Barra de pulverização assistida por uma cortina de correntes em aplicações de fungicidas nas culturas de aveia e soja
Walter Boller1; José S. da S. Witt2; Rafael Ceccon3; Cassiano M. Artuzi4;Cristian P. Rodighiero5; Henrique Maldaner51Eng.-Agr. Dr., Prof. do Curso de Agronomia da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo Passo Fundo - RS - e-mail: boller@upf.br2Eng.-Agr. da Empresa Ariticum Tecnologia de Aplicação, detentor da patente do mecanismo auxiliar para pulverizador composto por uma cortina de correntes. Alegrete - RS. e-mail: sergiowitt@bol.com.br 3Aluno do Curso de Graduação em Agronomia da FAMV/UPF, bolsista do Pibic/UPF4Aluno do Curso de Graduação emAgronomia da FAMV/UPF5Eng.-Agr., egresso do curso de Agronomia da FAMV/UPF
Introdução
As doenças que ocorrem nas culturas produtoras de grãos podem causar danos à sua produção e inviabilizar economicamente o seu cultivo. Conforme Forcelini & Reis, 1997, a doença com maior potencial para causar danos econômicos à cultura da aveia-branca é a ferrugem da folha (Puccinia coronata f. sp. avenae). Dentre as doenças que vem causando maior preocupação aos produtores de soja, destaca-se a ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi). Para o controle destas doenças, são realizadas pulverizações de fungicidas nos órgãos aéreos das plantas, os quais devem ser empregados com critérios que garantam o retorno econômico do investimento (REIS et al., 2001 e FORCELINI et al., 2004). Para proporcionar um efetivo controle das doenças, as gotas das pulverizações de fungicidas devem ser depositadas em todas as folhas das plantas (AZEVEDO, 2003). Como agravante, o início das epidemias se dá nas folhas dos estratos mais próximos ao solo, que tem de ser pulverizadas com fungicidas para prevenir o desenvolvimento das doenças. Após o estádio R1, a soja atinge o máximo desenvolvimento vegetativo, constituindo as folhas superiores uma eficiente barreira contra a deposição de gotas de calda fungicida no interior do dossel (efeito guarda-chuva), tornando as pulverizações com barras convencionais pouco eficientes (DERKSEN, apud POCOCK, 2005 e ZHU et al., 2008). Conforme Antuniassi et al. (2004) e Ozkan apud Pocock (2005) as aplicações de fungicidas devem proporcionar adequada distribuição de gotas, tanto no sentido horizontal quanto no vertical das plantas. Um novo mecanismo auxiliar para pulverizador, constituído por uma cortina de correntes, posicionadas de modo que o movimento da máquina faz com que estas inclinem as plantas no sentido do seu deslocamento, ocasiona a abertura de uma cunha no dossel da cultura e permite maior deposição de gotas nas folhas do interior do dossel da soja (WITT et al., 2009). Seu uso reduziu a severidade da ferrugem no terço inferior das plantas, sem prejuízo para a cobertura das folhas da parte superior da cultura (WITT et al., 2010). O objetivo destes trabalhos foi avaliar alguns efeitos de dois protótipos de cortinas de correntes associados a diferentes modelos de pontas de pulverização em pulverizadores de barras, em aplicações de fungicidas para o controle de doenças em aveia-branca e em soja.
Material e métodos
Os experimentos foram conduzidos na área experimental da FAMV/UPF, no município de Passo Fundo – RS, no ano de 2010 (aveia) e durante os anos de 2008 a 2011 (soja). A aveia foi a cultivar UPFA-20, a soja em 2008/2009 Fundacep 55RR, em 2009/2010 BMX Potência RR e em 2010/2011 a cultivar BRS 246 RR. As culturas foram semeadas nas épocas e densidades de plantas recomendadas, fertilizadas e conduzidas segundo as suas respectivas indicações técnicas oficiais. Os tratos culturais incluíram o tratamento das sementes com inseticidas e com fungicidas, o controle de plantas daninhas em pré-semeadura e em pós-emergência e o controle de pragas, conforme as respectivas indicações técnicas (WITT et al., 2009; WITT et al., 2010; BOLLER et al., 2011). Durante todas as aplicações dos tratamentos, monitorou-se a temperatura e a umidade relativa do ar e a velocidade do vento, com o auxílio de um termo-higro-anemômetro modelo Kestrel® 3000. Estas variáveis se encontravam dentro da faixa considerada favorável (temperatura abaixo de 30 ºC, umidade relativa do ar acima de 55 % e velocidade do vento entre 3,0 e 8,0 km h-1). Em todos os experimentos os tratamentos foram aplicados com um pulverizador montado a um trator, utilizando-se 3,0 m de uma das barras de pulverização (seis bicos com espaçamento de 0,50 m), sendo esta conduzida a 0,40 m acima do topo das plantas.
Protótipos de cortinas de correntes
As cortinas de correntes são inventos patenteados junto ao INPI e consistem em mecanismos auxiliares, de baixo custo, para pulverizadores de barras, cujo efeito é inclinar as plantas promovendo abertura em forma de cunha na parte superior da massa vegetal das culturas a serem pulverizadas. Isso permite vencer parte do efeito guarda-chuva das folhas dos estratos superiores sobre os estratos inferiores e aumentar a deposição de gotas das pulverizações no interior do dossel das culturas.
O que diferencia os dois protótipos de cortinas de correntes é essencialmente a forma de acoplamento à barra do pulverizador e a amplitude da abertura que promovem entre as plantas da cultura a ser pulverizada. O Protótipo 1 posiciona a cortina de correntes mais para frente (50 cm), em relação ao sentido de deslocamento da barra de pulverização, promovendo maior inclinação das plantas (abertura) quando comparado ao Protótipo 2, o qual posiciona a cortina de correntes mais próxima da projeção vertical da barra do pulverizador (25 cm), ocasionando menor inclinação das plantas ao deslocar-se junto com a barra de pulverização.
Experimento com a cultura da aveia branca
As parcelas foram constituídas por 17 linhas com 0,17 m de espaçamento entre elas (2,89 m de largura) e 9,0 m de comprimento. O delineamento foi de blocos casualizados com quatro repetições e arranjo fatorial (3 x 2). O fungicida utilizado foi epoxiconazol + piraclostrobina (Opera®) na dose de 0,5 L ha-1. Os tratamentos foram aplicados em 01/10/2010 (floração plena) sendo utilizados os dois protótipos de cortinas de correntes e dois modelos de pontas de pulverização: Teejet XR® 110015 e Hypro® Guardian GD110015 (Figura 3 A e B) (BOLLER et al., 2011). Ambas as pontas foram operadas à pressão de 300 kPa (3,0 bar), gerando respectivamente, gotas finas e médias, segundo a norma ASAE S572 (ASAE, 2000). A velocidade de deslocamento foi de 5,6 km h-1 e a taxa de aplicação foi de 120 L ha-1.
Figura 1. Cortina de Correntes Protótipo 1 utilizado na aplicação em culturas de inverno.
Experimentos com a cultura da soja
As parcelas mediam 10 m de comprimento x 3,15 m de largura (7 linhas com espaçamento de 0,45 m). Em 2009, utilizou-se o fungicida epoxiconazol + piraclostrobina (Opera® a 0,5 L ha-1), sendo os tratamentos aplicados no dia 06/03 (estádio R3). Foram utilizados três modelos de pontas de pulverização: Jacto LD® 110015 (300 kPa), Airmix® 110015 (300 kPa) e Jacto JA-2® (400 kPa), operados com e sem a cortina de correntes - Protótipo 1). A taxa de aplicação foi de 150 L ha-1 e velocidade de 5,0 km h-1. No ano de 2010, foi utilizado o fungicida Sphere Max® (trifloxistrobina + ciproconazol) 0,2 L ha-1 e óleo vegetal Áureo® 0,5 L ha-1, sendo os tratamentos aplicados em 28/01/2010 (estádio R1) e em 18/02/2010. Utilizaram-se as seguintes pontas de pulverização: Teejet XR® 110015, Airmix® 110015 e Magno AD1,5D® todas operadas à pressão de 3 bar (300 kPa), com e sem o uso da cortina de correntes (Protótipo 1). A velocidade do pulverizador foi de 6,0 km h-1 e a taxa de aplicação 120 L ha-1. No ano de 2011, a primeira aplicação foi realizada no dia 11/02/2011 (estádio R1) e a segunda no dia 03/03/2011 (estádio R5.1). A ponta de pulverização foi a Teejet XR® 110015, com pressão de 300 kPa. A velocidade do conjunto trator/pulverizador foi de 6,0 km h-1 e a taxa de aplicação foi de 120 L ha-1.
Figura 2. Cortina de Correntes Protótipo 2 utilizado na aplicação de fungicida na cultura da soja.
Figura 3. Pontas Teejet XR 110015 (A) e Hypro Guardian 120015 (B), utilizadas nos testes de aplicação de fungicidas com as Cortinas de Correntes.
Avaliações
Foram avaliados a deposição de gotas em cartões sensíveis à água, posicionados no interior do dossel da soja, a incidência e severidade da ferrugem da folha da aveia e da ferrugem da soja com respectivos níveis de controle em relação às testemunhas sem aplicações de fungicidas e o rendimento de grãos com umidade de 13%. Os dados foram submetidos à análise de variância (5%) e ao teste de Tukey a 5 % de probabilidade de erro.
Resultados e discussão
Para a cultura da aveia, a análise de variância indicou que houve interações significativas entre os dois protótipos de cortinas de correntes e os dois modelos de pontas de pulverização, evidenciando que os efeitos destas variáveis apresentam dependência entre si (Tabela 1). Observa-se que ao utilizar as pontas XR110015, somente o Protótipo 1 promoveu aumento significativo no controle da ferrugem da folha da aveia. Com as pontas GD120015, não houve efeito significativo da utilização das cortinas de correntes. Para o Protótipo 2, a aplicação do fungicida com as pontas GD120015 proporcionou controle da ferrugem maior do que com as pontas XR110015.
Tabela 1. Controle de ferrugem da folha da aveia (%) aos 20 dias após a aplicação dos tratamentos com e sem utilização de dois protótipos de cortinas de correntes e de dois modelos de pontas de pulverização em uma barra de pulverizador, na aplicação do fungicida epoxiconazol + piraclostrobina (Opera®). FAMV / UPF, Passo Fundo-RS, 2011 (Boller et al. 2011)
Os resultados na Tabela 2 indica que o rendimento de grãos variou entre os tratamentos, de forma semelhante ao controle da ferrugem da folha, também sendo verificadas interações significativas entre os modelos de pontas e os protótipos de cortina de correntes.
Tabela 2. Rendimento de grãos (kg ha-1) de aveia cv. UPFA-20, em resposta à utilização de dois protótipos de cortinas de correntes e de dois modelos de pontas de pulverização em pulverizador de barras, na aplicação do fungicida epoxiconazol + piraclostrobina (Opera®). FAMV / UPF, Passo Fundo-RS, 2011. (Boller et al., 2011)
Quando o fungicida foi aplicado com as pontas XR110015, observou-se que a utilização do Protótipo 1 proporcionou ganhos significativos no rendimento de grãos de aveia, porém o mesmo não foi verificado com o Protótipo 2. Aplicando-se o fungicida com as pontas GD120015, não se observou efeito de nenhum dos dois protótipos. Ainda, com o Protótipo 2 a aplicação do fungicida com as pontas GD120015 proporcionou rendimento de grãos maior quando comparada às pontas XR110015. Este resultado pode ser atribuído à orientação dos jatos gerados por estas pontas, em 15º para trás, em relação à vertical, coincidindo melhor com a posição da abertura do espaço entre as plantas ocasionado pela cortina do Protótipo 2. Desta forma, especula-se que tenha havido melhor distribuição de gotas ao longo do perfil vertical das plantas (OZKAN apud POCOCK, 2005 e ZHU et al., 2008).
A Tabela 3 contém os dados obtidos na primeira avaliação do Protótipo 1 com a cultura da soja e mostra que os efeitos da cortina de correntes foram positivos. Não houve interações significativas entre modelos de pontas e utilização ou não da cortina de correntes, motivo pelo qual serão apresentados somente os resultados referentes à utilização ou não da cortina. A sua utilização proporcionou um aumento de 76% no depósito de gotas e de 3,9 vezes no volume de calda estimado em cartões sensíveis posicionados a 40 cm de altura do solo, em comparação com a pulverização com a barra convencional, além de resultar em ganho significativo no rendimento de grãos.
Tabela 3. Número de gotas cm-2 e volume de calda (L ha-1) estimado em cartões sensíveis localizados a 0,40 m de altura do solo e rendimento de grãos de soja cv. Fundacep 55 RR em resposta à aplicação do fungicida epoxiconazol + piraclostrobina (Opera®) com barra de pulverização assistida ou não por uma cortina de correntes (Protótipo 1) - (Witt et al. 2009)
A Tabela 4 contém as médias de incidência da ferrugem asiática da soja nas metades superior e inferior das plantas e rendimento de grãos de soja (BMX Potência RR) como resposta às aplicações de fungicida com e sem a utilização da cortina de correntes (Protótipo 1) na barra de um pulverizador. Verifica-se que a utilização da cortina de correntes proporcionou redução significativa na incidência da ferrugem asiática na metade inferior das plantas de soja, em comparação com a barra convencional (sem cortina). Este efeito ocorreu sem que isso afetasse a incidência da doença na metade superior das plantas, mostrando que o seu uso não prejudica a deposição de gotas nesta parte das plantas. Por sua vez, o rendimento de grãos foi significativamente maior quando o fungicida foi aplicado com a barra do pulverizador assistida pela cortina de correntes em comparação com a barra convencional sem assistência. Estes resultados devem ser atribuídos à melhor distribuição de gotas ao longo do perfil vertical das plantas quando a barra foi assistida pela cortina de correntes, conforme já observado por Ozkan apud Pocock (2005) e Zhu et al. (2008).
Tabela 4. Incidência de ferrugem asiática da soja (%) em folhas das metades inferior e superior de plantas de soja cv. BMX Potência RR, em função de aplicações do fungicida Sphere Max® (trifloxistrobina + ciproconazol) com três pontas de pulverização sem e com o auxílio de cortina de correntes (Protótipo 1). FAMV/UPF Passo Fundo-RS, (Witt et al. 2010)
Na Tabela 5 encontram-se os resultados da avaliação do Protótipo 2 da cortina de correntes realizada em soja na safra de 2010/2011, observando-se que a assistência da barra de pulverização por este mecanismo proporcionou ganhos significativos no controle da ferrugem asiática da soja, tanto no terço superior, quanto nos terços médio e inferior. Estes ganhos no controle da doença podem estar relacionados com os efeitos de movimentação das folhas que a cortina de correntes promove, oportunizando maior deposição de gotas da pulverização inclusive na face abaxial das folhas, conforme observado por autores como Derksen apud Pocock (2005) e Zhu et al. (2008).
Tabela 5. Controle da ferrugem asiática da soja (%) 15 dias após a segunda aplicação do fungicida Opera® (epoxiconazol + piraclostrobina), com ou sem cortina de correntes na barra de pulverização, nos terços superior, médio e inferior das plantas de soja cv. BRS 246 RR. FAMV/UPF, Passo Fundo-RS, 2011
Analisando os resultados dos experimentos em conjunto, pode-se constatar que o mecanismo auxiliar de cortinas de correntes apresenta custo baixo, é simples, e funcional e pode contribuir substancialmente para o aumento da eficiência de pulverizações de produtos fitossanitários que necessitam vencer o efeito guarda-chuva que as folhas da parte superior das plantas exercem sobre as folhas do interior do dossel das culturas, como é o caso da aveia e da soja. Há necessidade de avaliar as interações entre os protótipos da cortina e os demais modelos de pontas de pulverização disponíveis no mercado para verificar a adequação das combinações entre pontas e protótipos da cortina.
Conclusões
Para a soja conclui-se que a cortina de correntes, como o mecanismo auxiliar na barra de pulverização foi eficaz para aumentar a deposição de fungicida no interior do dossel da cultura , reduziu significativamente a incidência de ferrugem na metade inferior do dossel da planta, aumentou o índice de controle nos três terços do dossel da planta, dobrando a eficácia no terço inferior e aumentou a produção de grãos.
Para a aveia conclui-se que houve influencia positiva no controle de ferrugem da folha e no rendimento de grãos para o protótipo 1 com o bico XR 110015. Para o protótipo 2 da cortina de correntes e os dois bicos testados não houve diferença quando comparado com a barra sem cortinas. O comportamento diferenciado entre os dois protótipos estudados, na cultura da aveia, indica haver oportunidade para a otimização dos conjuntos de cortinas de correntes e modelos de pontas de pulverização. O mecanismo de cortinas de correntes demonstra um potencial a ser explorado em novos experimentos.
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Publicado na Revista Plantio Direto, edição 123, maio/junho de 2011.