Associação de herbicidas no manejo de plantas daninhas resistentes
Mauro Antônio RizzardiEng.-Agr., Dr., Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo. Bolsista Produtividade do CNPq rizzardi@upf.br
Os prejuízos causados pelas plantas daninhas estão entre aqueles que mais reduzem a produtividade das culturas. Essas perdas são tão intensas que variam de 20 a 80%, dependendo do grau de infestação e das espécies daninhas presentes na área. Neste aspecto, a infestação de plantas daninhas se caracteriza pela diversidade de espécies ocorrentes, onde é muito rara a presença de uma única espécie numa determinada área.
A ocorrência de mais de uma espécie, ao mesmo tempo na área, aliado ao fato do crescimento da presença de plantas daninhas com maior dificuldade de controle, tanto tolerantes quanto resistentes a determinado herbicida tem levado ao aumento no uso da associação de herbicidas.
A partir da identificação do primeiro caso de resistência de plantas daninhas aos herbicidas (que no Brasil ocorreu em 1992) observou-se significativa evolução nos casos de resistência (Figura 1). Existem relatos de resistência a diferentes mecanismos de ação, mas hoje chama mais atenção os casos de resistência ao glifosato, pois este é o herbicida mais utilizado para o controle de plantas daninhas na cultura da soja. Há relatos da existência de populações de Lolium multiflorum (azevém); Conyza bonariensis e Conyza canadensis (buva); Euphorbia heterophylla (leiteira) e Digitaria insularis (capim amargoso) resistentes ao glifosato nas diferentes regiões produtoras de grãos do Brasil.
Figura 1. Evolução dos relatos de resistência no Brasil
Atualmente, são despendidos esforços na tentativa de se buscar alternativas para o controle dessas espécies resistentes, mas acima de tudo, é imperioso que se busque alternativas de manejo que, aliadas ao controle, possam atrasar a seleção e proliferação de novas espécies de plantas daninhas resistentes ao glifosato e, também a outros herbicidas. Entre as possibilidades se destacam as estratégias para se diminuir a pressão de seleção desses biótipos como: reduzir a infestação das plantas daninhas; adotar um eficiente sistema de rotação de culturas; integrar e alternar métodos de controle, como o preventivo e o cultural associados ao químico; alternar herbicidas com mecanismos de ação diferentes e associar herbicidas com diferentes mecanismos de ação.
A associação de herbicidas é aliada importantíssima no manejo preventivo da resistência de plantas daninhas aos herbicidas, como representado no modelo de simulação da Figura 2. O modelo simulou uma área de 100 ha, com infestação de 250 sementes m-2 e taxa de mutação de 1 x 10-8, e identificou que o surgimento do primeiro caso de resistência do azevém ao glifosato foi atrasado em cerca de 8 anos quando da associação de glifosato com paraquat.
Figura 2. Previsão de evolução na taxa de resistência de glifosato
Quando são utilizados um ou mais compostos em associação podem ocorrer efeitos variados, os quais são classificados como: aditivos, sinérgicos e antagônicos.
O efeito mais comum é o da aditividade que se caracteriza pela ampliação no espectro de controle das espécies, onde um herbicida controla a espécie A e o outro controla a espécie B. Esse é o caso da associação de atrazina com simazina ou metolacloro, por exemplo, que permite o controle tanto de espécies dicotiledôneas pela atrazina, quanto de monocotiledôneas pela simazina ou metolacloro.
O efeito antagônico é caracterizado pela associação de mais de um herbicida, sendo que se reduz a ação dos herbicidas quando em comparação com a aplicação isolada. Esse efeito traz como conseqüência a diminuição no controle das plantas daninhas. Exemplos de antagonismo são observados quando da associação de herbicidas graminicidas (inibidores da ACCase) com latifolicidas (inibidores da ALS) ou mesmo com a associação de herbicidas inibidores da fotossíntese (ex: paraquat) com herbicidas translocados pelo floema (ex: glifosato). Entre as causas do antagonismo encontram-se a incompatibilidade química e/ou física das formulações.
Casos similares de antagonismo ocorrem quando da presença de composições salinas a calda herbicida. Esse tipo de antagonismo é comum quando são adicionados micronutrientes, com presença de manganês, junto ao glifosato (Tabela 1).
Tabela 1. Grau de controle de Lolium multiflorum aos 30 dias após a aplicação dos tratamentos
As principais diferenças na composição dos nutrientes testados está associada a presença de manganês nos Tratamentos 1 (10% de Mn) e 2 (1,5% de Mn), justamente aqueles que propiciaram os menores níveis de controle. Resultados de pesquisas evidenciam que o Mn pode se ligar ao glifosato e diminuir a eficiência do herbicida. Quando isso acontece, o Mn comporta-se de forma semelhante ao Fe e ao Zn e, também, formam complexos de sais insolúveis ao glifosato. Os complexos formados diminuem a absorção do herbicida. A intensidade do efeito negativo da presença de Mn depende da forma do Mn utilizado, onde o Mn quelatizado com EDTA não afeta o comportamento do glifosato, diferentemente do lignificado. O efeito do Mn quelatizado provavelmente está associado ao fato de que os quelatizantes presentes isolam a carga elétrica e suprimem a reatividade da molécula e dos íons presentes.
Outro aspecto que chama a aten-ção nos resultados da Tabela 1 é o efeito da dose do herbicida nas diferenças de controle obtidas entre os tratamentos. Percebe-se que, ao se aumentar a dose do herbicida, diminui-se o efeito negati-vo da adição dos fertilizantes, principalmente no Tratamento 1 (10% de Mn). Esses resultados indicam que uma das alternativas para diminuir a ação negativa da presença de Mn na solução é o aumento da dose do herbicida. Além disso, sob o ponto de vista prático, é provável que os problemas de antagonismo de glifosato com fertilizantes, sejam mais facilmente observados naquelas situações em que o agricultor adota a redução da dose do herbicida, ou mesmo em casos da presença de espécies daninhas de difícil controle.
No caso do efeito sinérgico ocorre a ampliação na ação dos herbicidas, os quais isoladamente propiciam controle intermediário, mas quando associados há aumento no grau de controle. Esse efeito pode ser observado na Tabela 2, onde a ação do glifosato e carfentrazone isolado foi inferior em comparação com a associação dos mesmos, no controle de corda de viola, poaia e trapoeraba.
Tabela 2. Sinergimo da associação de glifosato com carfentrazone.
Ao se optar pela associação de herbicidas de deve ter consciência de que, se por um lado se pode aumentar o grau de controle de uma determinada espécie (Figura 3), por outro se pode aumentar a fitotoxicidade para a cultura (Tabelas 3 e 4). Pelos dados apresentados, observa-se que clorimuron aumentou sua fitotoxicidade visual na cultura da soja quando da presença do glifosato, e que esta fitotoxicidade foi diferencial entre as formulações de clorimuron existentes no mercado (Tabelas 3 e 4). Porém, quando se observa o efeito no rendimento essas diferenças não são mais observadas (Tabela 4). A questão que surge é porque ocorre o efeito sinérgico? No caso do exemplo da Tabela 3, o efeito deu-se provavelmente pela presença de adjuvante na formulação de glifosato o que beneficiou a absorção do clorimuron. Porém, em outros casos, pode dar-se pela complementação dos mecanismos de ação dos herbicidas, como é o caso da associação de atrazina (inibidor do fotossistema 2) com mesotrione ou tembotrione (inibidor de carotenos).
Figura 3. Efeito sinérgico da aplicação de glifosato e fluroxipir.
Tabela 3. Fitotoxicidade em soja (%) da aplicação de herbicidas isolados e em associação com glifosato.
Tabela 4. Fitotoxicidade, aos 15 dias após a aplicação, e produtividade de soja, em função de formulações de clorimuron, aplicadas em associação com glifosato
Como pode ser visto a associação de herbicidas requer conhecimentos específicos do modo de ação dos herbi-cidas e suas formulações. No caso do manejo de plantas daninhas resistentes ao glifosato, existem alternativas de manejo e associações de herbicidas. No caso do azevém, existem alternativas de herbicidas para o seu controle na cultura de inverno e na pré-semeadura das culturas de verão (Figura 4). No caso do manejo do azevém resistente ao glifosato em pré semeadura, tanto de culturas de verão quanto de inverno deve-se utilizar a dessecação seqüencial onde cerca de 20 dias antes da semeadura deve-se aplicar glifosato a associado à graminicidas e próximo à semeadura da cultura fazer uma segunda dessecação com paraquat + diuron ou amônio glufosinato.
Figura 4. Representação das alternativas para controle de azevém
No caso da buva, o seu manejo deve ser iniciado no outono/inverno e continuado até o verão, com as alterna-tivas apresentadas na Figura 5. Para a semeadura da soja, naquelas situações em que houve pousio no inverno, pastejo animal ou mesmo que se semeou aveia-preta para a cobertura de inverno, é fundamental o manejo antecipado da área, ou seja, 15 a 20 dias antes da semeadura aplicar glifosato associado a 2,4-D ou clorimuron e, próximo à semeadura da soja aplicar paraquat + diuron.
Figura 5. Representação das alternativas para manejo da buva
Nas situações de semeadura da soja em área de resteva de trigo, cevada ou mesmo de aveia para grão uma única aplicação de herbicidas é suficiente, porém no caso da buva é fundamental a associação de herbicidas com diferentes mecanismos de ação e que tenham efeito residual sobre a sementeira das plantas daninhas, em especial buva. Com exemplos citam-se as associações de glifosato e clorimuron; glifosato e di-closulam; paraquat + diuron e clorimu-ron; glufosinato de amônio e clorimuron, e glifosato, saflufenacil e imazetapir.
Diante do que foi visto, o uso de herbicidas associados é uma importante opção para o controle de plantas daninhas, em especial as tolerantes e resistentes ao glifosato. Porém, é fundamental lembrar que a adoção de sistemas de rotação de culturas auxilia, em muito, no controle de plantas daninhas, pela cobertura do solo propiciada e, principalmente, pela diversidade de situações de controle que a rotação permite, como por exemplo, a alternância de herbicidas, com diferentes mecanismos de ação.
Publicado na edição 122 da Revista PLantio Direto, março/abril de 2011.