Ocorrência do Ácaro


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Publicado em: 01/04/2010

Ocorrência do ácaro-do-enrolamento-do-trigo, Aceria tosichella Keifer

Paulo Roberto Valle da Silva Pereira1, Denise Navia2,José Roberto Salvadori3 e Douglas Lau11Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS, E-mail: paulo@cnpt.embrapa.br, dlau@cnpt.embrapa.br 2Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Parque Estação Biológica E-mail: navia@cenargen.embrapa.br 3FAMV - Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS. E-mail: salvadori@upf.br

Aceria tosichella Keifer (Acaria: Eriophyidae)

Introdução

Aceria tosichella Keifer (Acaria: Eriophyidae), comumente conhecido como o ácaro-do-enrolamento-do-trigo, foi descrito em folhas de trigo (Triticum aestivum L.) na localidade de Zemun-Beograd, Iugoslávia em 1969. Danos devido à infestação de A. tosichella incluem descoloração, enrolamento e desenvolvimento anormal de folhas e arqueamento de plantas. Em plantas infestadas as folhas não expandem normalmente, permanecendo dentro das folhas mais velhas o que deixa as plantas arqueadas (Jeppson et al., 1975; CABI, 2002). Perdas no rendimento de trigo devido a infestações de A. tosichella podem alcançar 30% (Harvey et al., 2002).

Entretanto, o principal dano causado por A. tosichella é devido à transmissão das viroses Wheat streak mosaic virus (WSMV) e High plain virus (HPV) (Oldfield & Proeseler, 1996; Malik et al., 2003). O WSMV é o agente etiológico de uma das mais importantes viroses da cultura do trigo, causando perdas severas de rendimento na América do Norte e ocorrendo também na Europa, Oriente Médio, Oceania e Ásia (Oldfield & Proeseler, 1996; French & Stenger, 2003; Sanchez-Sánchez et al., 2001). O HPV foi primeiramente observado em 1993 nas pradarias do Texas, Idaho, Kansas e Colorado, Estados Unidos da América (EUA) (Jensen et al., 1996). Infecções mistas por WSMV e HPV tem sido usualmente observadas nos EUA, tornando difícil estimar as perdas associadas a cada virose separadamente. Entretanto, perdas devido exclusivamente a infestações de HPV, em milho, foram estimadas em cerca de 75% (AQIS, 2000). Outras doenças associadas com A. tosichella são Wheat spot mosaic virus, em trigo (Jeppson et al., 1975) e Kernel streak agent, em milho (CABI, 2002). Recentemente a ação de A. tosichella como vetor do Brome steak mosaic virus (BrSmV) foi confirmada por Stephan et al. (2008). Até o momento A. tosichella é o único vetor conhecido para WSMV, HPV e BrSMV.

A. tosichella ocorre principalmente em trigo, mas populações podem se desenvolver em sorgo (Sorghum sp.), cevada (Hordeum vulgare), milho (Zea mays), aveia (Avena sativa), centeio (Secale cereale) e milheto (Pennisetum glaucum)(Jeppson et al., 1975). A. tosichella também infesta um grande número de gramíneas de menor importância econômica ou consideradas plantas daninhas (Amrine & de Lillo, 2003). Este ácaro está disperso nas principais regiões produtoras de trigo ao redor do mundo: América do Norte, Europa (CABI, 2002); Ásia e Oriente Médio (Meyer, 1981) e Oceania (Thomas et al., 2004).

Na América do Sul os registros de A. tosichella e os vírus associados são recentes. WSMV foi detectado pela primeira vez na Argentina em 2002 (Truol et al., 2004). Dois anos mais tarde, em 2004, A. tosichella também foi encontrado na Argentina, em associação com plantas infectadas pelo WSMV (Navia et al., 2006). A presença de HPV foi confirmada na Argentina em 2007, na província de Buenos Aires, em infecções mistas com WSMV (Truol & Sagadin, 2008). No Brasil A. tosichella foi detectado pela primeira vez em 2006, em quatro municípios da região noroeste do estado do Rio Grande do Sul (Pereira et al., 2009).

Este trabalho apresenta os resultados de uma série de levantamentos realizados para determinar o status do ácaro Aceria tosichella no estado do Rio Grande do Sul, como parte do projeto ”O Ácaro Aceria tosichella Keifer e Viroses Transmitidas Wheat streak mosaic virus e High plain virus, uma Nova Ameaça aos Cultivos de Cereais na América do Sul - Análise de Risco de Pragas, Distribuição Geográfica, Hospedeiros, Caracterização e Controle” (CNPq/PROSUL) e que culminou com a primeira detecção deste organismo no Brasil (Pereira et al., 2009).

Material e Métodos

Os levantamentos foram conduzidos em 46 locais, nas regiões norte e noroeste do Rio Grande do Sul, em outubro/2006, agosto/2007 e outubro/2007, cobrindo 42 municípios das principais regiões produtoras de trigo do estado (Tabela 1). Os levantamentos conduzidos em outubro/2006 e agosto/2007 foram coordenados pela Embrapa (Embrapa Trigo e Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) e em outubro/2007 pela Embrapa e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Na época dos levantamentos as plantas de trigo se encontravam nos estádios de desenvolvimento variando de fim do perfilhamento ao início do florescimento. Se presentes, a expectativa era de que as populações de A. tosichella fossem numerosas durante este período.

Tabela 1. Descrição dos locais onde amostras de folhas de trigo, aveia, milho e outras espécies de gramíneas (Poaceae) foram coletadas para detecção da presença de Aceria tosichella (Keifer). Rio Grande do Sul, Brasil. Outubro/2006, Agosto/2007 e Outubro/2007.

Amostras de trigo, aveia, azevém e milho, bem como de outras gramíneas presentes nas cercanias de áreas cultivadas, foram coletadas. Um total de 34 espécies de gramíneas (Poaceae), pertencendo a 15 gêneros foram coletadas. Quando necessário, exsicatas foram preparadas durante o levantamento e enviadas para identificação por especialista. Além de amostras de campo, foram coletadas amostras nas casas de vegetação da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS.

As amostras de gramíneas cultivadas (trigo, aveia e milho) foram compostas for colmos aleatoriamente colhidos em uma área de 100 x 5 m ao longo da borda das lavouras. As outras gramíneas foram compostas por três a dez plantas aleatoriamente coletadas nas proximidades de lavouras. As raízes foram removidas no campo e as amostras de folhas armazenadas em sacos plásticos devidamente identificados. As amostras foram processadas no mesmo dia de coleta visando preservar sua qualidade e a dos eventuais ácaros associados.

Antes da extração dos ácaros as folhas foram destacadas dos colmos com o objetivo de facilitar a liberação dos ácaros eventualmente presentes nas bainhas. Para a extração dos ácaros, as amostras foram lavadas em uma solução detergente a 5% seguida por peneiramento. Este método consiste na submersão das folhas em uma solução detergente, agitação para promover a liberação dos ácaros presentes e peneiramento da solução em uma baterias de peneiras com 0,25, 20 e 270 mesh, em ordem ascendente. O material retido pela peneira de 270 mesh foi coletado e armazenado em frascos plásticos, devidamente identificados, contendo álcool 70%.

As amostras mantidas em álcool 70% foram examinadas sobre microscópio estereoscópico (40 vezes) no Laboratório de Quarentena de Plantas, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Brasília, DF. Os ácaros eriofiídeos detectados foram montados em preparações microscópicas permanentes usando o meio de Berlese modificado e os espécimes identificados usando um microscópio de contraste de fase. Os ácaros eriofiídeos identificados como Aceria Keifer foram comparados com a descrição de A. tosichella (Keifer, 1969) e alguns dos exemplares confirmados como A. tosichella tiveram as estruturas taxonômicas medidas usando um microscópio de contraste de fase, com objetiva de 100 vezes, que foram comparadas com as da descrição original para confirmação da identificação. Os espécimes de A. tosichella coletados durante estes levantamentos estão depositados na Coleção de Referência de Ácaros do Laboratório de Quarentena de Plantas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Resultados

A. tosichella foi encontrado em amostras de trigo em quatro municípios do estado do Rio Grande do Sul - Passo Fundo, Palmeira das Missões, São Luiz Gonzaga e Santo Antonio das Missões – pontos 10, 14, 27 e 28, respectivamente (Tabela 1). Nos levantamentos realizados sob coordenação da Embrapa (outubro/2006 e agosto/2007) a presença de A. tosichella foi observada em Passo Fundo, Palmeira das Missões, São Luiz Gonzaga e Santo Antonio das Missões e no levantamento com participação do MAPA apenas em Passo Fundo, Palmeira das Missões, São Luiz Gonzaga. Este levantamento forneceu informações para a publicação do primeiro registro deste ácaro no Brasil (Pereira et al., 2009).

Sintomas da infestação de A. tosichella não foram observados no campo, somente em condições de casa-de-vegetação. Nestes locais, sob altas infestações, foi observado o amarelecimento e enrolamento de folhas, com algumas folhas jovens permanecendo com as pontas dentro das mais velhas, formando um arco característico.

Nenhuma das viroses associadas a este ácaro (WSMV e HPV) foi detectada até o momento no Brasil.

Discussão

Os resultados destes levantamentos indicam que a ocorrência de A. tosichella está restrita as áreas produtoras norte e oeste do Rio Grande do Sul, tendo como hospedeiro apenas trigo. O conhecimento de hospedeiros alternativos é importante e deve ser considerado quando da adoção de medidas de manejo integrado, uma vez que podem agir como ”pontes verdes” para infestações na cultura do trigo.

Embora não se tenham informações sobre qual a forma de entrada de A. tosichella na Argentina (Navia et al., 2006), a disseminação deste ácaro no estado do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com este país, provavelmente ocorreu de forma natural. As principais formas naturais de disseminação de ácaros eriofiídeos, em curtas e médias distâncias, são vento, vetores animais (foresia) e a disseminação passiva pela chuva e por atividades humanas (Lindquist et al., 1996; Bergh, 2001; Liu et al., 2005). A forma como A. tosichella se dissemina por longas distâncias é ainda desconhecida. Ácaros eriofiídeos geralmente não são capazes de se disseminar por meio de sementes, apenas junto com material de propagação vegetativa ou frutas (Fan & Petitt, 1998; Bergh, 2001; Dufner et al., 2001; Bell et al., 2005). Material vegetal dos principais hospedeiros de A. tosichella é comercializado por meio de sementes. É possível que quando altas populações estão presentes no campo ou quando os ácaros estão se preparando para iniciar a dispersão pelo vento, na época da colheita, alguns indivíduos possam permanecer e acompanhar as sementes. É necessário investigar quanto tempo os ácaros podem sobreviver sem se alimentar e se eles podem colonizar novas áreas quando as sementes estão germinando.

Conclusão

Considerando a possibilidade de disseminação de A. tosichella da Argentina para o Brasil, a ação deste ácaro como vetor de WSMV e HPV, severas epidemias de WSMV e a presença de HPV na Argentina (Truol & Sagadin, 2008; Truol et al., 2008), é possível assumir que a introdução de WSMV e HPV seja eminente.

Assim, monitorar a presença destas viroses em trigo e outros cereais ao longo das áreas de fronteira é importante para a detecção antecipada das mesmas e para a adoção de medidas de contenção e controle.

Agradecimentos

A Jerson Vanderlei Carus Guedes, Enrique Castiglioni, Egídio Sbrissa e Luciana Gusmão pela ajuda durante as coletas. A Marcella Telles dos Reis pela inspeção de amostras e montagem das lâminas. A José Francisco Montenegro Valls pela identificação das gramíneas. Ao CNPq/PROSUL pelo apoio ao projeto ”O Ácaro Aceria tosichella Keifer e Viroses Transmitidas Wheat streak mosaic virus e High plain virus, uma Nova Ameaça aos Cultivos de Cereais na América do Sul – Análise de Risco de Pragas, Distribuição Geográfica, Hospedeiros, Caracterização e Controle”. Ao CNPq pela bolsa para o segundo autor.

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Revista Plantio Direto, edição 116, março/abril de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.