Nutrição Mineral de Plantas
Volnei PaulettiDoutor, Professor da Disciplina de Nutrição Mineral de Plantas e orientador do Curso de Mestrado em Ciências do Solo, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR. vpauletti@ufpr.br
A nutrição mineral de plantas estuda os nutrientes minerais e os mecanismos que governam a sua absorção e transporte dentro da planta e as funções que exercem sobre o metabolismo e crescimento das plantas. Também relaciona a presença de nutrientes com os fatores que afetam as plantas como pragas, doenças e seca.
Um material vegetal fresco ou vivo, contém entre 80 – 90% de água. Tecidos inativos ou mortos possuem menos água, assim como as sementes que podem ter apenas alguns pontos porcentuais de umidade. Retirando a água do tecido sobram 10-20 % de material seco. Esse material seco, ou mais comumente chamado de matéria seca, é composto em mais de 90% por carbono (C), hidrogênio (H) e oxigênio (O).
Portanto, apenas 10% da matéria seca de uma planta é formada por outros elementos, o que representa entre 1% e 2% do total do peso da planta. É importante considerar que a presença de um elemento na planta não garante que ele seja essencial para o seu ciclo vital. Elementos não-essenciais e até mesmo tóxicos podem ser absorvidos pelas plantas, pois elas apresentam capacidade limitada de selecionar os minerais que absorve pela raiz ou pela folha. Um exemplo disso é o alumínio (Al) que mesmo causando redução do crescimento radicular em solos ácidos e ricos neste íon, é absorvido pela raiz.
1 Nutriente essencial
Para um elemento ser considerado essencial para as plantas deve satisfazer os três critérios seguintes (Arnon; Stout, 1939):
- A sua deficiência impede a planta de completar seu ciclo vital;
- Não pode ser substituído por outro elemento com propriedades similares;
- Deve participar diretamente do metabolismo da planta.
São 17 os nutrientes considerados essenciais para as plantas: C, H, O, nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S), cloro (Cl), cobre (Cu), manganês (Mn), boro (B), zinco (Zn), ferro (Fe), níquel (Ni) e molibdênio (Mo). Alguns elementos são considerados benéficos para as plantas, como o sódio (Na), selênio (Se), silício (Si) e cobalto (Co), no entanto, não são essenciais por não cumprirem os três requisitos de essencialidade citados acima. Por exemplo, plantas de mangue acumulam Na, enquanto o Co é necessário para a fixação do N do ar por bactérias nos nódulos de raízes de leguminosas (como na soja), bem como para bactérias de vida livre que fixam N2. O Si é benéfico para certas algas e cavalinhas.
A quantidade de nutrientes em tecidos vegetais varia em função do tipo de planta, das condições climáticas durante o desenvolvimento das plantas, da composição química do meio e da idade do tecido, entre outros. Uma folha madura geralmente contém uma concentração maior de nutrientes que uma folha jovem. Da mesma forma uma folha madura pode ter maior quantidade de nutrientes que uma folha velha, pois esta perde minerais solúveis em água que são lavados pela chuva ou então transloca esses minerais para as folhas mais novas.
Os nutrientes essenciais são divididos em macronutrientes e micronutrientes, conforme as quantidades exigidas pelas plantas. Segundo Epstein e Bloom (2006) os macronutrientes constituem aproximadamente 99,5% das nutrientes presentes na massa seca enquanto os micronutrientes os outros 0,5%. São considerados macronutrientes o C, H, O, N, P, K, Ca, Mg e S, enquanto os micronutrientes são o Fe, Cu, Mn, Zn, B, Ni, Cl e Mo. Os nutrientes C, H e O são obtidos diretamente do ar, na forma de gases ou dissolvidos na água, ou ainda obtidos pela dissociação de água na planta. Os demais nutrientes são obtidos principalmente do solo, que tem sua composição relacionada com o tipo de rocha que lhe deu origem, da matéria orgânica formada a partir dos restos vegetais ou então pela aplicação de adubos orgânicos ou minerais.
Para alguns nutrientes ocorrem outras formas de obtenção pela planta como o N, que pode ser retirado do ar e fornecido para as plantas por bactérias que recebem em troca produtos do metabolismo vegetal importantes para a sua sobrevivência. Da mesma forma, alguns nutrientes podem ser absorvidos na forma gasosa pelas folhas, através dos seus estômatos.
A aplicação de adubos, corretivos e demais insumos como fonte de nutrientes, tem a finalidade de disponibilizar no solo, uma quantidade maior de nutrientes essenciais, para que a produtividade das culturas de interesse (como soja, milho, cana, eucalipto, mamão, azevém, etc) possa ser maior.
É importante termos em mente que tanto os macronutrientes quanto os micronutrientes essenciais tem a mesma importância para as plantas. Ou seja, caso haja deficiência de um macronutriente, a produtividade da planta diminui, e da mesma forma, caso haja deficiência de um micronutriente, a produtividade da planta também diminui. A grande diferença entre um macro e um micronutriente para a agricultura, diz respeito à aplicação de adubos. Para os macronutrientes (exigidos em kg por hectare) a possibilidade de resposta da planta é muito maior do que para os micronutrientes (exigidos em g por hectare). Portanto, o solo por si só, tem mais condições de suprir as pequenas quantidades de micronutrientes exigidas pelas plantas, que as grandes quantidades exigidas de macronutrientes.
2. Absorção de um nutriente pela planta
2.1. Contato do nutriente com a superfície da raiz
Para que um nutriente seja absorvido é necessário em primeiro lugar, que ele esteja na solução do solo (água do solo) e entre em contato com a raiz. Esse contato entre raiz e nutriente se dá através de três mecanismos (Malavolta, Vitti e Oliveira, 1997): interceptação radicular, fluxo de massa e difusão.
Na interceptação radicular, a raiz encontra o nutriente durante o seu crescimento. Este mecanismo depende especialmente da área do sistema radicular, ou seja, quanto maior o sistema radicular, maior a possibilidade de contato íon-raiz. Os nutrientes Cu e Fe apresentam nesse mecanismo um importante modo de contato com a raiz.
O mecanismo fluxo de massa consiste no movimento do nutriente junto com a solução (água) do solo, de uma região mais úmida (longe da raiz) para uma região mais seca (próximo da superfície da raiz). Depende principalmente da quantidade de nutriente na solução do solo e da quantidade de água absorvida pela planta. Os nutrientes que entram em contato com a raiz predominantemente por esse mecanismo são o N, Ca, Mg, S, B e Mo.
Na difusão o nutriente entra em contato com a raiz ao se deslocar em uma solução do solo estacionária (sem movimento), da parte mais concentrada da solução (mais distante da raiz) para a menos concentrada (mais próxima da raiz). A distância percorrida pelo nutriente através da difusão sempre é muito pequena, uma questão de milímetros. Os nutrientes que entram em contato com a raiz predominantemente por esse mecanismo são o P, K, Mn e Zn.
Os três mecanismos podem ocorrer simultaneamente, mas geralmente um deles é mais expressivo para um determinado nutriente. Por exemplo, mesmo tendo a difusão como principal mecanismo de contato, 25% do K chega até a raiz por fluxo de massa.
A contribuição relativa dos três mecanismos no suprimento de nutrientes para as plantas interfere, por exemplo, na forma de aplicação dos adubos, especialmente quando o teor do nutriente a ser aplicado é baixo no solo. Elementos que se deslocam menos no solo e tem o contato com a raiz por difusão, devem ser aplicados próximo da raiz, enquanto os que se deslocam mais e tem uma contribuição significativa do fluxo de massa, podem ser colocados mais distantes. Um exemplo típico é a aplicação dos adubos contendo N a lanço em cobertura.
Como lembrete aos produtores e técnicos, a aplicação de adubos no sulco de semeadura é uma forma muito segura de fornecimento de nutrientes para as plantas. A alteração da forma de aplicação, como a aplicação a lanço ou em faixa, ou ainda aplicações em época distante da semeadura, deve sempre ser orientada pelo teor do nutriente e textura do solo (análise de solo), exigência da cultura, além de outro fator que possa ser considerado importante para a situação da lavoura.
2.2. Como os nutrientes são absorvidos pelas raízes
Nem todas as partes da raiz são eficientes na absorção de nutrientes. A maior taxa de absorção ocorre nas partes mais novas da raiz e na região dos pelos radiculares (Figura 1), que apresenta uma elevada superfície de contato com o solo.
Figura 1. Regiões radiculares e suas funções.
Quando feito um corte transversal de uma raiz, identifica-se de fora para dentro, as seguintes principais estruturas anatômicas: epiderme, exoderme, córtex, endoderme e cilindro central, onde se encontram os vasos condutores xilema e floema.
Para ser utilizado pela planta em seu metabolismo, o nutriente deve entrar nas células da raiz e da parte aérea. De forma resumida, o metabolismo é a forma com que as plantas convertem os nutrientes através da energia solar em matéria seca ou, considerando o interesse do ser humano, em produtividade. Essa conversão é realizada pela fotossíntese nas folhas.
Para atingir as folhas, ramos e frutos, o nutriente precisa chegar aos vasos condutores (xilema) que ficam no centro da raiz (ver Figura 1). Para entender como isso ocorre, devemos saber que as células vegetais apresentam uma parede celular externa, rígida, e uma membrana interna, conhecida como membrana plasmática ou plasmalema. Esta última além de permitir trocas entre o ambiente externo e interno da célula, também permite que o interior da célula tenha composição diferente do meio que a circunda.
Após entrar em contato com a superfície externa da raiz por interceptação radicular, fluxo de massa ou difusão (como apresentado no item 2.1), o nutriente alcança primeiro as células da epiderme. Na parede celular das células existem poros (microporos e macroporos) por onde circulam a água e os nutrientes. Esses poros mais os espaços existentes entre as células, formam um ambiente denominado de ”espaço livre”. Esse ”espaço livre” é dividido em locais sem presença de cargas, onde água e nutrientes circulam livremente, e outro ambiente onde existem cargas, e os nutrientes têm sua circulação limitada, o que dá origem ao conceito ”espaço livre aparente” ou ELA.
Qualquer íon pode circular livremente da solução do solo para o interior das raízes, se movimentar pelo ELA e retornar para o espaço externo (solo). Por essa razão, não se pode considerar que os íons que estão no ELA, embora dentro da raiz, tenham sido realmente absorvidos. Para que o íon seja absorvido, deve atravessar a membrana plasmática e passar para o espaço interno da célula.
O espaço contínuo formado pelo conjunto de espaços existentes entre as células e os macro e micro poros da parede celular (ELA), é também denominado de apoplasma. Quando um nutriente percorre o ELA e atravessa a membrana plasmática de uma célula da endoderme (ver Figura 2) para então atingir os vasos condutores (xilema) que o levarão para a parte aérea da planta, considera-se que esse íon foi absorvido pela via apoplástica. O íon K+ é um exemplo de nutriente absorvido por essa via.
Figura 2. Representação geral de um corte transversal de uma raiz.
No entanto, alguns nutrientes são absorvidos, ou seja, atravessam a membrana plasmática, já na parte mais externa da raiz, nas células da epiderme ou do córtex (ver Figura 2). Nesse caso, o íon é deslocado de uma célula para outra, até atingir a endoderme e depois o xilema. Esse deslocamento só é possível devido à ocorrência de canais que ligam uma célula a outra, os plasmodesmos. A parte interna das células é chamada de simplasma. Portanto, os íons que se deslocam de célula a célula desde a epiderme ou córtex até atingir o parênquima vascular (xilema), seguem a via simplástica de absorção.
Ao ser absorvido pela via simplástica, o íon evita as limitações ou restrições de deslocamento dos diversos compartimentos do ELA (como a retenção nas cargas da parede celular ou então ser perdido para o solo), no entanto, especialmente em caso de deficiência, o íon pode ser retido na própria célula radicular para ser usado no metabolismo local e não ser deslocado para a parte aérea. Assim a raiz estaria bem nutrida enquanto a parte aérea da planta apresentaria deficiência. O íon fosfato (H2PO4-) é uma das espécies iônicas absorvidas pela via simplástica.
2.3 Absorção propriamente dita
Como exposto anteriormente, a absorção de um determinado íon ou nutriente ocorre realmente quando este passa do substrato (solo, solução nutritiva) através da membrana celular para o interior da célula (citoplasma, vacúolo). A membrana celular (plasmalema ou membrana plasmática) é formada por uma dupla camada de fosfolipídios e é impermeável à água e íons. Se um nutriente está solúvel na água (solução do solo ou adubo foliar, por exemplo), terá dificuldades para atravessar a membrana.
Alguns íons podem passar pela membrana por simples difusão, mas o que permite que a maioria dos nutrientes seja absorvida é a presença de proteínas que estão incrustadas e atravessam a membrana celular. Essas proteínas formam os três sistemas que atuam no transporte de íons: as bombas iônicas, os transportadores de íons e os canais iônicos. As bombas iônicas atuam no transporte ativo de íons (contra o gradiente de potencial eletroquímico), com o uso direto de energia metabólica. Os transportadores de íons (carreadores) transportam íons a favor do gradiente de potencial eletroquímico (transporte passivo) sem troca (uniporte) ou com troca (antiporte) por outra espécie iônica de mesma carga. Os transportadores também podem fazer o transporte ativo de um cátion ou um ânion quando esses entram na célula, acompanhados de outro íon, este sim, a favor de seu potencial eletroquímico. Os canais iônicos, quando abertos, formam poros seletivos que transportam íons sempre a favor do gradiente de potencial eletroquímico. Pelos canais a passagem de um nutriente ou molécula é rápida. Um importante canal descoberto pela pesquisa é a aquaporina, que permite a rápida passagem da água pela membrana. Após esta descoberta foi possível justificar como a absorção pela raiz consegue suprir a grande demanda de água da parte aérea das plantas.
2.4. Absorção de nutriente pela folha
As plantas iniciaram seu desenvolvimento em meio aquático (no mar), sendo que com a evolução, houve necessidade de adaptação para o crescimento fora da água. As raízes se especializaram no suporte da planta e na absorção de água e nutrientes, enquanto a parte aérea na fotossíntese. No entanto, as folhas mantiveram a capacidade de absorver nutrientes.
Na folha ocorrem os estômatos que são uma importante via de penetração de gases utilizados no metabolismo da planta. Entre os mais expressivos estão o gás carbônico (CO2), cuja principal forma de obtenção é através dos estômatos, a amônia (NH3), o óxido nitroso (NO) e o gás sulfuroso (SO2). Plantas podem obter via foliar de 5-30 kg de S por hectare por ano, com maiores valores em áreas próximas a regiões industrializadas. Em pastagens, estima-se em 100-400 g de N por hectare por dia como sendo proveniente da absorção foliar de NH3 (Marschner, 1986).
O que diferencia a absorção de um nutriente pela raiz ou pela folha é a presença da cutícula, que é uma camada que existe sobre toda a folha. Esta cutícula varia em composição e espessura. Podemos perceber esta diferença, por exemplo, quando colocamos uma gota de água sobre uma folha. Em algumas a gota escorre rapidamente, enquanto em outras a gota permanece por mais tempo ou se espalha. O que confere esta diferença é principalmente a cutícula.
Ao ser aplicado em solução sobre a folha, o nutriente segue o caminho apresentado abaixo (Figura 3). A cutícula, portanto, é o primeiro obstáculo encontrado pelo nutriente antes de ser absorvido na folha, sendo composta por cera, cutina, celulose e pectina. A cutícula tem função de proteger a folha evitando que ocorram perdas excessivas de água e a lavagem de solutos pela chuva. A cera e a cutina são hidrofóbicas (repelem água) e a pectina e a celulose são hidrofílicas, ou seja, atraem água (Camargo; Silva, 1975). Com isso, substâncias polares ou solúveis em água penetram na cutícula através da pectina, e substâncias apolares ou insolúveis em água atravessam a cutícula através da cera ou cutina.
Figura 3. Caminho percorrido por um nutriente ao ser aplicado sobre a folha.
Após a passagem pela cutícula, os mecanismos que governam a absorção são muito similares aos que ocorrem nas raízes (itens 2.2 e 2.3).
A absorção foliar de nutrientes levou ao desenvolvimento da técnica da adubação foliar. Várias empresas atuam no Brasil, disponibilizando ao produtor suas marcas e produtos. A adubação foliar, portanto, é uma técnica eficiente de fornecimento de nutrientes para as plantas. Assim como para correção do solo e aplicação de adubo na semeadura, cabe ao assistente técnico do produtor e ao próprio produtor, decidir sobre a necessidade de aplicação destes insumos. A fundamentação científica, especialmente através de experimentos regionais, é que deve orientar a aplicação dos adubos foliares. Normalmente a aplicação foliar de macronutrientes traz pouco resultado devido a grande quantidade exigida pela planta. Algumas exceções, como a aplicação de Ca em maçã e em tomate, são bem discutidas e fundamentadas.
Como consenso da maioria dos pesquisadores, o fornecimento de nutrientes para a planta através das folhas deve ser uma técnica complementar ao fornecimento de nutrientes através das raízes (adubação no solo).
3. Transporte e redistribuição dos nutrientes
Segundo Malavolta; Vitti; Oliveira (1997), o transporte de um determinado nutriente ou composto pode ser definido como sendo o movimento desse íon ou composto do local de absorção para outro local. Já a redistribuição, é o movimento do nutriente ou composto do local de residência (órgão) para outro.
Os nutrientes, após atingirem os vasos do xilema na raiz (ver Figura 2) pelas vias apoplástica ou simplástica de absorção (item 2.2), seguem para a parte aérea das plantas, onde são novamente depositados nos espaços livres das células, equivalentes ao espaço livre das raízes (ELA). O transporte a longa distância (raiz – parte aérea) através do xilema, utiliza a água como agente e é governado pela diferença de potencial osmótico e hídrico (gerado pela transpiração). Nas células dos tecidos da parte aérea, os nutrientes precisam novamente deslocar-se através dos macro e microporos da parede celular, alcançar a membrana plasmática, ser transportado através da membrana plasmática e então atingir a parte interna da célula.
Após entrarem na célula, os nutrientes podem entrar no metabolismo celular ou ser deslocados via simplástica em direção ao floema, que são vasos condutores que transportam a seiva elaborada, para serem redistribuídos, ou seja, enviados para outros órgãos como folhas e raízes novas e frutos.
Alguns nutrientes não circulam no floema, ou seja, uma vez depositados em um tecido vegetal, não são remobilizados para outra parte da planta. No entanto, outros nutrientes são móveis e se deslocam no floema. Essa variação na mobilidade/remobilização na planta, servem na prática, para sabermos a posição em que ocorrem os sintomas de deficiência dos nutrientes. Para os nutrientes imóveis (Ca, S, B, Mn, Zn, Cu, Fe e Ni), os sintomas são percebidos inicialmente nos tecidos mais novos, enquanto que para os nutrientes móveis (N, K, P, Mg e Cl), percebe-se os sintomas inicialmente nos tecidos mais velhos.
Nas Figuras 4, 5 e 6 são apresentados exemplos de sintomas de deficiência de K em soja, de N em milho e de B em mamona. Observa-se que a posição onde ocorre o sintoma mais evidente de deficiência é nos tecidos (folhas) mais velhos para os nutrientes móveis na planta (K e N) e nos tecidos mais novos para o Fe que é imóvel na planta. É importante ressaltar que dificilmente será possível observar sintoma de deficiência nutricional na parte intermediária de uma planta. A ocorrência de uma deficiência nutricional em plantas sempre segue um gradiente de intensidade, sendo mais intenso nos tecidos (normalmente folhas) mais velhos diminuindo para os mais novos (veja exemplo do K na Figura 4) ou mais intenso nos tecidos mais novos e diminuindo no sentido dos mais velhos.
Figura 4. Sintoma de deficiência de potássio em soja, em grandiente, sendo mais intenso nas folhas mais velhas e menos intenso nas folhas mais novas.
Figura 5. Folhas mais velhas de milho secas ou amareladas em função da deficiência de nitrogênio.
Figura 6. Morte do meristema apical e formação de ramos laterais em função da deficiência de boro em mamona.
Na identificação visual é importante considerar a existência de outros fatores que podem ocasionar sintomas parecidos com os de deficiências nutricionais como toxidez por herbicidas (Figura 7), pragas, doenças, geada, entre outros. A comprovação de deficiência poderá ser obtida través da análise química da folha ou outro tecido.
Figura 7. Sintoma de ocasionado em soja pela aplicação de herbicida (glyphosate), semelhante à deficiência de manganês.
4. Avaliação do estado nutricional das plantas
Quando a deficiência ou excesso de um determinado nutriente são percebidos visualmente, o crescimento ou a produção possivelmente já foi comprometido, pois o sintoma visível é o fim de uma série de alterações metabólicas ocorridas na planta. A identificação da deficiência nutricional antes da ocorrência visual do sintoma é possível através da análise química de tecidos, normalmente análise da folha que é o principal órgão utilizado.
A avaliação do estado nutricional através da análise química tem como pressuposto comparar uma amostra com um padrão. Um padrão entende-se como uma planta ou plantas, um tecido ou parte de um tecido de uma planta considerada normal, que tenha proporcionado altas produtividades ou altas taxas de crescimento. Essas características geralmente são determinadas em experimentos que avaliam de maneira controlada o fornecimento de nutrientes para as plantas. Por outro lado, uma amostra significa uma ou várias plantas, um tecido ou parte de um tecido, representando uma planta ou um talhão da cultura que se pretende avaliar.
Para avaliação do estado nutricional das plantas é fundamental a similaridade entre a amostra que será avaliada e o padrão. Por exemplo, deve-se coletar tanto na amostra como no padrão o tecido na mesma posição na planta, no mesmo estádio fenológico ou idade, no mesmo estado fitossanitário e assim por diante. Não é possível comparar uma análise de uma amostra coletada no florescimento com outra coletada na maturação fisiológica da planta. Da mesma forma, não é possível comparar uma folha sem doença com outra afetada por alguma doença.
Se a quantidade de um determinado nutriente essencial está abaixo do nível necessário para o crescimento ótimo, a planta é considerada deficiente naquele nutriente. O nível crítico é o conceito normalmente utilizado na avaliação do estado nutricional das culturas por análise de tecido (Epstein e Bloom, 2006), representando a concentração do nutriente acima da qual a planta expressa o máximo ou o ótimo crescimento ou produção. Abaixo do nível crítico ocorre deficiência do nutriente.
O nível crítico não é um valor fixo, mas uma faixa de teor do nutriente, na qual a planta encontra-se suficientemente bem suprida. Na Figura 8 é apresentada a curva que relaciona o teor de nutriente com a produção (ou crescimento) de uma determinada planta. Quando o teor do nutriente está abaixo do nível crítico, a produtividade é menor do que o potencial máximo possível de ser obtido. Nesta condição espera-se aumento significativo da produtividade ou do crescimento da planta com a adubação. Entre o nível crítico inferior e o nível crítico superior estão os valores considerados ”adequados” do nutriente. Como entre esses valores não ocorre aumento significativo da produção, considera-se que a absorção de nutrientes atende a um ”consumo de luxo”. Após essa etapa, continuando a absorção, a concentração do elemento pode tornar-se tóxica ou causar algum desequilíbrio no metabolismo, diminuindo o crescimento ou produção.
Figura 8. Representação da variação da produção de uma planta de acordo com o teor foliar de um determinado nutriente.
A amostragem de tecidos exige um determinado rigor para evitar erros de interpretação. Em uma planta, num mesmo local, o teor dos nutrientes pode variar em função do órgão que é analisado ou da parte do mesmo, da época em que é colhido, das condições de clima, da presença ou ausência de frutos, de aplicações foliares de nutrientes ou produtos fitossanitários e de outros fatores, o que mostra a necessidade de padronização da amostra.
Normalmente em manuais de adubação e calagem são apresentadas tabelas que contém os níveis considerados adequados para as culturas. Pauletti (2004) apresenta uma revisão contendo os tecidos a serem coletados e seus respectivos níveis de interpretação (Tabelas 1 e 2).
Tabela 1. Amostragem para diagnose foliar em algumas culturas (adaptado de Pauletti, 2004).
Tabela 2. Teores de nutrientes considerados adequados para algumas culturas (adaptado de Pauletti, 2004).
Referências Bibliográficas
ARNON, D.J.; STOUT, P.R. The essentiality of certain elements in minute quantity for plants with special reference to copper. Plant Physiol., 14:371-375, 1939.
EPSTEIN, E.; BLOOM, A.J. Nutrição mineral de plantas: princípios e perspectivas. 2. Ed. Londrina. Editora Planta, 2006. 403p.
MALAVOLTA, E.; VITTI, G. C.; OLIVEIRA, S.A. Avaliação do estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. 2.ed. Piracicaba, Potafos, 1997. 319p.
MARSCHNER, H. Mineral nutrition of higher plants. 2 ed. London, Academic Press, 1986. 674p.
PAULETTI, V. Nutrientes: teores e interpretações. Castro, Fundação ABC, 2004. 86 p.
Revista Plantio Direto 119, setembro/outubro de 2010.