12º Encontro Nacional de Plantio Direto


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Publicado em: 01/08/2010

12º Encontro Nacional: Plantio Direto na Palha, a tecnologia que mudou a visão do produtor

Imagem da abertura oficial do 12º ENPDP. Compondo a mesa da esquerda para a direita Amir Kassam (FAO-Roma), Leopoldo Jacomel (superintendente da Conab-PR), Marcos Baugartner (Itaipu), José Augusto Picheth (Diretor do Iapar) representando o Governador e o Secretário de Estado da Agricultura do Paraná, Ivo Mello (CAAPAS), Manoel Henrique Pereira (Febrapdp), Derli Dossa representando o Ministro da Agricultura, Daniel Gonçalves Filho (superindente MAPA-PR), Ademir Rodrigues (Diretor Técnico da Emater-PR), Liceu Joner (Secretário de Agricultura de São Miguel do Iguaçu-PR), Fernando P. Cardoso (Fundação Agrisus). E na foto a direita, visão geral da plenária no 12º ENPDP com a palestra de Carlos Crovetto, Chile.

Aconteceu de 23 a 25 de junho de 2010, no Centro de Convenções do Hotel Rafain, em Foz Iguaçu, PR o 12º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha. O evento foi uma promoção da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e uma realização da própria entidade em parceria com a Itaipu Binacional, Fundação Agrisus e Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná.

Cerca de 300 participantes entre agricultores, técnicos, pesquisadores e estudantes de todo o país e do exterior acompanharam o 12º Encontro. Na programação temas como a dinâmica do carbono e as implicações ambientais a influência do PD na qualidade da água e na biodiversidade. O evento teve ainda um dia de campo com demonstrações práticas e teóricas de rotação de culturas e culturas de cobertura, física de solo, produção e manejo de palhada e qualidade no plantio direto.

Durante a programação foi apresentado o projeto ”Plantio Direto com Qualidade” realizado pela FEBRAPDP, em parceria com a Itaipu Binacional, na bacia do Paraná 3 e também os resultados do Rally da Safra 2010, além do levantamento dos níveis de fósforo nos solos em várias regiões agrícolas brasileiras.

Painel sobre a Dinâmica do carbono na agricultura. Da esquerda para a direita: João Carlos de Moraes Sá (UEPG), Telmo Amado (UFSM), Lutécia Beatriz Canalli (Febrapdp/Emater-PR), Carlos Cerri (CENA/USP) e Luiz Fernando C. Leite (Embrapa).

O painel sobre a ”Dinâmica do carbono na agricultura e as implicações ambientais”, contou com a participação de Carlos Clemente Cerri, João Carlos de Moraes Sá, Luiz Fernando Carvalho Leite e Telmo J. C. Amado, que enfatizaram em suas apresentações a redução das emissões de gases do efeito estufa e, ao mesmo tempo, destacaram as vantagens do acúmulo de carbono no solo, através de rotações de culturas bem planejadas, para a melhoria fertilidade nos aspectos químicos, físicos e biológicos. O fechamento do painel foi realizado pela Engenheira Agrônoma Lutécia Beatriz Canalli, da Febrapdp e Emater/PR, que apresentou uma proposta de protocolo para a validação e certificação do SPDP relacionado a reduções das emissões de carbono e consequente acúmulo de carbono no solo.

O painel sobre o SPDP e a qualidade da água realizado no dia 24 de junho e teve como palestrantes Jair Kotz, Devanir dos Santos, Rinaldo de Oliveira Calheiros, Paulo Paim e Ivo Mello e mostrou a importância de cada ação antrópica, incluindo as ações na agropecuária, para a qualidade da água, destacando a gestão dos recursos hídricos por bacias hidrográficas e a importância do pagamento pelo uso das águas, visando à remuneração por serviços ambientais. Na oportunidade, também foi apresentada proposta de gestão participativa das águas, envolvendo a população e usuários construindo acordos para o uso sustentável, além da apresentação de modelos brasileiros de pagamentos por serviços ambientais relacionados ao uso das águas.

Já no painel sobre SPDP e a biodiversidade, houve apresentações sobre o efeito de diferentes rotações de culturas sobre a fauna de artrópodes no solo e os bioindicadores da qualidade do solo e da água com a participação de Ieda Carvalho Mendes, José Alexandre Barrigossi, Dilmar Baretta, Simone Benassi e Ricardo Ralisch.

O encerramento da programação do 12º. Encontro Nacional de Plantio Direto ocorreu no dia 25 de julho com um Dia de Campo em São Miguel do Iguaçu, PR, na propriedade de Vitelmo Maggi. Na ocasião foram abordados assuntos como a rotação de culturas e plantas de cobertura, a formação e manejo da palhada no SPDP, características do perfil do solo num sistema de plantio direto bem manejado e as formas de iniciar o plantio direto com qualidade, como palestrantes nas estações de campo Ademir Calegari, Ricardo Ralisch, Leandro do Prado Wildner e Ramiro Toledo. O público pode acompanhar também demonstrações de máquinas, equipamentos e produtos das empresas Massey Ferguson, Semeato e Dow AgroSciences.

Durante o Dia de Campo o público pode acompanhar a palestra do Professor Ricardo Ralisch, da UEL, que falou sobre o perfil cultural do solo e também a apresentação dinâmica de máquinas da empresa Semeato.

Colher e plantar simultaneamente: o ápice da eficiência

Manoel Henrique Pereira, um dos produtores pioneiros do plantio direto brasileiro e Presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha por quatro gestões, três consecutivas de 1992 a 1998, e de 2008 a 2010, além de dois períodos na Presidência da CAAPAS (Confederação das Associações Americanas para Agricultura Sustentável), planta na palha há 34 anos, na região de Ponta Grossa, Paraná. Ele e mais quatro agricultores pioneiros do Brasil, Argentina, Chile e Paraguai participaram da Mesa Redonda ”Os pioneiros contam sua história e convidam para uma reflexão sobre o futuro da agricultura”, no primeiro dia do 12º. Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha.

Nonô Pereira foi enfático ao afirmar que o plantio direto tem intima ligação com a conservação do meio ambiente e vai ao encontro dos anseios da prática de uma agricultura sustentável. Ele lembrou as incríveis perdas de solo e degradação do meio ambiente com o plantio convencional, que comprometeu o uso do solo, a qualidade da água e também o ar, pela queima dos resíduos das culturas. ”Hoje trabalhamos em um substrato vivo, o solo tem vida, respira, tem matéria orgânica, fauna benéfica ativa, os mananciais de água ganharam muito com a prática do plantio direto”. Como exemplo Nonô citou as Cataratas do Iguaçu, cuja água tem, atualmente, uma coloração muito diferente do que há 30 anos. ”O ar sem a poluição das queimadas e tendo o CO2 seqüestrado da atmosfera. A fauna e a flora que retornou para os ambientes de onde haviam sido ”expulsas” pelo plantio convencional. E, finalmente, os ganhos de produtividade e a redução de custos que trouxeram viabilidade econômica para o agricultor”.

Para Nonô o ápice no sucesso do PD foi quando o agricultor conseguiu colher e plantar simultaneamente. Ele destacou também que o plantio Direto permitiu, além da otimização do tempo, a utilização das áreas de forma total, pois incorporou ao processo produtivo parcelas de terras que eram tidas como marginais levando a ampliação da área plantada revertendo em benefícios econômicos para o agricultor, ao contrário do PC que causou o abandono de áreas pela degradação.

”A criatividade do agricultor foi um ponto muito importante para o desenvolvimento do plantio direto no Brasil, pois grande parte das adaptações de máquinas historicamente realizadas para a prática do plantio direto foram pensadas pelos próprios agricultores que lutavam para viabilizar o plantio na palha”.

Para Manoel Henrique Pereira a integração lavoura-pecuária com disciplina, respeitando o tempo de cada atividade, a rotação de culturas e adubação verde, são práticas fundamentais para um plantio direto de qualidade e sustentável em qualquer tamanho de propriedade.

Para finalizar, Nonô destacou a participação de outros agricultores como Herbert Bartz, o primeiro a aceitar o desafio do PD em solo brasileiro tornando-se um exemplo, Franke Dikjstra parceiro na aventura de fazer plantio direto nos Campos Gerais do Paraná, Shirley Phillips e Hans Peeten importantes na viabilização da técnica. Carlos Crovetto e Victor Trucco, irmãos chileno e argentino e Rolf Derpsch, incansável na busca de respostas para duvidas e dificuldades no processo de adoção. ”Muitos outros desbravadores do plantio direto no Brasil poderiam ser citados, mas ainda há que se destacar a participação das cooperativas, Emater, Iapar, universidades a pesquisa de forma geral, inicialmente um pouco tímida, mas que progressivamente passou a trabalhar com foco no plantio direto”, finalizou.

Mesa redonda com os pioneiros do plantio direto na América Latina. Da esquerda para a direita: Herbert Bartz (Brasil), Carlos Crovetto (Chile), Manoel Henrique Pereira (Brasil), Victor Trucco (Argentina), Erni Schlindwein (Paraguai) e Maury Sade da Febrapdp coordenando a mesa

História e pioneirismo

Herbert Bartz, pioneiro do plantio direto é brasileiro de nascimento e viveu grande parte da infância e juventude na Alemanha. Segundo ele, as dificuldades do período fora do Brasil, ajudaram na formação da personalidade inquieta e no despertar para uma grande preocupação, a fome. ”O pós-guerra, com frio e falta de comida, me deu uma lição de vida e despertou um desejo intenso de produzir alimentos em abundância”.

De volta ao Brasil e já estabelecido na atividade agrícola em Rolândia, PR, em 1971, Bartz teve uma experiência a qual classificou como traumática. Em uma noite de temporal, sem conseguir dormir pela preocupação com os estragos da chuva, saiu para vistoriar a lavoura que há pouco tempo havia sido plantada, acompanhou de perto o estrago feito pelos 90 mm que destruíram o plantio de soja. ”Saí à procura de soluções. Fiz uma adaptação de plantadeira que nada mais era que uma caixa em cima de uma enxada rotativa, cujo objetivo era fazer uma espécie de preparo mínimo. Mas outra chuva, ainda mais forte, mostrou que essa forma de fazer as coisas não daria resultado, continuei então minha busca por alternativas”.

Na época Bartz tinha contato com Rolf Derpsch, pesquisador de uma Missão Alemã junto ao IPEAME, hoje IAPAR, que fazia experimentos com preparo mínimo. Ele recorda que o comentário entusiasmado de Derpsch sobre uma técnica já utilizada em outros países chamada no-till (sem preparo) o motivou a buscar mais informação. ”Apesar de não ter dinheiro, comprei uma passagem para pagar em 10 parcelas e viajei para a Inglaterra onde consegui o contato de Shirley Phillips, pesquisador e grande incentivador do plantio direto americano e Harry Young, agricultor pioneiro da técnica nos Estados Unidos”. Segundo Bartz, eles dedicaram várias horas para lhe apresentar o plantio direto. ”Fiquei tão empolgado que Young e Phillips escreveram uma carta para a fábrica da Allis Chalmers para que eu pudesse fazer o pedido de uma plantadeira, apesar de não saber como iria pagar, mas estava convencido que esse era o caminho”.

Foi com essa máquina que em 1972 Bartz iniciou o plantio direto no Brasil. ”Enfrentamos muitas dificuldades porque a máquina plantava, mas não atendia nossas necessidades. Um pouco mais tarde, fazendo uso de criatividade, montamos uma plantadeira em cima da base da Rotacaster importada da Inglaterra. Foi essa adaptação que possibilitou o plantio direto entre a maioria dos pioneiros no Paraná”.

Bartz lembra que em 1975 recebeu a visita de Norman Bourlaug em sua propriedade em Rolândia. Durante a visita Bartz inquiriu Bourlaug: o senhor que conheceu produtores do mundo inteiro o que sugere para que eu saia desse ”zig-zag” de colheitas recordes e perdas recordes. Norman Bourlaug calmamente sugeriu que Bartz transformasse o ”zig-zag” em suaves ondas, dessa forma estaria no caminho certo para resolver os seus problemas com a atividade agrícola.

Herbert Bartz teve seu pioneirismo oficialmente reconhecido em 2009, quando recebeu do Presidente da República a Medalha de Apolônio Salles. ”Com esse reconhecimento do Governo Federal amenizou um pouco o ímpeto de passar para os agricultores o estigma de destruidores da natureza. Tivemos a oportunidade de provar que quando ainda nem se falava de meio ambiente muitos os agricultores brasileiros já conservavam os solos, zelavam pela preservação dos mananciais hídricos, através de uma técnica que veio substituir outra que nos obrigava a plantar três ou quatro vezes a mesma safra. Isso hoje, felizmente, não existe mais”.

Para Bartz, dos primeiros 200 hectares em 1972 aos 26 milhões de hectares atuais, o Brasil é uma referência mundial em plantio direto. Para o pioneiro grande parte dessa evolução é mérito daqueles que se dedicaram e defenderam bravamente o plantio direto brasileiro, que hoje é exemplo para outros países. O pioneiro encerrou sua apresentação com duas colocações: ”O agricultor brasileiro não tem alternativa, precisa ser eficiente, pois do contrário não sobrevive. E mais importante: plantio direto precisa de massa seca, de cobertura abundante, sem isso, não faz sentido”, finalizou.

O papel fundamental da pesquisa e das instituições de ensino

O produtor pioneiro em plantio direto no Chile, Carlos Crovetto iniciou sua participação no 12º Encontro Nacional ratificando as palavras de Herbert Bartz afirmando que o Brasil é um exemplo para o mundo. Segundo ele, essa afirmação partiu da experiência que ele teve no dia anterior a abertura no evento quando visitou uma pequena propriedade de 30 hectares onde pode observar o que ele considera a excelência no manejo do plantio direto, uma lavoura com braquiária sobre milho que estava sendo colhido. ”Penso que o agricultor entendeu que o solo vem em primeiro lugar e deve estar totalmente coberto durante 365 dias ao ano. Mesmo os pequenos agricultores estão entendendo esses processos. O que vi comprova o êxito dos agricultores brasileiros e fico satisfeito porque acompanho o desenvolvimento do plantio direto do Brasil desde 1976, quando aqui estive pela primeira vez”.

Para ele o manejo dos solos no Chile e no mundo de forma geral é deficiente quanto à conservação e a erosão é o principal problema agronômico. ”Meu país tem 800 anos de agricultura 300 anos de destruição. Atualmente são 500 mil hectares de solos degradados no Chile, isso acontece porque alguns ”duros de cabeça” continuam queimando a palha e arando o solo. A falta de matéria orgânica ativa e de fertilidade causa preocupação e gera falta de recursos e perdas econômicas. Se o solo fica pobre traz para o agricultor e para a sociedade empobrecimento”.

Crovetto defende uma reação generalizada à degradação e vê as universidades públicas e privadas como agentes na busca por soluções através do ensino e da pesquisa. ”Penso que seja necessário romper com os velhos conceitos, sair do tradicional e entrar no terreno prático e observar a vida no solo. É importante que os ensinamentos repassados aos estudantes signifiquem melhorias ao ambiente. Só assim poderemos contar com técnicos e agrônomos plenamente capacitados para enfrentar a nova agricultura superando os erros do passado e olhando para as necessidade do futuro. Na essência, as faculdades de agronomia de todo o mundo são responsáveis por essa enorme mudança que a sociedade atual e futura espera. Em especial posso dizer que esse papel cabe as universidades privadas, pela sua maior capacidade e rapidez para enfrentar mudanças e por não estarem sujeitas a uma restrita e tradicional atuação e sim uma absoluta independência nas ações”.

O Chile se destaca na América do Sul em termos de prosperidade. Esse crescimento segundo Crovetto foi fundamentado no uso de fatores de produção como recursos naturais, foi um crescimento baseado em investimentos e agora o desafio é produzir com prosperidade e inovação. ”Tenho a convicção que em todos os elos da cadeia de produção agrícola a mudança deve ser liderada por aqueles que moldam o conhecimento. Avançamos a passos largos para o desenvolvimento. E, por isso, estamos no limite de cair nos vícios dos países desenvolvidos que necessitam de reformas macroeconômicas, políticas e sociais, para se livrar das amarras que os impedem de avançar no caso da agricultura, deixando para trás o velho paradigma da preparação do solo”.

O pioneiro chileno acredita que não lavrar o solo e ter o plantio direto como prática generalizada e oficial, é obrigação de todos os governos e deve ser fomentado através das suas instituições de pesquisa e faculdades de agronomia. ”Dessa forma poderemos olhar para o futuro com mais tranqüilidade, entendendo melhor a importância dos agroecossistemas e assim superar os graves problemas que ainda bloqueiam o pleno desenvolvimento da agricultura mundial”, concluiu.

É necessário dar-se conta

A evolução da humanidade está ligada ao processo de ”dar-se conta”, com essa frase Victor Trucco, Presidente Honorário da AAPRESID, da Argentina, iniciou sua participação na mesa redonda com pioneiros do plantio direto na América do Sul, realizada na abertura do 12º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Foz do Iguaçu, PR.

Para o produtor argentino o conceito de sustentabilidade evoluiu e a idéia de conservar os recursos naturais já é uma demanda permanente e inquestionável. ”O sustentável está ligado à evolução dos conhecimentos e tecnologias, mas também ao que sabemos e ao que ignoramos, ao que fazemos e ao que não podemos fazer, aos problemas que aparecem e as soluções que conseguimos. Até pouco tempo acreditávamos que a agricultura não tinha muitos segredos. E hoje?”.

De acordo com Trucco, no passado os agricultores assumiam a erosão e a degradação resignados, existia a ignorância e, como alternativa a rotação com pastagens e a produção mista, o que não era muito comum nas zonas agrícolas argentinas. ”Mas um dia nos demos conta que poderíamos fazer plantio direto e alguns vizinhos pensaram que estávamos loucos ao nos ver plantar sobre a palha”.

A partir de 1989 com a fundação da Associação Argentina de Siembra Directa – AAPRESID, houve um grande impulso na adoção do plantio direto. ”Então, o número de ”loucos” começou a crescer, porque muitos ”se deram conta”. Antes do plantio direto parecia impossível compatibilizar a conservação de solos com a rentabilidade da agropecuária, pois o termo sustentabilidade ainda não se conhecia”, lembra.

Trucco destacou como fundamentais para o sucesso do plantio direto o aumento da matéria orgânica no solo, que contribui para o seqüestro de CO2 atmosférico e a rotação de culturas, para um balanço positivo de carbono e melhorias na fertilidade do solo. Ele considera importante que o agricultor tenha consciência que a prática da agricultura transforma um ecossistema em um agroecossistema. Isso significa que está sendo dada a esse ecossistema uma finalidade agrícola, para alimentar uma população mundial crescente. ”Faço essas colocações porque parece que os ecossistemas são sagrados, que não mudaram no passado e que somos nós, os agricultores de hoje, os primeiros a modificá-los, quando na verdade passamos de um sistema que destruía o solo para um sistema que o conserva”.

É necessário dar-se conta que a complexidade da agricultura está aumentando, a agricultura sustentável é ainda mais complexa. ”Mesmo assim, hoje nossa agricultura é mais produtiva e mais sustentável. Nossas lavouras estão melhores que aquelas que recebemos de nossos pais”.

Para Trucco durante as primeiras discussões sobre ”sustentabilidade” o termo ”desenvolvimento” ficou esquecido. ”Anteriormente só se pensava em desenvolvimento e agora só se pensa em sustentabilidade. Então, quem pensa em desenvolvimento sem sustentabilidade transfere o problema para os filhos. E quem pensa em sustentabilidade sem desenvolvimento, traz o problema para si e para os filhos. A solução não é a conservação com estancamento e nem mesmo o desenvolvimento com a degradação”. Para ele a pergunta que deve ser feita aos defensores da agricultura sem uso de tecnologias é: como vamos produzir eliminando o uso de fertilizantes, herbicidas, inseticidas, fungicidas e biotecnologia? Uma agricultura sem o uso desses insumos é a agricultura que foi praticada anos antes da Revolução Verde, quando a população mundial era 60% menor e a fome o dobro da atual. ”Como a população urbana ignora esses fatos?”, pergunta. ”A agricultura orgânica é uma boa idéia para atender um mercado de nichos, com alto poder aquisitivo. Mas é um absurdo pensá-la como uma forma de suprir a demanda de alimentos de toda a população mundial”.

”Nós somos ambientalistas”, enfatizou Victor Trucco. ”Existem aqueles que se definem ambientalistas e tem feito a defesa do meio ambiente do seu jeito, mas nós agricultores produzimos conservando e vamos além, estamos melhorando o meio ambiente”.

Para Trucco a agricultura está se transformando em uma rede de serviços para alcançar escala e defende que ela precisa ser uma atividade sustentável com rentabilidade e sem subsídios, porque com eles (os subsídios) apenas transferimos a carga do ”agro” para o resto da sociedade, assim como ocorre em outras partes do mundo. ”O processo desejado é passar de uma agricultura de proprietários para uma agricultura de especialistas, que é a única saída frente à complexidade da atividade atualmente”.

”Penso que hoje temos conhecimentos e experiências suficientes para propor o desenvolvimento sustentável, não estamos apenas hipotecando nosso futuro, mas podemos construir um futuro melhor. Tenho claro que sempre haverá uma forma de fazer melhor, mas para isso temos que estar atentos e dispostos a aprender mais do que ter razão”, finalizou.

Plantio direto com base na experiência brasileira

Erni Schlindwein, produtor no Paraguai, também participou da Mesa Redonda com os pioneiros do PD na America do Sul no 12º Encontro Nacional, representando o Paraguai.

Agricultor desde 1981, Schlindwein, começou a plantar no país vizinho em 1984 após vender 10 hectares no Brasil e comprar 100 hectares em Naranjal, no Paraguai, para onde se mudou com a esposa. ”Trabalhamos muito até conseguir preparar o solo para o plantio e logo começamos a fazer o cultivo mínimo, porque já tínhamos uma forte consciência ecológica. Era difícil nessa época porque foi necessário contratar serviço de terceiros para o plantio e colheita”.

Schlindwein conhecia o plantio direto ainda nos tempos de Brasil, no início da década de 1980. Ouviu falar do trabalho pioneiro de Herbert Bartz e decidiu iniciar o PD em sua propriedade no Paraguai dessecando com herbicida antes de fazer o plantio com uma semeadora adaptada, as plantas daninhas eram capinadas manualmente com a enxada.

De acordo com Schlindwein o caminho da mudança do plantio convencional para o direto no Paraguai contou com o forte trabalho dos pioneiros do Brasil e da Argentina que motivaram o diálogo entre os setores público e privado. ”Fomentamos a participação de associações, de projetos de cooperação alemão e japonês, cooperativas, empresas de insumos e máquinas com o objetivo de desenvolver o plantio direto no país. Foram muitos eventos com foco em demonstrar como funcionava o plantio direto na prática e construir a consciência dos agricultores quanto à necessidade de proteger o solo da erosão”.

Influenciados pela informação adquirida durante a participação nos eventos que tratavam do plantio direto, os agricultores a diversificar e fazer rotação com milho, trigo, girassol e canola, mas a soja sempre foi à principal cultura. ”Por isso tivemos que buscar mercado para os demais produtos, criar a logística de venda e exportação para viabilizar um sistema produção nesse formato”, explica.

Na propriedade de Schlindwein a soja é o carro chefe, depois o milho e o trigo. A partir de 1995 ele inseriu o girassol e a canola como alternativa de rotação no sistema de produção e destinados a elaboração de óleos mais nobres. Além disso, ele planta adubos verdes como azevém, aveia, nabo, tremoço, milheto e crotalária. ”Gosto muito de mesclar essas culturas para obter uma excelente cobertura de solo”, destaca.

A agricultura do Paraguai tem mais de 90% de plantio direto. O clima é bastante estável, mas também sofre influência de El Niño ou La Ninã. O solo tem boa fertilidade e está sendo melhorado pela pratica do plantio direto. Segundo Schlindwein, o custeio e financiamentos da agricultura nas médias e grandes propriedades são feitos pelas cooperativas e empresas multinacionais, com o uso do capital privado em 90% dos casos, caracterizando a pouca intervenção governamental nesse segmento. São as cooperativas e silos multinacionais que armazenam e comercializam a produção dos agricultores paraguaios.

O agricultor destaca o progressivo aumento na produtividade das culturas com o uso de tecnologias. ”A tecnologia que tínhamos quando chegamos ao Paraguai foi substituída por máquinas e produtos mais eficientes e isso nos permitiu alcançar altos rendimentos. Na colheita 2009/2010, por exemplo, tivemos um rendimento de 3.350 kg de soja por hectare”.

Na questão ambiental Erni Schlindwein destaca ainda o forte trabalho na recuperação da mata ciliar que os agricultores vêm fazendo com o objetivo de conservação das fontes de água, sejam mananciais, riachos ou rios. O reflorestamento é feito mudas de espécies nativas e o plantio é sensivelmente planejado e controlado para a regeneração natural da vegetação.

Emocionado Schlindwein conclui sua participação na Mesa Redonda do 12º Encontro falando dos fortes laços com o país que o recebeu e deu condições para a realização de projetos e sonhos envolvendo a família e o trabalho. ”O Paraguai nos recebeu de braços abertos, criei minha família com dignidade. Tenho três filhos paraguaios e raízes profundas no país. Vivemos no campo em um ambiente saudável na busca constante por conhecimento e qualidade de vida através do plantio direto”.

FEBRAPDP elegeu nova diretoria

Durante o 12º Encontro Nacional de Plantio Direto a Federação Brasileira realizou Assembléia Geral Ordinária para, entre outros assuntos, tratar da eleição da nova diretoria da Entidade para o período de 2010/2012.

O agricultor Herbert Bartz foi eleito presidente. Para representação nos Estados a FEBRAPDP elegeu como vice-presidentes Ivan Bohrz (Rio Grande do Sul), Hilário Cassiano (Santa Catarina), Sérgio K. Higashibara (Paraná), Afonso Sleutjes (São Paulo), Charles Peeters (Goiás), Lúcio Damália (Mato Grosso do Su), Lucas Aernolds (Minas Gerais) e Ingbert Döwitch (Bahia).

Como 1º secretário foi eleito Ricardo Ralisch e Marie Bartz como 2ª Secretária, ambos do Estado do Paraná. Daniel Stroebel do Rio Grande do Sul e Leonardo M. Thomaz do Mato Grosso do Sul foram eleitos 1º e 2º tesoureiros. Para o Conselho Fiscal foram eleitos Leandro do Prado Wildner (Santa Catarina), Maurício de Oliveira (Distrito Federal), Udo Bublitz, (Paraná), Como suplentes Francisco Skora Neto (Paraná), Sérgio Porn (Rio Grande do Sul) e Carlos Pitol (Mato Grosso do Sul)

O Conselho Deliberativo é formado por Telmo Amado (Rio Grande do Sul), Ariovaldo Ceratti (Rio Grande do Sul), Fernando Penteado Cardoso (São Paulo), José Eloir Denardin (Rio Grande do Sul), Eurico Faria Dornelles (Rio Grande do Sul), Benami Bacaltchuck (Rio Grande do Sul), João Carlos de Moraes Sá (Paraná), Antonio Roque Dechen (São Paulo) Daniele M. Calderon (Monsanto), Valeska de Laquila (Dow Agroscience) e Carla Camargo (Syngenta).

Antecedendo o 12º Encontro, nos dias 21 e 22 de junho aconteceu reunião da CAAPAS (Confederação das Associações Americanas para Agricultura Sustentável) na qual a atual diretoria da entidade foi reconduzida ao cargo, mantendo como Presidente Ivo Mello.

Revista Plantio Direto, edição 118, julho/agosto de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.