Ferrugem da Soja


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Publicado em: 01/12/2010

Ferrugem da soja: uma década de monitoramento e análise de padrões

Emerson M. Del PonteProfessor, Doutor, Departamento de Fitossanidade daFaculdade de AgronomiaUniversidade Federal do Rio Grande do Sulemerson.delponte@ufrgs.br

Após quase uma década de convívio com a ferrugem asiática da soja no Brasil, muitos esforços na pesquisa e extensão foram feitos para se desenvolver e divulgar informações para embasar o manejo racional e eficiente da doença de maior impacto na cultura da soja. Causada por um fungo (Phakopsora pachyrhizi) que encontrou no País as condições extremamente favoráveis para se estabelecer e se manter mesmo na entressafra, a ferrugem da soja é de ocorrência endêmica no Brasil, ou seja, todos os anos ela pode ser encontrada em quase todas as regiões produtoras, mas com impactos variáveis na produtividade. Tal variação nos padrões das epidemias já é, hoje, melhor entendida em grande parte devido aos estudos epidemiológicos com base no monitoramento do desenvolvimento das epidemias e da dispersão em larga escala espacial desde que os primeiros programas de parcelas sentinelas foram estabelecidos, em uma época em que ainda o manejo estava longe de ser eficiente para o seu controle. Dentre os diversos aspectos relacionados ao nível satisfatório de manejo que hoje pode ser obtido, principalmente com o uso de fungicidas, o presente artigo apresenta uma perspectiva histórica e os recentes progressos para o monitoramento da dispersão da ferrugem da soja coordenadas pelo Consórcio Antiferrugem; as informações de risco geradas pela análise dos padrões de dispersão ao longo dos anos e a situação e perspectiva para a safra 2010/11.

Os mapas de prognóstico podem ser úteis na decisão de aplicações e reaplicações de fungicidas conforme as condições de tempo. Mas, cabe ao técnico responsável a interpretação das informações de risco levando em conta a situação local para a tomada de decisão de forma racional.

O grande impacto inicial

A situação emergencial que se apresentava nos primeiros anos em que o fungo se estabeleceu no Brasil e causou perdas econômicas resultantes do ataque severo em várias lavouras, mobilizou a criação do Consórcio Antiferrugem (CAF) no ano de 2004. O CAF, de abrangência nacional, é a principal iniciativa no combate à ferrugem da soja no Brasil. Sob a coordenação o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e com a participação de instituições públicas e privadas ligadas às atividades de pesquisa e extensão e de segmentos da cadeia produtiva, o CAF é um dos principais responsáveis pela divulgação de informações de auxílio para a correta e rápida identificação e definição de estratégias de monitoramento, manejo e controle da doença. Diversos foram os produtos gerados pelas informações do CAF, com destaque para uma página na Internet com informações e mapas de focos da ferrugem com o objetivo inicial de alerta de risco regional.

Monitoramento da dispersão da ferrugem no Brasil

A divulgação das informações sobre a dispersão da doença no Brasil resultou de um dos produtos do CAF de maior sucesso que é o mapa de focos na Internet. As informações sobre o monitoramento da dispersão da doença são importantes sob dois aspectos. Primeiro, embasar a tomada de decisão no manejo da doença na safra, uma vez indica se o inóculo está ou não presente nas regiões de produção. Com essa informação, o técnico ou produtor responsável pela lavoura pode tomar sua decisão sobre o momento de iniciar as aplicações, por exemplo. Tal informação, por si só, não serve totalmente para embasar a decisão uma vez que, logicamente fatores locais de ordem técnica e econômica, bem como as condições ambientais relacionadas à umidade, como a ocorrência de chuvas, que são as que mais influenciam nos padrões de desenvolvimento das epidemias, devem ser levados em conta. A segunda utilidade do monitoramento da dispersão é formar um banco de dados georreferenciado da dispersão histórica da doença. Tais informações, quando analisadas de maneira apropriada, podem fornecer indícios sobre os fatores que influenciam nos padrões ao longo dos anos e assim gerar informações de risco para planejamento de médio ao longo prazo.

Mapa de focos na Internet – Desenvolvimentos e novo site em 2010

O ”mapa de focos” é um produto gerado pela mobilização de dezenas de laboratórios e especialistas distribuídos nas regiões produtoras e que, até hoje, tem coletado essas informações de maneira sistemática e contínua. Em seu início, o mapa era um produto apresentado na página do ”Sistema de Alerta”, um programa de divulgação de informações sobre a cultura sob a responsabilidade da área de comunicação da Embrapa Soja, que se mantém em atividade. Lá, o mapa de focos, permaneceu ativo por três safras consecutivas (2004/05 até 2006/07). A partir da safra 2007/08, o CAF criou uma página exclusiva da iniciativa com o domínio próprio - http://www.consorcioantiferrugem.net que continha, além do mapa de focos, informações atualizadas sobre os números da ferrugem, os laboratórios credenciados e os diversos produtos como: folder e palestra padrão do CAF, palestras das reuniões do CAF, tabela de custos, resultados de testes de eficiência de fungicidas e regulamentações do vazio sanitário nos diferentes estados da Federação.

Para a safra 2010/11, como resultado de ações previstas em projetos financiados por agências públicas de fomento como o CNPq e à ANDEF para pesquisadores da Embrapa Soja e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o website do CAF foi totalmente reformulado, com modificações substanciais no banco de dados e um novo sistema de cadastro das ocorrências pelos laboratórios. Na apresentação do site, foram incorporados novos recursos para a geração dinâmica de gráficos e tabelas quando da consulta às informações, mapa de localização dos laboratórios, nova interface com gráficos para a página ”ferrugem em números” e comentários dos especialistas. Todas as informações estão disponíveis gratuitamente. Além disso, a equipe responsável pelo desenvolvimento do site, da Universidade de Passo Fundo, desenvolveu um aplicativo para o acesso às informações por smartphones, como o iPhone (Figura 1).

Figura 1. Telas do site do Consórcio Antiferrugem lançado em Agosto de 2010 que pode ser acessado pela web e por aparelhos Iphone.

Análise dos padrões de dispersão das epidemias no Brasil

Desde a sua detecção no País, as epidemias de ferrugem da soja tem apresentado, a cada safra, um padrão distinto na maneira como se estabelece e se dispersa nas regiões produtoras. Há variação tanto na época de detecção dos primeiros focos em lavouras comerciais, em cada Estado do Brasil, como sua posterior taxa de dispersão, entre e dentro das regiões, número de municípios com focos relatados pelo CAF, número total de focos e severidade das epidemias em lavouras comerciais e parcelas experimentais. Todas essas informações estão disponíveis na página ”Ferrugem em números”, no site do CAF. Essa variação nos padrões de evolução da doença parece estar estreitamente relacionada com fatores meterológicos e práticas de manejo (por exemplo, o vazio sanitário) as quais podem influenciar tanto na disponibilidade do inóculo como no progresso espacial e temporal das epidemias em larga escala.

A análise dos dados de monitoramento da dispersão da ferrugem, divulgados pelo CAF, de um total de seis safras a partir da de 2004/05, mostra que as primeiras ocorrências em lavouras comerciais de soja são normalmente registradas nos meses de novembro nas regiões produtoras do centro e sudoeste do País (incluindo o PR) e de final de dezembro a janeiro no extremo sul (RS e SC) e norte/nordeste (MA, BA). No entanto, em duas safras em particular foi observado um nítido atraso na detecção (2007/08 e 2008/09), enquanto em outras duas safras (2006/07 e 2009/10), ocorreu o inverso, uma antecipação de aproximadamente 30 dias em praticamente todos os Estados do Brasil.

Nas safras com atraso na detecção, uma combinação de fatores como atrasos na semeadura devido a condições climáticas adversas, as quais se mantiveram menos favoráveis às epidemias ao longo da safra, na maioria das regiões, podem ter sido a casa do atraso. Já nas safras em que a ferrugem ”entrou mais cedo”, ambas estiveram sob influência do fenômeno El Niño de intensidade moderada a forte, o que leva a condições de maior umidade no final da primeira e início do verão principalmente na Região Sul do Brasil. Especificamente, os números do CAF mostram que metade do número de municípios com relatos de ferrugem (150 municípios) é atingido somente em fevereiro na maioria dos anos. No entanto, nos dois anos sob influência do El Niño (2006/07 e 2008/09), esse patamar foi observado em meados de janeiro, caracterizando a antecipação de 15 a 30 dias na detecção da doença. Na Figura 2 são apresentados os números acumulados de ocorrências até o dia 3 e 20 de dezembro, em seis safras. Se verifica que nos últimos 5 anos, o estabelecimento antecipado da doença, com mais de 100 focos relatados até o dia 20 de dezembro, ocorreu em duas safras sob forte influência de El Nino – 2006/07 e 2009/10.

Figura 2. Número acumulado de ocorrências de ferrugem desde o início da safra até os dias 3 de dezembro e até o dia 19 de dezembro em seis safras de soja no Brasil. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

A antecipação da dispersão da doença aumenta o risco de epidemias severas que levam a perdas econômicas o que torna necessário intensificar o monitoramento e controle da doença, principalmente quando as condições favoráveis se mantém ao longo da safra.

Monitoramento e previsão de risco

Desde janeiro de 2010 o website do CAF disponibiliza, para o período de dezembro a fevereiro, um boletim informativo com análises e mapas de risco climático elaborados com dados observados de chuva passada bem como prognósticos de até 10 dias. Em três regiões produtoras do Brasil, as áreas mostradas no mapa são classificadas, pelos modelos com base na chuva, como de risco variando de baixo a muito alto. Os mapas representam grandes extensões geográficas e devem ser interpretados levando em conta a situação local e outros fatores como a presença de inóculo na região. Os mapas de prognóstico podem indicar a continuidade de condições de risco que pode elevar os níveis de severidade das epidemias já constatadas, podendo ser útil na decisão de aplicações e reaplicações de fungicidas conforme as condições de tempo. Cabe, entretanto, ao técnico responsável a interpretação das informações de risco levando em conta a situação local para a tomada de decisão de forma racional. A figura 3 apresenta um mapa de risco para a Região Sul do Brasil gerado com base na precipitação observada no período de 20 de novembro a 19 de dezembro de 2010. As áreas de maior risco coincidem com os locais onde tem se concentrado a maioria das detecções relatadas até o dia 10 de janeiro de 2011.

Figura 3. Mapa de risco climático (esquerda) e dos focos relatados até o dia 10 de janeiro de 2011. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

Situação da safra 2010/11 e perspectivas

Até o dia 10 de janeiro de 2011 foi relatado um total de 83 focos de ferrugem, sendo a maioria concentrados no Estado do Paraná (53), seguido de Rio Grande do Sul (16), Mato Grosso do Sul (10) e Goiás e Santa Catarina com menos de três relatos. Com surpresa, ainda não há relatos oficiais de focos da doença no Estado do Mato Grosso. De acordo com as análises iniciais de risco a safra vem se configurando como de menor risco comparado às safras anteriores, principalmente devido ao baixo número de relatos divulgados em função de condições menos favoráveis à doença influenciada pelo fenômeno La Niña. Em safras anteriores, sob a influência desse fenômeno, a situação foi de tranquilidade no manejo da doença com níveis satisfatórios de controle. A situação deve ser manter para a região do extremo sul do Brasil onde a estiagem já está causando impacto na produção da metade sul do Estado do Rio Grande do Sul.

Ao longo da década a convivência com uma doença de grande impacto na cultura da soja levou a profundas modificações no manejo de doenças da cultura da soja, principalmente à necessidade de uso intensivo de fungicidas que são, atualmente, a principal medida eficiente no combate da doença. A experiência tem mostrado que a doença nem sempre é de alto risco e apresenta variações significativas entre as safras e regiões, o que faz com que não exista uma receita infalível e definitiva para o manejo. Mesmo o uso de fungicidas aplicados de maneira preventiva podem não levar a um controle satisfatório uma vez que a pressão de seleção exercida na população do patógeno com o uso continuado e excessivo de alguns princípios ativos pode levar a perda de sensibilidade e, por conseguinte, baixa eficácia do controle, como tem se verificado em algumas regiões do Brasil. A experiência mostra que uma aparente tranquilidade em uma ou duas safras pode ser revertida em situações complicadas como verificado na safra 2009/10, exigindo, para essa ferrugem, cuidado constante com o uso de programas de manejo apropriados para cada situação visando à máxima produtividade.

Revista PLantio Direto, edição 120, novembro/dezembro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS