Plantio Direto Favorece o Seqüestro de Carbono e a Vida do Solo Muito Além da Camada Superficial (Editorial)


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Publicado em: 01/12/2010

Plantio direto favorece o sequestro de carbono e a vida do solo muito além da camada superficial

Mariangela HungriaDoutora, Pesquisadora da Embrapa Soja, Londrina, PR,Membro da Academia Brasileira de Ciências - hungria@cnpso.embrapa.br

Vários relatos de agricultores, trabalhos científicos e monitoramentos têm comprovado a verdadeira revolução que o sistema de plantio direto (PD) causou e vem causando na agricultura brasileira, contribuindo de modo significativo para a conservação e o manejo sustentável do solo. As estimativas atuais são de que há mais de 100 milhões de hectares cultivados no mundo sob o sistema PD, dos quais 26 milhões estão no Brasil e as perspectivas são de incorporações volumosas de áreas ao PD nos próximos anos.

Desde a implementação dos primeiros ensaios e lavouras de PD no Brasil, em 1971, vêm sendo reunidas amplas evidências de que esse sistema resulta em benefícios pelo incremento na retenção de umidade no solo, pelo decréscimo nas temperaturas máximas do solo, pelo controle da erosão e pela melhoria em diversas outras propriedades físicas, químicas e biológicas. A melhoria nessas propriedades resulta em maiores rendimentos das culturas, sustentabilidade agrícola e qualidade do solo sob PD, em comparação com o plantio convencional (PC). Cabe destacar que, entre as inúmeras vantagens do PD, é dado um grande destaque ao incremento nos teores de matéria orgânica do solo, o que, além de melhorar a fertilidade e a estrutura do solo, também abre possibilidades para o comércio de créditos de carbono, para financiamentos como os do Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), entre outros.

O maior sequestro de carbono (C) pelo PD, em comparação com o PC, porém, foi recentemente contestado pelo grupo do Dr. John Baker, pesquisador do ”United States Department of Agriculture (USDA)”, em Minnesota, Estados Unidos, após um levantamento de estudos conduzidos em vários países (publicado em 2007, na revista Agriculture, Ecosystems and Environment). Nesse levantamento, o Dr. Baker afirma que os incrementos na matéria orgânica do solo ocorreriam somente na camada superficial do solo sob PD, até no máximo 30 cm, sendo inferiores aos teores encontrados no PC se as camadas mais profundas do solo também fossem consideradas.

Infelizmente, ainda não há muitos dados científicos disponíveis no Brasil, o que fica evidenciado no levantamento realizado pelo Dr. Baker. Para verificar os benefícios do PD em profundidade, foi então conduzido um estudo na Embrapa Soja, em Londrina, Paraná, comparando o PD e o PC em várias camadas de solo, até a profundidade de 60 cm. Além do carbono C e do nitrogênio (N) da matéria orgânica do solo, nosso grupo também avaliou a biomassa microbiana. E o que seria essa avaliação? A biomassa microbiana do solo é definida como o componente microbiano vivo do solo, composto de bactérias, fungos, microfauna e algas. Considera-se a biomassa microbiana como um componente crítico de todos os ecossistemas naturais ou manipulados pelo homem, porque é o agente regulador da taxa de decomposição da matéria orgânica e da ciclagem dos elementos atuando, portanto, como fonte e dreno dos nutrientes necessários ao crescimento das plantas. Desde o estudo pioneiro descrevendo o método para avaliar a biomassa microbiana total do solo, em 1966, dezenas de trabalhos vêm utilizando essa avaliação, denominada de carbono (ou outros nutrientes, como nitrogênio, fósforo, enxofre) da biomassa microbiana do solo obtido pelos métodos de fumigação e incubação, ou de fumigação e extração. Os resultados têm indicado, consistentemente, que essas análises conseguem fornecer informações relevantes sobre o funcionamento dos ecossistemas e sobre a ”qualidade” do solo. Com frequência tem sido relatado, também, que a biomassa microbiana apresenta maior sensibilidade do que outros parâmetros químicos e físicos do solo, refletindo rapidamente alterações pelo manejo do solo e das culturas. Isso também foi confirmado em vários estudos conduzidos por nosso grupo de pesquisa nos últimos dez anos, a grande maioria deles comparando sistemas sob PD e PC.

Quadro 1. Valores acumulados de carbono e de nitrogênio da biomassa microbiana (CBM e NBM; em Mg C/ha e Mg N/ha) na camada de 0-30 cm e na camada de 0-60 cm em 20 anos de cultivo de soja (verão)/trigo (inverno) em Londrina, PR, sob os sistemas de PD e PC. Valores médios de quatro parcelas no campo.

Neste novo estudo, de comparação do PD e do PC em profundidade, os resultados obtidos não deixam dúvidas sobre os benefícios do PD para as condições da Região Sul do Brasil. De fato, a maior diferença entre o PD e o PC ocorre nos primeiros 30 cm, havendo um incremento de 29% no teor de C total do solo no PD. Mas, além disso, o estudo confirmou incrementos significativos no sequestro de carbono quando a camada de 0-60 cm foi considerada. Em comparação com o PC, o PD aumentou significativamente os estoques de C (18%) e de N (16%) da matéria orgânica do solo, bem como os estoques de C (35%) e de N (23%) contidos na biomassa microbiana. Considerando o período do experimento, de 20 anos, e a camada de 0-60 cm, o ganho do PD, em comparação com o PC, foi de 800 kg de C/ha/ano e de 70 kg de N/ha/ano. Os dados obtidos são de grande relevância para a construção de um banco nacional de dados visando futuras negociações sobre créditos de carbono e mitigação de mudanças climáticas. O trabalho em Londrina foi desenvolvido no mestrado da aluna Letícia Babujia e acaba de ser publicado na prestigiada revista ”Soil Biology and Biochemistry”, hoje em primeiro lugar na lista de revistas de maior impacto em ciência do solo. Desse modo, foram obtidas evidências, nesse ensaio, de que as tecnologias desenvolvidas para o PD no Brasil, em associação com as nossas condições climáticas, resultam em benefícios muito superiores aos observados em outros países. O sequestro de carbono em nossas condições é real e confirmado mesmo em profundidades maiores do solo.

Por outro lado, o estudo também lança um alerta aos agricultores. Cresce a conscientização de que solo é vida e que os benefícios do PD estão diretamente relacionados às melhores condições oferecidas aos organismos do solo. Contudo, o estudo aponta que 70% da biomassa microbiana no PD se concentrava na camada de 0-30 cm, sendo esse valor 82% superior ao da biomassa microbiana no PC. Nessa camada, portanto, reside a verdadeira riqueza e a qualidade dos solos sob PD. Desse modo, é essencial cuidar dessa camada superficial do solo, evitando práticas inadequadas de manejo que possam resultar em perdas na atividade microbiana. Além disso, outros estudos conduzidos por nosso grupo confirmam que a diversidade dos microrganismos do solo também é maior sob PD, com ênfase nos primeiros 30 cm, com a presença de diversos grupos funcionais que participam ativamente na sustentabilidade agrícola.

Área do ensaio na Embrapa Soja, em Londrina, com plantio direto (à esquerda) e plantio convencional (à direita) (Foto: Dr. J. C. Franchini)

O futuro? Ainda há muito que estudar, por exemplo, avaliações de diferentes sistemas de rotação de cultura e, principalmente, quantificações dos benefícios do PD com a profundidade do solo em outros locais do Brasil, particularmente nos Cerrados. Além disso, nosso grupo de pesquisa está empenhado em definir valores e colocar em rotina as análises de biomassa microbiana, para que os agricultores possam acompanhar a melhoria da qualidade do solo e esse poderá ser um novo marco na consolidação do PD no Brasil.

A divulgação da eficácia de uso da biomassa microbiana do solo como indicadora de qualidade dos solos já está chamando também a atenção da iniciativa privada. Em 2010 o Laboratório de Biotecnologia do Solo da Embrapa Soja foi procurado por uma firma de consultoria de usinas de cana-de-açúcar para realizar mais de 2.000 análises da biomassa microbiana em áreas sob diferentes manejos do solo, da cultura, de resíduos, de uso de agrotóxicos, entre outros. O objetivo do grupo de consultoria é o de passar a monitorar esses solos, orientando os agricultores sobre as estratégias que podem ser adotadas para garantir e melhorar a qualidade dos solos. Em nível de pesquisa, a Embrapa Soja também estará fazendo o monitoramento de várias áreas sob PD no Paraná. Assim, várias novidades de interesse para os agricultores deverão ser relatadas nos próximos anos.

Revista Plantio Direto, edição 120, novembro/dezembro de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.