Trigo & Soja: casamento ameaçado
João Leonardo F. PiresEngenheiro-agrônomo,Pesquisador daEmbrapa Trigo,Passo Fundo/RS.E-mail: pires@cnpt.embrapa.br
A história da agricultura no sul do Brasil é marcada pela sucessão trigo-soja, que sempre foi destaque pelo desempenho produtivo e econômico e convivência pacífica entre as duas culturas. Tecnicamente, trigo e soja se ajustam perfeitamente no aproveitamento das estações de crescimento de inverno e de verão, apresentando complementaridades e utilizando estrutura de produção e maquinário similares. Entretanto, este casamento, exemplo de sucesso em agricultura, está sendo ameaçado. Nos últimos anos, mudanças no sistema de produção das duas culturas têm sido causa de incertezas sobre qual a melhor decisão de manejo desta sequência de culturas, com vistas à otimização do aproveitamento dos recursos do ambiente e manutenção da viabilidade econômica da sucessão de cultivos. Exemplos concretos de mudanças implementadas ou em fase de adoção são: (1) a utilização de cultivares superprecoces de soja em associação com a antecipação de época de semeadura e, por consequência, pressão pela antecipação da semeadura de trigo (também com cultivares mais precoces), visando à semeadura de soja em sucessão cada vez mais cedo; (2) a antecipação da colheita do trigo, por vezes, pelo uso de agroquímicos (dessecantes) para reduzir o período de enchimento de grãos; e (3) opção por outros cultivos de cobertura de solo no inverno, portanto, sem produção de grãos, em detrimento do trigo.
Não são raros os depoimentos de técnicos e produtores citando que a soja depois de trigo (na ”resteva” de trigo semeada em novembro ou início de dezembro) tem apresentado rendimento de grãos 10 a 15 sacas menor do que soja semeada antecipadamente (geralmente em outubro). Nesse contexto, práticas práticas para antecipação da colheita do trigo, que têm sido utilizadas pelos produtores, como a dessecação, conforme alerta publicado na Revista do CREA/RS em fevereiro de 2011, merecem estudos específicos do ponto de vista técnico, econômico e ambiental; além de ferirem legislação que regulamenta o uso deste tipo de produto em agricultura (prazo de carência, por exemplo).
A cautela no caso desses novos componentes da sucessão trigo-soja se torna necessária a fim de não penalizar ambas as culturas. O trigo, já criticado, ano após ano, pela suposta baixa liquidez e pelos riscos de produção, não pode ter mais um fator negativo imputado a sua produção. A soja, como a principal cultura econômica, não pode se dar ao luxo de mudar drasticamente seu sistema de produção sem estudos de base científica, com risco de ficar vulnerável à redução do potencial produtivo (pelo florescimento precoce, pela exposição à geadas, entre outros). Do ponto de vista do setor produtivo, está mais do que sinalizada a tendência de antecipação de época de semeadura em soja frente às novas opções de cultivares. Cabe, portanto, à pesquisa, em conjunto com o setor produtivo, a avaliação destas práticas com metodologia adequada que envolva, principalmente, análise econômica e validação local de pràticas que, não raro, são importadas de outras regiões ou países. Somente assim será possível validar, ou não, opções de encaixe de cultivares, bem como práticas químicas e mecânicas capazes de maximizar o desempenho de ambas culturas nessa nova realidade de produção. Isso deve ser feito de forma específica, observando as condições edafoclimáticas e de manejo empregadas em cada região produtora. A geração de conhecimento, por meio da troca de experiências entre todos os atores participantes do processo de produção envolvendo a sucessão trigo-soja, além de minimizar riscos às culturas, se presta à geração de indicadores tecnológicos robustos para subsidiar a área de assistência técnica, oficial e privada; e os programas de garantia e securidade aos produtores, a exemplo do Zoneamento Agrícola do MAPA. Isso permitirá a ”discussão da relação” e, com certeza, a revitalização do casamento trigo-soja no sul do Brasil.