Velocidade de Absorção de Fungicida Triazol em Folíolos de Soja


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Publicado em: 01/12/2010

Velocidade de absorção de fungicida triazol em folíolos de soja

Erlei Melo Reis, Mateus Zanatta, Rudinei Bogorni, Doglas Baruffi e Luciano RemorFaculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo - erleireis@tpo.com.br

Introdução

O uso de fungicidas na agricultura constitui numa das principais estratégia de controle de doenças causadas por fungos. É uma medida emergencial, rápida, eficiente cujo uso aumenta o custo de produção. Por isso, devem ser usados com racionalidade aproveitando ao máximo o seu período de proteção.

A eficiência de um fungicida em controlar uma doença é função da concentração inibitória do fungicida (CI) nos tecidos foliares alvo da proteção. A CI depende de atributos da molécula do fungicida, da dose usada/ha e da intemperização (Hidrólise, sublimação, foto-decomposição e lixívia pela chuva) do depósito na superfície da planta (Reis et al, 2010).

Em relação ao posicionamento na planta, os fungicidas são classificados como não penetrantes ou protetores aqueles que permanecem na superfície da planta e penetrantes com ação preventiva, curativa e erradicativa os que são absorvidos, penetrando os órgãos verdes. Em conseqüência, os não penetrantes são removidos da superfície dos órgãos tratados pela ação da chuva e irrigação por aspersão. Segundo Reis et al. (2010) a penetração/absorção é função do tempo decorrido após a deposição do fungicida sobre a folhagem.

Os fungicidas usados em culturas de lavoura são em sua maioria constituídos por misturas de IDM (Inibidores da desmetilação) e de IQe (Inibidores da quinona externa).

A determinação da velocidade do processo de penetração ou absorção de fungicida penetrante é importante para a otimização da eficiência do uso de fungicidas.

Freqüentemente, técnicos e produtores, questionam a pesquisa sobre a velocidade de absorção de fungicidas aplicados nos órgãos aéreos da soja. A pergunta mais comum é a de quanto tempo após a aplicação do fungicida pode chover?

O objetivo deste trabalho foi quantificar a velocidade de absorção de fungicida triazol em folíolos de soja.

Material e métodos

O experimento foi conduzido no Laboratório de Fitopatologia da Universidade de Passo Fundo utilizando o cultivar de soja BRS 154, suscetível ao oídio. As plantas foram cultivadas em vasos com três plantas em cada recipiente, mantidas em câmara climatizada com temperatura média de 22ºC e fotoperíodo de 12h.

Utilizou-se o fungo Erysiphe diffusa (Cook & Peck) U. Braun & S. Takamatsu. como indicador da presença do fungicida em concentração inibitória nos tecidos foliares de soja. Os sinais do fungo se desenvolvem nas áreas do folíolo que não contém o fungicida ou em CI muito baixa. A inoculação foi realizada quatro horas após a aplicação do fungicida colocando-se as plantas tratadas numa câmara climatizada contendo plantas de soja com abundante colonização/esporulação pelo oídio (Figura 1). O movimento do ar, do sistema de controle de temperatura dispersou o inóculo uniforme e constantemente sobre todas as plantas. No caso do oídio não é necessária a presença de molhamento foliar para a infecção (WIESE, 1998).

Figura 1. Sinais (Micélio, conidióforos e conídios) de Erysiphe diffusa sobre folha de soja.

A ferramenta utilizada para medir a velocidade de absorção foi a aplicação de uma chuva de 10 mm de intensidade, com um simulador, para remover a fração do depósito do fungicida da superfície foliar ainda não absorvido. O simulador de chuva utilizado foi o modelo proposto por MEYER & HARMON (1979), construído pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade de Passo Fundo, RS.

O experimento foi constituído por nove tratamentos: T1 (testemunha) sem aplicação de fungicida para comprovar a infectividade do inóculo, e os demais com aplicação de fungicida e após submetidos a chuva em diferentes intervalos de tempos: T2 0; T3 10’; T 4 20’; T 5 30’; T 6 40’; T 7 50’; T 8 60 minutos após a aplicação do fungicida e T 9 sem chuva. A intensidade da chuva foi de 10 mm.

Utilizou-se o fungicida flutriafol, como um representante do grupo dos triazóis ou IDM, penetrante e móvel via xilema, na dose de 62,5 gramas de i.a.ha-1 (EMBRAPA SOJA, 2005). A suspensão fungicida foi aplicada com um pulverizador de precisão com uma barra equipada com seis pontas modelo DG TeeJet® 110015 espaçadas a 0,5 m, com volume de 180 L.ha-1, no estádio V3 de desenvolvimento fenológico da cultura da soja (Ritchie, 1982).

O efeito dos tratamentos foi a avaliado estimando-se visualmente a severidade dos sinais (%) do oídio aos 18 dias após a aplicação do tratamento. Foram avaliados os folíolos centrais do primeiro trifólio que receberam o fungicida.

O delineamento experimental foi de blocos casualizados com quatro repetições. Os dados foram submetidos a análise da variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5%.

Resultados e discussão

A presença de fungicida no interior dos tecidos vegetais pode ser medida pelo uso de moléculas com C-14 (Ou radiocarbono, isótopo radioativo). (REUVENI et al, 1985; SATO et al., 1985). Mais importante do que a presença física da molécula é a CI propiciada pelo fungicida nos tecidos vegetais. Por isso, o uso de indicador biológico, como E. diffusa, e ou outros fungos, reflete melhor a realidade principalmente em relação a concentração inibitória propiciando controle satisfatório em condição semelhante a que ocorrente no campo.

O fungo E.diffusa é sensível aos fungicidas do grupo químico dos IDMs (EMBRAPA SOJA, 2005). Seu desempenho neste trabalho comprova que o fungicida foi eficiente no controle da doença, caso não houvesse controle, seria evidente o crescimento do fungo nas áreas foliolares desprotegidas. Portanto, o indicador biológico da atividade fungicida usado neste trabalho cumpriu sua função.

A velocidade de absorção do fungicida flutriafol foi medida pela aplicação, sobre as plantas previamente tratadas com o fungicida, de uma chuva artificial de 10 mm com um simulador de chuva. Subentende-se que o depósito do fungicida não absorvido pelos folíolos foi removido pela chuva.

No tratamento testemunha a severidade do oidio atingiu 81%. Nos demais tratamentos, a medida que aumentou o tempo entre a aplicação do fungicida e a exposição à chuva, houve redução da severidade (Figuras 2, 3 e 4). A intensidade do oídio reflete a presença do fungicida em CI no interior dos tecidos conferindo proteção.

Figura 2. Ilustração da presença dos sinais do oídio (Erysiphe diffusa) em função da velocidade de absorção (0 a 60 minutos) do fungicida triazol.

Figura 3. Efeito dos tratamentos na severidade foliolar estimada do oídio da soja (S.F = sem a aplicação de fungicida; 0 a 60, minutos decorridos entre a aplicação do fungicida e a chuva de 10mm; e S.C. = sem aplicação de chuva de 10 mm).

Figura 4. Controle da severidade do oídio da soja em função dos tratamentos (S.F = sem a aplicação de fungicida; 0 a 60, minutos decorridos entre a aplicação do fungicida e a deposição de chuva de 10mm; S.C. = sem aplicação de chuva). Colunas seguidas pela mesma letra não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5%.

O controle dos sinais do oidio representa o inverso dos valoes da severidade, por isso, no tratamento com a aplicação da chuva ao 60’ após a aplicação do fungicida o controle foi de 99,5% e no tratamento que não recebeu a simulação dos 10mm de chuva obteve-se 100% de controle (Figuras 2, 3 e 4).

O controle propiciado pelo tratamento T3 foi superior ao T2 e inferior aos tratamentos T4, T5, T6, T7, T8 e T9. Os melhores controles foram obtidos nos tratamentos T4, T5, T6, T7, T8 e T9 os quais não diferiram estatisticamente entre si. Desse fato deduziu – se que uma chuva de 10mm, ocorrendo 20 minutos após a aplicação não interfere estatisticamente no controle de oídio na cultura da soja. As diferenças entre os tratamentos podem ser observadas nas Figuras 2, 3 e 4.

A metodologia utilizada permitiu quantificar o tempo da absorção do fungicida IDM utilizado, pelos folíolos da soja. O indicador biológico utilizado (E. diffusa) para detectar a presença de CI pode ser usado em testes semelhantes com outras moléculas. A chuva de 10 mm removeu a parte do depósito do fungicida não absorvido e a partir de 20 minutos após a aplicação a quantidade absorvida do fungicida resultou em 90% de controle.

Portanto, a absorção do fungicida IDM pelos folíolos da soja pode ser considerado um processo rápido e que a ocorrência de chuva de até 10 mm, 20 minutos após a aplicação dos fungicida, não prejudica a eficiência do controle.

São poucas as informações encontradas na literatura sobre a velocidade de absorção/penetração de fungicidas em plantas.

O sistema de produção ainda carece de informações quanto ao comportamento dos fungicidas do grupo das estrobilurinas.

Referências

EMBRAPA SOJA. Tecnologia de produção de soja - Região Central do Brasil – 2005 Embrapa Soja. Londrina: Embrapa Soja, 2005. 239pg.

MEYER, L. D.; HARMON, W. C. Multiple intensity rainfall simulator for erosion research on row sideslopes. Transactions of the ASAE, St. Joseph, v. 22, p. 100- 103, 1979.

REIS, E.M.; REIS, Andrea C.; CARMONA, M.A. Manual de fungicidas: guia para o controle químico de doenças de plantas. Passo Fundo, UPF- Editora. 6ª Ed. 225p,, 2010.

REUVENI, M.; SIEGEL, M.R.; NESMITH, W.C. Uptake and distribution of [ 14C] metalaxyl by detached tobacco leaves. Pesticide Science 16:251–256,1985.

RICHTIE et al. How a soybean plant develops, Iowa State Univ of Science and Technol, Coop, Ext, Serv, Special Report. 53, 1982, 20 p. (adaptado por J. T. Yorinori, 1996).

SATO, K.; KATO, Y.; MAKI, S.; MATANO,O.; GOTO, S. Penetration, translocation and metabolism of fugicide guazatine in dwarf apple trees. Journal Pesticede Sciences 10:81-90, 1985.

WIESE, M.V. Compendium of wheat diseases. Second Edition. St. Paul, APS Press p.30-31, 1998.

Revista Plantio Direto, edição 120, novembro/dezembro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS