Hipótese Borlaug


Autores:
Publicado em: 01/10/2010

Hipótese Borlaug: intensificação versus extensificação da agricultura

1. Introdução

A produção agrícola mundial, ao longo da história da humanidade, para fazer frente ao crescimento da população e a consequente maior demanda por alimentos, afastando de vez o espectro de mau agouro das previsões do reverendo Thomas Robert Malthus (”população em progressão geométrica versus produção de alimentos em progressão aritmética”), aumentou tanto pela expansão da área cultivada (extensificação) quanto pela elevação do rendimento dos principais cultivos por unidade de área (intensificação); com destaque, nos últimos 50 anos, para ganhos em produtividade (kg/ha). Enquanto a área cultivada no mundo, no período 1961-2005, cresceu 27% (passando de 960 para 1.208 Mha), o rendimento dos cultivos obteve incremento de 135% (de 1,84 para 3,96 t/ha), especialmente nos cereais (trigo, milho e arroz) e em oleaginosas (soja, girassol e canola), conforme dados citados por Burney et al. (2010). Esses ganhos em rendimento foram decorrentes do uso de cultivares mais produtivas e de melhoria nas práticas de manejo dos cultivos, envolvendo o uso de fertilizantes, pesticidas, irrigação e mecanização; entre outras.

Não obstante os resultados alcançados pela intensificação da agricultura, cujo fenômeno histórico atende pelo nome de Revolução Verde, ainda pairam dúvidas sobre as suas consequencias ambientais. Alega-se a expansão da agricultura em biomas que, em tese, deveriam ser preservados em nome da biodiversidade, a retirada de florestas para dar lugar à pecuária, as queimadas, a poluição de águas, o assoreamento e eutroficação de rios e lagos, etc. A questão principal é se a dita agricultura moderna pode suprir, sob os pontos de vista ético e de sustentabilidade, as necessidades futuras da humanidade, especialmente considerando-se a emissão de gases de efeito estufa e as ameaças da mudança do clima global.

Discutir a chamada Hipótese Borlaug, uma expressão que homenageia o cientista americano Norman Ernest Borlaug (1914-2009), cujo trabalho em melhoramento genético de trigo, realizado no CIMMYT, e o envolvimento na luta para acabar com a fome no mundo (vide Borlaug, 1983), via a elevação da produção de alimentos pela intensificação da agricultura, o levariam a ser agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, em 1970, é o objetivo deste ensaio. Afinal, existe outra forma de agricultura que seja capaz de alimentar o mundo?

2. Que é Revolução Verde?

Amor sem limites e ódio ao extremo são os dois sentimentos que costumam permear os debates sobre o fenômeno de intensificação da agricultura mundial pela via tecnológica, que abrangeu mais especificamente o período de 1960 a 1980, conhecido por Revolução Verde. E, quando sentimentos se sobrepõem à razão, algumas questões relevantes são deixadas de lado, impedindo que se tenha uma visão clara dos acontecimentos, suas causas e consequências. O distanciamento, no tempo e no espaço, nos faculta, hoje, uma posição de expectadores privilegiados do fenômeno, permitindo-nos o entendimento da Revolução Verde de forma não passional, independentemente de qualquer posicionamento favorável ou contrário.

A Revolução Verde fundamentou-se no uso de tecnologia em agricultura, com vistas à elevação de rendimentos, envolvendo, particularmente, novas cultivares, maior quantidade de adubo e uso intensivo de água. Eram, acima de tudo, as leis de Mendel postas em prática na clássica tríade ”sementes, fertilizantes e água”. Por que isso aconteceu? Não há explicação única, mas sim redes de explicações. Para começar, devemos desmistificar idéias erradas ou distorcidas. E a primeira delas é essa: ”A Revolução Verde nos países pobres seria resultante da ajuda humanitária das nações ricas”. Em parte sim, mas não totalmente. Uma outra: ”A Revolução Verde foi uma estratégia das corporações multinacionais para vender adubos e pesticidas”.Essas empresas, certamente, encontraram na Revolução Verde uma motivação para vender seus produtos, mas a iniciativa não partiu delas. Ainda: ”A Revolução Verde foi um fenômeno exclusivo dos países pobres”.Totalmente falsa, pois foi um fenômeno global. E, os questionamentos: ”A Revolução Verde foi um fracasso ou um sucesso?”, ”A Revolução Verde exacerbou a fome no mundo?” e ”A Revolução Verde acabou?”. Respostas: Depende do critério de sucesso. Por um lado aumentou a produção de alimentos, mas não acabou com a fome, pois a proposta apenas tangenciou a questão da pobreza. Mas, certamente, não foi uma tragédia como apregoam muitos (poderia ter sido pior!). Quanto à resposta para a pergunta sobre o fim da Revolução Verde, vale dizer que acabou no sentido de que não é mais novidade. Tornou-se a prática padrão na agricultura mundial.

São simples (e às vezes até simplistas) as conjecturas históricas necessárias para o entendimento dos bastidores da Revolução Verde. Entram no jogo, em plena Guerra Fria, teorias de segurança nacional e ações dos EUA para combater possíveis insurreições comunistas ao redor do mundo. O fantasma de Malthus ”gritando” que a humanidade tende à miséria pela imprevidência da força da reprodução humana levou muita gente a acreditar que o crescimento populacional em alguns países pobres era demasiadamente elevado e que se tornaria insuportável. Da superpopulação para a fome e a suscetibilidade ao comunismo, na visão dos americanos, era apenas um passo. Assim, efetivamente, os governos dos EUA, Reino Unido, México é Índia usaram o aumento da produção de alimentos como estratégia de segurança nacional. Cada qual com suas motivações. Estados Unidos da América para combater os comunistas. Reino Unido para reconstruir sua economia combalida pela Segunda Guerra Mundial e de olho no comércio dos excedentes. México para aumentar suas reservas (diminuindo importações) e influências na América Latina Índia para se recuperar do atraso deixado pelo imperialismo britânico e enfrentar a guerra com o Paquistão, além das catástrofes climáticas. Portanto, não há dúvida que planejadores econômicos e líderes políticos viram na Revolução Verde e no aumento da produção de alimentos uma dimensão de segurança nacional, que não se restringiu aos países pobres (terceiro mundo, como se chamava na época. Hoje, países em desenvolvimento).

O termo Revolução Verde (Green Revolution) foi cunhado em 1968 por William S. Gaud, diretor da United States Agency for Internacional Development (USAID), para descrever o aumento na produção de alimentos a partir da transferência de tecnologia associada com a introdução de novas cultivares de trigo e de arroz na Índia, no Paquistão e em outras partes do mundo pobre. Para Norman Borlaug, cientista símbolo do movimento, a Revolução Verde representou uma nova era para a pesquisa agrícola, baseada em princípios modernos de genética e melhoramento de plantas, manejo de cultivos e análises econômicas, com vistas ao desenvolvimento de soluções tecnológicas para os problemas dos agricultores.

3. Hipótese Borlaug

Há quem afirme que a maior contribuição da Revolução Verde foi, pela elevação do rendimento dos cultivos, preservar áreas que teriam de ser usadas para a produção de alimentos frente ao crescimento da população mundial. Outros contra-atacam, alegando que a Revolução Verde, de fato, aumentou a dependência da humanidade pelos combustíveis fósseis, estreitou a base genética das plantas cultivadas e ampliou o uso de pesticidas na agricultura. E que outras formas de agricultura, menos intensivas em exploração de recursos do ambiente são possíveis. Quem está certo?

Norman Borlaug sempre defendeu que a intensificação da agricultura, elevando o rendimento dos cultivos, ao contrário do que muitos apregoam, no lugar de destruir a natureza, se prestava para preservar biomas, evitar a derrubada de florestas e proteger o ambiente. Essa assertiva ficou conhecida como hipótese Borlaug, cujo estudo relativamente recente de pesquisadores da Universidade Stanford, publicado na edição de 14 de junho de 2010 da revista PNS (Burney et al., 2010), mesmo com contestações, por julgarem alguns que no referido trabalho foram omitidos outros custos ambientais, ainda não pode ser cientificamente, rejeitada; especificamente quando se leva em consideração a questão das emissões de gases causadores de efeito estufa.

O trabalho dos pesquisadores da Universidade Stanford (Burney et al., 2009) demonstrou que, embora a agricultura tenha sido responsável por cerca de 12% das emissões antropogênicas dos gases de estufa (dados de 2005), o carbono preservado pela não expansão das terras agricultadas foi superior às emissões decorrentes da atividade. Em resumo, concluíram que o investimento em pesquisa agrícola no mundo, que contabilizou US$ 1,2 trilhões, no período 1961-2005, implicou na redução das emissões de carbono a um custo de US$ 4 por tonelada. Destaca-se que este custo é inferior a 25% do valor dos créditos de carbono praticado na Europa em 2009. Investimento em pesquisa e desenvolvimento em agricultura, pelo que demonstrou o estudo da Universidade Stanford, parece ser uma das mais eficientes formas de mitigação das emissões dos gases de estufa; que, até então, não vinha sendo devidamente considerada.

Criticar a intensificação da agricultura, na questão da mudança do clima global, exige, no mínimo, certa cautela, pois, pelo que parece, ou, via ciência, tecnologia e inovação, damos um novo salto de produtividade nos principais cultivos agrícolas, a exemplo do alcançado em tempos de Revolução Verde, ou 1,5 a 2,0 bilhões de hectares no mundo deverão entrar em uso para alimentar uma a população que é projetada em 9 bilhões de pessoas, no ano 2050 (Tollefson, 2010).

4. Que tipo de agricultura pode alimentar o mundo?

Hoje, não falta comida no mundo, pela lógica do abastecimento (lado da oferta). De qualquer forma, um mundo sem fome ainda é utopia. E mesmo sendo estabelecida pelas Nações Unidas como uma das metas do milênio - reduzir, até 2015, de 850 milhões para 425 milhões o número de pessoas que sofrem com o flagelo da fome no mundo -, avançamos pouco nessa questão. Inclusive, em certo aspecto até regredimos, pois, em 2009, o número de famintos no mundo cruzou a barreira simbólica de um bilhão de pessoas. Houve um recuo em 2010, estabilizando o contingente de famintos/subnutridos em 925 milhões de pessoas. A menos que a situação comece a mudar de fato, talvez nem mesmo a ”medíocre” meta do milênio de reduzir em 50% a população de famintos no mundo venha a ser alcançada. E se não falta comida o que falta é renda para acesso aos alimentos. Não se pode ignorar que há uma fome endêmica causada pela pobreza extrema. Que existe uma ”fome oculta” (associada com má nutrição), decorrente da deficiência de micronutrientes (Ferro, Zinco, Iodo, Vitamina A, etc.). E que calamidades naturais e conflitos civis (guerras), especialmente quando conjugadas com situações de pobreza extrema, também podem causar fome. Diante do exposto, não é necessário grande esforço intelectual para perceber que para acabar com a fome no mundo não basta aumentar a disponibilidade de alimentos no mercado. Segurança alimentar é mais que isso. É necessário garantir o acesso econômico a uma dieta balanceada, respeitando-se a tradição alimentar dos povos (além de água potável, serviços básicos de saneamento, etc.).

Vivenciamos, no primeiro trimestre de 2008, preços ”aquecidos” das commodities agrícolas (com consequências no preço dos alimentos), e, de outro, elevação desmesurada de custos de produção (influindo na renda do produtor). Paralelamente, uma discussão que ressuscitou o fantasma de Matlhus e suas previsões apocalípticas, envolvendo um embate entre agricultura de alimentação versus agricultura de energia, protagonizado por Jean Ziegler, relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, e Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, que classificaram a produção de biocombustíveis de crime contra a humanidade, por reduzir a oferta de comida no planeta.

Não é difícil o entendimento de que crescimento de renda implica em maior demanda por alimentos. Especialmente na Ásia, em países de elevada densidade populacional, como China e Índia, é fato que, o crescimento econômico, tem propiciado mudança de hábitos alimentares e maior consumo de alimentos, pressionando o mercado agrícola e de insumos para produção. Isso, em associação com novos usos, caso dos biocombustíveis, tem propiciado uma mudança no balanço global de grãos, com, em certos casos, redução de estoques de produtos e elevação de preços. Além de que, para suportar o crescimento da produção agrícola, por exemplo dos EUA produzindo mais milho em detrimento de soja (milho consome mais fertilizante que soja), aumentou a demanda mundial por fertilizantes, que se somou à redução na capacidade de produção em alguns países exportadores (subsidio para compra de fertilizantes em países como China e Índia e imposto de exportação em países exportadores, como Rússia e China), refletindo-se em elevação de preços de fertilizantes e dos fretes oceânicos. Um caso típico de oferta e demanda, paralelamente a outros fundamentos de mercado, que, em 2008, envolveu também, depois da crise imobiliária americana, a atuação de fundos de investimentos, marcando posições no mercado de commodities agrícolas.

A comunidade científica da área das ciências agrárias é, frequentemente, confrontada com questionamentos (quase sempre, impregnados de preconceitos) sobre qual agricultura vai alimentar o mundo. Em geral, do tipo: pode a agricultura orgânica suprir a necessidade de alimentos no mundo? E a agricultura convencional é sustentável? Viram no que deu a Revolução Verde? Ciência e tecnologia vão resolver o problema da fome no mundo? É justo plantar energia em vez de comida? Entre outras tantas variantes deste mesmo gênero.

A chamada agricultura orgânica ocupa, atualmente, cerca de 0,3% das terras cultivadas no mundo. Em sua maior parte, nos países desenvolvido (0,3% nos USA e 3,4% na Europa), sob estímulo de consumidores disposto a pagar prêmios por alimentos em tese mais seguros para a saúde e para o ambiente (além de outros incentivos). Essas terras são cultivadas obedecendo a regras de associações/agências reguladoras, que, no caso dos cultivos agrícolas, desaconselham o uso de compostos inorgânicos para nutrição de plantas (adubos químicos), pesticidas sintéticos (venenos) para controle de doenças, pragas e plantas daninhas e, mais recentemente, cultivares geneticamente modificadas. Também estimulam rotação e consórcios de cultivos, para recuperação da fertilidade dos solos e controle de doenças e pragas e supressão de plantas daninhas (práticas essas que são amplamente usadas na agricultura convencional também). Simultaneamente, tem cada vez despertado mais atenção na agricultura convencional, o emprego de boas práticas agrícolas, envolvendo a integração de agroquímicos com processos biológicos e a preconização de uma agricultura de base conservacionista.

Algumas análises indicam que, pelo modelo de agricultura orgânica preconizado, seria possível, hoje, alimentar entre três e quatro bilhões de pessoas no mundo (boa parte de nós sobraria nessa conta). Muitas dessas análises se baseiam no desempenho dos sistemas agrícolas do século 19 (antes da dispersão de uso de fertilizantes e pesticidas químicos na agricultura), quando um bilhão de pessoas habitava o planeta. Essa é uma crítica a esse tipo de raciocínio, embora o argumento da comparação com o século 19 não seja de todo descabido, pois mesmo com os grandes avanços de rendimento alcançados na moderna agricultura, não houve alterações substancias no metabolismo das plantas cultivadas em termos de necessidades de nutrientes para suportar o crescimento. Todavia, há estudos, como o de Badgley et al. (2007), que sustentam a possibilidade da agricultura orgânica elevar a produtividade dos cultivos a tal ponto de poder suprir a necessidade de alimentos para toda a população mundial. Os defensores do sistema orgânico advogam que uma reconversão total da agricultura mundial para o lado orgânico não reduziria a produção de alimentos. Muito pelo contrário, aumentaria a segurança alimentar nos chamados países em desenvolvimento. Também dão destaque que a idéia (muito difundida) de a agricultura convencional ser mais barata não passa de uma falácia. Em geral, não são computados os custos ambientais e para a saúde humana. Quando incorporados, fica demonstrado que o sistema orgânico de agricultura é muito superior ao convencional; realçam os seus partidários.

No outro extremo, evidências teóricas, práticas e analíticas dão como inválidas as conclusões de estudos como o de Badgley et al. (2007), uma vez que, não é difícil diagnosticar, dados mal interpretados e, por consequência, cálculos derivados errados; contra-argumentam com firmeza os defensores da agricultura convencional. O australiano D.J. Connor, especialista em sistemas agrícolas da Universidade de Melbourne, não tem dúvida que as conclusões de Badgley et al. (2007) não são corretas. Em artigo publicado na revista Field Crops Research (Connor, 2008) destaca que os referidos autores estimaram a produção possível para a agricultura mundial levando em conta uma relação de rendimentos entre sistemas orgânicos e convencionais derivada de estatísticas nacionais da base de dados da FAO. Essa razão matemática média (agricultura orgânica/agricultura convencional) usada pelos pesquisadores da Universidade de Michigan foi de 0,91 e de 1,74, para os países desenvolvidos e em desenvolvimento; respectivamente. Há que se entender melhor esses números e suas origens, para a formação de qualquer juízo de valor.

As conclusões do estudo de Badgley e colaboradores se fundamentam na superioridade em rendimento dos sistemas orgânicos frente aos convencionais nos países em desenvolvimento. A razão 1,74 (orgânico/convencional), derivada de estatísticas agrícolas nacionais, corrobora esta assertiva. O primeiro questionamento é o desequilíbrio em magnitude das áreas cultivadas sob os dois sistemas. Em sendo, na atualidade, muito maior a área de agricultura convencional, naturalmente, essa comporta uma maior diversidade de condições de ambiente, que se reflete no seu desempenho produtivo. Também, em muito países em desenvolvimento, de agricultura tecnologicamente atrasada e de baixo rendimento, os sistemas orgânicos, que recebem nutrientes de origem orgânica tem vantagem frente aos sistemas convencionais que recebem pouco ou nada de fertilizantes minerais. A transposição linear do desempenho dos sistemas orgânicos frente aos convencionais nos países em desenvolvimento, pelo exposto, é frágil, superestimando a produção em larga escala da agricultura orgânica.

Algumas comparações são vantajosas para os sistemas livres de agroquímicos. Caso da eficiência no uso de energia, manutenção de biodiversidade e preservação da capacidade produtiva dos solos. Mesmo com rendimentos inferiores, os ganhos ecológicos dos sistemas orgânicos, inquestionavelmente, são maiores.

O debate da segurança alimentar pela lógica única da produção de alimentos (lado da oferta) é deslocado no tempo, pois, hoje, estamos produzindo alimentos suficientes para todos (a questão que se impõe é a de geração de renda para acesso aos alimentos). Isso reforça a indicação de que podemos e devemos buscar melhores práticas na agricultura (orgânica e/ou convencional). Por exemplo, na Europa, se poderia, sem dúvida, produzir alimentos com menos químicos. Já, na China e na Índia, isso poderia vir a ser um desastre. Resumindo, o que não nos servem são análises limitadas em termos de conceitos de ecologia de cultivos, práticas agronômicas e economia.

5. Considerações finais

O desafio da agricultura é suprir, de forma sustentável, a humanidade em suas necessidades em alimentos, fibras e, em tempos recentes, também de energia.

A população mundial mais que dobrou, desde a segunda metade do século 20. E, apesar de nada justificar a existência de gente passando fome no mundo, diante do crescimento da populacional, foi graças ao aumento da produção agrícola que o contingente de ”famintos/subnutridos”, embora em magnitude tenha aumentado, proporcionalmente diminuiu drasticamente. Não obstante, estima-se que, na atualidade, uma em cada sete pessoas não tem acesso a uma dieta, quantidade e qualidade, para suprir plenamente as suas necessidades em proteína e energia, sofrendo algum tipo de deficiência nutricional. Uma vergonha, para o tamanho da nossa pretensão de humanidade (erradicar a fome no mundo é o mínimo, não diminuir em 50%; conforme uma das metas do milênio). Estamos, de fato, frente a um problema que pode se agravar, pois projeções indicam que a população mundial deverá continuar crescendo, vindo a se estabilizar ao redor dos nove bilhões de criaturas humanas por volta do ano 2050.

Paralelamente ao crescimento populacional, mesmo havendo indícios de desaceleração, há que se considerar a melhoria de renda da parte mais pobre da população mundial, demandando mais comida e em função de mudanças no padrão de consumo, envolvendo, especialmente, alimentos processados, carnes, lácteos, peixes etc., uma forte pressão deverá incidir sobre os sistemas de abastecimento, exigindo cada vez mais produtividade e eficiência dos sistemas agrícolas.

Além de todos os aspectos mencionados, a produção de alimentos tem de enfrentar a competição por terra, água e energia (Smith et al., 2010), bem como contornar os efeitos negativos da prática agrícola sobre o ambiente num cenário de mudança do clima global, em que não se sabe ainda como as medidas de mitigação e adaptação podem afetar a segurança alimentar do planeta.

Os desafios do mundo, na questão de segurança alimentar, nem sempre são facilmente percebidos por todos, especialmente por aqueles, a exemplo dos signatários deste ensaio, que não sabem o que é passar fome. A questão posta é como atender a necessidade de abastecimento de alimentos, em um mundo que cresce em população e em exigência em qualidade de alimentação (segurança alimentar e alimentos seguros). E fazer isso de uma forma que seja ambientalmente e socialmente sustentáveis, buscando erradicar do planeta o flagelo da fome.

A superação dos desafios postos requer mudanças radicais nas formas de produção de alimentos, na estrutura de armazenagem (diminuir perdas e manter qualidade), no processamento (tecnologia de alimentos), nos canais de distribuição e, particularmente, no acesso das pessoas a uma alimentação adequada (pela melhoria na distribuição de renda). Havendo, inclusive, quem julgue a necessidade de mudanças mais radicais que aquelas registradas na época das Revolução Industrial (século 18) ou da Revolução Verde (1960-1980). Aumentar a produção de alimentos será imperativo, porém em um mundo consciente que os recursos naturais são finitos. Eis a tarefa nada simples das ciências agrárias, conforme bem explicita em comentários para a revista The Plant Cell, edição de setembro de 2007, Steven J. Rothstein, professor do Departamento de Biologia Molecular da UniversidadeGuelph/Canadá (Rothstein , 2007).

A via da intensificação sustentável, nesse momento, se apresenta como o caminho mais viável para a agricultura global e seus desafios. Em outras palavras, a Hipótese Borlaug, pelo que se depreende deste ensaio, ainda não pode ser rejeitada.

6. Bibliografia citada

BADGLEY, C.; MOGHTADER, J.; QUINTERO, E.; ZAJKEM, E.; CHAPPELL, M. J.; AVILÉS-VÁZQUEZ, K.; SAMULON, A.; PERFECTO, I. Organic agriculture and the global food suply. Renewable Agriculture and Food Systems, v. 22, p. 86-108, 2007.

BORLAUG, N. Contribution of conventional plant breeding to food production. Science, v.219, p. 689-693, 1983.

BURNEY, J. A.; DAVIS, S. S.; LOBELL, D. B. Greenhouse gas mitigation by agricultural intensification. Proceedings of the National Academy of Science, v.107, n. 26, p. 1252-1257, 2010.

CONNOR, D. J. Organic agriculture cannot feed the world. Field Crops Research, v. 106, p. 187-190, 2008.

ROTHSTEIN, S. J. Returning to our roots: Making plant biology research relevant to future challenges in agriculture. The Plant Cell, v. 19, p. 2695-2699, 2007.

SMITH, P.; GREGORY, P. J.; VAN VUUREN, D.; OBERSTEINER, M; HAVLIK, P.; ROUSEVELL, J. W.; STEHFEST, E.; BELLARBY, J. Competition for land. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 365, p. 2941-2957, 2010.

TOLLEFSON, J. Intensive farming may ease climate change. Nature, v. 465, p.853, 2010,

Revista Plantio Direto, edição 119, setembro/outubro de 2010.