Integração Agricultura e Pecuária no Sul do Brasil


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Publicado em: 01/10/2010

Integração agricultura e pecuária no sul do Brasil

Thiago Stella de Freitas1 & Gaspar Santana21Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Gestor da Unidade de Negócios Produção Animal - Cooplantiothiago.stella@cooplantionet.com.br2Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Gestor da Unidade de Negócios Sementes - Cooplantio

1 Introdução

A atual conjuntura econômica, social e ambiental e o mundo globalizado em que vivemos, traz novas preocupações a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão ligados à atividade agropecuária. Além de buscar maior rentabilidade e maiores produtividades para atender a crescente demanda mundial por alimentos, o setor vem sendo pressionado pela própria sociedade a produzir alimentos mais saudáveis e a cumprir com as demandas ambientais. Dentro deste contexto, a Integração lavoura-pecuária (ILP) surge como alternativa viável para diversificar as atividades agrícolas e reduzir seus riscos intrínsecos, intensificando o uso da terra, de maneira a trazer maior rentabilidade, segurança e sustentabilidade ao sistema produtivo. Além disso, esse é um interessante argumento de marketing que ainda deve ser melhor explorado a favor da agregação de valor dos produtos agropecuários produzidos em sistemas de ILP.

Por acreditar totalmente no potencial desta tecnologia e no conjunto de vantagens que ela traz aos produtores, a Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto (Cooplantio) está investindo neste segmento e já conta com um setor de produção animal para levar esta tecnologia aos seus associados. No entanto, existem alguns paradigmas tanto por parte da comunidade técnica quanto pelos produtores que dificultam a adesão da ILP em larga escala. Assim, neste artigo, pretende-se apresentar e discorrer sobre as vantagens da exploração agropecuária com visão de sistemas de produção a fim de incentivar a adoção prática desta tecnologia.

2 Conceito de Integração lavoura-pecuária

Sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) podem ser definidos como aqueles sistemas onde as atividades de produção agrícola e pecuária são desenvolvidas de forma integrada (na mesma área) e sinérgica. Para que sistemas de ILP possam ser implementados com sucesso, podemos identificar quatro pré-requisitos básicos:

A) Rotação de cultivos em visão de sistemas de produção.

B) Utilização do sistema de plantio direto (SPD).

C) Uso de insumos e genótipos melhorados.

D) Melhoramento de todas as atividades produtivas envolvidas no sistema (sinergia).

Embora este não seja um conceito novo, ele vem ganhando substancial interesse no Brasil nos últimos anos, não somente devido aos benefícios econômicos e sociais que ele pode trazer quando bem implementado e manejado, mas também devido ao aumento da sustentabilidade do sistema produtivo como um todo. Quando praticada em associação a outras práticas conservacionistas, como o plantio direto e o manejo adequado das pastagens, a ILP aumenta a sustentabilidade do sistema de produção por incrementar a estrutura e a fertilidade dos solos, bem como proporcionar maior acúmulo e ciclagem de carbono por unidade de área.

No Centro-Oeste do Brasil, a ILP vem sendo utilizada principalmente como estratégia para recuperação de áreas degradadas, onde se promove um ou dois ciclos de agricultura para depois retornar a pastagens em solos com maior fertilidade em função das adubações realizadas nas culturas anuais anteriores, principalmente a soja. Neste sistema a agricultura se associa à pecuária e o atrativo desta parceria é a redução dos custos de formação das pastagens através da produção agrícola. No entanto, podemos identificar com clareza outro sistema de ILP, onde é a pecuária que se associa à agricultura. Este último é mais comum no sul do país e se desenvolve onde as principais rotações de culturas não acumulam biomassa suficiente para a manutenção da cobertura do solo que é necessária para a sustentabilidade da agricultura. Neste caso, o grande atrativo da associação da agricultura com a pecuária é o potencial que as plantas forrageiras possuem de acumular biomassa e garantir o sucesso do SPD, onde a cobertura de solo é fundamental para concretizar os benefícios deste sistema de cultivo (redução da erosão, melhorias da estrutura e infiltração de água etc).

Cabe ressaltar que sistemas integrados de produção, como a ILP, vêm evoluindo rapidamente e hoje há inúmeros trabalhos científicos e exemplos de produtores apontando a viabilidade e benefícios técnico-econômicos de sistemas mais complexos e com grande adaptabilidade a áreas de condições edafoclimáticas menos privilegiadas. A integração lavoura-pecuária-florestas (ILPF) também já é uma realidade. Desta forma, podemos identificar 4 tipos de integração de sistemas agrícolas com a pecuária, adaptados as condições do Sul do Brasil (Figura 1), sendo que a adoção de um ou outro sistema deve levar em conta o perfil e objetivos de cada propriedade rural e deve ser estudado caso a caso.

Além de dinâmicos, os modelos de ILP apresentados na Figura 1 permitem que os produtores se organizem e formem diversos tipos de parcerias que se adequem aos seus objetivos econômicos e produtivos. Como exemplo, podemos citar os produtores de milho/soja que tem praticado o cultivo de culturas de inverno para melhorar a cobertura de solo para o plantio direto. Muitos deles estão optando por utilizar esta massa forrageira para produzir carne em parcerias com produtores de terneiros, o que reduz a necessidade de capital para a compra de animais.

Figura 1. Tipos de integração de sistemas produtivos passíveis de uso no Sul do Brasil (A - ILP na metade norte do RS com cereais inverno/soja - cereais inverno/pastagens para engorda de novilhos ou produção de leite; B - ILP na Metade Sul do RS com arroz irrigado e pastagens para bovinos de corte; C e D – Agrosilvipastoril, eucalipto, pinus ou acácia negra com soja/milho/trigo/canola de um a 3 anos e pastagens para bovinos de corte ou ovino; D – Agrosilvipastoril, eucalipto, pinus ou acácia-negra - soja/milho/trigo/canola de um a 3 anos e pastagens para bovinos de corte ou ovinos).

3 Paradigmas sobre a integração lavoura-pecuária

O principal entrave na adoção e difusão dos sistemas de ILP está, sem dúvida, ligado ao tabu de que a entrada de animais nas áreas de lavouras causa compactação (Figura 2) ou outras alterações que possam comprometer os rendimentos as culturas em sucessão a pastagem. É importante salientar que a compactação de solos é geralmente causada pelo tráfego de máquinas e/ou pelo intenso pisoteio de animais associado à baixa disponibilidade de biomassa. Nestes casos, a compactação resulta na redução da aeração e da infiltração de água, o que aumenta a resistência do solo à penetração das raízes (Wagger & Denton, 1989; Trein et al., 1991) e ocorre restrição ao crescimento e interceptação radicular, podendo ocasionar a redução na produtividade das culturas, principalmente do milho, que é sensível a este processo. Tal preocupação é pertinente e deve existir a fim de motivar o adequado manejo dos animais, bem como das espécies forrageiras utilizadas no sistema.

Figura 2. Compactação de solo pelos cascos dos animais é um dos principais paradigmas a ser superado.

Nos últimos anos, a comunidade científica tem publicado consistentes trabalhos com resultados de longos períodos de avaliação de vários sistemas de ILP. Spera et al. (2009) estudaram cinco sistemas de produção na Região do Planalto do Rio Grande do Sul durante o período de 1993 a 2003: I) trigo/soja, aveia-branca/soja e ervilhaca/milho; II) trigo/soja, aveia-branca/soja e forrageiras anuais - aveia-preta + ervilhaca/milho; III) forrageiras perenes da estação fria - festuca + trevo-branco + trevo-vermelho + cornichão; IV) forrageiras perenes da estação quente - pensacola + aveia-preta + azevém + trevo-branco + trevo-vermelho + cornichão; e V) alfafa para feno, acrescentada em 1994, como tratamento adicional, com repetições em áreas contíguas ao experimento. Metade das áreas sob os sistemas III, IV e V retornou ao sistema I a partir do verão de 1996. As culturas, tanto de inverno como de verão, foram estabelecidas sob plantio direto. Neste trabalho, os autores chegaram a três conclusões importantes: 1) A densidade, porosidade total, microporosidade e macroporosidade sofreram alterações devidas aos sistemas de produção de grãos com pastagens a que o solo foi submetido, entretanto essas alterações não atingiram níveis que indiquem degradação do solo (Tabela 1); 2) Os sistemas que incluíram pastagens perenes apresentaram menor densidade do solo e maior porosidade total e macroporosidade na camada 0–2 cm que os sistemas compostos por lavoura anual ou lavouras e pastagens anuais e 3) O pisoteio pelo gado alterou os atributos físicos de solo, mas não em intensidade suficiente para degradar o solo.

Tabela 1. Densidade e porosidade total nas camadas de solo de 0-2 cm e 10-15 cm de profundidade em cinco sistemas de manejo de solo e em floresta tropical (Spera et al., 2009).

Carvalho et al. (2007) avaliaram o solo de seis propriedades rurais da região de Guarapuava (PR) a fim de verificar a existência de compactação de solos em áreas de ILP. Os dados foram coletados em duas épocas (dezembro/2000 e novembro/2001) e à profundidade de 0 a 2,5 cm e 10 a 12,5 cm da superfície do solo. Os resultados mostraram que houve um aumento da porosidade total do solo, que variou de 59% em 2000 para 79% em 2001 e não houve variação de umidade nas diferentes camadas de solo estudadas.

Cardoso et al. (2007) estudaram o efeito da intensidade e método de pastejo sobre a compactação e porosidade do solo em sistema de ILP. O ensaio foi conduzido entre 2004 e 2006 na Estação Experimental Agronômica da UFRGS após as culturas de verão. Os tratamentos consistiram de duas intensidades de manejo (baixa e moderada) e dois sistemas de manejo (lotação contínua e rotacionada) e verificou-se que não houve efeito dos tratamentos em relação à densidade do solo. Também a macroporosidade e a microporosidade não diferiram entre as áreas pastejadas e não pastejadas, sendo registrados maiores valores na camada superficial (0-2,5 cm). A macroporosidade foi maior após o segundo ciclo de lavoura e não diferiu entre as áreas cultivadas com soja e milho. Já a microporosidade diminuiu após os cultivos de soja e milho quando comparada à primeira amostragem. A porosidade total não diferiu entre os tratamentos e épocas de amostragem.

Em estudos de doutorado, Junior (2007) avaliou os efeitos de diferentes estratégias de uso do solo no inverno sobre o desempenho da cultura de milho semeado em sucessão a pastagens de inverno em sistemas de ILP na Região do Planalto norte de Santa Catarina. Os sistemas estudados foram: 1) consórcio de aveia-preta + azevém + ervilhaca + trevo-vesiculoso manejado sem pastejo e sem adubação nitrogenada (consórcio cobertura); 2) o mesmo consórcio, com pastejo e com 100 kg ha-1 de N (pastagem com N); 3) o mesmo consórcio, com pastejo e sem adubação nitrogenada (pastagem sem N); 4) nabo forrageiro, sem pastejo e sem adubação nitrogenada (nabo forrageiro); e 5) pousio, sem pastejo e sem adubação nitrogenada (pousio). Os tratamentos não afetaram as propriedades físicas e químicas do solo, bem como também não afetaram o desempenho da cultura de milho semeada em sucessão.

No que tange a ILP em solos de várzea cultivados com arroz irrigado, além da tradicional preocupação com a compactação dos solos, outra dificuldade que se apresenta é a correta escolha das espécies de pastagens. Os materiais que se mostram mais propícios para este tipo de ILP estão dispostos na Tabela 2.

Tabela 2. Espécies forrageiras mais propícias para a implantação em sistemas de integração lavoura-pecuária em solos de várzea cultivados com arroz irrigado (Adaptado de Marques, 2008).

Também existe o paradigma de que a silvicultura não é uma atividade compatível com a agricultura e/ou com a pecuária (Figura 3). Na ILPF estabelece-se o cultivo da espécie florestal com espaçamento ampliado entrelinhas, possibilitando a implantação de uma cultura de interesse comercial como soja, milho, feijão, sorgo, girassol, mandioca etc., nas entrelinhas por dois a três anos. Em seguida é implanta a cultura forrageira consorciada com o milho ou com o sorgo. Após a colheita dos grãos o pasto estará formado nas entrelinhas da floresta cultivada, permitindo a implantação da atividade de pecuária e a sua exploração até o corte da madeira. Nesse sistema as receitas das lavouras e da pecuária pagarão as despesas de implantação da floresta. Atualmente um macro projeto está sendo viabilizado pela Embrapa em todo o território nacional para gerar e transferir conhecimentos nesta área a fim de apoiar o desenvolvimento sócio econômico no meio rural. Tal projeto é coordenado pela Embrapa Transferência de Tecnologia, de Brasília, no Distrito Federal, e conta com o Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga), Embrapa Clima Temperado, escritórios de planejamento e contabilidade rural, cooperativas, associações de produtores rurais, entre outros parceiros, sendo realizado em unidades demonstrativas localizadas em propriedades da Metade Sul do Estado do Rio Grande do Sul, e na própria Embrapa, em Bagé. A principal dificuldade em ILPF refere-se à complexidade do sistema, que exige planejamento e melhor gestão da propriedade rural para uma perfeita sincronização da produção e para minimizar os riscos. Neste processo é importante definir e analisar quais investimentos deverão ser realizados (correção química e física do solo, máquinas e equipamentos), escolha da(s) espécie(s) e clone(s) florestal(is) com adaptação regional, qual(is) lavoura(s) a implantar no primeiro ano e nos subsequentes, qual(is) pastagem(ns) e qual será o tipo de exploração pecuária. Os sistema de ILPF geralmente são implantados através de uso do arado para que os corretivos possam ser incorporados a maiores profundidades. As adubações de base e de cobertura e os tratos culturais seguem as recomendações técnicas para cada cultura em particular. Também as máquinas e os equipamentos devem ser equipados com acessórios que impeçam interferência em outro segmento, como por exemplo a deriva da aplicação de herbicidas. As árvores devem ser plantadas primeiro, pois as suas linhas vão orientar o plantio das lavouras intercalares. Se as condições topográficas permitirem terrenos planos, a orientação das linhas de árvores deve ser no sentido leste-oeste, sentido que possibilita maior entrada de luz solar nas faixas de terra ocupadas primeiramente pelas lavouras e depois pelas pastagens. Caso contrário, estas deverão seguir a orientação de curvas de nível do terreno dotado de sistema de terraceamento para conservação do solo e da água. A decisão referente ao espaçamento dependerá da finalidade de uso da produção florestal, observando alguns quesitos que irão favorecer a operacionalização das atividades como um todo. Assim, o espaçamento deve levar em consideração a largura de operação dos equipamentos disponíveis, por exemplo, a largura da barra de pulverização. É necessário contabilizar um espaço de 1 m de cada lado da linha de árvores, que deve ser mantida limpa para não haver competição. Árvores novas de eucalipto são bastante sensíveis à competição. Espaçamentos de 6 m, 15 m ou mais entre as linhas são possíveis, sendo bastante comuns aqueles entre 10 m e 12 m. Em casos em que se pretende produzir lavouras por mais de dois anos, o espaçamento também é ampliado. Entretanto, em qualquer um dos casos de produção florestal associado a lavouras ou a pastagens, há possibilidade de implantar linhas duplas ou triplas de árvores num espaçamento menor, deixando faixas entre estas com a finalidade de cultivos intercalares de grãos e, posteriormente, implantação do pasto para criação de animais.

Figura 3. Paradigmas quanto a compatibilidade da agricultura e ou pecuária com a silvicultura.

4 Benefícios da integração lavoura-pecuária como estratégia de produção

4.1 Benefícios da lavoura para a pecuária

A) Rapidez e economicidade: a formação das pastagens após a utilização do solo para agricultura é mais rápida e a menores custos. Após o cultivo da soja, por exemplo, as plantas forrageiras podem se beneficiar do N fixado biologicamente por esta leguminosa, que pode ser superior a 100 kg de N/ha.

B) Produção de forragem na época mais crítica do ano: após o cultivo de verão é possível ocupar a área com forrageiras anuais ou perenes para alimentar os animais, seja sob pastejo ou mesmo mediante produção de fenos ou silagens conservadas.

C) Os dois pontos acima levam a uma maior rentabilidade da pecuária no sistema de produção.

4.2 Benefícios da pecuária para a agricultura

A) A integração lavoura-pecuária exige maior frequência de rotação de culturas anuais com forrageiras e isto proporciona redução de inóculos de pragas e doenças, inclusive quebrando os seus ciclos, bem como o das plantas daninhas.

B) Promove a recuperação e melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo. Quando bem manejadas e visando a sobra de biomassa no sistema, a abundância e agressividade das raízes das forrageiras, bem como a constante emissão de novas raízes, aliada à maior atividade biológica no solo, promovem a reciclagem de nutrientes, a deposição de altas quantidades de matéria orgânica na superfície e no perfil do solo e favorecem a aração biológica do solo em profundidades que dificilmente seriam alcançadas por equipamentos convencionais.

C) A grande quantidade de raízes das plantas forrageiras e promovem grande deposição de matéria orgânica e exsudados que melhoram a porosidade do solo e, consequente, permite maior armazenamento e disponibilidade de água para as culturas em sucessão as pastagens.

D) Desde que devidamente manejadas, a palhada proveniente das forrageiras garante quantidade suficiente para a proteção de toda a superfície do solo e, além de reduzir a evaporação da água no solo, dificultam a emergência de plantas daninhas e o ataque de fungos do solo sobre as plantas cultivadas.

4.3 Benefícios da integração lavoura-pecuária como sistema

A) Aumento na produção de grãos e de produto animal (carne, leite ou lã).

ILP com lavouras de arroz: Reis e Raupp (2006) relatam que, no RS, as experiências com pastagens cultivadas sobre solos hidromórficos apontam ganhos de peso vivo de novilhos de 180 a 615 kg/ha/ano, sendo que os ganhos totais variam com muitos fatores (ano, tipo e condição de drenagem do solo, espécies forrageiras, adubação e manejo, entre outros). Os ganhos médios diários por cabeça no período inverno – primavera podem atingir tetos de 1,2 a 1,3 kg de peso vivo, em boas pastagens, baseadas em leguminosas. Assim, podemos ver que o potencial de produção animal ao integrar a pecuária e arroz irrigado em visão de sistema é elevado, já que os ganhos médios de peso vivo anuais em resteva sem melhoramento obtido para novilhos bubalinos e para novilhos bovinos ficam na média de 73 kg/ha/ano e 100 kg/ha/ano, respectivamente (Marques, 2008).

ILP com lavouras de soja: em ensaio conduzido em Abelardo Luz (SC), Silveira et al. (2009) verificaram maiores produtividades na cultura da soja em sucessão a pastagens de aveia no inverno. As pastagens foram conduzidas sob quatro intensidades de pastejo (zero a 12 semanas de pastejo) e com ou sem adubação nitrogenada. A análise estatística dos dados indicou que a produtividade da soja foi maior sobre as áreas de aveia adubada (150 kg/ha de N), quando comparadas com as áreas de aveia sem adubação, e também que houve redução da produtividade nas áreas menos pastejadas em relação aquelas de maior intensidade de pastejo. A área de soja sob aveia adubada e com até 12 semanas de pastejo apresentou produtividade equivalente à soja seguida da aveia sem pastejo e sem adubação. A explicação para isso pode estar no fato de que o tratamento aplicado na aveia aumentou a produção de massa seca de aveia, permitindo uma maior disponibilidade de cobertura para a cultura da soja.

ILP com lavouras de milho: Assmann et al. (2003) estudaram a influência da adubação nitrogenada residual na cultura do milho em Sistema Plantio Direto, cultivado em sequência, em áreas que no inverno tinham presença e ausência de trevo branco e de animais em pastejo. O trabalho foi realizado na Estação Experimental da Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (FAPA), em Guarapuava (PR) nos anos agrícolas de 1999 e 2000. Embora não tenham sido identificadas diferenças estatísticas, as áreas com pastejo e com nitrogênio apresentaram produtividades de milho mais elevadas que as áreas sem pastejo, sendo possível concluir que a interação entre pastejo e adubação da pastagem no inverno contribuiu para a nutrição nitrogenada do milho.

B) Melhoramento e conservação das características produtivas e biológicas do solo. Souza et al. (2010) avaliaram áreas de ILP implantadas em terras com 10 anos de plantio direto entre os anos de 2001 e 2006 na região das missões (Rio Grande do Sul). O objetivo do trabalho foi avaliar o impacto de diferentes intensidades de pastejo da pastagem de inverno (aveia-preta + azevém; 10, 20 e 40 cm, e um tratamento sem pastejo) sobre a atividade microbiana e sobre os teores e estoques de C, N e P na biomassa microbiana na camada de 0–10 cm de um Latossolo Vermelho durante o ciclo da pastagem. Os teores e estoques dos nutrientes na biomassa e a atividade microbiana foram alterados pela intensidade de pastejo e pela época no ciclo da pastagem. Neste estudo, os autores concluíram que sistemas de ILP em plantio direto mantêm a qualidade biológica do solo, sendo, sob adequada lotação animal, similar ao sistema plantio direto sem a entrada de animais. No entanto, sob alta intensidade de pastejo (10 cm) e em condições de estresse hídrico, há perdas na qualidade do solo.

C) Maior estabilidade econômica do sistema de produção, uma vez que a pecuária é uma atividade de menor risco que a da agricultura. Durante os anos de 1990 a 1995, Fontaneli et al. (2000) avaliaram quatro sistemas de produção de grãos com pastagens em SPD no Centro de Extensão e Pesquisa Agronômica da UPF, em Passo Fundo – RS. Os sistemas de produção foram os seguintes: I) trigo/soja, aveia-preta pastejada/soja e aveia-preta pastejada/soja; II) trigo/soja e aveia-preta + ervilhaca pastejadas/milho; III) trigo/soja, aveia-preta + ervilhaca pastejadas/soja e aveia-preta + ervilhaca pastejadas/milho; e IV) trigo/soja, aveia-branca/soja. Na média dos seis anos, o sistema II mostrou maior receita líquida (R$ 432,71/ha) do que o sistema IV (R$ 322,93/ha). Por sua vez, o sistema II não diferiu significativamente dos sistemas I (R$ 377,93/ha) e III (R$ 400,27/ha) e a ILP sob sistema de cultivo plantio direto foi viável tanto para as culturas de inverno e de verão como para a engorda de bovinos no período.

D) Maior sustentabilidade do sistema e redução dos impactos ambientais. Galharte & Crestana (2007) relatam que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) produziu um instrumento capaz de avaliar os impactos ambientais eventualmente produzidos por sistemas de ILP. Tal sistema é chamado de Ambitec-Agro e foi utilizado em um estudo envolvendo 13 pesquisadores envolvidos com sistema de ILP a fim de detectar possíveis impactos ambientais em seus trabalhos. O resultado do trabalho mostrou índices positivos e significativos no aspecto conservação ambiental, pois foram identificadas melhorias na qualidade da água, qualidade do solo e na biodiversidade.

E) Otimização dos recursos produtivos da propriedade (máquinas e mão-de-obra) e capitalização dos produtores. Lazzarotto et al. (2010) analisaram, de forma comparativa e sob situações de riscos operacionais e de mercado, a viabilidade financeira de sistemas com integração lavoura-bovinocultura de corte frente a sistemas caracterizados pela exploração de grãos ou pela especialização na bovinocultura de corte no Estado do Paraná, especialmente da microrregião de Guarapuava, onde foram obtidos indicadores financeiros de longo prazo: valor presente líquido, taxa interna de retorno e razão benefício/custo. Com base nos resultados, conclui-se que, tanto em situações determinísticas como de incertezas, o sistema de integração é a alternativa que propicia os melhores resultados financeiros.

5 Incentivos governamentais

A partir de setembro de 2008, foi iniciada a execução do projeto do Macroprograma de transferência de Tecnologia da Embrapa (MP4) intitulado ”Desempenho de sistemas de produção integrados de bovinocultura de corte e de arroz no Bioma Pampa”, que está sendo conduzido com o objetivo geral de quantificar o efeito de diferentes sistemas de produção e transferir tecnologia de exploração da bovinocultura de corte em áreas que já vem sendo cultivadas com arroz, visando aumentar as áreas de integração lavoura e pecuárias (ILP) e gerar sistemas agropecuários mais produtivos e rentáveis no extremo Sul do Brasil.

O Plano Agrícola e Pecuário 2010/2011 do Ministério da Agricultura também está incentivando a agropecuária sustentável. Dentre as novidades deste plano está a criação do Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), que conta com uma disponibilidade de recursos equivalente a R$ 2,4 bilhões e é parte das ações do governo para levar o Brasil a atingir as metas de reduzir em até 39% as emissões de gases de efeito estufa até 2020, assumida na COP 15 em Copenhague. Com isso estima-se que deveremos cultivar mais 8 milhões de hectares pelo SPD, outros 4 milhões de hectares deverão adotar a ILP, mais 3 milhões de hectares serão cultivados com florestas comerciais e mais 15 milhões de hectares de áreas degradadas deverão ser recuperadas nos próximos 10 anos (Tabela 3). Os juros do financiamento são de 5,5% ao ano e o prazo de reembolso é de 12 anos.

Tabela 3. Metas da agricultura de baixo carbono até 2020.

Outra fonte de financiamentos é o Produza (Programa de Estímulo a Produção Agropecuária Sustentável), cujo limite de recursos é de R$ 400 mil por beneficiário, sendo que produtores com reserva legal averbada e APP preservada, ou em processo de adequação, terão direito a 15% a mais durante este ano. Além disso, o limite de financiamento do Moderagro (Programa de Modernização da Agricultura e Conservação de Recursos Naturais) foi elevado de R$ 250 mil para R$ 300 mil por beneficiário.

6 Considerações finais

Pelo exposto e discutido neste artigo pode-se dizer que os benefícios da integração lavoura-pecuária podem ser sintetizados da seguinte forma:

A) Agronômicos, por meio da recuperação, manutenção e até mesmo melhoria das características produtivas do solo.

B) Econômicos, por meio da diversificação de oferta e obtenção de maiores rendimentos a menor custo e com qualidade superior.

C) Segurança: a presença da pecuária no sistema de produção reduz os riscos inerentes à atividade agrícola, conferindo maior estabilidade ao sistema de produção.

D) Ecológicos, por meio da redução da biota nociva às espécies cultivadas e consequente redução da necessidade de defensivos agrícolas, e redução da erosão.

E) Sociais, pela distribuição de renda mais uniforme, maior geração de tributos e de empregos diretos e indiretos, além de fixação do homem ao campo. Na zona rural, a geração de um novo posto de trabalho custa inúmeras vezes menos que na zona urbana.

Fica claro, também, que a agricultura precisa da pecuária para ser mais sustentável e a pecuária precisa da agricultura para ser mais rentável e quanto mais alimentos pudermos tirar da terra de forma inteligente, menos terra será necessário tirar nos ecossistemas naturais e os produtores podem contar com a ajuda governamental em termos de disponibilidade de recursos financeiros para colocar os projetos em prática.

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Revista Plantio Direto, edição 119, setembro/outubro de 2010.