Soja Louca II (Doenças)


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Publicado em: 01/08/2010

Soja Louca II: um problema de causa desconhecida

Maurício C. Meyer1 & Edson Hirose21Eng. Agr., Dr., Fitopatologista2Eng. Agr., Dr., EntomologistaEmbrapa Soja – Goiânia, GO - meyer@cnpso.embrapa.br

Imagem da esquerda: trifólios de soja apresentando afilamento foliar, engrossamento de nervuras e embolhamento (esquerda) comparados a um trifólio sadio (direita) e afilamento foliar, abortamento de vagens e canelamento da haste em soja, imagem da direita.

A partir da safra de 2006 vem sendo observada a ocorrência de plantas de soja com deficiência de produção de vagens e grãos, resultando em sintomas de haste verde e retenção foliar, denominadas popularmente como ”Soja Louca II” (SL-II). Não se sabe precisar, ao certo, em que ano este problema se iniciou, mas há relatos de que foram observados na safra de 1997 em Balsas, Estado do Maranhão.

A denominação de ”Soja Louca II” foi sugerida por Gilioli et al. (2007) para diferenciar da ”Haste Verde” e ”Retenção Foliar”, comuns ao ataque de percevejos sugadores que não estão associados ao problema em questão.

A alta incidência de SL-II ocasiona dificuldades na colheita devido ao ”embuchamento” das colhedeiras. A SL-II ocorre indistintamente entre as diversas cultivares de soja, tanto transgênicas RR como convencionais e o prejuízo pode levar a reduções de produtividade de até 40%, além da redução da qualidade de grãos pelo aumento de impurezas.

Plantas de soja com diferentes níveis de afilamento foliar e abortamento de vagens à direita, em comparação com planta sadia.

Lesões necróticas e rachaduras nas vagens, canelamento das hastes e engrossamento dos nós, deformação e apodrecimento de grãos.

Sintomas

A manifestação dos sintomas evidencia-se no estádio vegetativo, geralmente a partir de V5-V6, constituindo-se de afilamento das folhas do topo das plantas, alguma formação de bolhas no limbo foliar e engrossamento das nervuras. As folhas com sintomas apresentam coloração mais escura e menor pilosidade em relação às normais. As hastes exibem deformações do tipo ”caneluras” (arestas) e engrossamento dos nós. As vagens apresentam deformações, lesões necróticas marrons, rachaduras, menor pilosidade, apodrecimento e redução do número de grãos (normalmente um a dois grãos de maior tamanho).

Plantas afetadas registram um alto índice de abortamento de flores e vagens, provocando, muitas vezes, a indução de nova floração e sintomas de superbrotamento, assemelhando-se a plantas macho-estéreis. Esse abortamento é mais intenso na parte superior das plantas, diminuindo em direção à base, o que impede o processo natural de maturação, permanecendo verde no campo mesmo após a aplicação de herbicidas dessecantes.

Distribuição uniforme de plantas de soja com SL-II.

Plantas de Soja Louca II dessecadas (pouca eficiência dos herbicidas dessecantes).

Causas

Inúmeras causas têm sido atribuídas a este problema, mas até momento nada foi cientificamente confirmado. A associação de ácaros pretos (oribatídeos) a plantas de soja com sintomas de SL-II parece existir, mas não se sabe se esses ácaros causam o dano ou se são conseqüência de um desequilíbrio de outra origem. Estes ácaros são mais comumente encontrados na palhada de cobertura do solo e se alimentam de matéria orgânica em decomposição e fungos de solo. Maiores concentrações de ácaros pretos foram encontradas na entressafra em plantas de capim pé-de-galinha (Eleusine indica), timbete (Cenchrus echinatus), capim amargoso (Digitaria inslaris) e Andropogon sp.

Outra hipótese a ser estudada é refere-se ao possível efeito de um desbalanço nutricional das plantas em relação ao potássio, cálcio e magnésio, assim como à deficiência de boro.

Manejo

Até que seja completamente conhecida a causa da SL-II e os mecanismos que a desencadeiam, não existe nenhuma recomendação específica de controle. Inúmeras são as hipóteses que necessitam maiores estudos. Provavelmente haja resposta de redução da incidência de SL-II com o manejo de plantas invasoras na entressafra. Aparentemente, quanto mais infestada a área com invasoras durante a entressafra, principalmente gramíneas, maior a incidência da anomalia.

Não existe ainda nenhum resultado experimental que mostre a viabilidade de controle químico do ácaro. Além da ineficiência de produtos analisados o uso inadequado poderá provocar um impacto ambiental negativo e aumentar a infestação de outras pragas.

Uma parceria entre a Embrapa, Aprosoja, universidades, fundações de pesquisa e produtores viabilizará a execução de experimentação nas próximas safras, visando o acompanhamento do problema nas principais regiões afetadas e elaboração de estudos da causa e de manejo da SL-II.

Revista Plantio Direto, edição 118, julho/agosto de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.