milho em 23/07/2009
Na Estância JAE em Santo Inácio/PR, vem se realizando pesquisas, validações e demonstrações apoiadas pela Fundação Agrisus. Por seis anos consecutivos foi produzida forragem para gado de leite no intervalo de duas culturas de soja de verão. A técnica foi igualmente aplicada na produção de forragem objetivando recria e engorda com resultados aferidos pelo ganho de peso vivo - GPV. Faz parte do que se chama de ”integração lavoura pecuária - ILP” em pequena propriedade familiar, onde ”a plantação e a criação se alternam na mesma área”.
O Solo
O solo, da série Arenito Caiuá, com 70% de areia, recoberto originalmente por mata alta de perobal denso não muito grosso, porém sem os padrões de alta fertilidade como, por exemplo, a figueira branca. Plantado com café na década de 1950 que teve pouca duração, no limite da fertilidade inicial e em conseqüência das geadas intensas. Seguiu-se algodão substituído por pastagem alguns anos depois, por causa da erosão. A braquiária cede hoje lugar aos cereais depois de adotado o plantio direto.
A fertilidade original é média, com teores de bases-S (de 2 a 3 cmol/ dm3) e matéria orgânica - MO (de 1 a 2 %), teores compatíveis com a textura arenosa com menos de 30% de argila e silte. O fósforo-P extraído por resina é baixo, seguindo a regra da maioria dos solos tropicais. A acidez é média (pH de 5 a 6 em H2O) e sem apresentar toxidez por Al. A capacidade de troca de cátions - CTC (de 4 a 5 cmol/dm3) e a saturação de bases - V (de 50 a 60%) são médias, dentro do padrão dos solos com mais de 70% de areia. Em que pesem os modestos níveis químicos indicados, esses solos são altamente produtivos no clima local, desde que adequadamente adubados e protegidos da erosão.
Fitomassa para o plantio em 13/11/2009
O Clima
Na seqüência dos 3 anos em revista, as chuvas de abril a agosto somaram de 137 a 388 mm, a temperatura média das máximas ficou entre 24º e 26º C, a média das mínimas foi de 14º a 15º C; e a mínima absoluta de 0 a 13º C (Quadro 1).
Quadro 1. O clima
A Pastagem
Foram estabelecidos 3 tipos de pastagens, as quais sofreram situações climáticas diferentes a cada ano. As comparações no Quadro 2 devem se ater a essas variáveis.
2008 após soja - Sobressemeadura no inicio do desfolhamento (B.ruziziensis+P.maximum-Tanzania a 7,5 kgVC/ha de cada). (Projeto PA 429/08);
2009 após milho - Semeadura na entrelinha (B.ruziziensis + P.maximum-Tanzania a 6 kg VC/ha de cada). (Projeto PA 529/08); e
2010 após milho - Semeadura na entrelinha (B.brizantha misturada no adubo e P. maximum Tanzânia a 6 kg VC/ha de cada). (Projeto PA 630/09).
Apesar das gramíneas terem sido desestimuladas com sub dose de herbicida quando necessário, elas deprimiram a produção do milho entre 6% e 8%, fator levado em conta na análise econômica. A considerar a menor densidade de touceiras e menor oferta inicial no caso de sobre-semeio no T1.
Quadro 2. As pastagens
O Pastoreio
O resultado da produção sugere que as gramíneas maduras semeadas em Novembro pouco crescem no inverno quando comparadas com as mais novas semeadas em Março. A produção negativa indica o consumo do estoque inicial. O déficit verificado em 2010 explica-se pela baixa precipitação nesse ano quando foi mínimo o crescimento durante o inverno. A duração do pastoreio foi ajustada à preocupação do volume de fitomassa residual.
Quadro 3. O pastoreio
Desempenho Ponderal
O sistema após soja em 2008, apesar da melhor qualidade, apresentou ganho em kg/ha pouco menor, seja pela menor oferta inicial de forragem, seja pelo tipo dos animais: foram usadas novilhas de menor porte, comparando-se com bois inteiros utilizados nos dois últimos anos.
A conversão alimentar calculada foi razoavelmente uniforme e dentro do previsto.
As variações entre 2009 e 2010 explicam-se primordialmente pelas diferenças climáticas, pois a precipitação entre abril e novembro foi de 497 mm e 137 mm respectivamente.
Chama a atenção a homogeneidade, tanto dos bois, quanto do seu desempenho, como demonstram os baixos índices de Desvio Padrão-DP.
Quadro 4. Ganho de peso vivo – GPV
Produção de Fitomassa para SPD
O reduzido estoque final e a baixa recuperação em 2010 explica-se pela insuficiência de chuva conforme se verifica no Quadro 1. O desejável é ao redor de 4.000-5.000 kg/ha no plantio, pois quantidades maiores de resíduos podem dificultar uma semeadura uniforme da soja ou milho.
Quadro 5. Fitomassa na dessecação (exclusive restolhos)
Desempenho Econômico
O menor resultado em 2010, bem como maiores custos de uma diária e de 1@ de GP, explicam-se pela falta de chuva, conforme mencionado anteriormente.
Quadro 6. Índices econômicos
Conclusões
Os dados apresentados resultantes do monitoramento de projetos financiados pela Agrisus comprovam e dimensionam a viabilidade de formar pastagens após soja ou consorciadas ao milho para pastoreio durante o inverno.
Os ganhos de peso vivo - PV se aproximam de 300 kg/ha e são limitados pelo curto período de pastoreio de cerca de 100 dias, tendo em vista a obtenção de fitomassa adequada para o Plantio Direto.
O intervalo de aproximadamente 30 dias para recuperação da massa verde num ano de baixa precipitação, mostrou-se insuficiente para se conseguir de 4 a 5 t de MS sobre a qual a soja é semeada.
O acompanhamento dos projetos permite esperar um ganho de peso superior a 300 kg/ha através da maior densidade das touceiras e da aplicação de N logo após a colheita, além de eventual semeadura de outras espécies ou variedades de gramíneas de crescimento mais rápido, sem prejuízo das condições requeridas para o plantio eficiente da soja ou milho. Os resultados apresentados são válidos para regiões onde as estações de outono e inverno sejam úmidas.
A Agrisus agradece a colaboração da Estância JAE e o apoio técnico da Univ. Estadual de Maringá - UEM, bem como a supervisão dos trabalhos pelo Eng. Agr. Fernando Sichieri.
Artigo publicado na Revista Plantio Direto 126, novembro/dezembro de 2011.