Raça do agente causal de ferrugem-do-colmo assusta países produtores de trigo
Amarilis BarcellosMSc. Dra., especialista em ferrugens de trigo, OR Sementes, Passo Fundo, RS, amarilis@orsementes.com.br
A raça de Puccinia graminis tritici (ferrugem-do-colmo do trigo), denominada Ug99 é uma ameaça para a cultura do trigo. A infecção ocorre quando os esporos caem sobre a planta penetrando nos tecidos, interferindo no seu metabolismo e desviando nutrientes que iriam para os grãos. Visivelmente a doença é reconhecida pela presença de pústulas marrom-avermelhadas, em colmos e em folhas. Quando as pústulas se rompem, milhões de esporos são propagados a novas plantas. A planta infectada murcha e morre. Seus grãos tornam-se enrugados e sem valor.
A ferrugem-do-colmo foi mantida sob controle por meio século aproximadamente, como parte das ações adotadas durante a Revolução Verde. Após anos de tentativas e erros, os cientistas desenvolveram cultivares de trigo com genes de resistência capazes de evitar epidemias causadas por Puccinia graminis tritici (denominação do fungo).
A nova raça Ug99, foi detectada na Uganda em 1999 e está invadindo para o leste, através da África e Oriente Médio e ameaçando a Índia e a China. O trigo mundial tem pouca ou nenhuma proteção à Ug99 em 90% das cultivares. Se nada for feito para controlar o patógeno, a fome poderá em breve tornar-se a norma - a partir do Mar Vermelho para estepes da Mongólia – com a Ug99 aniquilando uma cultura que fornece um terço de nossas calorias. China e Índia, os maiores consumidores mundiais de trigo, poderão voltar a enfrentar a ameaça de fome em massa, especialmente na zona rural. A situação será particularmente cruel no Paquistão e Afeganistão, duas nações que dependem fortemente do trigo para o sustento.
O patógeno Ug99 já foi detectado no Irã e agora pode ser propagado para o celeiro mais importante do Sul da Ásia, o Punjabi, que alimenta centenas de milhões de indianos e paquistaneses. Ug99 poderá transpor o oceano para as Américas. Um único esporo, carregado eventualmente na roupa ou calçado de um viajante, poderá ser desastroso. Segundo a estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, mais de 20 milhões de hectares de trigo poderão estar em sério risco, se a Ug99 alcançar aquela região, onde o cereal é a terceira cultura de maior valor, após milho e soja. O prejuízo econômico poderá exceder 10 bilhões de dólares.
Cientistas em todo o mundo estão lutando para deter o patógeno. Para isto será necessário descobrir, no genoma do trigo, barreiras às quais a Ug99 não possa superar. É urgente, antes que a doença atinja o próximo continente, e cause prejuízos no abastecimento global de alimentos.
Desde sua descoberta, treze anos atrás, Ug99 migrou do leste e norte de Uganda. Padrões dos ventos poderão logo carregar esporos para a região de Punjabi, limítrofe da Índia e do Paquistão— um dos celeiros mais importantes da Ásia. Nos próximos anos, o patógeno poderá também chegar ao Afeganistão, através do Irã, assim como à Turquia.
A mais recente detecção relativa ao complexo Ug99 foi na África do Sul, em Greytown e em Cedara. Estas localidades situam-se no paralelo -29º. No Hemisfério Ocidental, na latitude de 29 S, corresponde a Coquimbo, no Chile; Corrientes, Santa Fé, Entre Rios, Santiago del Estero, Catamarca, Córdoba e Salta na Argentina; Porto Alegre no Brasil.
Segundo o BGRI (Borlaug Global Rust Initiative), a ferrugem do colmo (Puccinia graminis f. sp. tritici) é historicamente a mais destrutiva doença do trigo. Esta ferrugem tem a capacidade de transformar, em algumas semanas antes do final do ciclo da cultura, uma lavoura sadia, em um emaranhado de colmos escuros e em grãos enrugados na colheita. Em condições favoráveis à doença, é possível registrar prejuízos de 70% ou mais no rendimento de grãos. A ferrugem do colmo é altamente móvel, propagando-se rapidamente a longas distâncias pelo vento ou acidentalmente via transmissão humana (roupas ou plantas infectadas).
A ferrugem do colmo do trigo mantinha-se sob controle por décadas, devido ao uso generalizado de cultivares resistentes. Em 1999, com o surgimento da raça popularmente conhecida como Ug99, denominada TTKSK de acordo com a nomenclatura científica Norte Americana, passou a constituir um motivo de preocupação, tendo padrões de virulência raros. Em nenhuma outra raça de Puccinia graminis tritici havia sido observada a superação de tantos genes de resistência de trigo, incluindo o muito importante gene Sr31.
Os patógenos que causam as ferrugens alteram-se rapidamente, frequentemente por meio de mutação. Seis variantes adicionais constituem o complexo UG99. Tendo idêntico DNA (fingerprint), expressam padrões de virulência diferentes. Outros genes importantes de resistência tornaram-se não efetivos a variantes da Ug99. Esta ou suas variantes são consideradas uma ameaça principal à produção de trigo.
Figura 1. Caminho percorrido pelo Ug99.
O monitoramento da Ug99 e derivadas, global e atualizado a cada cinco dias, pode ser visualizado por meio de navegador (www.fao.org/agriculture/crops/rust/stem/stem-rustmapper/en). RustMapper-Web é uma ferramenta gratuita, via conecção Google Earth, que contém as seguintes informações: 1. Páginas da Internet e situação da Ug99 ou derivadas;2. Informação resumida regional sobre a produção de trigo e suscetibilidade à Ug99; 3. Trajetórias do vento em tempo real aproximado (24, 48 e 72 horas, desde 500 m acima do solo) de ‘sites’ conhecidos sobre ferrugem do colmo, usando o modelo NOAA HYSPLIT.
Origem da doença
Historicamente, a ferrugem-do-colmo tem causado prejuízos substanciais em rendimento de trigo onde quer que tenha ocorrido, mas em anos recentes tem sido efetivamente controlada através de seleção e melhoramento para resistência conferida por conhecidos genes Sr (stem rust). Há, no mínimo, 50 genes Sr que conferem resistência a diferentes raças do patógeno.
Além da virulência a Sr31, em 1999, a raça Ug99 (ou TTKS) é virulenta em relação a vários outros genes Sr. Há relatos de prejuízos em rendimento de até 71% em experimentos devido a Ug99 (Sansford, 2008).
Durante Seminário Técnico em 2010, que aconteceu em São Petersburgo, na Rússia, organizado por Borlaug Global Rust Initiative, foi discutida a detecção de duas novas variantes de Ug99 no Quênia, em 2006 e 2007, demonstrando que a raça está evoluindo. Cientistas identificaram quatro variantes do fungo que poderão pôr em perigo o suprimento mundial de alimentos.
Quatro novas mutações de Ug99 superaram as fontes de resistência genéticas existentes desenvolvidas para salvaguardar o cultivo de trigo no mundo. Segundo especialistas líderes de trigo da Austrália, Ásia, África, Europa e Américas, reunidos durante o evento, a evolução do patógeno pode causar uma ameaça ainda maior à produção mundial de trigo, do que a original Ug99.
Novas raças mutantes
As raças novas ou mutantes têm a capacidade de superar a resistência de dois dos mais importantes genes para resistência à ferrugem-do-colmo, usados extensivamente na maioria dos programas de melhoramento de trigo no mundo. Conforme Ravi Singh, do CIMMYT (Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo), quando a nova raça Ug99 surgiu no Quênia, foi necessário atrasar a liberação de novas linhas, do programa de trigo do CIMMYT, que tinham somente um dos genes de resistência à ferrugem-do-colmo.
A doença pode ser impedida pelo uso de fungicidas. Na África do Sul o trigo é cultivado por agricultores comerciais que estão cientes da ameaça, mas pequenos agricultores, em países em desenvolvimento, que normalmente não têm acesso a fungicidas ou a informações sobre a doença, cultivam trigo mais suscetível.
No CIMMYT, diversos genes menores de resistência à ferrugem têm sido usados em conjunto para combater a infecção, havendo vantagem sobre genes maiores, específicos a raças. Segundo Singh, diversos genes menores de resistência à ferrugem dificultam ao fungo atacar e superar a resistência dos genes agrupados.
Ciclo biológico do fungo
O ciclo de vida completo de P. graminis envolve Berberis vulgaris e trigo. No final de seu desenvolvimento, infecções de ferrugem-do-colmo em plantas de trigo se convertem da produção de urediniosporos para a produção de um novo tipo de esporo, os teliosporos. Estes permanecem nas plantas infectadas e ficam comumente no campo, no resíduo da palha do cultivo. Os teliosporos são estruturas especializadas de sobrevivência para o fungo. Permanecem dormentes no campo até a próxima primavera, quando germinam e produzem imediatamente outro tipo de esporos, os basidiósporos, que não podem infectar as plantas de trigo. Esses basidiósporos infectam folhas jovens de B. vulgaris ou de outro hospedeiro alternativo suscetível (Berberis, Mahonia ou MahoBerberis).
Figura 2. Aecia do fungo agente da ferrugem-do-colmo produzida em folha infectada de Berberis.
No Berberis, as infecções resultantes produzem estruturas de infecção especializadas, denominadas pycnia (plural de pycnium), que têm uma função essencial na fase sexual do fungo.
A fase sexual de P. graminis começa com eventos nos teliosporos, durante seu período de dormência. Como os urediniosporos, os teliosporos de P. graminis têm dois núcleos por célula. Cada núcleo contém um único grupo de cromossomos. Nestes esporos, os núcleos estão emparelhados, sendo que um é do tipo de acasalamento + (mais) e o outro é do tipo – (menos). Durante o período aparentemente de dormência inativa dos teliosporos, os tipos + e – se fundem para produzir um núcleo único diplóide (dois grupos de cromossomos). O par de cromossomos e o núcleo diplóide rapidamente começam a divisão em meiose, que eventualmente resulta em quatro núcleos haplóides, com recombinação de genes dos cromossomos pareados. Durante o período de dormência, este processo é suspenso em uma fase intermediária de meiose, na qual os teliosporos passam o inverno. Na primavera, com calor e umidade, a meiose recomeça e o teliosporo germina. Cada um dos quatro núcleos haplóides por célula de teliosporo migra a um dos quatro basidiósporos em desenvolvimento, onde rapidamente se dividem para produzir dois núcleos haplóides por basidiósporo maduro. Estes são forçosamente ejetados e levados a correntes de ar. Se alcançarem uma folha de Berberis suscetível, basidiósporos germinam e penetram na folha.
A fase sexual de P. graminis, na qual em cada núcleo os tipos + e – são reunidos, é completada no Berberis. Pycnia, que resultam de infecção por basidiósporos, em folhas jovens de Berberis, contêm dois elementos chave para o processo sexual. Picniosporos são produzidos em néctar de açúcar no interior de pycnia e funcionam como gametas masculinos. Consistem de pouco mais que o núcleo para fertilizar a hifa receptiva de outro pycnium de tipo de acasalamento compatível. A hifa receptiva funciona como gametas femininos. O néctar açucarado liberado por pycnia ajuda a propagar os picniosporos. Insetos são atraídos pelo néctar e freqüentemente visitam diversas pycnia em sucessão, fertilizando-as como abelhas polinizam flores. Autofertilização não ocorre em P. graminis, porque somente o tipo + de picniosporos pode fundir com o tipo – da hifa receptiva e vice-versa.
Quando um pycnium é fertilizado por picniosporos de um tipo compatível, suas células rapidamente alteram de seu estado original haplóide uninucleado para uma condição nova dicariótica, na qual há pareamento de núcleos + e – em cada célula. A estrutura fertilizada se torna um aecium (Figura 2), que produz cadeias de aeciosporos circundados por estrutura tipo cálice de células do fungo. Como os urediniosporos e como as células do aecium, cada aeciosporo contem dois núcleos. E como os urediniosporos, aeciosporos infectam trigo, e não Berberis. Pycnia tipicamente formam-se no lado superior das folhas de Berberis, e aecia são formadas em 5-7 dias após a fertilização no lado inferior da folha, diretamente abaixo de cada pycnium fertilizado.
Figura 3. Ciclo de vida do fungo Puccinia graminis.
Função dos hospedeiros alternativos na formação de novas raças de Puccinia graminis
A reprodução sexual de P. graminis tritici não ocorre nas plantas de trigo, mas em hospedeiro alternativo Berberis spp., onde são geradas novas raças do fungo.
Por isso a erradicação de Berberis tem sido praticada por séculos para controle de ferrugem-do-colmo. Diversas variações de virulência na América do Norte, em populações de P. graminis, foram associadas a Berberis suscetível.
Raças norte-americanas, como a 56, 15B e QCC, inicialmente originadas no hospedeiro alternativo resultaram em epidemias em larga escala. Portanto, os ciclos sexuais em Berberis spp. podem resultar em combinações de virulência e ter sérias conseqüências na produção do cultivo do cereal (Yue Jin, USDA-ARS).
Kurt Leonard, do Serviço de Pesquisa Agrícola do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, diz que cada pústula é o resultado de uma infecção por um único esporo. Os sintomas não são óbvios até cerca de 7 a 10 dias após a infecção inicial. Então o micélio do fungo, crescendo no tecido da planta, desenvolve-se diretamente sob a epiderme, produzindo milhares de esporos que, quando rompem a epiderme, emergem como um pó, em grande quantidade de urediniosporos. Cada esporo tem o potencial de produzir uma nova infecção que causará dano similar na mesma planta ou em outra planta de trigo. Múltiplos ciclos de infecção, esporulação e re-infecção podem produzir epidemias muito destrutivas em campos de trigo em apenas poucas semanas.
Situação da ferrugem-do-colmo de trigo na America do Norte
Devido a eliminação dos arbustos de Berberis das principais áreas de cultivo de trigo, a produção de novas raças virulentas de P. graminis praticamente cessou. Sem seu hóspede alternativo para a fase sexual do ciclo de vida, o fungo agente da ferrugem-do-colmo não teve mais a fonte de recombinação genética, para rearranjo de seus genes para virulência.
A partir de então, novas raças tiveram que surgir de mutações, que são extremamente raras e que alteram só uma virulência de cada vez. Gradualmente, ocorrendo praticamente só a fase assexual, o número de raças na população diminuiu, sendo eliminadas por seleção as raças menos aptas, até que somente poucas permanecessem. Assim, tornou-se mais fácil para os melhoristas reunir combinações de genes de resistência específica a raças em novas cultivares de trigo que permaneceram efetivas por décadas. ”A população de ferrugem-do-colmo declinou até que em décadas recentes tornou-se difícil encontrar e coletar amostras da doença para levantamentos de raças conduzidos pelo ”Cereal Disease Laboratory”, em Saint Paul, nos Estados Unidos. Os levantamentos atuais dependem de infecções em áreas conduzidas por melhoristas e em coleções especiais para coletar ferrugem-do-colmo em cultivares de trigo suscetíveis e, assim, monitorar as raças presentes em cada ano”, explica.
Situação brasileira
Sob controle em nosso país nas últimas décadas, assim como mundialmente, a ferrugem-do-colmo já foi considerada a mais destrutiva ferrugem de trigo no Brasil (da Silva 1966). A ferrugem necessita tecido verde de planta para infectar. Dias quentes com temperatura entre 25 a 30ºC e de 15 a 20ºC à noite, e orvalho freqüente, também favorecem o desenvolvimento do fungo. Os urediniosporos, que são os esporos assexuais infectivos são propagados a longas distâncias pelo vento e depositados pela chuva.
A ferrugem-do-colmo dissemina-se localmente também em períodos de entressafras no Brasil, em trigos voluntários (Barcellos et. al. 1982), assim como em plantas de trigo e de cevada voluntárias no Uruguai e no sul da província de Buenos Aires (Argentina), onde é freqüentemente presente no verão, em coleções em Balcarce (J. Nisi 2005, comunicação pessoal).
A não ocorrência de epidemias de ferrugem-do-colmo, há décadas, coincide com o aumento e distribuição do uso de cultivares com 1BL. 1RS (Sr31) (Antonelli 2000). Durante 1975–2003, duas epidemias de ferrugem-do-colmo (1976 e 1981) foram observadas em Passo Fundo, RS (C. de Souza 2005, comunicação pessoal). Surtos epidêmicos localizados ocorreram em alguns cultivos extensivos de cultivares altamente suscetíveis na década de 1990, no Paraguai (Itapúa 35), Brasil (CEP 14), e Argentina (Victoria INTA). Desde 2000, a ferrugem-do-colmo tem sido encontrada esporadicamente em genótipos altamente suscetíveis em áreas experimentais através da região. O plantio de cultivares suscetíveis, como Klein Escorpion, Buck Yatasto, e Baguette 10 originada da França, fez com que reaparecesse a doença em campos comerciais no norte da Argentina, em 2001 e 2003 (J. Nisi, comunicação pessoal).
Melhoramento para resistência
Resistência a ferrugem-do-colmo foi um dos principais objetivos do melhoramento de trigo quando a doença era importante. Em alguns países, resistência ao patógeno era um requerimento para o lançamento de uma cultivar.
No Brasil, a resistência está baseada nos genes Sr24 e Sr31. Embora não se saiba se estes genes estão presentes isolados ou em combinação com outros genes de resistência, a base da resistência no germoplasma regional parece ser estreita.
A ausência da doença e a redução da variabilidade do patógeno diminuíram as oportunidades de seleção para resistência. Como resultado, algumas cultivares suscetíveis foram lançadas recentemente.
O aumento de área com cultivares suscetíveis pode resultar não apenas em desenvolvimento de inóculo e em intensas infecções nestas cultivares, mas também no aumento provável de que sejam desenvolvidas novas raças virulentas em cultivares atualmente resistentes.
Em adição, a introdução da África do Sul ou da Índia de raças com virulência a Sr24 poderá causar prejuízos importantes. Porque a translocação 1BL. 1RS está presente em alta proporção do germoplasma regional (>50% da área de trigo é semeada com cultivares com esta translocação), a possibilidade de introdução da virulência de Sr31 por meio da raça Ug99 da África é motivo de preocupação (Antonelli 2000; Germán et. al.. 2005; I. Ramirez 2005, comunicação pessoal). Havendo introdução, significantes epidemias poderão ocorrer, considerando que em Quênia, no ano de 2005 a grande maioria em um total de 72 cultivares atuais da região tritícola da América do Sul, foi suscetível ou moderadamente suscetível (R.Wanyera 2005, comunicação pessoal).
Gene de resistência de planta adulta, como o Sr2, está presente em muitas linhas e cultivares brasileiras (C. de Souza 2005, comunicação pessoal)
O controle de ferrugens de trigo continua a ser um desafio aos melhoristas e patologistas, também no Cone Sul da América do Sul. Para o melhoramento de trigo para resistência efetiva e mais durável estão sendo usadas metodologias tradicionais, assim como gradualmente introduzidas novas ferramentas, para contribuir no aumento de conhecimento sobre resistência a ferrugem e sua efetividade.
Não tem havido severas epidemias de ferrugem-do-colmo nas últimas duas décadas, resultado da resistência das cultivares. Os genes mais importantes conferindo resistência em germoplasma do Cone Sul da América do Sul atualmente são, provavelmente, Sr24 e Sr31. Outros genes efetivos são Sr22, Sr25, Sr26, Sr32, Sr33, Sr35, Sr39, e Sr40. Diversas cultivares de trigo suscetíveis a ferrugem-do-colmo têm sido recentemente lançadas. O aumento de área com cultivares suscetíveis poderá resultar em incidência de ferrugem-do-colmo em nível mais alto, aumentando a probabilidade do aparecimento de novas raças virulentas. Como a translocação 1BL. 1RS que possui o gene Sr31 está presente em alta proporção do germoplasma regional, a possibilidade de introdução da virulência a Sr31 desde a África é preocupante.
Na região Cone Sul da América do Sul, a ferrugem-do-colmo pode aumentar em importância em breve. Por isso é urgente intensificar testes visando resistência a essa doença. A introdução de genes de resistência efetivos contra raças virulentas (Ug99 e variantes), em linhas com Sr31 e Sr24, assim como de outros genes efetivos não presentes no germoplasma regional deveria ser enfatizada (Germán et. al.. 2005).
Por meio da ”Borlaug Global Rust Initiative”, melhoristas de trigo e especialistas em ferrugem estão trabalhando juntos para desenvolver novas cultivares de trigo que possam resistir a essas novas raças.
Embora a duração de resistência efetiva do tipo específica a raça possa ser prolongada com combinação de genes, a alternativa é desenvolver variedades que possuam resistência de planta adulta (RPA), baseada em combinações de genes menores, genes para ”slow rust” (desenvolvimento lento da ferrugem). Quando isolados, os genes RPA não conferem resistência adequada, especialmente sob alta pressão de inóculo; contudo, em combinações de quatro ou cinco, tais genes normalmente resultam em ”quase imunidade” ou em um alto nível de resistência.
Alguns trigos de baixa estatura, como Kingbird, Pavon 76, Kiritati e Parula, têm apresentado altos níveis de RPA à raça Ug99 e suas derivadas, baseada no complexo Sr2, ou em combinação de Sr2 com outros genes ainda não caracterizados que conferem ”slow rust”. Estes estão sendo usados no programa de cruzamentos e um esquema de melhoramento (shuttle breeding) entre México e Quênia está sendo efetivado para selecionar a resistência a Ug99 nas duas regiões.
Em alta freqüência, linhas com ”quase imunidade” a moderados níveis de resistência estão emergindo dessas atividades. Após adicionais ensaios de rendimento e testes de qualidade, estas linhas serão distribuídas internacionalmente, através do sistema de coleções do CIMMYT.
A ênfase atual global e investimento na patologia de ferrugem-do-colmo, melhoria de germoplasma, genética da resistência e melhoramento têm acelerado a descoberta e aplicação da resistência genética.
Melhoramento para a combinação de resistência de planta adulta e de resistência específica a raças está aumentando em viabilidade, paralelamente ao desenvolvimento de mapeamento genético e diagnóstico de marcadores, de alta prioridade para ambos os tipos de resistência.
Fontes de germoplasma melhorado e/ou marcadores genéticos são agora disponíveis para os seguintes genes de resistência específica a raças: Sr13, Sr22, Sr25, Sr26, Sr28, Sr32, Sr33, Sr35, Sr39, Sr40, Sr42, Sr45, Sr1A.1R, SrTmp, SrA, SrB, SrC, SrACCadillac e SrR. Fontes de resistência adicionais úteis continuarão a emergir de projetos de engenharia de cromossomos focalizados em Sr37, Sr43, Sr44, Sr47 e de diversas novas fontes de espécies afins ao trigo (resistência de Aegilops caudata, Ae. geniculata, Ae. sharonensis, Ae. speltoides, Haynaldia villosa, Thinopyrum junceum, Th. bessarabicum, e Th. intermedium), assim como esforços em descobrir genes e introgredi-los, a partir de coleções de trigo com espécies afins/selvagens diplóides e tetraplóides.
Mapeamento genético de alta resolução de cada gene possibilitará seleção rotineira e robusta baseada em marcadores, piramidizar e distribuir em combinação com genes de resistência de planta adulta.
Como estratégias de proteção para impedir a introdução do fungo no país o Brasil deve participar ativamente no programa Borlaug Global Rust Initiative. As atividades BGRI são fundamentadas em um grupo de doadores, incluindo USAID, CIDA-Canada, AFESD-Arab Fund, IFAD, Indian Council for Agricultural Research (ICAR), FAO e Bill & Melinda Gates Foundation (que dá suporte ao maior projeto de Resistência Durável a Ferrugem em Trigo) e outros doadores. Em adição, programas nacionais têm investido significantemente através de contribuições por serviços para combater a ferrugem do trigo.
O BGRI, coordenado pela Cornell University, agora inclui pesquisadores e representantes governamentais de agricultura de cada região tritícola no mundo. Conforme o Instituto, esforços a partir desta iniciativa começaram em 2005 e já têm sido identificados genótipos resistentes por meio da parceria, e lançadas cultivares resistentes na Etiópia e Egito.
É na verdade uma corrida contra o tempo para assegurar o desenvolvimento de cultivares com resistência durável, avançar rapidamente na produção de sementes e sistemas de entrega para fornecer aos triticultores, e estar à frente da doença que se movimenta rapidamente transportada pelo vento. Para isso, em adição ao trabalho técnico, é necessário um forte suporte político, nos níveis regional, nacional e internacional.
Desde 1995, genótipos brasileiros de trigo têm sido enviados à África para teste a Ug99 e variantes. Uma estratégia importante seria facilitar o envio do germoplasma, mas dificuldades de exportação atrasam e limitam a obtenção dos resultados referentes ao Brasil. Nesse sentido, a opção mais segura é continuar desenvolvendo cultivares resistentes a ferrugem-do-colmo.
As novas mutações ou raças têm a habilidade de superar a resistência de dois dos mais importantes genes de resistência à ferrugem-do-colmo (Sr31 e Sr24), usados amplamente na maioria dos programas de melhoramento de trigo no mundo. De acordo com Ravi Singh, do CIMMYT, quando a nova raça Ug99 surgiu, foi adiado o lançamento de novas linhas de trigo do CIMMYT, que tinham somente um dos genes de resistência à ferrugem-do-colmo. Nesse programa, têm sido reunidos diversos genes menores para resistência à ferrugem, visando conter a infecção, o que supera a resistência baseada em genes únicos.
De acordo com o mesmo pesquisador, esforços estão também sendo direcionados para desenvolver cultivares de trigo resistente à ferrugem e com alto rendimento de grãos para motivar os triticultores a cultivá-las.
Referências bibliográficas
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www.fao.org/agriculture/crops/rust/stem/stem-rustmapper/en
Artigo publicado na Revista Plantio Direto 122, março/abril de 2011.