Ocorrência de Soja Louca II no Estado do Paraná: relato de caso
Fernando FáveroEngenheiro Agrônomo Responsável Estação Experimental – Copacol - Cafelândia - PR - e-mail: estacaoexperimental@copacol.com.br
Relatos de casos do abortamento de vagens, de retenção foliar e haste verde foram discutidos pela pesquisa de soja brasileirana safra 2009/2010. O Paraná também observou casos na última safra, embora o problema tenha sido relatado com maior ênfase nas Regiões Norte e Central do Brasil. Várias áreas cultivadas no Oeste do Estado do Paraná apresentaram o problema, mas a pesquisa ainda não tem respostas conclusivas.
Figura 1. Precipitação, temperatura, máxima, mínima e média durante o período de execução do ensaio em Cafelândia – PR.
Foi identificado na região de atuação da Cooperativa Agroindustrial Consolata (COPACOL) na safra 2009/2010, em local onde estava sendo conduzido ensaio com o propósito de avaliar as diferentes combinações de produtos usados no tratamento de sementes de soja, além de novas combinações. Já na fase vegetativa foi observado que alguns tratamentos apresentavam coloração mais escura (Figura 2A), levando a crer que as parcelas haviam recebido inoculação das sementes e/ou utilização de Cobalto e Molibdênio (CoMo), potencializando a fixação de N atmosférico e favoreciam o acumulo de N nas folhas. Ao mesmo tempo, lavouras comerciais com o mesmo cultivar ou semeadas na mesma época, apresentavam sintomas de deficiência de N. Foram feitas comparações entre produtores que haviam inoculado as sementes e, nesses casos, os sintomas de deficiência de N eram menores. O comparativo entre as parcelas do ensaio e as lavouras comerciais provocou a reflexão sobre o problema, pois em algumas áreas comerciais foi recomendado o uso de Mo aplicado na parte área ainda na fase vegetativa. Nessas áreas foi corrigida a deficiência de N e, posteriormente, foi constatado que na fase de colheita a produtividade foi maior e a ocorrência de ”haste verde” foi reduzida quando comparada a testemunha.
Figura 2. Resposta visual à deficiência de N na soja em função do uso da inoculação (Bradirizobium japonicum 100.100 kg.ha-1) na fase vegetativa (A) e na fase de colheita (B).
A partir de meados de fevereiro, quando as primeiras áreas dos cultivares semeados no final de outubro começaram a entrar na fase de maturação, observou-se um elevado percentual de plantas com atraso no processo e, portanto, recomendou-se a dessecação das áreas para efetuar a colheita. Foram contatadas Instituições de Pesquisa para buscar informações sobre o que estava ocorrendo nas lavouras da região. Já haviam diversos relatos da ocorrência de uma anomalia batizada de ”soja louca” de causa desconhecida nos Estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Roraima. Em outras regiões do Paraná foram observadas áreas que apresentavam os mesmos sintomas.
O ensaio entrou na fase de maturação apresentando problemas. Porém, foi observado que algumas parcelas não apresentavam ”haste verde” (Figura 3 – A e B).
Figura 3. Inseticida 3 (A) e Inseticida 3 + CoMo (B).
Por essa razão, avaliou-se a interferência do tratamento de sementes na redução da presença de plantas anormais. A equipe técnica e produtores visitaram os ensaios e compararam os tratamentos.
Metodologia
Sementes de soja do cultivar BMX Magna RR foram tratadas com diferentes produtos utilizados no tratamento de sementes (inseticidas, enraizadores, inoculação e micronutrientes), para avaliação das respostas no controle de pragas e rendimento de grãos na Estação Experimental da Copacol (Cooperativa Agroindustrial Consolata). A Estação Experimental está localizada no município de Cafelândia, oeste do estado do Paraná a uma altitude de 540 m. O solo é classificado como: Latossolo Vermelho Distroférrico (EMBRAPA, 1999) de textura argilosa (62 % de argila). Por ocasião da implantação do ensaio as características químicas coletadas de 0 – 20 cm foram: pH (CaCl)= 4,7; M.O= 3,72 %; P= 21,3 mg.dm-3; K= 258 mg.dm-3; Ca= 4,99 cmolc.cm-3; Mg= 1,56 cmolc.cm-3; Al= 0,14 cmolc.cm-3; T 14,69 cmolc.cm-3; V= 49,1 %; S= 7,72 mg.dm-3; Cu=24,15 mg.dm-3; Zn= 35,90 mg.dm-3; Fe: 42,00 mg.dm-3; Mn= 223,00 mg.dm-3 e B= 0,72 mg.dm-3. As informações meteorológicas ocorridas durante o período de condução do ensaio estão descritas na Figura 1.
As culturas antecessoras foram soja (2007/2008), trigo (2008), milho (2008/2009) e trigo (2009). Os 11 tratamentos (Tabela 1) foram semeados em DBC com 3 repetições e as parcelas constituíam de 7 linhas x 14 metros. As sementes foram tratadas 3 dias antes da implantação do ensaio. A semeadura ocorreu no dia 3/11/2009 com 250 kg.ha-1 da fórmula 02 24 26 no sulco de semeadura. Os controles de plantas daninhas, pragas da parte aérea e doenças foram realizados de acordo com as recomendações oficiais, conforme o surgimento das mesmas, para todas as parcelas.
Tabela 1. Rendimento e frequência de plantas anormais na soja (cv, Magna) em função dos diferentes tratamentos de sementes, Cafelândia, PR, Safra 2009;2010
Avaliou-se ainda o rendimento de grãos através da colheita de 4 linhas centrais x 5 metros, essa amostra foi trilhada, pesada em balança de precisão, constatada a umidade e após, calculado o rendimento. A freqüência de plantas com anomalia de ”haste verde” foi calculada de acordo com a contagem de 3 linhas x 5 metros do número de plantas totais e com anomalia, e depois de calculada o percentual. O número de vagens por planta, grãos por vagens e peso de mil grãos (PMG) foi efetuado através da contagem do número de grãos e vagens em plantas presentes em 1 metro linear. Avaliou-se também o número de grãos e vagens presentes em 20 plantas com sintomas da anomalia e plantas normais.
Os dados foram submetidos à ANOVA, e as médias comparadas pelo teste de Tukey à 5% de significância. O número de grãos e vagens presentes nas plantas anormais foi submetido à comparação pelo teste T.
Resultados
Os resultados mostram que os tratamentos que continham inoculação e ou utilização de CoMo na semente apresentaram uma freqüência muito baixa de plantas anormais o que refletiu no rendimento de grãos (Tabela 1). As demais combinações de tratamentos de sementes não diferiram entre si. O fator determinante para o aumento do rendimento de grãos neste ensaio foi à freqüência de plantas anormais (Figura 4). Não se observou diferença significativa (P>0,05) para a variável PMG.
Figura 4. Rendimento da soja (Magna RR) em função da freqüência de plantas anormais.
O uso da inoculação de sementes de soja com bactérias fixadoras de N (Bradyrhizobium) é bastante antigo e recomendado pelos órgãos de pesquisa, porém não é executado por todos os produtores (Embrapa, 2010). A redução do uso de inoculação deve-se principalmente a dificuldade do tratamento em função da necessidade de realização da inoculação poucas horas antes da semeadura. Parcelas que receberam a inoculação de sementes não apresentaram sintomas de deficiência de N na fase vegetativa e não apresentaram problemas de haste verde (Figura 2).
As plantas anormais apresentaram menor número de vagens por planta e menor número de grãos por vagem quando comparadas com as plantas normais (Figura 5). O baixo número de vagens e grãos por vagem levou a falta de dreno dos fotoassimilados, ocasionado o problema de ”haste verde”. A deficiência na fertilidade do solo associada à alta temperatura no estádio R3 na primeira semana de fevereiro (Figura 1), pode ter promovido um estimulo hormonal a abscisão das vagens. Estudos fisiológicos precisam ser elaborados para confirmação da hipótese.
Figura 5. Número de grãos por vagem e vagens por planta de plantas de soja com anomalia.
O Mo é um componente essencial na atividade das duas principais enzimas no processo de absorção de N (nitrogenase e redutase do nitrato), influindo decisivamente no metabolismo do nitrogênio na planta (FLOSS, 2004). A disponibilidade deste elemento no solo está associado à elevação do pH, as respostas positivas encontradas neste trabalho estão relacionadas a indisponibilidade do elemento no solo em função de um pH baixo (4,7). Outro elemento essencial no metabolismo do N é o Co, a deficiência inibe a formação da leghemoglobina no nódulo, reduzindo a fixação biológica de N2 (FLOSS, 2004). De acordo com a Embrapa (2008) doses de 12 a 30 g.ha-1 de Mo e 2 a 3 g.ha-1 de Co são recomendas para melhorar a fixação biologia de N.
Na Tabela 1 observa-se que os tratamentos que continham Co e Mo no tratamento de sementes aumentaram significativamente o rendimento e reduziram a freqüência de plantas anormais, fator que aponta a possibilidade de que a ”soja louca II” esteja associada ao metabolismo do N, porém mais estudos necessitam ser elaborados para confirmação da hipótese.
Conclusão
O uso da inoculação e a utilização de CoMo no tratamento de sementes, reduziu a freqüência de plantas anormais e aumentou o rendimento de grãos.
Referências bibliográficas
FLOSS, E. L. Fisiologia das plantas cultivadas: o estudo que está por trás do que se vê. 2 ed. Passo Fundo, 2004. p. 214 -231
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Rio de Janeiro, 1999. 412p.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Inoculação das Sementes com Bradyrhizobium. Disponível em: http://www.cnpso.embrapa.br/producaosoja. Acesso em: 14 de abril de 2010.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Tecnologias de produção de Soja – Região Central do Brasil 2009 e 2010. Londrina, PR, 2008. 261p.
Revista Plantio Direto, edição 118, julho/agosto de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.