Pastagens para Altos Rendimentos de Leite e Carne na Integração Lavoura-Pecuária


Autores:
Publicado em: 01/04/2010

Pastagens para altos rendimentos de leite e carne na integração lavoura-pecuária sob plantio direto

Renato Serena Fontaneli1,2, Roberto Serena Fontaneli 2,3,Henrique Pereira dos Santos1 e Silvio Tulio Spera11Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, Email: renatof@cnpt.embrapa.br2Universidade de Passo Fundo Passo Fundo, RS3Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, RS

1 Introdução

A produção animal baseada em forragens de adequado valor nutritivo de pastagens é a forma mais econômica de alimentação de bovinos. O alimento representa, geralmente de 40 a 60% do custo total do leite. O norte do RS, o oeste de SC e o sudoeste do PR têm muitas similaridades relativo aos recursos terra, mão de obra familiar e clima. Também é inquestionável a necessidade de desenvolver e priorizar atividades que permitam geração de mais renda e facilidade de comercialização. A atividade leiteira permite aumentar a renda relativa a atividade exclusiva de grãos em área extensa. O leite é uma ”commoditie” muito demandada por países em desenvolvimento, portanto, é possível aumentar o volume de leite produzido sem correr o risco de super oferta. Além disso, existe possibilidade de se aumentar o consumo interno em 50% para atender os valores mínimos recomendados pelos organismos internacionais que é de mais de 200 litros por habitante por ano. Atualmente, no Brasil, são consumidos cerca de 140 litros de leite fluído e derivados por habitante e a produção nacional anual que é de 27 bilhões de litros, poderia atingir 40 bilhões de litros anuais.

Nesse artigo serão apresentados alguns exemplos de planejamentos baseados em forrageiras anuais e perenes para o ano todo em sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) praticados na região sul-brasileira sob sistema plantio direto (SPD) com ênfase em produção de leite. É possível compor sistemas de produção com as melhores espécies de forrageiras cultivadas nas regiões temperadas e tropicais do mundo, pois o Sul do Brasil situa-se na área de transição biológica que permite cultivar desde azevém e trevo branco, pastagem típica de região temperada até braquiárias, gênero típico de regiões tropicais quentes e úmidas.

2 Planejamento baseado em pastagens anuais de inverno e de verão

Nos sistemas de produção de leite baseados em pastagens anuais, no inverno predomina a aveia preta comum (Avena strigosa) e, no verão, em milheto comum (Pennisetum americanum) ou aveia de verão (Sorghum bicolor ssp. sudanense), geralmente com manejo e adubações insuficientes permitem forragear os animais de seis a oito meses por ano (tabela 1). Estes sistemas, geralmente resultam em dois períodos marcantes e repetidos anualmente de déficit forrageiro, tanto em quantidade quanto em valor nutritivo, denominados de vazio forrageiro outonal, entre março a maio e, vazio forrageiro primaveril, de setembro a novembro.

Tabela 1. Exemplo de sistema de produção de leite baseado em pastagens anuais de inverno e de verão.

2.1 Quais as soluções para minimizar as crises forrageiras?

Uso de espécies anuais de inverno

A solução para a crise primaveril é mais simples e consiste em usar pastagens com cultivares de forrageiras de ciclo mais longo e mais produtivas que a aveia comum, como a aveia preta Iapar 61, UPF 18, IPR 126 e FUNDACEPFAPA 43. Outra opção, é o uso de azevém anual, cultivares BRS Ponteio, Fepagro São Grabriel, Empasc 304, FABC 1 ou Barjumbo. Também são opções as consorciações incluindo centeio BRS Serrano, aveia, azevém e leguminosas anuais como ervilhaca e trevo vesiculoso cultivar Yuchi, que podem estender o período de pastejo de maio até dezembro no norte do Rio Grande do Sul (FONTANELI & GASSEN, 2009). O trigo de duplo propósito BRS Tarumã, quando usado exclusivamente em pastejo, permite um período de pastejo superior a pastagem consorciada de aveia preta e azevém comum, que geralmente é mal manejada e cultivada sem adubação.

Os cereais de duplo propósito (DP) como os trigos permitem ser semeados antecipadamente em até 40 dias da época indicada aos trigos tradicionais, o que possibilita serem utilizados como pastagem durante outono-inverno (maio a julho), período de menor taxa de crescimento e, portanto, de maior necessidade de área de pastagens para forrageamento dos animais. Assim, pode-se incluir cereais DP no planejamento forrageiro e, desde que se promova manejo específico, pastoreio rotacionado e adubações nitrogenadas em cobertura, diferimento no início da elongação colher grãos. As cultivares de trigo especialmente selecionadas para esse fim, de ciclo tardio, como o BRS Tarumã e o BRS 277, permitem, pelo menos, dois ciclos de pastejos e, quando produzem o primeiro nó visível, deve-se retirar os animais para permitir rebrota, e posterior colheita de grãos. Com esse manejo, mantém-se palhada adequada para a semeadura da soja (tabela 2 e Figura 1).

Tabela 2. Estimativa de ganho de peso, produção de leite, lotação e rendimento de carne, leite e grãos de cereais de duplo propósito, no norte do Rio Grande do Sul

Figura 1. Pastagens de aveia preta em Vacaria, RS (A), de trigo de duplo-propósito cultivar BRS Umbu em Uruguaiana, RS (B) de trigo de duplo propósito BRS Tarumã em Tapejara, (C) e de aveia branca em Ibirubá, RS (D).

O potencial de ganho de peso vivo (GPV) com bovinos de corte pode superar 500 kg GPV/ha, em pastagens de forrageiras anuais consorciadas com adequado manejo e adubação.

2.2 Uso de milheto comum ou capim sudão (aveia de verão) e teosinto em comparação com híbridos de sorgo forrageiro

O melhoramento intensivo de sorgos por mais de três décadas disponibilizou híbricos comerciais com potencial superior a 20,0 t MS/ha. Os programas de melhoramento de milheto, entretanto são mais recentes e ainda mostram menor potencial de alimentação de vacas leiteiras. Assim, dispõe-se de cultivares com potencial superior às variedades denominadas de comuns, sejam milheto, capim sudão ou aveia de verão e teosinto ou dente de burro (Zea mays ssp. Mexicana), os quais raramente produzem mais que 8,0 t MS/ha.

Embora a decisão seja do empresário agrícola, é importante consultar um assistente técnico e analisar a oportunidade de usar as opções de espécies e cultivares disponível. O impacto do custo da semente deve ser melhor analisado, e não devem considerar apenas o custo nominal por quilo de semente. Deve-se considerar o custo por hectare, levando em conta o valor cultural da semente (percentual de germinação e pureza). O produtor muitas vezes ficará surpreso quando verificar que o valor nominal da semente, apesar de ser até duas a três vezes maior, pode propiciar um menor custo por kg de biomassa seca produzida. Em geral, o custo da semente representa menos de 10% do custo total da pastagem. Os fertilizantes, indispensáveis representam a parcela principal no custeio de uma pastagem, mas é o principal aliado para consecução de maiores produtividades, o que não necessariamente implica em atingir o máximo potencial genético e de ambiente.

Figura 2. Pastagens de milheto BRS 1501, na Embrapa Trigo em Passo Fundo, RS. Esquerda em janeiro e direita em março de 2008.

A escolha acertada de cultivares ou híbridos que se encaixam na necessidade prevista no planejamento forrageiro é decisivo para amenizar as crises forrageiras decorrentes da instabilidade climática. Além de material genético de companhias privadas nacionais e internacionais dispõe-se de material da Embrapa que continua sendo o referencial de mercado. Como exemplos de híbridos e cultivares disponíveis no mercado podemos citar: milheto BRS 1501 e ADR 500; os híbridos de sorgo para corte ou pastejo BRS 800, AG 2501, P 855, 1P 400, entre outros. O fato é que o ambiente (água, temperatura e luminosidade) ainda não tem custos e pode permitir o dobro que a maioria dos produtores conseguem, por escolha inadequada de cultivar, erros de utilização e manejo da forragem acumulada e inadequações de adubação, especialmente insuficiente adubação nitrogenada, seja orgânica ou química. Também existe a possibilidade de se cultivar sorgo silageiro como o BRS 610, com potencial de produzir, no norte do RS, até 80 t de silagem/ha.

Pastagens de forrageiras anuais de verão, manejadas e adubadas adequadamente permitem produzir mais de 800 kg GPV/ha, da primavera ao outono.

2.3 Escalonamento da época de semeadura de espécies forrageiras anuais de verão visando minimizar a crise forrageira outonal

Deve-se escalonar a semeadura de sorgos e milheto, de setembro quando com temperatura de solo mínima atingir 20 OC, a fevereiro. Essas forrageiras são muito produtivas, podendo acumular mais de 200 kg MS/ha.dia, após 30 a 50 dias da emergência. Um crescimento nesse ritmo demanda de carga animal elevada, superior a 10 novilhos/ha, assim, são indicados para explorações intensivas. Embora a medida que se retarde a época de semeadura a produtividade potencial é reduzida de cerca de 20,0 t MS/ha para 6,0 t MS/ha, ainda sendo interessante fazê-lo, pois a aveia e azevém raramente produzem mais de 6,0 t MS/ha (FONTANELI et al., 2001). Em semeaduras tardias a forragem acumulada no fim de verão e início de outono são utilizadas em época na qual os animais dispõem apenas das pastagens de gramíneas perenes como as Tifton, hemártria, quicuio, panicuns, braquiárias e capim elefante, os quais mostram reduzida taxa de crescimento e, muitas vezes, com baixo valor nutritivo.

A forragem de milheto e sorgo, semeados tardiamente tem valor nutritivo elevado, mas paralisam o crescimento com a ocorrência das primeitas geadas, geralmente em maio, na região do Planalto do RS.

2.4 Milho em alta densidade de semeadura

Essa alternativa está sendo investigada pela Embrapa Trigo e UPF. Trata-se da viabilidade de semeadura de milho grão, recém colhido, de baixíssimo custo, em alta densidade (mais de 150 mil plantas/ha), inclusive consorciado com soja anual após a colheita de culturas precoces de verão como: feijão, milho e mesmo alguma soja super precoce, ou áreas de milho e sorgo que foram ensilados. O importante desta prática é ofertar forragem verde, em quantidade e de adequado valor nutritivo para vacas leiteiras em lactação.

2.5 Semeadura antecipada de aveia preta-azevém e cereais de duplo propósito

A antecipação de semeadura para março de aveia e de cereais de duplo propósito, como: centeio BRS Serrano, cevada BRS Cauê e BRS Elis, trigo BRS Umbu, BRS Tarumã e BRS 277, triticale Embrapa 53, BRS 148, BRS Ulisses e BRS Minotauro e aveia branca UPF 18, IPR 126 e Fundacep/Fapa 43, quando o clima permite, com umidade no solo e temperatura amena, possibilita reduzir o período de déficit forrageiro outonal.

2.6 Diferimento de pastagens tropicais

O diferimento é uma prática que consiste em retirar os animais de alguns potreiros com objetivo de acumular novamente forragem para serem utilizados em períodos estratégicos. Pode-se proceder uma roçada em meados do verão, seguida de adubação para sustentar rebrote vigoroso e o acúmulo de forragem para o período outonal. O valor nutritivo estará correlacionado com a idade do rebrote e, normalmente com valor nutritivo mediano se utilizado até cerca de seis semanas de rebrote.

3 Planejamento baseado em pastagens perenes de verão e perenes de inverno

3.1 Pastagens perenes de verão

A medida que ocorre a profissionalização da atividade leiteira aumenta a preocupação em perenizar as áreas de pastagens, pois o menor custo por unidade de forragem produzida em pastagens é aquela propiciada por gramíneas perenes (tabela 3) como as do gênero Cynodon (bermuda, estrela africana e seus híbridos), quicuio (Pennisetum clandestinum), hemártria (Hemarthria altissima), jesuíta gigante (Axonopus catarinense) e o capim elefante (Pennisetum purpureum), que dentre as mais de 80 variedades disponíveis no Brasil destacam-se: Pioneiro, Napier, Cameroon, Taiwan, Porto Rico e a variedades anãs Mott. Esses genótipos são estabelecidos por via vegetativa (mudas – toletes de colmos aéreos, estolões e rizomas).

Tabela 3. Exemplo de sistema de produção de leite baseado em pastagens perenes implantadas por via vegetativa (estolões, rizomas, colmos, mudas) em sistemas de integração lavoura-pecuária.

As empresas produtoras de sementes de gramíneas tropicais tem difundido, embora com poucos dados locais, inoformações sobre persistência cultivares de braquiária brizanta (Marundu, Piatã e MG 5 Xaraés), de colonião ou panicuns (Mombaça, Tanzânia, Aruana, Atlas, Massai e Aires). O fato é que o produtor inovador experimenta com sucesso em alguns locais e por alguns anos, mas o que observa-se em invernos rigorosos é a morte da totalidade de plantas. Entretanto, pode-se utilizá-los como alternativa para as espécies anuais (sorgos e milheto) e, quando estabelecida em consorciação com milho ou sorgo, semeados nas entrelinhas, há redução do custo de estabelecimento e o fornecimento de forragem no outono, após a colheita de grãos, cujo valor nutritivo suporta uma produção de leite diária de 8,0 a 12,0 L/vaca. O importante, nesse caso, é a elevada capacidade de suporte destas pastagens de gramíneas perenes, que atingem em média durante a estação de crescimento (outubro a abril), mais de 6,0 vacas em lactação/ha, e, em alguns períodos passando de 10,0 vacas/ha. Na região de Passo Fundo, RS, FONTANELI (2005), relata produção animal em pastagens de Tifton 68, quicuio comum e capim elefante Napier médias diárias de até 25,0 L leite/vaca, com lotações médias de 6,0 a 7,0 vacas/ha suplementadas com 4,0 a 8,0 kg de grãos moídos de milho, resultando em mais de 20 mil litros de leite/ha (tabela 4 e Figura 3). Não houve diferença significativa entre as pastagens, haja vista que não diferiram em valor nutritivo (tabela 5) e nem na oferta de forragem em lâminas verdes secas/vaca.

Tabela 4. Produção de leite (corrigida 3,5% de teor de gordura) de três pastagens de gramíneas tropicais perenes em Passo Fundo, RS, 2002/3.

Figura 3. Pastagens de grama Tifton 68 (A), de capim quicuio consorciado com trevo branco (B), de azevém com trevos branco e vermelho (C) e festuca com trevos e cornichão (D) em Passo Fundo, RS

Tabela 5. Teores (%) de proteína bruta (PB), fibra insolúvel em detergente neutro (FDN) e fibra insolúvel em detergente ácido (FDA) estimados de lâminas foliares no período de dezembro de 2002 a abril de 2003.

MORAES et al. (2008) propõem para a região de Castro, PR, sistema de produção leite baseado na relação de 3:1, ou seja no inverno para cada 3,0 ha de pastagem de aveia e azevém indicam 1,0 ha de pastagem perene de verão como: quicuio e Tifton 85. A capacidade de suporte é de 8,8 vacas/ha no verão e 2,9 no inverno, mediante suplementação diária de 20% da dieta baseada em silagem de milho (7,5 kg/vaca) e grãos (1,7 kg/vaca) durante o ano todo. Os autores relatam que esse sistema com quicuio no verão obtiveram média de 18,4 kg de leite/vaca, além de 0,26 kg/vaca.dia de minerais.

Tabela 6. Receita do leite e custo do alimento de dois sistemas de produção baseado em pastagens e um sistema de confinamento.

No norte da Flórida, EUA, FONTANELI et al. (2005) obteveram redução em cerca de 50% no custo do alimento quando compararam o sistema de produção de leite em confinamento com dois sistemas de produção a pasto (tabela 6). O primeiro foi baseado em Tifton 85 com 200 kg N/ha e pastagem de inverno de centeio e azevém anual usando 160 kg N/ha. O segundo sistema foi composto de milheto e pastagem de inverno de centeio-azevém-trevo encarnado-trevo vermelho com 80 kg N/ha. Concluiram pela viabilidade dos sistemas baseados em pastagens e pelo sistema com pastagem perene de verão Tifton 85, que permitiu oferta maior de forragem no outono e com um período de pastejo três semanas superior ao milheto. Quando comparados os sistemas quanto a renda do leite, menos o custo do alimento, houve vantagem de 8 a 12% em favor dos sistemas a pasto, apesar de haver redução da produção de leite de 30 kg para 25 kg de leite por vaca/dia. Além disso, os autores relatam menor contagem de células somáticas nos sistemas com pastagens (< 300 mil/mL) contra cerca de 700 mil/mL, no confinamento.

Indica-se planejar o estabelecimento de 1,0 ha de pastagem de gramínea perene de verão (Tifton 85, quicuio ou hemártria) para cada 5,0 animais adultos na propriedade, apesar dos resultados apoiarem uma capacidade de suporte de 6,0 a 7,0 vacas/ha.

3.2 Pastagens perenes de inverno

A formação de pastagens perenes de inverno deve contemplar uma gramínea perene, sendo indicada a festuca, pela rusticidade e disponibilidade de sementes, e que esta seja consorciada com leguminosas perenes de inverno, como trevo branco, trevo vermelho e cornichão, espécies importantes em razão da incorporação biológica de nitrogênio via simbiose com bactérias. Pode-se afirmar que a cada 25,0 kg MS produzida pelas leguminosas há a incorporação de 1,0 kg de N no sistema. O potencial de produção de biomassa de uma consorciação como esta é de 8,0 a 10,0 t MS/ha, o que corresponde a aproximadamente metade do potencial das pastagens cultivadas de verão, mas obtem-se melhor distribuição estacional de forragem e, pode-se utilizá-las de março a dezembro. Deve-se diferir essa pastagem nos meses mais quentes para evitar o depauperamento das reservas orgânicas e a invasão de plantas daninhas. Em verões amenos admite-se, pastejos lenientes. A perenização de pastagens perenes de inverno é um paradigma a ser superado, pois temos tradição de agricultor de grãos e, praticamente, não admitimos área sem produção de soja ou milho no verão. Entretanto, pode-se argumentar que uma pastagem com 9 a 10 meses de utilização, capaz de gerar renda equivalente a 15 mil litros de leite/ha pode ser diferida (descansar) durante 2 a 3 meses.

Se fossemos indicar um sistema de produção de leite de menor custo de alimentação, este seria o baseado em pastagens e, dentre os de pastagens aqueles baseados em pastagens perenes. Assim, poderíamos indicar que a capacidade de suporte média é de 2,0 a 3,0 vacas/ha para pastagens perenes de inverno, o que corresponde à aproximadamente metade daquela propiciada pelas pastagens de verão.

3.3 Estabelecimento de pastagens perenes consorciadas com milho ou sorgo

Existem alguns experimentos sendo conduzidos visando adaptar o Sistema Santa Fé desenvolvido na região dos Cerrados,no qual se estabelecem junto, com milho e sorgo, espécies de forrageiras perenes de verão, especialmente do gênero Urochloa, antigo Brachiaria. Dados regionais obtidos por MARIANI (2010) indicam o sucesso de estabelecimanto nas entrelinhas de milho de braquiária Marundu e panicuns cultivares Mombaça e Aruana (Figura 4). O acúmulo de MS após três cortes foram maiores com Aruana (5.778 kg/ha) e Mombaça (6.515 kg/ha), em relação a testemunha milheto comum isolado (3.969 kg/ha) e a braquiária cultivar Marandu (2.745 kg/ha). As melhores características quanto a composição de lâminas foliares, colmo-bainha e digestibilidade da matéria seca foram verificadas no colonião cultivar Mombaça.

Figura 4. Pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marundu (A) e Panicum maximum cv. Aruana (C) em estabelecimento consorciado com milho. Pastejo outonal de braquiária Marundu estabelecida consorciado com milho (B) e panicum cv. Momaça isolado em Passo Fundo, RS.

4 Conservação de forragens durante o inverno

Além dessas estratégias de pastejo, pode-se e, referendamos que deve-se aproveitar a ociosidade de terras durante o inverno para armazenar forragem conservada na forma de feno, pré-secado e silagem de espécies de inverno (aveia branca, cevada, triticale, centeio e trigos de duplo propósito), além das tradicionais aveia preta e azevém anual. Entretanto, deve-se dar atenção ao manejo das áreas para não se comprometer a formação da palhada destinada a manutenção do SPD. Além do cultivo consagrado da alfafa Crioula, novos cultivares de gramíneas anuais de inverno permitem, além da formação de pastagens, serem fenados ou ensilados (Figura 5), tais como os trigos forrageiros ou duplo propósito lançados pela Embrapa Trigo a partir de 2002 (BRS Umbu, BRS Tarumã e BRS 277), centeio BRS Serrano, cevada (BRS Elis, BRS Cauê e BRS Marciana), triticale (Embrapa 53, BRS 148. BRS 203, BRS Minotauro e BRS Ulisses), aveia branca (UPF 16, UPF 18, IPR 126 e FUNDACEP FAPA 43), aveia preta (Iapar 61-Ibiporã, Embrapa 139- Neblina, UPFA 21- MORENINHA, Agro Zebu e Planalto), azevém (BRS Ponteio, Fepagro São Gabriel, FABC 1, Empasc 304 e Barjumbo). Estas cultivares estão disponíveis e oferecem vantagens em relação às populações comuns de aveia e azevém, cujo ciclo e comportamento produtivos são incertos.

Figura 5. (A) Alfafa Crioula – paradigma de feno. (B) Feno e silagem pré-secada – Castro-PR, (C) Trigo BRS Tarumã e cevada BRS Marciana, manejadas para ensilagem, e (D) Colheita de cevada BRS Marciana para ensilagem em Passo Fundo, RS.

5 Considerações finais

É de consenso que o sistema plantio direto (SPD) é sustentável se praticado conforme foi concebido, ou seja além da semeadura sem preparo de solo, usar sistema de rotação de culturas economicamente viável que mantenha a cobertura vegetal permanente sobre o solo, com práticas culturais que supram a disponibilidade de nutrientes para as plantas em cultivo, e atenda as metas do empresário rural e o as necessidades da sociedade. Os sistemas de produção com integração lavoura-pecuária (ILP) ampliam o leque de oportunidades pelas inúmeras espécies de plantas forrageiras componentes de pastagens que pressupõe a colheita pelos animais em pastejo. Pastejo é maneira mais econômica de suprir a demanda de nutrientes para bovinos, pois permite seleção da forragem capaz de ser transformada em produto animal comercializável, especialmente carne e leite, cada vez mais demandada pela população dos países emergentes. Entretanto, tratam-se de sistemas mais complexos, cuja interface solo-planta-animal-ambiente deve ser compatibilizada com a sustentabilidade. Se por um lado, a maior parte da região sul do Brasil é privilegiada pelo ambiente favorável à duas safras anuais, há períodos de déficit hídrico, frio, excesso de umidade, que implicam em sazonalidade produtiva das pastagens e dificuldade de manejo.

O pastejo contínuo, sem observância de ajuste de carga animal ou adequada pressão de pastejo, tem levado à frustrações causadas pelo adensamento do solo pelo pisoteio dos animais e, consequentemente a compactação persistente. Compactação é consequência de práticas inadequadas que levam ao adensamento do solo com efeito mensurável nas condições físicas, químicas e biológicas, que conduzem à perdas em produtividade decorrentes de insuficiente atendimento das condições favoráveis de solo para as plantas.

Referências Bibliográficas

FONTANELI, Ren. S. Planejamento de pastagens: melhor caminho para produção de leite com qualidade e menor custo. Revista Plantio Direto, v. 17, p. 11-16, 2008.

FONTANELI, Ren. S., GASSEN, D.N. Integração Agricultura-pecuária - Potencial das forrageiras para adubação verde. Revista Plantio Direto, v. 18, p. 26-34, 2009.

FONTANELI, Rob.S. Produção de leite de vacas da raça Holandês em pastagens tropicais perenes no Planalto Médio do Rio Grande do Sul. 2005. 168p. Tese (Doutorado em Zootecnia). Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Faculdade de Agronomia.

FONTANELI, Ren.S.; SOLLENBERGER, L.E.; LITTELL,R.C.; STAPLES,C.R. Performance of lactating dairy cows managed on pasture – based or in free stall barn feeding systems. J. Dairy Sci. v. 88, n.5, p.1264-1276, 2005.

FONTANELI, Ren.S., SOLLENBERGER, L.E., STAPLES,C.R. Yield, yield distribution, and nutritive value of intensively managed pearl millet and sorghum-sudangrass. Agronomy Journal, Madison, WI, USA, v. 93, n.5, p.1257-1262, 2001.

MARIANI, F. Estabelecimento de Panicum maximum e Brachiaria brizantha com milho ou soja e cultivo em sucessão de trigo e aveia preta. 2010. 164p. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal). Universidade de Passo Fundo: Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária.

MORAES, A., SILVA, H.A. da, CARVALHO, P.C. de F. Apresentando um módulo de produção. In: MORAES, A., CARVALHO, P.C. de F., SILVA, H. A. da, JANSSEN, H.P. Produção de leite em sistemas de integração lavoura-pecuária. Curitiba: Emater-PR, 2008. p. 63-67

Revista Plantio Direto, edição 116, março/abril de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.