Manejo de Arroz Irrigado para Alta Produtividade e Qualidade de Grãos


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Publicado em: 01/10/2011

Manejo de arroz irrigado para alta produtividade e qualidade de grãos

Enio MarchezanEngenheiro Agrônomo, Doutor, Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS. emarchezan@terra.com.br

1 Introdução

A lavoura de arroz, a exemplo de outros cultivos, vem se transformando ao longo do tempo como forma de continuar a ser competitiva. Um dos caminhos tem sido através da busca constante de maiores produtividades. Diversas práticas de manejo, já identificadas, proporcionam produtividades elevadas, se utilizadas de forma integrada.

A resposta a determinada prática agronômica, no entanto, depende do momento de sua utilização e da quantidade do recurso de produção utilizado. Para que o efeito de uma prática esteja agrícola próximo do esperado é necessário planejar todas as atividades envolvidas no processo de produção, para que a gestão possa ser feita de forma eficiente.

Sabe-se que a produtividade elevada é uma forma de redução de custos, ainda assim, há necessidade de analisar o uso de cada recurso de produção e identificar formas de realizar uma lavoura com custos competitivos. Este é um tema que deve constar das etapas de planejamento, de discussão e de gestão durante o processo de produção.

Outro caminho é a produção sustentável. Além do aspecto econômico e social, há o ambiente a ser preservado. Nesse sentido, a lavoura de arroz demanda cuidados especiais, pela quantidade e forma de utilizar água, aliada a localização geográfica, próxima a cursos de água.

Mas de pouco adianta elevada produtividade se o produto não apresentar a qualidade de acordo com a exigência do mercado. Qualidade em arroz envolve diversos aspectos como apresentação, qualidade culinária ou de ”panela”, resíduos de agrotóxicos, poucos ”defeitos” nos grãos, qualidade de sementes, entre outros. Produto de qualidade significa preço e liquidez, o que confere competitividade e rentabilidade ao produto.

No entanto, é momento de pensar e agir no sentido de que a lavoura de arroz não seja considerada de forma isolada, mas integrante de um sistema de produção. Isto requer considerar durante o planejamento a utilização da área também com outros cultivos ou produção animal como forma de viabilizar a rotação de uso.

Assim, a manutenção da competitividade e rentabilidade da atividade da lavoura de arroz irrigado deve associar elevada produtividade e qualidade do produto, realizados de forma sustentável e com custos compatíveis, agregando ainda a visão de sistema de produção.

É nesse sentido que será feita a apresentação do tema proposto.

2 Planejamento das atividades

A lavoura deste ano começou no ano passado, ou bem antes e deve ser inserida num contexto de uso do amanhã. O planejamento deve contemplar a fase de ”escritório e galpão” e aquela dita de ”área da lavoura”.

Na primeira fase deve-se cuidar para que tudo esteja absolutamente disponível para quando for necessário; recursos financeiros, materiais e humanos. Isto envolve a recuperação e adequação das necessidades de máquinas e implementos, silos, secadores e transporte.

Nessa fase devem ser contempladas a análise sobre a reestruturação da lavoura e readequação de necessidades de drenagem, estradas, canais, sistemas de preparo do solo e implantação; enfim, a sistematização de uso da área, visando redução de custos e melhor distribuição do uso dos recursos ao longo do ano. Da mesma forma, pensar sobre os insumos, viabilização para adquiri-los é componente fundamental desta fase.

A elaboração de planilha de custos e a simulação de uso dos níveis de recursos de produção projetam resultados e subsidiam tomadas de decisões, definindo a escolha e uso de áreas, antes de implantar a lavoura.

Por fim, antes de iniciar a implantação da lavoura, que é a fase mais intensa de trabalhos de campo, devem-se preparar os recursos humanos, atualizando-os e discutindo com eles qual a participação de cada um na condução da lavoura. A apresentação de todas as etapas que foram elaboradas durante o planejamento, especialmente aquelas relacionadas às práticas agronômicas de manejo e a importância de serem realizadas precisamente no momento desejado são fundamentais para que todos, sabendo dos objetivos, possam auxiliar-se mutuamente. Ouvir todos os membros da equipe e fazê-los apresentar suas experiências é extremamente salutar para adequar rumos. A participação em cursos e palestras ao longo do ano, tanto do proprietário quanto dos funcionários, é uma forma de integração de desenvolvimento do espírito de equipe e atualização tecnológica, facilitando o entendimento de todo o processo de produção na agricultura.

Deve-se ter sempre em mente que quando se planeja níveis elevados de produtividade, a manutenção do equilíbrio de uso de todos os recursos de produção é um desafio. Sendo assim, o detalhe define a resposta.

3 Práticas de manejo

As práticas de manejo de uma lavoura de arroz irrigado incluem aquelas que estão mais relacionadas à construção do potencial de produção e as que auxiliam na manutenção da produtividade planejada. Embora sejam descritas de maneira individual, como forma de melhor entendê-las, ressalta-se a necessidade de utilizá-las de forma integrada para que haja a expressão do potencial de resposta esperado.

3.1 Adequação da área

A adequação da área ao cultivo de arroz visa proporcionar maior controle sobre a época de realizar as operações necessárias. Alguns ”princípios” podem ser utilizados como referência. Um deles é de que a água que deve ter acesso à área de cultivo é apenas a água da chuva que cai diretamente na área. Para isso devem ser construídos canais de drenagem no entorno da lavoura para evitar a contribuição de água das partes mais altas para a área da lavoura de arroz. Por outro lado, diques podem exercer funções semelhantes em áreas sujeitas à inundação.

Outro ”princípio” é o de que a lâmina de água formada pela chuva incidente na área deve ser eliminada o mais rápido possível. Como a drenagem de perfil é praticamente desconsiderada em solos planos de várzea, a retirada deve ser através da superfície. O nivelamento superficial do solo, associado à construção de drenos superficiais, é um meio de rápida drenagem da área. E drenagem é a palavra chave para se ter domínio sobre o uso da área, expressando-se em diversos outros benefícios no controle de pragas, doenças, plantas daninhas e principalmente a época de semeadura e rotação de culturas.

No processo de ”organização” da área, a sistematização potencializa seu uso. O correto estabelecimento de canais auxilia na irrigação e na drenagem de cada talhão, tornando-as rápidas e reduzindo custos. Sistema de estradas no interior da lavoura reduz custos de operações de transporte. Nesse sentido, quanto mais ao fundo da lavoura o ”caminhão” puder ir, menores os custos de transportes internos. Quanto menos o ”trator e o graneleiro” transitarem na lavoura, melhor, pois significa menor custo de renivelamento e preparo da área para o próximo cultivo.

Agora, dentro da área de cultivo, o entaipamento merece destaque especial. Taipas o mais baixo possível e com leiveiro reduzido, é uma proposta de manejo qualificada. O objetivo é ter uma lavoura o mais uniforme possível quanto ao estabelecimento inicial das plântulas e altura da lâmina de água de irrigação. Com isso as condições fisiológicas das plantas da lavoura serão semelhantes, e as fases de crescimento e desenvolvimento também. Desta forma, ao aplicar determinada tecnologia, ela coincidirá com o momento de maior potencial de resposta da grande maioria das plantas da lavoura. Percebe-se esse retorno no controle de plantas daninhas e doenças, na aplicação de nitrogênio, por exemplo. Isto resulta em eficiência da tecnologia, produtividade e qualidade do produto.

Nesse sentido, insere-se o manejo pós-colheita da área, que viabiliza a semeadura na época preferencial. A correção das imperfeições provocadas no terreno durante a operação de colheita e a incorporação da resteva do arroz é fundamental para que o preparo antecipado da área possa ser concluído. A partir daí, o produtor, de acordo com o manejo adotado, tem a opção de estabelecer a lavoura no sistema de plantio direto/cultivo mínimo, convencional, pré-germinado. A alternância de sistemas de cultivo é uma ferramenta de manejo ímpar no cultivo de arroz, pois iniciar a lavoura no ”seco” ou sob lâmina de água, formas absolutamente diferentes fazem a lavoura sustentável, se bem utilizadas.

Assim, os procedimentos de (re) adequação da área são basilares para maximização de seu uso, com a visão de sistema de produção e não apenas de cultivo isolado, atendendo a dois princípios de sustentabilidade que são ”não fazer sempre a mesma coisa do mesmo jeito” e ”diversificação no cultivo ou ao longo do tempo”.

3.2 Época de semeadura

A produtividade média de arroz no Rio Grande do Sul elevou-se em cerca de duas toneladas por hectare nos últimos 10 anos (Irga, 2011). Este desempenho, destacado ao redor do mundo, foi obtido pela utilização tecnicamente adequada de um conjunto de práticas de manejo; dentre as quais se destaca o ajuste da época de semeadura objetivando, fundamentalmente, a exposição das fases mais responsivas da planta ao período de maior disponibilidade de radiação solar e condições ambientais adequadas (SOSBAI, 2010). A Figura 1 identifica as fases reprodutiva e de maturação, ou seja, um período anterior e um posterior à floração como o período de maior resposta à radiação solar.

Figura 1. Necessidades de energia solar em diferentes fases de crescimento e desenvolvimento de arroz. Fonte: Adaptado de De Datta, 1981

A época preferencial de semeadura de arroz baseia-se na coincidência do período mais responsivo à radiação solar com os meses de maior disponibilidade de luz, ou seja, os meses de dezembro, janeiro ilustrado com dados normais para a região de Santa Maria na Figura 2.

Figura 2. Dados normais mensais de radiação solar para Santa Maria, RS. UFSM/Fitotecnia.

Assim, a semeadura na época correta é decisiva, pois ela possibilita que outras práticas de manejo importantes expressem seu potencial de resposta. Trabalhos de Mariot et al, (2009) e Silva et al, (2007), (Figura 3 e 4), respectivamente, avaliando níveis de manejo em época preferencial e tardia de semeadura, concluíram que a maior produtividade de grãos, o maior retorno financeiro e os menores custos em relação ao uso de tecnologias ocorre em semeaduras realizadas na época preferencial. Destaca-se que esta prática de manejo praticamente não envolve custos adicionais. Envolve, sim, planejamento e a conscientização da equipe de quanto ela é importante para a rentabilidade da atividade. Para semear na hora desejada é indispensável realizar o manejo pós-colheita e com isso viabilizar o preparo antecipado da área, cuja palavra chave, repetindo, é a drenagem.

Figura 3. Produtividade de grãos e retorno econômico financeiro de arroz irrigado cultivado em quatro sistemas de práticas de manejo (baixo, médio, alto e muito alto), em duas épocas de semeadura (preferencial: 5/11/2003, 29/10/2004 e 27/10/2006 e tardia: 3/12/2003, 3/12/2004 e 13/12/2006), na média de três estações de crescimento, em Cachoeirinha, RS. Fonte: Mariot el at, 2009

Figura 4. Rendimento de grãos de arroz irrigado em função de nível de manejo adotado nas épocas de semeadura preferencial e tardia, na média de três estações de crescimento (2003/04, 2004/05, 2006/07). Barras seguidas de letras maiúsculas distintas, comparando épocas de semeadura dentro de cada nível de manejo e, de letras minúsculas distintas, comparando níveis de manejo dentro de cada época de semeadura, diferem estatisticamente entre si pelo teste de Duncan, ao nível de 5% de probabilidade. Fonte: Silva et al, 2007

Esta operação de manejo pós-colheita e preparo antecipado ainda precisa ser melhor entendida, pois além da produtividade, há outros aspectos envolvidos. Ciclagem de nutrientes, plantas de cobertura do solo, produção de gases de efeito estufa, estão entre os aspectos de sustentabilidade envolvidos. Há necessidade de mais informações, integrando a parte técnica, econômica e ambiental, a respeito de espécies de plantas de cobertura e seu manejo, bem como no tocante ao manejo pós-colheita da resteva do arroz na produção de metano, por exemplo, tanto no período da entressafra quanto durante o cultivo de arroz.

A semeadura na época correta deve considerar também exigências climáticas de temperatura nas principais fases de desenvolvimento e em fases de críticas a estresses como o período (semeadura/emergência) e nas estruturas reprodutivas (microsporogênese/floração). Além disso, condições de solo, drenagem da área, sistemas de cultivo, cultivar, uso repetido da área com arroz, plantas daninhas, especialmente o arroz vermelho e arroz vermelho resistente a herbicidas, entre outros, são aspectos importantes na definição do melhor momento de semeadura, dentro do período preferencial.

A época de semeadura, individualmente, é uma das mais importantes práticas de manejo da lavoura, mas como identificado nos resultados expressos na figuras 3 e 4, o conjunto de práticas é que proporciona as melhores respostas em produtividade e rentabilidade.

É preciso, no entanto, adequar a melhor época de semeadura de acordo com as condições de manejo e uso da área de cada propriedade.

3.3 Época de irrigação definitiva

A irrigação e o estabelecimento de uma lâmina de água influenciam em aspectos da fisiologia da planta através da absorção de nutrientes e do efeito termorregulador, atuando no controle de plantas daninhas, doenças e insetos. A irrigação pode afetar também o desenvolvimento da planta por meio de ácidos orgânicos formados durante o período de alagamento ou estresses por temperatura baixa e toxidez por ferro.

Levando-se em conta esses efeitos, o início da irrigação definitiva é decisivo para obtenção de elevadas produtividades e também para que outras práticas de manejo tenham sua maior resposta. Trabalhos como os de Ramirez et al, (2007) expressos através da Figura 5, mostram que a irrigação realizada aos 10 dias após a emergência das plantas de arroz, proporciona a maior produtividade, sendo que a partir desta data, a cada dez dias de atraso da irrigação, ocorre redução de cerca de 1000kg/ha de grãos de arroz. Assim, a irrigação realizada no início do desenvolvimento das plantas é uma prática de alto retorno econômico. Recomenda-se lâmina de água de cerca de 10 centímetros de altura com sistema de irrigação intermitente, mas com os devidos cuidados às exigências da planta em suas diferentes fases de desenvolvimento. Deve-se considerar que há diferenças entre cultivares, sendo que cultivares de ciclo mais curto são mais exigentes quanto a época de início de irrigação do que cultivares de ciclo mais longo.

Mas a época de irrigação é uma prática de manejo que está relacionada com diversas outras.

Assim, para realizar a irrigação quando a planta apresentar três a quatro folhas (V3/V4), conforme recomendação da pesquisa, é necessário que a operação de semeadura tenha sido realizada em condições técnicas ótimas, propiciando emergência uniforme das plantas. Este resultado depende então, da operação de semeadura, da semeadora, do preparo da área, da qualidade do entaipamento e da qualidade fisiológica da semente.

A possibilidade de irrigação em V3/V4 também está na dependência do planejamento da lavoura, pois o estabelecimento da irrigação definitiva é um dos momentos de maior ”gargalo” no manejo da lavoura; já que, além da irrigação, estão sendo realizados a aplicação de nitrogênio e o controle de plantas daninhas. Se a equipe não estiver consciente da importância da realização destas práticas de manejo no momento correto, elas serão executadas fora da melhor época, com perda de produtividade.

Não realizar a drenagem inicial da lavoura é outra prática de manejo sustentável que a pesquisa identifica como necessária para evitar a contaminação de cursos de água. Se, no entanto, houver algum motivo para retirar a água na lavoura, não fazê-lo antes de 30 dias após a aplicação de agrotóxicos, (SOSBAI, 2010), sendo que alguns trabalhos recentes indicam período superior a este.

Da mesma forma, não é recomendável realizar a drenagem da lavoura ao final do período de cultivo uma vez que pela aplicação de fungicidas e inseticidas como protetores de plantas a partir da floração, verifica-se a presença de resíduos de agrotóxicos na água de irrigação (Teló el al, 2011).

De qualquer forma, seria interessante criar um sistema de manejo da água, de modos que a água de irrigação não atingisse os cursos de água, até não haver mais resíduos de agrotóxicos na mesma, incluindo a possibilidade de reuso da água para irrigação.

3.4 Estabelecimento da cultura, cultivares, quantidade e qualidade de sementes

O estabelecimento da cultura é uma das fases mais importantes da formação de uma lavoura com elevado potencial produtivo, pois quando as sementes ainda estão sob o solo, é quando tem o menor controle sobre a formação da lavoura. É uma das fases mais vulneráveis para diversos cultivos em ambiente de várzea, em função de características físicas dos solos, localização e topografia da área. Diversos fatores de estresse, como temperatura, umidade e oxigênio podem ser restritivos no período semeadura/emergência, por isso um princípio básico de manejo é ”transformar” as sementes em plântulas o mais rápido possível. O número de plantas emergidas afeta o arranjo da população de plantas, fator importante no aproveitamento dos recursos de produção como radiação solar, CO2, temperatura. SOSBAI, (2010) recomenda entre 150 a 300 plantas por metro quadrado para cultivares não híbridas e na faixa de 100 a 150 plantas por metro quadrado para cultivares híbridas. Embora a faixa de população de plantas seja ampla, a uniformidade de emergência e sua distribuição, constituem o diferencial na qualidade da lavoura.

Por isso, é importante o momento de semeadura dentro da faixa preferencial do período recomendado, de acordo com as condições da propriedade. É preciso destacar que a qualidade fisiológica da semente é decisiva, pois no início da época preferencial, geralmente as condições para a germinação/emergência como a temperatura e oxigênio no solo não são ótimas. Nessa época, a melhor escolha é por lotes com alto vigor e com sementes uniformes dentro do lote, juntamente com a cuidadosa operação de semeadura. Este é um item onde a lavoura de arroz gaúcha, de modo geral, ainda precisa avançar mais.

Assim, a lavoura com população adequada de plantas, possibilita explorar melhor o potencial produtivo da cultivar através de uso mais intensivo de determinado recurso de produção como o nitrogênio, por exemplo.

No entanto, há diferenças de produtividade e qualidade entre cultivares convencionais e cultivares híbridas, assim como há respostas diferenciais a níveis de manejo, especialmente à adubação.

É necessário, na fase de planejamento, observar a qual mercado vai se destinar a produção e com isto fazer a escolha das cultivares. É preciso observar também que, além da cultivar, o manejo da lavoura define o enquadramento dos grãos a serem comercializados, fundamentalmente, em tipos de arroz. A Instrução Normativa n. 06, de 16/02/2009, modificada em seu Anexo II, pela Instrução Normativa n.11, de 14/03/2011, (Tabela 1) estabelece os critérios de classificação, para o comércio. No entanto, a maioria das indústrias tem seu tipo próprio de arroz com categoria superior e critérios ainda mais rígidos para enquadramento. Arroz com qualidade superior significa melhor preço e liquidez o que é outra forma de elevar a rentabilidade, junto com alta produtividade.

Tabela 1. Arroz em Casca Natural - Limites máximos de tolerância expressos em %/peso. Classificação do arroz de acordo com os parâmetros da tabela abaixo, constante da Instrução Normativa n. 11, de 14/03/2011, e previsto para vigorar até 01 de março de 2012, em substituição ao Anexo II da IN, n.6 de 16/02/2009.

3.5 Manejo da adubação

A recomendação atual para adubação de arroz no RS encontra-se em SOSBAI, (2010). As quantidades de fertilizantes N, P e K, são feitas considerando a ”expectativa de resposta à adubação”. Há dois níveis básicos para adubação que é a expectativa média e alta de resposta, podendo-se também enquadrar em baixa e muito alta. Este critério envolve a análise dos demais fatores de produção utilizados, como por exemplo, a época de semeadura, cultivar, manejo da irrigação, controle de plantas daninhas, manejo fitossanitário. Assim, a decisão das quantidades a aplicar e da resposta esperada, envolve o conjunto de práticas de manejo que o produtor está decidido a utilizar.

A pesquisa tem mostrado que há resposta à adubação, apresentando também diferenças entre cultivares de arroz. Mas as respostas positivas são devidas ao uso conjunto de outras práticas de manejo, como época de semeadura, que permite à planta expressar o potencial esperado da tecnologia. Nas recomendações de pesquisa são apresentadas, por exemplo, alternativas ao modo e época de aplicação dos fertilizantes, de acordo com o tipo de solo, sistema de cultivo, sendo necessário, portanto, adequá-las às condições da lavoura.

Destaque deve ser dado à adubação nitrogenada, cujo momento de aplicação é decisivo, pois é um dos nutrientes mais importantes na definição dos componentes do rendimento de grãos. Este é um nutriente que pode significar enorme contribuição na construção da produtividade, mas as perdas podem ser muito grandes se mal manejado.

Como a variabilidade espacial pode ser grande em solos de várzea, no que se refere à adubação, a análise do histórico de respostas é uma forma de ajustar níveis de adubação. A agricultura de precisão encontra nesta área enormes possibilidades de pesquisa.

Por fim, deve-se considerar a forte interação entre a adubação e as demais práticas de manejo e elementos de clima como radiação solar e temperatura, itens já mencionados na definição da expectativa de resposta à adubação.

3.6 Manejo de plantas daninhas – arroz vermelho

Diversas espécies de plantas daninhas infestam as áreas de arroz comprometendo a produtividade e qualidade de grãos. Gramíneas, ciperáceas e aquáticas são as principais representantes; sendo o arroz vermelho a mais importante delas. A tecnologia clearfield, que permitiu controle químico de arroz vermelho em áreas com cultivo de arroz, foi um divisor de águas na lavoura do RS e responsável por parte considerável da elevação de produtividade média do Estado. No entanto, seu uso de forma indiscriminada em algumas situações, promoveu o surgimento de biótipos de arroz vermelho resistentes aos herbicidas do grupo químico das imidazolinonas e herbicidas inibidores da enzima acetolactato sintetase (ALS). Esta situação promoveu perda de algumas alternativas de controle, ao mesmo tempo em que obrigou a busca e uso de outras estratégias de manejo.

Uma das estratégias recomendadas é o uso de herbicidas com outros mecanismos de ação. A rotação de sistemas de cultivo de arroz permite rotacionar herbicidas também, associados ao manejo cultural da área. É uma forma sustentável de não perder a tecnologia clearfield, ou mesmo tentar recuperar produtividade em determinadas áreas.

Nesse sentido, a rotação de culturas atende a este mesmo princípio, ou seja, de utilizar herbicidas, culturas agrícolas e trabalho do solo de forma associada, para a manutenção/recuperação de produtividade de arroz irrigado.

A utilização de sementes isentas de arroz vermelho é cuidado básico de manejo sustentável no controle desta planta daninha.

O manejo da irrigação também está intimamente associado ao controle de plantas daninhas. A lâmina de água complementa o controle de plantas daninhas. Para o caso específico de arroz vermelho, a permanência de lâmina de água é fundamental, especialmente, na fase inicial, antes das plantas fecharem o dossel. No item 3.3. que trata da época de irrigação definitiva, destaca-se que a maior produtividade obtida representa o resultado de diversos efeitos positivos da irrigação feita no ”cedo”, e entre eles está o controle de plantas daninhas.

3.7 Manejo de pragas

O histórico da área e o monitoramento permanente definem a necessidade e o momento de controle de insetos-praga. Situações de uso indiscriminado de agrotóxicos para controle de plantas daninhas, pragas e doenças conduzem a que cada vez mais seja necessário aumentar a dose e o número de aplicações. É preciso interromper esta escalada, utilizando-se métodos integrados de controle.

Nas situações em que for constatada a necessidade de uso, o controle preventivo pode significar ótimos resultados, Cita-se o caso da bicheira da raiz do arroz, onde o tratamento de sementes previne danos às plântulas, o que permitiu grande avanço na proteção para um bom estabelecimento inicial, tanto em área com solo alagado ou semeadura ”no seco”.

No entanto, é muito importante criar condições adversas ao desenvolvimento das pragas. Assim, o manejo da área no período de inverno, os cuidados com a vegetação no entorno e a limpeza da lavoura bem como o nivelamento da área são medidas preventivas fundamentais para evitar o excessivo crescimento da população de pragas.

Pragas não afetam apenas a produtividade, mas também a qualidade de grãos e sementes. Os defeitos dos grãos determinam o tipo de arroz e com isso o seu valor de mercado.

3.8 Manejo de doenças

O manejo de doenças é outra área de proteção de plantas que está crescendo em importância e uso na lavoura de arroz irrigado. O uso de fungicidas significa para diversas situações a garantia de manutenção do potencial de produção que foi construído. Avanços no desenvolvimento de produtos e caracterização correta dos melhores momentos de aplicar são significativos na tecnologia de uso de fungicidas em arroz irrigado.

A utilização de fungicidas é tecnologia indispensável também à produção de sementes de alta qualidade fisiológica e sanitária. Nesse sentido, a proteção da qualidade das sementes significa ter mais controle sobre a população de plantas, aspecto importante para o arranjo de plantas, e por conseqüência da resposta de outras tecnologias.

Mas o controle de doenças não pode ser visto de forma isolada; a exemplo de outros itens de manejo, sua eficiência de controle e retorno econômico estão atrelados ao conjunto de práticas executadas na lavoura. Assim, dentre as principais práticas, época de semeadura, qualidade de irrigação, nivelamento e entaipamento da área, arranjo da população de plantas, adubação, cultivar, manejo da entressafra são fundamentais. Dessa forma, o modo de condução da lavoura vai determinar se vai haver necessidade de uma, duas ou talvez nenhuma aplicação de fungicida, e em que parte da lavoura.

Nesse sentido, a Tabela 2 apresenta o efeito de época de semeadura na probabilidade de ocorrência de determinadas doenças em arroz irrigado. Percebe-se que semeadura realizada na época preferencial significa redução da possibilidade de doenças, sendo, portanto, uma prática de manejo recomendável sob todos os aspectos.

Tabela 2. Probabilidade de ocorrência de doenças1 em função da época de semeadura na média de cultivares2 e anos (2003 a 2008). Biodoenças-Irga/EEA. Cachoeirinha.

A brusone é ainda a principal doença, mas diversas outras que atacam folhas, colmos e espiguetas podem também necessitar controle químico. Assim, o monitoramento e adoção de medidas preventivas de uso e trabalho da área na pós-colheita, são decisivos para que o manejo de plantas daninhas, pragas e doenças sejam feitos de forma técnica, econômica e ambientalmente sustentável.

4. Sustentabilidade

O uso de agrotóxicos é indispensável na lavoura de arroz irrigado. Estes produtos são ferramentas importantes para que as plantas possam expressar seu potencial genético, se os outros fatores de produção forem atendidos.

No entanto, assim como há agrotóxicos que são indispensáveis e há aqueles que auxiliam para qualificar determinado aspecto de produção, há aqueles cuja participação na produção deve ser mais bem analisada sob a ótica de produtividade, custos, qualidade e preservação ambiental. Atitudes de manejo que visem redução de uso ou a utilização de agrotóxicos com menor potencial de toxicidade é o desafio de uso de áreas de várzea

Os agrotóxicos podem contaminar o ambiente porque permanecem nas plantas, no solo e na água por diferentes tempos, de acordo com a molécula aplicada. Além de poder contaminar cursos de água, pode estar nas partes utilizadas para alimentação humana ou mesmo acumular em animais que se alimentam das plantas tratadas, por isso, só devem ser utilizados para os fins que estão registrados.

Para todos os casos, o período de carência deve ser observado. O rótulo é a lei.

5. Considerações finais

Foram apresentadas algumas práticas de manejo de arroz visando alta produtividade e qualidade do produto. No transcorrer do texto foi enfatizado que sustentabilidade é uma questão indissociável da produção. Foi ressaltado também que é necessário ter um olho na produtividade elevada e outro na redução de custos. Planilhas com a composição dos custos é uma exigência administrativa. Destacou-se sobremaneira que a resposta pretendida está na dependência da utilização de procedimentos de manejo de forma integrada. Procurou-se deixar claro também, que o planejamento das atividades deve ser tarefa primeira, estabelecendo-se metas e meios de alcançá-las. A gestão do processo será facilitada e melhor entendida pela equipe se houver objetivos claramente definidos. Nesse sentido, é necessário enfatizar mais uma vez de que todos os membros estejam conscientes e motivados para a realização de suas tarefas. O treinamento do ”peão” é tão importante quanto o treinamento do ”patrão”, destacando-se com essa expressão o sentido de equipe no planejamento e na gestão. De forma semelhante, a assistência técnica cada vez mais presente e qualificada é decisiva, assim como é decisiva a formação dos recursos humanos nas Universidades, em consonância com as perspectivas da agricultura.

A sustentabilidade aparece em todas as suas dimensões. Percebe-se que é necessário ter uma nova perspectiva de uso do solo em áreas de arroz. Com a premência da necessidade e maior tecnologia de domínio de uso da área, outros usos como a rotação de culturas e a integração lavoura-pecuária ganham mais espaço, também como forma da própria lavoura de arroz continuar a ser sustentável

Diversos programas que objetivam lavouras de alta produtividade e sustentabilidade revelam que os itens considerados mais importantes são semelhantes, como podem ser vistos em Ricecheck, (2011), Projeto 10, (2004), Projeto CFC (Relatório Anual, 2003/04), Embrapa, (2004, sendo que as datas referidas acima não identificam ordem de lançamento do Programa. Isto demonstra que há convergências quanto aos procedimentos mais importantes a adotar.

O que é necessário, então? É preciso identificar onde estão os ”gargalos” limitantes para a formação da lavoura planejada, tendo muito foco e adaptando a tecnologia às situações técnica, econômica e cultural encontradas. Fazer anotações dos custos e resultados de cada talhão da lavoura. Analisar anualmente os resultados obtidos. Adotar medidas corretivas, de acordo com as respostas, a cada ano, é uma forma de construir o histórico da área. Cada um, a seu jeito, deve perseguir este desafio. Nesta busca, a troca de informações e a transferência de tecnologias permitem encurtar caminhos.

Nesse sentido, é preciso deixar oportunidades para que as respostas do ”novo”, do ”diferente”, do ”desconhecido” se tornem ”conhecidas”. Os avanços, absolutamente necessários para a evolução da lavoura, podem estar aí. Para isto, sugere-se deixar sempre uma área da lavoura para o ”cantinho da inovação”. Mas antes de tudo é preciso que, internamente, estejamos receptivos a esta mudanças.

Estas foram algumas reflexões sobre lavoura de arroz de alta produtividade, com qualidade e sustentável em seus amplos sentidos. As realidades são muito diferentes, por isso a dificuldade de generalizações, baseando-se antes de tudo em tecnologias comprovadas que devem ser adaptados a cada situação.

6. Bibliografia

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Publicado na Revista Plantio Direto 125, setembro/outubro de 2011.