Pré-fechamento como critério indicador do momento para a primeira aplicação de fungicidas visando ao controle da ferrugem da soja
Erlei Melo ReisFaculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS erleireis@tpo.com.br
1. Introdução
Pouco tem sido pesquisado e publicado sobre as bases científicas dos critérios decisórios para se determinar o momento da primeira aplicação de fungicidas na cultura da soja (Reis, 2010). Infelizmente, a maior parte das informações divulgadas não tem suporte científico.
Considerando-se o custo de uma aplicação de fungicida em soja, em torno de R$ 110,00/ha (Boller, 2010) este assunto deveria ser tratado com maior responsabilidade.
Logo após o surgimento da ferrugem da soja no Brasil (Yorinori, 2002), pesquisadores defenderam e difundiram a posição de que a primeira aplicação de fungicida deveria ser feita na floração ou nos estádio seguintes próximos (Indicações... 1997 - 2009). Posteriormente, alguns deixaram de lado aquela posição e agora se posicionam defendendo o chamado pré-fechamento da soja.
Nestes casos, não é considerado o conceito clássico respeitado pela ciência agronômica de manejo integrado de doenças (MID): ”utilização de todas as técnicas disponíveis dentro de um programa unificado de tal modo a manter a população de organismos nocivos (doenças) abaixo do limiar de dano econômico (LDE) e a minimizar os efeitos colaterais deletérios ao meio ambiente” (NAS, 1969).
2 O problema
A dificuldade das gotas da calda fungicida pulverizada atingir a parte inferior do dossel da cultura da soja devido ao excesso de folhagem e o consequente efeito barreira decorrente é um fato real que preocupa os produtores. Desta maneira, o controle das doenças, principalmente da ferrugem, é deficiente nas folhas basais desprotegidas que se constituem em foco de inóculo da doença resultando na sua desfolha. Também se deve considerar que os fungicidas ditos sistêmicos não se movem para os órgãos inferiores da planta e também, não se movimentam de folha para folha. Até o presente momento não existe um fungicida verdadeiramente sistêmico para aplicação em soja.
Seria a aplicação antes do fechamento das linhas pelo crescimento da planta a maneira mais racional para resolver o problema da qualidade da deposição de fungicidas no dossel inferior da soja ao aplicá-lo precocemente independentemente da presença da e da quantidade de doença?
3 A solução proposta
Alguns pesquisadores tem procurado resolver o problema da deposição de defensivos agrícolas na parte inferior do dossel visando ao controle de doenças e de pragas, como por exemplo, Hutchins & Pitre (1984); Brown-Rytlewski & Sataton (2006); HANNA, et al. (2009). Destes, Hanna et al., citam não haver efeito do espaçamento entre linhas na melhora da cobertura das folhas basais.
Todo o esforço deve ser envidado no sentido de melhorar a deposição e cobertura, porém, sem esquecer que o alvo da tecnologia é o controle da ferrugem ao atingir o fungo agente causal.
4 Número de aplicações que a cultura da soja suporta economicamente
Devido aos custos altos de uma aplicação de fungicida deveria haver seriedade quanto ao seu posicionamento. Para isso, considere-se o preço do saco da soja de R$ 43,00 (13 janeiro de 2010, em Passo Fundo, RS); o custo de uma aplicação de R$ 110,00/ha (incluindo fungicida, amassamento da lavoura, combustível e salário do tratorista) (Boller, 2010). Fazendo-se duas aplicações se gastam R$ 212,00/ha ou 5,2 sacos; três aplicações R$ 318,00/ha ou 7,85 sacos e quatro aplicações R$ 424,00/ha ou 10,5 sacos. O rendimento médio da soja no RS foi de 2.070 kg/ha, ou 34,5 sacos/ha, na safra passada (Conab, 2009). Portanto quem tivesse feito três aplicações gastaria o equivalente a 7,85 sacos/ha ou 23% do peso dos grãos colhidos (34,5/ha).
Quantas aplicações se pode perder de acordo com estes custos? Que critério a pesquisa recomendaria se o preço do saco da soja fosse R$ 30,00. Por exemplo, na região de Rondonópilos, MT o preço do saco de soja era de R$ 32,00 (13 Janeiro de 2010) (www.agronegocios-e.com.br.).
5 Conceito básico
Entende-se por pré-fechamento, o momento que antecede o fechamento da folhagem nas entre-linhas do plantio e cobrir o solo pela espécie vegetal cultivada. Não estando fechada a linha, qualquer distância pode ser considerada pré-fechamento. No entanto, quantos centímetros entre as linha de plantas é necessário para á máxima deposição e cobertura das folhas basais? Logicamente que quanto maior o espaço entre as linhas, também maior será a deposição do fungicida no solo.
6 Fatores que interferem na velocidade do fechamento da entrelinha na cultura da soja
(i) espaçamento das linhas de semeadura de 17, 45 ou 60 cm;
(ii) arquitetura ou hábito de desenvolvimento da planta. Eretas ou decumbentes, que acamem ou não;
(iii) época de semeadura; quanto mais tarde (janeiro) mais retarda o fechamento; e
(iii) fertilidade do solo e disponibilidade hídrica.
Consequentemente, o momento do fechamento da entrelinha depende da distância entre as linhas da semeadura que pode ser de 17, 45 e 60 cm. Considerando um cultivar com a mesma arquitetura de planta, semeado no mesmo dia, porém, com os dois diferentes espaçamentos, obviamente que o fechamento da entrelinha ocorrerá primeiro no de 45, e mais tarde no de 60 cm. Como esta situação pode ocorrer em muitas lavouras qual a relação do momento do fechamento com a ocorrência de doenças (Exemplo: a ferrugem)? Caso as duas situações ocorressem numa lavoura, as aplicações com o mesmo propósito deveriam ser feitas em dois momentos diferentes. Deduz-se que o momento do fechamento das entrelinhas não deve ser o gatilho para a primeira aplicação de fungicidas numa lavoura, pois a ocorrência da ferrugem da soja não depende do fator espaçamento.
A aplicação de fungicidas no pré-fechamento das linhas não considera o momento de ocorrência da doença fúngica alvo do controle pelo fungicida e, neste caso, tem sido dado maior importância a deposição e cobertura do que a doença alvo do controle. Parece que a lógica esta sendo invertida.
7 Vantagens da aplicação no pré-fechamento
A proposta do pré-fechamamento da lavoura apresenta algumas vantagens:
a. A penetração das gotículas da calda fungicida é facilitada e melhora a deposição e cobertura das folhas na parte média e inferior do dossel;
b. Se a ferrugem ocorrer logo após a aplicação (um ou dois dias) não se perdeu a aplicação e se acertou o momento. Esse seria o momento ideal necessitando, no entanto, para tal de um sistema de aviso confiável.
8 Desvantagens da aplicação no pré-fechamento
Por outro lado apresenta as seguintes desvantagens:
a) Parte da calda não atinge o alvo sendo depositada no solo. Essas diferenças deveriam ser quantificadas e, antes de ser difundidas, se deveria determinar a distância ideal entre as linhas, quanto da calda atinge o alvo e quanto se perde;
b) Não considera a presença de doenças sendo a aplicação geralmente feita na sua ausência. O objetivo do fungicida é controlar doenças fúngicas.
c) Risco alto de perda do período de proteção do fungicida. Esta sugestão não maximiza o período de proteção do fungicida. O período de proteção de fungicidas em soja é de no máximo 20 dias (Zanatta, 2009). Portanto, aplicando antes do fechamento, e não ocorrendo a doença neste período de tempo, se perde completamente a aplicação (R$ 110,00/ha) e, provavelmente vai faltar proteção no final da cultura ou exigir uma aplicação que substitua a primeira feita em momento impróprio.
No caso de cultivar de soja precoce semeado no início da época recomendada para o plantio da soja, que em geral, escapam da doença há o risco de se perder a aplicação pela não ocorrência da ferrugem.
d) Não há relação entre o momento do pré-fechamento e as condições climáticas predisponentes para a ocorrência da ferrugem. Pré-fechamento não é fator determinante de doenças de plantas!
e) Na segunda e demais aplicações, se necessárias, estando a lavoura já ”fechada” a justificativa do cuidado tomado apenas para a primeira aplicação não encontra respaldo científico. Por que considerar a qualidade da deposição somente para a primeira e não para as demais aplicações? Como a lavoura não permanece pré-fechada até ao final do ciclo, a pesquisa deve buscar outra solução para a melhora da deposição de fungicidas na cultura da soja.
8 Soluções propostas para melhorar a deposição e cobertura do fungicida na cultura da soja
a) Ajustar o espaçamento das linhas de semeadura da cultura para espaçamento que facilite a deposição devido ao fechando mais tarde;
b) A mais racional seria desenvolver cultivares com arquitetura que facilite a deposição, plantas com folhagem ereta, e que não acamem. Um exemplo de cultivar que acama facilmente é a CD 214 RR e um com arquitetura ereta favorável à deposição, o Fundacep 55 RR.
Melhorar a deposição de defensivos agrícolas na parte inferior do dossel da soja ainda é o maior desafio para os pesquisadores da tecnologia de aplicação de fungicidas.
9 Considerações finais
Em todos os trabalhos científicos que envolvam a aplicação de fungicidas se deveriam avaliar e traçar a curva de progresso da doença alvo do controle como apresentado na Figura 1. Neste gráfico o pesquisador pode posicionar o momento da primeira aplicação do fungicida e determinar o erro/acerto em relação ao momento da ocorrência da doença alvo. Se o momento da aplicação coincidir com o ”início” da ocorrência da doença – limiar de dano econômico (LDE) – a aplicação foi corretamente posicionada e teve sucesso ao atingir a mosca do alvo com erro zero (Figura 2).
Figura 1. Linhas de progresso da ferrugem asiática da soja em duas épocas de semeadura avaliada pela incidência foliolar. Primeira época () e segunda época (). Universidade de Passo Fundo, 2008 (Zanatta, 2009).
Na Figura 2, a aplicação do fungicida foi feita com 43% de incidência foliolar e o LDE era de 30%. Portanto, um erro de aproximadamente cinco dias atrasados. Teoricamente perdeu-se cinco dias do período de proteção que é de 20 dias. Mas, caso fosse feita 20 dias antes da ocorrência, o período de proteção teria sido totalmente perdido.
No experimento da Figuras 1 e 2, a ferrugem surgiu (1% de incidência foliolar) no estádio R3, aos 74 dias após a emergência e na segunda época de semeadura, no estádio R1 aos 66 dias após a emergência da cultura (Figura 2) (Zanatta, 2009). Imagine-se nesta situação uma aplicação feita como sugerido, nos estádios vegetativos, ou antes, do fechamento, em quantos dias se erraria o alvo? Quanto mais antecipada ou mais atrasada em relação ao LDE maior é o erro. Se a aplicação antes do surgimento da doença errar o momento em 20 dias, a aplicação foi perdida a um custo é de R$ 110,00/ha.
Figura 2. Linha de progresso da incidência foliolar da ferrugem asiática da soja na segunda época de plantio (Figura 1) em função dos dias após a emergência da soja e estádios fenológicos e posicionamento da primeira aplicação de fungicida [LDE 30% de incidência (----) e primeira aplicação feita com 43% (___)]. Universidade de Passo Fundo, 2008 (Zanatta, 2009).
O monitoramento semanal da ferrugem permite determinar incidências foliolares abaixo do LDE.
Nos trabalhos de pesquisa se deveriam também quantificar e apresentar os resultados de quanto de doença, ferrugem, por exemplo, restou no estádio R6, quantas aplicações foram feitas e o lucro resultante para o produtor.
Algumas considerações extraídas de Zadoks & Schein (1979) sobre a evolução das estratégias de controle de doenças de plantas merecem ser analisadas:
(i) Os aspectos econômicos e a pressão ambiental determinaram um novo direcionamento nas estratégias de controle de doenças e de pragas agrícolas;
(ii) Esse novo enfoque conscientizou pesquisadores de que se deve manter a doença em intensidade sub-econômica, um elemento chave do controle;
(iii) Para cada doença em cada cultura se deve determinar a intensidade tolerável da doença. No período de 1930 a 1960, a doutrina martelada nas mentes dos agricultores pelos cientistas, extensionistas e vendedores, era de que a lavoura deveria ser mantida sem nenhum sintoma de doenças. Isso não é necessário e é antieconômico;
(iii) Como resultado deste novo enfoque, em 1968 foi proposto o conceito da FAO sobre o manejo integrado de doenças de plantas (MID);
(iv) Portanto, o propósito do controle da moléstia, segundo o MID, é evitar que o dano da doença exceda o nível de lucro – LDE;
(v) Ao longo do ciclo da cultura o nível da doença (sua intensidade) deve ser mantido abaixo do LDE;
(vi) A análise econômica do processo de manejo de doenças é fundamental na tomada de decisão quanto ao momento do controle;
(vii) O LDE é a quantidade de doença que justificaria o custo da medida artificial de controle;
(vii) O LDE é a quantidade máxima de doença tolerada economicamente numa lavoura.
(viii) A ciência agronômica deve quantificar os danos causados pelas doenças em qualquer cultura.
O gatilho para aplicação a aplicação de fungicida numa cultura se chama ”momento”.
Qual o gatilho para o critério início da doença? Deve ser identificado um valor de incidência foliolar.
Qual o gatilho para preventivo? O fungicida pode ser aplicado em qualquer momento que satisfaça a condição de ausência da doença medida pelos sintomas e/ou sinais.
Qual o gatilho para estádio fenológico? Ao atingir, por exemplo, floração, se aplica não considerando a presença/ausência da doença e sua intensidade.
Qual o gatilho para o pré-fechamento da folhagem na cultura da soja? Deve-se indicar qual a distância em cm entre as folhas não considerando a presença da doença e sua intensidade.
O gatilho do LDE é a intensidade da doença e o dano correspondente. A intensidade é influenciada por práticas culturais [rotação de culturas e monocultura (manchas foliares), plantio direto x convencional, época de semeadura], sanidade da semente, clima na safra, ciclo do cultivar e reação do cultivar x raças virulentas ou agressivas do patógeno. Portanto, todo e qualquer fator que tenha reflexo na intensidade da doença é considerado, ou contemplado no critério do LDE.
Finalmente, o critério do LDE proposto por Zadoks & Schein (1979) e Munford & Norton (1984) é uma tecnologia praticável somente para agricultores de países desenvolvidos?
10. Referências bibliográficas
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Revista Plantio Direto, edição 119, setembro/outubro de 2010.