Ciclo do Oídio do Trigo


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Publicado em: 01/04/2010

Ciclo oídio do trigo

Erlei Melo Reis, Anderson Luiz Durante Danelli e Aveline AvozaniPrograma de Pós-graduação em Agronomia, Faculdade de Agronomia eMedicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS - E-mail: erleireis@tpo.com.br

Introdução

O oídio do trigo é uma doença de ocorrência freqüente na cultura do trigo estando presente em todos os locais aonde cultivares suscetíveis são cultivados. Esta moléstia, também denominada de cinza do trigo, pode causar danos de até 62% (Reis & Casa, 2007).

O ciclo de uma doença é constituído pelas seguintes subfases do processo: sobrevivência do patógeno, esporulação, liberação, remoção, transporte, deposição, germinação, penetração, colonização (parasitismo), expressão dos sintomas e esporulação nos tecidos mortos. Assim, ao findar o ciclo primário o processo é repetido várias vezes resultando no crescimento da doença pela sucessão de ciclos secundários.

O entendimento detalhado do ciclo, ou do desenvolvimento da doença, pode contribuir para o aperfeiçoamento do seu controle pela observação do manejo integrado, sistema mais racional de controle de doenças. As estratégias de controle visam sempre interferir numa ou mais fases do ciclo da doença.

Etiologia e tipos de inóculo

O oidío é causado por fungo que na forma perfeita pertencente à Classe Ascomicetos, Ordem Erysiphales e a Família Erysiphaceae (Menezes e Oliveira, 1993) e ao Gênero e espécie Blumeria graminis Speer f.sp. tritici Em. Marchal. Na forma imperfeita pertence à Classe dos Deuteromicetos, Ordem Moniliales, Família Moniliaceae e ao Gênero e espécie Oidium monilioides (Nees.) Link.

Na fase parasitária, o oídio é um ectoparasita de modo que a grande massa de micélio, conidióforos e conídios desenvolvem-se na superfície da planta. Este conjunto forma uma colônia superficial. Os esporos são denominados de conídios. Outro tipo de frutificação, que surge nos tecidos senescidos – restos culturais na entre safra - é o cleistotécio com ascas e ascosporos (Wiese, 1977). No Brasil, ainda não foi relatada a presença de ascosporos no interior deste corpo de frutificação. Em geral encontram-se imaturos.

Este fungo produz raças virulentas tendo sido pouco pesquisada a sua variabilidade no Brasil. Apesar disso, admite-se que a variabilidade é muito grande, pois cultivares resistentes tem tido a resistência quebrada com poucas safras de cultivo. A resistência dos cultivares brasileiros não é durável. Esse fenômeno é chamado de ”quebra-da-resistência”.

Cultivares com poucos genes de resistência exercem pressão de seleção, levando a alterações na freqüência de genes do patógeno, tornando-o capaz de infectar cultivares consideradas resistentes em anos anteriores. Por isso, levantamentos periódicos em larga escala da freqüência de virulência da população de B. graminis f.sp. tritici são necessários para identificar genes de resistência com efetividade, além de detectar alterações geográficas de distribuição da população do patógeno (COSTAMILAM et al.,2002).

Ciclo das relações patógeno-hospedeiro: Blumeria graminis f.sp. tritici x Triticum aestivul L. (Figura 1).

Figura 1. Ciclo do oídio do trigo (Reis e Danelli, 2009).

Sobrevivência e fontes de inóculo primário

O agente causal do oídio do trigo é um parasita biotrófico específico ao trigo, e por isso, somente sobrevive na fase parasitária em plantas de trigo voluntárias presentes em lavouras, ao longo de caminhos, estradas e rodovias (Reis e Casa, 2007). Destas plantas, dentro ou fora da lavoura, os conídios do fungo são levados pelo vento para as lavouras de trigo. Por ser biotrófico, o agente causal, não esta associado às sementes da cultura.

Os cleistotécios formam-se, sobretudo nas bainhas das folhas basais podendo serem encontrados nos restos culturais (Figura 2). No entanto, no sul do Brasil, não são encontrados ascas e ascosporos. Por isso, é duvidoso o papel dos cleistotécios na sobrevivência do patógeno.

Remoção e transporte do inóculo

Os conídios são esporos secos senso Maude (1996) sendo por isso, removidos dos conidióforos quando a superfície da planta estiver seca. Segue-se o seu transporte pelo vento, até serem depositados nas folhas de plantas voluntárias dentro ou fora da lavoura e nas lavouras cultivadas. Os conídios, esporos infectivos e envolvidos com o desenvolvimento da doença medem 8-10 x 20-35 µm (Wiese, 1977).

Deposição, germinação e penetração

Os conídios são depositados na superfície do trigo, sítios de infecção por sedimentação ou impacto quando levados por correntes aéreos. Para germinarem não requerem o seu molhamento, pois a água inibe a germinação, emitem um tubo de germinação e penetram o hospedeiro, principalmente folhas, diretamente. Cerca de 75% do seu peso é água.

Figura 2. Cleistotécios de Blumeria graminis f.sp. tritici sobre folha de trigo.

Figura 3. Detalhe do haustório de Blumeria graminis no interior de célula foliar do trigo.

Colonização

Por ser um parasita especializado e altamente evoluído, a partir das hifas desenvolvidas na superfície do hospedeiro, emite estrutura que penetra as células da epiderme, ramifica-se no seu interior e explora as células do hospedeiro sem lhes causar a morte (Figura 3). A estrutura que extrai nutriente chama-se haustório. A colonização consiste no crescimento do micélio superficial, emissão de haustórios e extração de nutrientes do hospedeiro (LINHARES, 1982).

Sintomatologia

Nesta doença a presença de sinais é mais pronunciada do que os sintomas. A doença caracteriza-se pela formação do micélio superficial em áreas limitadas ou sobre todo o tecido foliar. Por isso, muitos denominam a doença de cinza. As estruturas do fungo são chamadas de sinais (Figura 4). Os sintomas são amarelecimento foliar, formação de ilhas verdes e morte foliar (Wiese, 1977).

Figura 4. Sinais do oídio sobre folha e espiga de trigo.

Ciclos secundários

A doença cresce em intensidade pelos ciclos secundários que se sucedem no cultivo, resultando no ataque de novas plantas e folhas e aumento da área foliar coberta com os sinais do fungo. A produção de esporos é abundante de modo que quando se caminha numa lavoura infestada, desprende-se uma nuvem de conídios.

Um ciclo de vida completo de conídio a conídio completa-se de 7-10 dias na faixa térmica de 15-22 oC (Wiese, 1977). Para se ter idéia do potencial de desenvolvimento cita-se que o ciclo do trigo é de aproximadamente 135 dias.

Quando a lavoura de trigo entra em senescência o fungo produz a estrutura de ascomiceto, os cleistotécios, gênero Blumeria, nos tecidos mortos. Esta estrutura não deve cumprir função biológica no Brasil, pois não tem sido encontrados ascosporos em seu interior.

Referências bibliográficas

AGRIOS, G.N. Plant Pathology. San Diego. Academic Press. 5 ed. 2005. p. 922.

COSTAMILAN, L.M. & LINHARES, W.I. Efetividade de genes de resistência de trigo a oídio. Fitopatologia Brasileira 27 p 621-625. 2002.

LINHARES, W. I. O trigo no Brasil, Fundação Cargill, Coordenação: Eduardo A. Osório Campinas,1982. p 423 – 471.

MAUDE, R.B. Seedborne diseases and the control principles and practice. Oxon: CAB Internacional, 1996. p. 70-88

MENEZES, M.; OLIVEIRA, S. M. A. Fungos Fitopatogênicos. Recife: UFRPE, 1993. 227p.

REIS, E.M.; CASA, R.T. Doenças dos cereais de inverno – diagnose, epidemiologia e controle. Lages, 2007. 176 p.

WIESE, M.V. The powdery mildew. Compendium of wheat disease. St. Paul. The American Phytopathological Society, 1977. p. 30-31.

Revista Plantio Direto, edição 116, março/abril de 2010. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.