Cooperar para competir: uma estratégia necessária para as empresas do agronegócio
Guilherme Cunha MalafaiaBacharel em Administração de Empresas, Mestre em Economia Ruralpela Universidade Federal de Viçosa,Doutor em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul eProfessor/ Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Caxias do Sul, RSgcmalafa@ucs.br
As mudanças no cenário competitivo mundial têm dificultado as condições de sobrevivência das empresas. A predominância de um modelo de competitividade hegemônico no agronegócio, onde a unificação dos mercados tende a impor uma padronização dos produtos, bem como uma elevada escala de produção, favorece as atividades agrícolas que dispõem de terras de alto potencial, onde a demanda por capitais transacionais para a produção de cultivos intensivos predomina.
A crescente fragilização das empresas face ao processo de globalização, bem como as rápidas mudanças tecnológicas, estão fazendo com que novas formas de gestão se incorporem no mundo dos negócios. Neste cenário, têm se estabelecido relações interorganizacionais, onde a visão isolada da unidade produtiva tem cedido espaço para uma abordagem mais abrangente centrada nos relacionamentos entre grupos de empresas competitivas. Esses grupos de empresas podem ser diferentemente denominados de Cadeias, Clusters, Redes e Alianças, sendo que o principal atributo deste conjunto é a singularidade proporcionada pela proximidade geográfica. Tal condição espacial tende a favorecer estes relacionamentos, incentivando o desenvolvimento de ações sistêmicas, pois os concorrentes passam a ser parceiros no objetivo de se situar em vantagem nas disputas de mercado. Em outras palavras, as empresas estão cada vez mais buscando criar parcerias com o objetivo de obter vantagens competitivas, o que de uma forma individual, dificilmente conseguiriam alcançar.
No caso dos agronegócios, se verifica um condicionamento por um conjunto de especificidades que denotam a necessidade de uma abordagem sistêmica para sua coordenação. Porém, isto na verdade não ocorre, e em vez de presenciarmos ações que tenderiam a proporcionar relacionamentos sistêmicos, demarcados pela cooperação, aprendizagem e disseminação de conhecimentos, se verifica um comportamento oportunista guiado, geralmente, por uma visão imediatista. É justamente por falta deste tipo de abordagem que muitos segmentos do agronegócio vêm enfrentando constantes dificuldades econômicas, culturais e de norteamento como um todo.
Para que os relacionamentos em Rede possam existir, são necessárias mudanças na cultura organizacional dos agentes, aliado a uma correta leitura do ambiente onde se está inserido, pois é neste que se concentram os recursos externos e internos capazes de suprir a falta de coordenação e de cooperação, problema que se tornou clássico em muitos segmentos do agronegócio.
A cooperação entre um determinado grupo de empresas, localizados geograficamente próximos, é um elemento importante para criar oportunidades e novos espaços para a atuação das organizações rurais frente ao ambiente competitivo e globalizado. Essas Redes partem da especificidade do local e suas interações com o global. São definidos como uma organização de produtores e empresas de serviços associadas por suas características e seu funcionamento a um território específico, construídas por ações coletivas, marcadas por questões culturais e reguladas institucionalmente.
Os benefícios gerados são compensadores, podendo-se destacar a redução dos custos de transação; a inovação tecnológica; o avanço para sistemas de certificação local; a promoção da solidariedade e da ação coletiva; o comercio justo; a conservação da biodiversidade biológica e cultural; a absorção da mão-de-obra local; a permanência dos produtores no campo; a possibilidade de competição e, principalmente, o convívio entre grandes e pequenos no agronegócio.
Por fim, não se teve aqui a pretensão de apresentar conceitos inovadores na área do agronegócio, pois esta é uma discussão já bem antiga dentro da academia. Buscou-se apenas relembrar os gestores sobre a nova dinâmica concorrencial e incentivá-los à discussão sobre esta temática. É de extrema importância que os empresários rurais e agroindustriais se conscientizem sobre a necessidade de se organizarem para melhor explorar as oportunidades e enfrentar os desafios, sob pena de serem excluídos pelo modelo hegemônico de competitividade do agronegócio global.
Revista Plantio Direto edição 118, julho/agosto de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.