A evolução na tecnologia de aplicação
Nessa edição a Revista Plantio Direto conversou com o pesquisador Manoel Ibrain Lobo Júnior que presta consultoria em tecnologia de aplicação e também é auditor GlobalGAP IFA, as perguntas focam nos aspectos mais relevantes para a aplicação eficiente de produtos fitossanitários.
Revista Plantio Direto: Na sua opinião quais foram os aspectos de evolução mais significativos na qualidade de aplicação de produtos fitossanitários nos últimos anos?
Manoel Lobo Júnior: Nos últimos 10 anos a maior parte dos trabalhos em campo objetivando o desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias tiveram como foco a redução das perdas nas pulverizações em todas as etapas das operações aéreas e terrestres. Estima-se que em média as perdas por evaporação e deriva nas pulverizações estão entre 30% a 40% do total aplicado pelos médios e pequenos produtores. Os grandes produtores, utilizando em sua maior parte pulverizadores autopropelidos e novas técnicas, conseguem reduzir significativamente essas perdas.
Dentre todas as novas tecnologias desenvolvidas nessa área objetivando o aumento da qualidade nas pulverizações, através da redução das perdas, merecem destaque as novas pontas de pulverização com indução de ar (sistema venturi), pontas para ”alta deriva” (câmara de turbulência) e o uso de adjuvantes organo-siliconados polímeros. Essas tecnologias ”trabalhando em simbiose” e sendo utilizadas corretamente, possibilitam a redução da deriva nas pulverizações, que estão entre 30% a 40% para menos de 5% do total aplicado.
A utilização de sistemas eletrônicos de posicionamento e balizamento satelital por GPS estão contribuindo muito para a diminuição das perdas por falhas ou sobreposições nas ”faixas de aplicação”, como também os controles automáticos de abertura/fechamento das seções de barras, pilotos automáticos, sensores de barras (controle de altura), dentre outros equipamentos de ”agricultura de precisão”, mas a correta ”seleção das pontas de pulverização” que estará definindo o controle do tamanho das gotas em função das condições meteorológicas, do tipo de alvo biológico e de sua localização, ainda é o fator determinante para conseguirmos a aplicação de agroquímicos ”ecologicamente correta”, com o mínimo de perdas e com a máxima eficiência no controle químico.
RPD: Entre as pontas, quais as de melhor distribuição de gotas e penetração no dossel da planta?
Manoel Lobo: Atualmente, existem no mercado brasileiro, como também em muitos outros países, diferentes modelos de pontas de pulverização, sendo as pontas de jato tipo plano as mais comumente utilizadas nas aplicações terrestres. Dentro dessa ”família” de pontas de jato plano, existem as pontas de deflexão (ou de impacto) que produzem jatos planos de grande ângulo (acima de 120 graus) com excelente distribuição de gotas.
Ponta de pulverização de uso ampliado(redução da deriva através da câmara de turbulência):Pulverizador Autopropelido: Case Patriot 350Modelo da ponta: Micron Série XP 110015 (Verde)Volume de aplicação: 30 L/haVelocidade operacional: 14 km/h*Imagem reproduzida no tamanho real dos cartões sensíveis
Ponta de pulverização com indução de ar(sistema venturi - gotas grossas aeradas):Pulverizador Tratorizado: Columbia 2000Modelo da ponta: Micron Série AIR 110015 (Verde)Volume de aplicação: 150 L/haVelocidade operacional: 6 km/hObservação: a codificação 110015, por exemplo, é referente ao ângulo de abertura do jato plano de 110 graus e vazão de 0,15 GPM (Galões por Minuto). Em todos os testes acima (e abaixo) foram utilizados os adjuvantes MicroXisto TEK-F e ALVO, objetivando a maior redução do risco de deriva durante as pulverizações.
*Imagem reproduzida no tamanho real dos cartões sensíveis
Normalmente essas pontas de deflexão possuem o jato de pulverização com um ângulo ”de ataque” (inclinação para frente) de 15 graus, possibilitando melhor penetração de gotas em culturas adensadas, menor deriva e menor altura de liberação das gotas (altura das barras).
Existem alguns modelos de pontas de deflexão, que pela sua engenharia de projeto, mesmo sendo utilizadas vazões 01 (laranja) ou 015 (verde) possibilitam aplicações em baixos volumes (entre 60 a 70 litros por hectare), com excelente controle dos tamanhos de gotas (250 a 350 micra), produzindo densidades de gotas satisfatórias para aplicações de herbicidas (40 a 50 gotas por centímetro quadrado), em baixas velocidades operacionais (entre 4 a 5 km/h), com menores riscos de entupimentos.
Essas pontas de pulverização defletoras são produzidas por diversos fabricantes nacionais e estrangeiros com jatos de pulverização simples e duplos, sendo esse último utilizado para situações de ”fechamento de cultura”, quando existe a necessidade de maior penetração das gotas nos baixeiros das plantas de culturas adensadas.
Ponta de pulverização de jato tipo cone vazio:Pulverizador Tratorizado: Columbia 2000Modelo da ponta: Micron Série HB3 (Laranja)Volume de aplicação: 150 L/haVelocidade operacional: 6 km/h
*Imagem reproduzida no tamanho real dos cartões sensíveis
Ponta de pulverização de jato tipo cone vazio:Pulverizador Tratorizado: Columbia 2000Modelo da ponta: Micron Série HB1 (Azul)Volume de aplicação: 40 L/haVelocidade operacional: 6 km/h
*Imagem reproduzida no tamanho real dos cartões sensíveis
Dentre todos os tipos de pontas, merecem destaque também as pontas de pulverização venturi, projetadas com sistema de indução de ar. A característica dessas pontas é a produção de gotas com classificação de tamanho ”grossas e muito grossas”. O sistema venturi que equipa essas pontas possibilita a ”mistura” do líquido com o ar, produzindo gotas aeradas, com excelente redução da deriva nas pulverizações. Essas pontas de pulverização venturi, desde que corretamente selecionadas, possibilitam aplicações de agroquímicos em situações adversas de rajadas de vento de até 30 km/h.
Como as pontas de deflexão, também as pontas com indução de ar (venturi) são encontradas no mercado com jatos simples e duplos, porém é importante mencionar que um modelo de ponta pode ser fabricada com dois tipos de jatos de pulverização (simples e duplo) com a mesma vazão para uma mesma pressão operacional, mas os tamanhos de gotas produzidas serão diferentes devido à maior quebra das gotas pelos jatos duplos com orifícios elípticos menores.
Por exemplo, tenho trabalhado em campo com as pontas venturi modelos SÉRIE AIR (Jato Simples) e DBAIR (Jato Duplo) fabricadas pela conceituada empresa Micron Pulsar. Uma ponta venturi Série AIR com jato simples na vazão 03 ”azul” (0,3 GPM ”Galões por Minuto”, com uma pressão de 2,8 Bar ou 40 PSI), aplicando 150 litros por hectare, estará produzindo gotas maiores que uma ponta venturi Série DBAIR de jato duplo, aplicando nas mesmas condições operacionais, porém com dois orifícios de vazão 015 (0,15 GPM).
Ponta de pulverização de jato tipo cone vazio:Modelo da ponta: Micron Série HB4 (Vermelho)Volume de aplicação: 140 L/haPulverizador Autopropelido: John Deere 4730
Esse tipo de projeto de jato plano duplo venturi possibilita uma melhor distribuição de gotas sobre os alvos (pois ”passa” duas vezes sobre o mesmo alvo) e maior penetração em culturas adensadas, em função das gotas menores produzidas e também pelo ângulo entre os jatos (60 graus) com excelente redução de perdas por deriva e evaporação.
Existem também as pontas de jato simples ”para alta deriva” com projetos de câmara de turbulência, de menor custo, porém ainda hoje muito utilizadas pelos produtores. Desde que essas pontas sejam selecionadas corretamente para cada situação específica de controle, poderão ser alcançados excelentes resultados nas aplicações com qualquer tipo de equipamento, desde pulverizadores tracionados até autopropelidos.
Essas pontas ”para alta deriva” (câmara de turbulência) possibilitam aplicações em baixos volumes, tanto em baixas como em altas velocidades operacionais, porém existe a necessidade de muito cuidado e cautela na escolha pelos modelos de jato duplo, pois os riscos de ”entupimento” são grandes. Essas pontas, mesmo de jato simples, possibilitam uma boa penetração de gotas nas culturas adensadas, porém produzem uma grande porcentagem de gotas suscetíveis à deriva (com tamanhos inferiores a 150 micra) com riscos de perdas pelas rajadas de vento.
Finalizando essa questão, as pontas de pulverização que possibilitam uma melhor distribuição de gotas, sem dúvida alguma, são as pontas de jato plano, porém as pontas que possibilitam as melhores penetrações de gotas no terço inferior das plantas em culturas adensadas são as pontas de jato tipo cone vazio e de jato tipo cone cheio.
RPD: Como o bico cone vazio com ponta de cerâmica se diferencia e por que está voltando a ser usado?
Manoel Lobo: Antes de iniciarmos o tema sobre as vantagens e os benefícios das pontas de jato tipo cone vazio no quesito ”penetração de gotas” é importante mencionar algumas considerações sobre os materiais utilizados nas fabricações das pontas de pulverização.
Uma ponta de cerâmica é melhor que uma ponta de aço inoxidável ou que uma ponta de polímero (kematal, plástico, etc) quando focamos a sua durabilidade, ou seja, a sua resistência ao desgaste provocado pelos agroquímicos. É de conhecimento geral nessa área, no Brasil e em todos os países, que uma ponta de pulverização fabricada em cerâmica ”dura” cerca de 800 a 1.000 horas de aplicação. Uma ponta de pulverização fabricada em aço dura cerca de 400 horas e uma ponta fabricada em polímero (plástico) dura cerca de 150 a 200 horas de pulverização.
O ”tempo de vida” de uma ponta de pulverização é variável pela forma como é manuseada durante os trabalhos. Se o produtor trabalhar com qualidade (água limpa, filtros, limpeza periódica, menor pressão, etc) a ponta vai durar mais, caso contrário terá vida curta. Nesses quase 15 anos de trabalhos em campo com pontas de pulverização, já encontrei situações corretas de trabalho utilizando pontas fabricadas em cerâmica com mais de 3.000 horas, em perfeito estado de uso (CV < 10%), mas também encontrei situações onde as pontas de cerâmica não duraram mais que 500 horas de trabalho.
A qualidade das gotas produzidas por uma ponta fabricada em cerâmica ”tem que ser” a mesma que as gotas produzidas por pontas de aço ou polímero. O que muda entre as pontas, ou o que pode ser diferenciado entre as pontas, é a qualidade na sua fabricação e a sua durabilidade pelo material que é produzida (cerâmica, aço ou polímero).
Importante: Existe uma tendência de mercado de ”abolir” os anéis de vedação nas pontas de pulverização. Esses anéis de vedação (O´Rings) são facilmente corroídos pelos agroquímicos, acontecendo então os vazamentos. Na minha modesta opinião, uma ponta de pulverização com bom projeto e bom controle de qualidade na sua fabricação não necessita de anéis de vedação.
RPD: Quais são os principais diferenciais das pontas de jato tipo cone vazio?
Manoel Lobo: Existem dois tipos de pontas de jato tipo cone: vazio e cheio. As pontas de jato tipo cone vazio são as que produzem gotas com maior qualidade de tamanhos (pulverização com espectro homogêneo). No quesito qualidades de tamanhos de gotas produzidas, seguem as pontas de jato tipo cone cheio, seguidas pelas pontas de jato plano.
As pontas de jato tipo cone vazio são atualmente as que mais possibilitam deposição de gotas nos baixeiros das plantas, após o fechamento das culturas adensadas como a soja, feijão, tomate industrial, batata, dentre outras.
Há cerca de 20 anos existiam no mercado somente as pontas de jato tipo cone vazio com ângulos de pulverização ”mais fechados” (60 graus) o que resultava em falhas nas sobreposições dos jatos quando eram equipadas em corpos de bicos em espaçamentos de 50 cm nas barras de pulverização.
Atualmente, as empresas fabricantes nacionais estão produzindo pontas de pulverização, com jatos tipo cone vazio e cheio com ângulos de abertura acima de 100 graus, possibilitando a equipagem de pulverizadores com espaçamentos entre bicos de 50 cm, com perfeita distribuição de gotas sobre as culturas.
Nos últimos anos, tenho testado todos os tipos de pontas de pulverização existentes no mercado brasileiro (e mundial) e, com conhecimento de causa, posso afirmar que alvos biológicos como a ferrugem na soja, o mofo-branco no feijoeiro, dentre outros de difícil controle após o ”fechamento” das culturas, poderão ser controlados com grande eficiência se forem utilizadas corretamente as pontas de jato tipo cone vazio.
Testei em campo todas as pontas de pulverização com jato plano duplo (em cerâmica) comercializadas no Brasil, comparando com as pontas de jato tipo cone vazio e no quesito ”penetração de gotas” as pontas cone vazio são imbatíveis.
Existe um ”mito” de que essas pontas de jato tipo cone vazio produzem gotas muito suscetíveis às perdas por evaporação e deriva. O que realmente acontece é que, por serem de cerâmica, suportam altas pressões e normalmente trabalham nessa condição extrema.
A maior parte dos produtores ”ainda acredita” que trabalhando com alto volume (> 250 L/ha) em altas pressões (> 150 PSI) produzindo gotas extremamente ”finas” vão atingir com maior eficiência os alvos nos baixeiros das plantas, acontecendo então grandes perdas por evaporação e deriva, pois essas gotas com tamanhos entre 50 a 100 micra ficam em suspensão, pois são muito leves, formando um ”Véu de Noiva” atrás dos pulverizadores, sendo levadas facilmente por rajadas de vento entre 7 a 10 km/h para distâncias indeterminadas, fora das áreas de aplicação.
O que determina a maior deposição, maior penetração e o menor risco da perda por deriva é o controle dos tamanhos das gotas produzidas por essas pontas de jato tipo cone vazio.
Por exemplo, realizei recentemente testes em campo na cultura da soja (final do ciclo) com pontas de jato tipo cone vazio da Série HB 02 (preto), 03 (laranja) e 04 (vermelho) equipando pulverizadores autopropelidos objetivando analisar as deposições de gotas nos baixeiros das plantas e o potencial de risco de deriva das gotas produzidas por essas pontas.
O volume de aplicação (150 L/ha) foi o mesmo para todas as três vazões da ponta Série HB (02, 03 e 04), na mesma velocidade de aplicação (10 km/h).
Explicando de maneira simples, as pontas da Série HB produzem jatos tipo cone vazio. O orifício da ponta HB02 é menor que o orifício da ponta HB03. O orifício da ponta HB03 é menor que o orifício da ponta HB04. Dessa forma, aplicando as três pontas o mesmo volume, a ponta HB02 vai produzir gotas menores que a ponta HB03 e esta ponta estará produzindo gotas menores que a ponta HB04.
Nas condições de aplicação do teste realizado em campo, com temperatura, umidade e vento favoráveis, as pontas HB02 conseguiram melhor deposição de gotas nas folhas localizadas no baixeiro da cultura, quando comparadas com as pontas HB03 e HB04. O PRD (Potencial de Risco de Deriva) da pulverização produzida pela ponta HB02 em condições meteorológicas favoráveis foi insignificante, levando-se em consideração a excelente penetração de gotas no terço inferior das plantas, porém a sua utilização se tornou inviável nas horas mais adversas do dia (umidade baixa), pois as gotas finas e muito finas produzidas por essa ponta ficaram muito suscetíveis à evaporação e foram levadas pela deriva.
Nas horas mais quentes do dia e com baixa umidade do ar, a ponta HB02 depositou menos gotas nos baixeiros das plantas, quando comparadas às pontas HB03 e HB04, pois essas duas últimas produziram gotas maiores, mais resistentes à evaporação, porém com grande capacidade de penetração. As gotas maiores mantiveram seu peso, a sua velocidade de queda (sedimentação) e atingiram os alvos (coletores) localizados no terço inferior das plantas.
Analisando os resultados de campo foi possível constatar que as pontas de jato tipo cone vazio HB, em função do projeto de formação das gotas com sentido de liberação helicoidal, facilita ainda mais a penetração e o turbilhonamento das gotas finas, possibilitando uma maior deposição nas folhas dos baixeiros das plantas de soja. Também foi possível constatar nesse teste que as gotas maiores produzidas pela ponta HB04 conseguiram menores deposições nas folhas do baixeiro quando comparadas às gotas menores produzidas pela ponta HB03.
Na velocidade de 10 km/h foi esse o cenário do teste, porém se o pulverizador autopropelido aumentar a velocidade operacional para 14 km/h, as pontas HB03 passam a produzir gotas extremamente finas, tornando inviável a sua utilização, devido à maior porcentagem de perdas por deriva nessa pulverização, nas horas mais adversas do dia. Nessa situação de maior velocidade operacional, as pontas HB04 conseguiram melhores resultados de deposição nas folhas do baixeiro das plantas, pois devido à maior pressão, aconteceu a diminuição do DMV (Diâmetro Mediano Volumétrico) dessa pulverização, possibilitando uma maior penetração.
Nesse teste ficou claro a necessidade de serem selecionadas pontas específicas para cada volume aplicado e para a velocidade operacional a ser utilizada, pois existe uma estreita relação entre a velocidade, o volume aplicado e a pressão operacional. O controle conjunto desses fatores estará definindo os tamanhos das gotas a serem produzidas e determinando a eficiência da pulverização.
Quando são utilizados pulverizadores equipados com barras convencionais, as pontas de jato tipo cone vazio são as mais eficientes no quesito penetração de gotas, porém existem atualmente muitos pulverizadores equipados com barras de pulverização ”com assistência de ar”, também conhecidas como ”cortinas de ar” ou vortex.
Essas cortinas de ar instaladas nas barras ”empurram” as gotas produzidas pelas pontas para baixo em velocidades de 80 a 100 km/h, possibilitando excelente deposição de gotas, de qualquer tamanho, nas folhas do baixeiro de qualquer cultura adensada.
Tamanhos e características das gotas
Gotas com diâmetro entre 70 – 120 micra (fio de cabelo): Gotas muito pequenas, com tamanhos menores que 120 micra. Promovem excelente cobertura nas folhas das plantas protegendo contra insetos e doenças, mas são facilmente levadas pelo vento e evaporam rapidamente.
Gotas com diâmetro entre 150 – 200 micra (fio de linha de costura): Gotas pequenas, com tamanho em torno de 150 micra. Promovem boa cobertura nas folhas das plantas e também no talo protegendo contra insetos e doenças. Conseguem boa penetração nas folhagens quando existe vento leve, mas são também levadas pela corrente de ar.
Gotas com diâmetro entre 300 – 350 micra (fio de escova para dentes): Gotas médias, com tamanho em torno de 350 micra. Promovem boa cobertura nas folhas das plantas protegendo contra insetos e doenças. São recomendas para a maioria dos agroquímicos. Promovem boa cobertura nas folhas, sem serem levadas pelo vento.
Gotas com diâmetro entre 400 – 420 micra (grampo de grampeador): Gotas grossas, com tamanho em torno de 420 micra. Promovem uma cobertura razoável nas folhas das plantas. São recomendas para produtos químicos sistêmicos. Não são levadas pelo vento e nem evaporam. São recomendas para aplicações em condições meteorológicas adversas.
RPD: Na aplicação de herbicidas dessecantes e de fungicidas em lavouras, quais os critérios (parâmetros) que devem orientar a qualidade na aplicação?
Manoel Lobo: Até o ”fechamento” das culturas adensadas não existe a necessidade de altos volumes (> 150 L/ha) e de gotas finas (< 200 micra), pois as plantas estão ainda na fase inicial do ciclo vegetativo, com pouca massa foliar e totalmente abertas, possibilitando boa penetração e cobertura, mesmo aplicando volumes entre 70 a 100 L/ha.
Recentemente acompanhei trabalhos de desenvolvimento de novas técnicas de pulverização, utilizando pontas selecionadas para baixos volumes, produzindo gotas finas protegidas por bons adjuvantes siliconados desenvolvidos pela conceituada empresa Microxisto, o que possibilitou aplicações de dessecantes no volume de 30 a 50 litros por hectare, em áreas com pouca massa foliar.
Essas aplicações com volumes entre 30 a 50 litros/ha são muito específicas, com recomendações de pontas customizadas para cada tipo de pulverizador a ser utilizado nos trabalhos de dessecação.
De maneira geral, nas aplicações de dessecantes, poderão ser utilizados volumes entre 70 a 100 litros/ha com boa eficiência na cobertura de gotas sobre os alvos, utilizando pontas de pulverização venturi (indução de ar).
Normalmente, são necessárias entre 30 a 40 gotas por centímetro quadrado, com tamanhos de gotas entre 400 a 800 micra para as aplicações de herbicidas em pré-emergência, aplicando volumes em torno de 100 litros/ha.
Para as aplicações de herbicidas em pós-emergência são recomendados volumes em torno de 150 litros/ha, com densidades de gotas entre 40 a 50 por centímetro quadrado (tamanhos médios de 300 micra).
Particularmente, recomendo que nas aplicações de fungicidas e inseticidas sejam depositadas entre 50 a 70 gotas por centímetro quadrado no caso de produtos sistêmicos e no caso de produtos de contato a densidade deverá ser sempre maior que 70 gotas por centímetro quadrado.
É importante mencionar que o tamanho das gotas está diretamente ligado ao volume a ser aplicado. Por exemplo, se estabelecermos um volume de aplicação de 70 litros por hectare e selecionarmos pontas de pulverização que produzem gotas com tamanhos entre 200 a 250 micra, poderemos estimar uma deposição sobre os alvos de 90 a 170 gotas por centímetro quadrado. Se nessa mesma pulverização de 70 litros por hectare selecionarmos pontas de pulverização que produzem gotas com tamanhos entre 350 a 400 micra, poderemos estimar uma deposição sobre os alvos de 20 a 30 gotas por centímetro quadrado.
Aplicações em Base Aquosa
Observação: É possível constatar a formação do ”véu de noiva” em suspensão sobre a cultura a ser protegida, pelas gotas com classificação de tamanho ”finas para muito finas”. Uma rajada de vento com velocidade entre 5 a 7 km/h levará essas gotas para fora da área de pulverização, até distâncias indeterminadas ( > 10 km).
Aplicações em Base Siliconada na dose de 50 ml/ha
Observação: É possível constatar uma maior redução da deriva aplicando a calda em base siliconada, pela menor formação de gotas com classificação de tamanho ”finas para muito finas”, muito suscetíveis à evaporação e perdas por deriva, em condições meteorológicas adversas.
RPD: Quais as diferenças para volume aplicado e tipo de bico para pulverizadores autopropelidos de maior velocidade e os pulverizadores tracionados, com menor velocidade?
Manoel Lobo: Normalmente, pulverizadores tracionados são equipados com pontas de pulverização com vazão entre 02 (amarelo) a 04 (vermelho) GPM, aplicando volumes entre 150 a 250 litros por hectare, em velocidades de 5 a 6 km/h.
Devido a baixa velocidade operacional, esses equipamentos tracionados não conseguem aplicar baixos volumes (< 50 L/ha) com as pontas de jato tipo plano que existem no mercado.
Como normalmente utilizam pontas com vazão 02 (0,2 GMP), ao ”diminuir” a pressão com o objetivo de ”abaixar” a vazão das pontas, acontece o fechamento do ângulo dos jatos dos bicos, afetando a sobreposição e o aumento dos tamanhos das gotas, diminuindo a densidade e cobertura sobre o alvo.
As pontas de jato plano que poderiam aplicar baixos volumes com esses equipamentos seriam as pontas com vazão 01 (0,1 GPM ”laranja”) ou 015 (verde). O maior problema com essas pontas é o entupimento, pois os orifícios elípticos são muito pequenos.
Seria possível aplicar baixos volumes com esses equipamentos com pontas de jato tipo cone vazio, porém a seleção dessas pontas de jato tipo cone vazio e dos tamanhos de gotas ”controladas” teriam que ser customizados, dificultando a massificação dessa tecnologia.
As novas técnicas e tecnologias de ”Baixo Volume” podem ser mais facilmente desenvolvidas com pulverizadores autopropelidos, devido às maiores velocidades operacionais, que possibilitam maiores pressões de trabalho, garantindo tamanhos de gotas médias e finas satisfatórias, mesmo utilizando pontas com vazões 02 e 03.
RPD: O volume de água pode limitar ou modificar a eficácia de produtos fitossanitários? Em quais condições isso pode acontecer?
Manoel Lobo: O objetivo da redução do volume nas pulverizações (somente da quantidade da água como veículo) é aumentar o rendimento operacional dos pulverizadores, pelo menor número de paradas para reabastecimento, menor tempo de translado, melhor aproveitamento das horas mais favoráveis do dia, dentre outros.
Quando falamos em diminuir o volume de água, deve ficar muito claro que nunca devemos diminuir as doses dos agroquímicos recomendados pelos fabricantes. O objetivo maior da redução do volume de água nas pulverizações, além de buscar o uso mais racional das águas, também possibilitará uma considerável redução nos custos de aplicação (menor custo com hora/máquina, hora/tratorista, dentre outros).
Meu trabalho é desenvolver novas técnicas e novas tecnologias que possibilitem a redução dos volumes de aplicação para qualquer tipo de agroquímico que venha a ser utilizado pelos produtores, nas mais adversas condições meteorológicas do dia, mas são as empresas fabricantes que deverão determinar quais serão os agroquímicos que poderão ou não ser aplicados em baixos volumes, nessas condições adversas.
RPD: A qualidade da água e da calda são fatores que limitam a eficiência da aplicação? Como organizar e adequar à seqüência de peneiras?
Manoel Lobo: Estima-se que as perdas de agroquímicos durante o preparo da calda estão entre 20% a 30% do total a ser aplicado. Essas perdas podem ser diretas pelo derrame dos agroquímicos nos solos e indiretas pela ineficiência das moléculas em caldas com água de baixa qualidade para as aplicações (água dura, presença de metais, etc). A qualidade da água vai determinar o tempo de vida da molécula do agroquímico e a sua estabilidade química na calda de pulverização.
Quando falamos em redução de volume, devemos evidenciar a necessidade de investimentos no sistema de filtragem dos pulverizadores, pois serão utilizadas nessa nova tecnologia de aplicação, pontas de pulverização com orifícios muito pequenos, com grande risco de entupimento.
Normalmente, recomendo que sejam instalados filtros de alta vazão (malha 100) nas mangueiras que abastecem de água os pulverizadores, objetivando ”facilitar” os trabalhos dos filtros principais (malha 80), filtros de linha (malha 100) e dos filtros de bicos (malha 100) que equipam a maior parte dos pulverizadores.
Quando trabalhamos com agroquímicos com formulações de baixa solubilidade (dificuldade na mistura com a água) devemos investir em tanques de pré-mistura de agroquímicos, objetivando um pré-preparo da calda a ser aplicada e também a instalação de filtros de alta vazão (malha 100) nas mangueiras que estarão injetando essa calda para dentro do tanque dos pulverizadores.
RPD: Os adjuvantes podem contribuir com a melhora na qualidade de distribuição e penetração de gotas no dossel das plantas?
Manoel Lobo: Os adjuvantes são qualquer substância adicionada à calda de agroquímicos no tanque do pulverizador com o objetivo de melhorar a atividade biológica e o desempenho dos herbicidas, fungicidas e inseticidas e as características da aplicação de maneira geral.
Por exemplo, os adjuvantes ”Redutores de Deriva” são produtos formulados à base de compostos organopolímeros-siliconados, glicerinados, dentre outros, que proporcionam à calda uma maior viscosidade, cujo objetivo principal é proteger (película) e aumentar o tamanho das gotas produzidas, diminuindo a evaporação, aumentando o tempo de vida das gotas e a velocidade de sedimentação, reduzindo assim o PRD (Potencial de Risco de Deriva), promovendo uma maior deposição de gotas finas sobre os alvos.
O PRD é a porcentagem de gotas produzidas em uma pulverização específica, formada por gotas com tamanhos inferiores a 150 micra (150 micra é quase o mesmo diâmetro de um fio de cabelo).
Através de trabalhos em campo com os adjuvantes siliconados Tek-F e Alvo desenvolvidos pela empresa Microxisto foi possível constatar uma maior deposição de gotas finas e muito finas (entre 15% a 20% a mais) nas pulverizações em base siliconada por esses produtos quando comparadas as pulverizações somente em base aquosa.
Levando-se em consideração que as ”gotas finas e muito finas” em base siliconada estarão mais protegidas das baixas umidades, das altas temperaturas e das rajadas de vento, podemos estimar então uma maior possibilidade de penetração dessas gotas ”não derivadas” nas folhas dos baixeiros das plantas adensadas, quando comparadas as gotas somente em base aquosa.
RPD: Quais as características e benefícios mais importantes dos adjuvantes?
Manoel Lobo: Eles são extremamente importantes, pois como ”redutores de deriva” possibilitam a realização do controle químico nas horas mais adversas do dia, com temperaturas altas (> 30 graus) e baixa umidade relativa do ar (< 50%), com menores riscos de perdas por deriva e evaporação das gotas finas e muito finas. Também são imprescindíveis nas aplicações de herbicidas, que ”funcionam” melhor em pH entre 3 e 4, sendo também essa característica tamponante uma das principais nesses adjuvantes, além de ”limparem” os metais (Al, Fe, Cu, etc) comumente encontrados nessas águas.
Adjuvantes condicionadores de calda também aceleram a absorção dos agroquímicos e a sua translocação ”dentro” das plantas, dessa forma o produto vai ter um efeito muito mais rápido no controle das plantas daninhas, fungos e insetos.
É importante mencionar que esses adjuvantes siliconados possibilitam a redução do volume de aplicação em todas as operações de controle químico, pela menor evaporação e deriva (perdas) e maior garantia da correta e satisfatória densidade de gotas depositadas sobre os alvos, porém, NUNCA devemos reduzir as doses dos agroquímicos recomendados pelas empresas fabricantes.
Para Manoel Lobo Júnior, os adjuvantes são verdadeiras ”plataformas” para combinações de outros compostos (formulações) condicionadores da calda de agroquímicos e podem proporcionar muitos benefícios.
Espalhantes e Penetrantes: reduzem o ângulo de contato das gotas sobre as superfícies das folhas ”quebrando” de maneira efetiva a tensão superficial, facilitando a penetração e acelerando a absorção dos agroquímicos.
Adesivos: produtos que formam um tipo de ”filme” sobre as folhas, ramos ou frutos. Proporcionam maior ”tempo de vida” dos agroquímicos sobre as superfícies tratadas. O efeito adesivo do adjuvante possibilita uma significativa resistência do produto à chuva.
Anti-espumantes e homogeneizadores de calda: impedem (ou limitam) a formação da espuma durante o preparo da calda e também durante as aplicações com a calda pronta nas culturas. Normalmente, os adjuvantes anti-espumantes também apresentam características de serem homogeneizadores de calda, atuando como agentes de compatibilidade quando são utilizados nas aplicações de agroquímicos granulados, pó-molháveis, dentre outras formulações de difícil solubilidade.
Tamponantes: tamponam o pH da calda conforme a necessidade dos agroquímicos. Normalmente são utilizados dois tipos de adjuvantes tamponantes de calda, aqueles direcionados para as aplicações de herbicidas, quando o pH da água deverá estar estabilizado na faixa entre 3 e 4 e os adjuvantes utilizados nas aplicações de inseticidas e fungicidas, quando o pH deverá estar estabilizado na faixa entre 5 e 6.
Anti-evaporantes: são específicos para aplicações em condições meteorológicas extremamente adversas de baixa umidade relativa do ar e altas temperaturas. São adjuvantes redutores de deriva, pois minimizam a evaporação das gotas (finas e muito finas), possibilitando uma ”menor evaporação”, maior velocidade de sedimentação e maior tempo de vida para atingirem os alvos biológicos, mesmo em condições meteorológicas adversas.
Espessantes: proporcionam maior viscosidade à calda de pulverização, reduzindo a produção de gotas muito finas, com tamanhos inferiores a 150 micra, funcionando dessa forma como redutores de deriva. Adicionados à calda de agroquímicos esses produtos possibilitam pulverizações com espectro de gotas mais homogêneo.
Filtros solares: protegem as moléculas dos agroquímicos da degradação pelos raios UV, dentre outros. São também muito utilizados para proteger alguns produtos biológicos mais sensíveis.
Sequestrantes de Cátions: neutralizam os efeitos limitantes de metais (Fe, Cu, Al, Zn, etc) sobre a maior parte dos agroquímicos, normalmente presentes nas águas coletadas para as pulverizações.
Revista Plantio Direto, edição 120, novembro/dezembro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.