Agricultores (Editorial)


Autores:
Publicado em: 01/12/2011

Agricultores: mocinhos ou bandidos?

Marcos Roberto FridrichProdutor rural em Ajuricaba, RS.E-mail: faxinalsul@hotmail.com

Vivemos um tempo em que muito se fala sobre assuntos como a conservação da natureza e do meio ambiente, e todos os dias somos bombardeados com notícias sobre a necessidade de cuidar do planeta em que vivem hoje sete bilhões de pessoas. Sem dúvida nenhuma esta é uma preocupação que deve ser de todos nós, pois da ação de cada ser humano resulta o que se chama de impacto ambiental, que em muitas regiões do planeta tem resultado no completo desequilíbrio e destruição da natureza, o que em ultima instância, torna impossível até mesmo a vida humana.

Dentro deste contexto, acho importante revermos um pouco da trajetória da agricultura, em nossa região principalmente, mas de forma geral o mesmo fenômeno se repete em todo o Brasil, com o foco na adoção generalizada do Sistema de Plantio Direto na Palha (SPD).

Para quem observa os campos agrícolas nesta época do ano é uma imagem muito natural vê-los cobertos de uma camada de palha e, na seqüência, aos poucos o verde da soja vai dominando o cenário. Sou jovem ainda, mas sou do tempo em que além do amarelo da palha e o verde da soja, todas as lavouras ganhavam outra cor: o vermelho da terra revolvida pelos arados que mais tarde foram substituídos pela famosa dupla pé-de-pato e grade. Em um passado não tão longínquo ainda havia o preto deixado pelo fogo, que era usado para dar fim à palha de trigo que dificultava o plantio da nova cultura.

O processo que resultou na adoção maciça do SPD foi longo e tem muitas histórias que não cabem em um artigo, quero apenas me ater ao seu significado fantástico no contexto da conservação do meio ambiente, pois esta verdadeira revolução silenciosa transformou o que era problema para o plantio (a palha) na matéria prima principal de um novo método de trabalho, e esta palha que antes era queimada ou enterrada, hoje permanece nas lavouras trazendo uma série de benefícios ao solo e, por conseqüência, a todos os que dependem da terra e do que ela produz.

Entre os principais, posso destacar: redução da evaporação da água, resultando em economia de um insumo muito valorizado do século XXI; redução da temperatura do solo, favorecendo o desenvolvimento das raízes a da fauna do solo; redução do escorrimento superficial da água da chuva, reduzindo drasticamente o assoreamento dos rios e a contaminação dos mesmos com resíduos de fertilizantes e produtos químicos; redução de cerca de 70% da queima de combustível fóssil (diesel) ao longo do ciclo de produção e, com o aumento do teor de matéria orgânica no solo, realizamos de graça para a sociedade, o famoso seqüestro de carbono.

Em resumo, transformamos poluição em comida e melhoramos o solo para as gerações futuras! A pergunta que não quer calar é: quando as multidões que vivem nas grandes cidades, onde estão os verdadeiros grandes problemas ambientais como lixo e esgoto, vão ficar sabendo desta história fantástica e verdadeira?

Publicado na Revista Plantio Direto, edição 126, novembro/dezembro de 2011.