Agricultores do meio-oeste americano visitam o Brasil
Grupo foi recebido na propriedade de produtor Paulo Vargas, de Carazinho, RS.
Um grupo de agricultores da No-till on the Plains (Associação de Plantio Direto das Planícies) visitou o Brasil em março. A viagem iniciou no Estado do Mato Grosso e incluiu visitas nos Estados do Paraná e Rio Grande do Sul e teve como objetivo conhecer um pouco da agricultura brasileira. As visitas a empresas, instituições de pesquisa, universidades e agricultores no Brasil foram organizadas por Rolf Derpsch, com apoio de Dirceu Gassen, que deu suporte nas atividades desenvolvidas no Rio Grande do Sul.
O inicio do tour foi no Mato Grosso onde o grupo visitou áreas de produção extensivas. Na ocasião, o grande número de máquinas e funcionários nas propriedades e o potencial agrícola da região, impressionou os agricultores americanos. No entanto, a monocultura de soja, a falta de palha na superfície dos solos e a exagerada movimentação de solos na semeadura decepcionou os visitantes.
No Paraná, o programa incluiu uma visita a Faculdade de Agronomia da Universidade Estadual de Ponta Grossa e ao IAPAR. A oferta de curso de especialização em plantio direto, coordenado pelo Professor João Carlos de Moraes Sá, UEPG foi muito elogiado. Segundo os agricultores, opções de ensino com esse foco não estão disponíveis nas universidades norte-americanas. Eles também destacaram a importância de investimentos públicos em estruturas físicas e pesquisas, exclusivamente direcionados para a geração de conhecimento para a agricultura.
Chamou atenção dos agricultores o uso reduzido de GPS, do monitoramento de colheita e de semeadura controlada nas propriedades. As poucas colhedoras com mecanismos de medição de colheita encontradas nas propriedades, não têm uso prático das informações sendo apenas utilizados para o registro de dados. Analisando as máquinas disponíveis e utilizadas pelos agricultores brasileiros, os norte-americanos consideraram que as indústrias oferecem estruturas básicas para atender a demanda de clientes que não priorizam investimentos nesse tipo de tecnologia.
Em Passo Fundo, RS, o grupo conheceu a evolução da produção de trigo e o potencial da integração lavoura-pecuária no sistema plantio direto, apresentado pelos pesquisadores Pedro Scheren e Renato Serena Fontaneli, da Embrapa Trigo e visitou a indústria de máquinas Semeato, especializada em semeadoras para plantio direto na palha.
Com o objetivo de apresentar ao grupo um pouco da realidade das propriedades do Planalto Gaúcho foi organizada uma visita às lavouras em Carazinho e a propriedade do produtor Paulo Vargas, onde o grupo teve acesso a importantes informações sobre o sistema de produção e manejo adotados, tornando possível compreender o grande esforço do agricultor brasileiro para produzir e ser competitivo.
A visita a campo foi importante para que os norte-americanos conhecessem de perto o sistema de produção e manejo adotados por agricultores líderes da região.
No fechamento do tour o grupo passou pela Fundacep, em Cruz Alta, RS, onde conheceu os trabalhos de pesquisa direcionados as pequenas propriedades e as pesquisas de rotação de culturas de longa duração.
Plantio direto no meio-oeste americano
No Rio Grande do Sul o grupo conheceu também a Expodireto Cotrijal, feira agrícola e participou da programação da Casa do Plantio Direto em uma tarde de intercâmbio entre os agricultores americanos e brasileiros. Na ocasião o agricultor Doug Palen representou o grupo apresentando dados sobre o plantio direto no meio oeste americano.
Doug Palen planta 1.500 hectares, em Glen Elder, Kansas. Nessa região, o volume de chuva é de 660 mm na média do ano. Palen cultiva trigo de inverno semeado em outubro e colhido em junho. No verão, planta ervilha amarela em março e colhe em julho. O milho é semeado em abril e colhido em outubro. A soja e o sorgo para grão são semeados em maio e colhidos em outubro. O girassol entra como segunda cultura sendo semeado em julho e colhido em outubro.
O agricultor conta que adotou o plantio direto por ter a mente aberta para novas tecnologias, para diminuir os riscos da atividade, fazer uma melhor distribuição do trabalho ao longo do ano e reduzir os investimentos. Palen conduz a propriedade com a esposa e mais um funcionário. Tem apenas uma colhedora para os 1.500 hectares, uma plantadora para sementes graúdas (soja, milho, feijão), uma semeadora para as sementes miúdas (trigo, aveia, cevada), dois tratores e um pulverizador autopropelido. Doug consegue fazer todo o trabalho de colheita com uma máquina apenas devido ao sistema de produção que é bem planejado. Segundo ele, a eficiência é resultado da adequada distribuição do trabalho, dos riscos e dos investimentos na propriedade.
O agricultor norte-americano Doug Palen, em sua propriedade em Glen Elder, Kansas. Na viagem ao Brasil ficou surpreso com ausência de rotação de culturas e uso de plantas de cobertura nas lavouras sob plantio direto.
Nos Estados Unidos não é tão freqüente o plantio direto ser considerado uma prática dentro de um sistema de produção. O PD bem feito ocupa em torno de 12 a 15% da área. Normalmente praticado por produtores inovadores que pensam o plantio direto dentro de um sistema. ”A maioria faz um PD mais ou menos, assim como lavar os pés sem tirar as meias”, brincou Doug. Ele acredita que para fazer plantio direto de qualidade é necessário entender de cobertura vegetal. Para ilustrar essa necessidade Palen fala de um questionamento um tanto inusitado dos agricultores da região das planícies do Kansas: se chove pouco, com o solo seco eles não podem fazer adubação verde porque irão gastar a umidade disponível.
São 26 milhões de hectares sobre plantio direto no EUA. A estimativa mais otimista aponta que aproximadamente 12% das lavouras são cultivadas com plantio direto contínuo por cinco anos, ou mais. Alguns utilizam o plantio direto rotacionado com preparo mecanizado do solo, Palen reconhece que esses agricultores nunca irão usufruir de todos os benefícios do plantio direto porque permanecerão sempre na fase de inicial de adoção.
Quais são as demandas atuais e necessidades para o futuro do plantio direto? Doug responde com outra pergunta: ”Nós temos a visão correta para o futuro?” Para ele enfrentar os novos desafios é na verdade enfrentar os ”velhos” desafios, ou seja, os agronômicos, os econômicos, os ecológicos e os sociais. Ele acredita que no nível global, deve-se passar uma mensagem consistente do verdadeiro plantio direto, contínuo e permanente. A mensagem deve incluir a necessidade de uma abordagem sistêmica para o plantio direto, com visão e gestão holística, ressaltando os benefícios para fertilidade do solo nos processos químicos, físicos e biológicos, a palha como uma ”armadura” de proteção do solo através da cobertura permanente, a semeadura invisível sem revolvimento para preservar a cobertura, a diversidade de espécies na rotação de culturas e na adubação verde com intensidade e intervalos adequados e a correta utilização de adubos. Ele ressalta que os agricultores líderes devem ser seguidos, precisam ser copiados na experiência e no conhecimento. Deve-se exigir mais das instituições de pesquisa e universidades, pois elas estão muito atrás dos melhores produtores em termos de aplicação prática do conhecimento e de visão. Os agricultores americanos utilizam a liderança do Brasil em experiências com culturas de cobertura na qual o Pesquisador Ademir Calegari, do IAPAR, tem grande destaque.
Esquema com períodos de plantio e colheita das principais culturas, média de temperaturas máxima e mínima diárias e precipitação média, em Glen Elder, Kansas.
Produtividade média das principais culturas na propriedade do produtor Doug Palen, em Glen Elder, Kansas.
Dois pontos que Doug Palen levou do debate realizado na Casa do Plantio Direto, é que a fertilidade não pode ser vista apenas como química é necessário haver uma interação entre os fatores químicos, físicos e biológicos. E também, que a integração lavoura-pecuária é um desafio para os americanos e um ponto essencial de sustentabilidade. Ele pensa que será uma forte tendência nas grandes planícies do meio oeste norte americano para os próximos anos. O agricultor considera que em regiões com maior limitação de água a entrada de pastagens pode ser algo rentável porque independente da quantidade da produção se consegue ter alguma vantagem, enquanto nas áreas de exclusiva produção de grãos a umidade do solo é um fator limitante da produtividade, dificultando a competitividade do agricultor.
No-till on the Plains
A No-till on the Plains, associação da qual Doug Palen e os demais agricultores que visitaram o Brasil pertencem, iniciou como um pequeno grupo que desenvolvia um programa de educacional patrocinado pelo governo e que tinha o objetivo de estimular a adoção de praticas conservacionistas. A diretoria da Associação é sempre composta por agricultores e a verba para as atividades vem da Agência de Proteção Ambiental. De acordo com Doug, não há associativismo formal, a instituição é aberta à participação de todos os agricultores. A principal atividade do grupo é a organização da Conferência No-till on the Plains, que acontece em janeiro e reúne aproximadamente 1.300 agricultores há 14 anos. Os fundos obtidos no evento revertem para a Associação que está registrada como uma instituição privada sem fins lucrativos. O orçamento da associação fica em torno de 250 mil dólares/ano e o principal objetivo é treinar agricultores.
Para Doug Palen a razão do sucesso e sobrevivência da Associação é que ela é feita por agricultores para agricultores. Ele percebe que os agricultores que participam têm ”sede” de informação. A troca de experiências e informações que adquirem durante a Conferência não está disponível em locais de educação formal. Ele explica que a Associação não se envolve com política e é vista como um grupo independente de agricultores. Na No-till on the Plains os membros motivam suas esposas a se envolverem participando efetivamente das atividades. ”Nos Estados Unidos o proprietário da fazenda é, ao mesmo tempo, o mecânico, o tratorista, o motorista, é um faz tudo. Por isso, como as mulheres estão próximas e envolvidas com o negócio, é importante que também participem dos treinamentos técnicos e das trocas de experiências”, ressaltou.
Programas governamentais e créditos de carbono
De acordo com Doug Palen nos Estados Unidos existe um programa de governo que remunera as boas práticas ambientais. Segundo ele, o valor é de menos de 1% da produção bruta de grãos e a participação dos agricultores é baixa porque a habilitação para o programa é complexa e os resultados financeiros são insignificantes. ”O programa cobra a adoção de um pacote de práticas que o governo julga adequadas e que, nem sempre, são viáveis para os agricultores”, explica.
Doug considera que há muita incerteza sobre a discussão dos créditos de carbono para agricultura sob plantio direto. Os créditos de carbono remuneram em torno de um a 1,5 dólares por acre nos Estados Unidos (dois a três dólares/hectare). Doug Palen diz que não entende muito bem quanto carbono efetivamente o agricultor consegue adicionar ao solo e como funcionam as relações da rotação de culturas com esse ”depósito” de CO2 no solo. ”Mesmo conhecendo os teores, as práticas e o manejo, quando acontece a troca de dono da propriedade com a venda da terra ou a mudança do sistema de produção, tudo é perdido”. Para ele as discussões dos créditos de carbono tem mais sentido quando se argumenta a redução do consumo de combustível e a redução na quantidade de nitrogênio adicionada ao solo com o uso de rizóbio em leguminosas. ”São itens que podem ser calculados anualmente com maior segurança. A economia de combustível é muito mais quantificável que qualquer outro aspecto relacionado ao carbono”, pondera.
Durante as visitas, Palen ficou impressionado com as condições do relevo das propriedades do Rio Grande do Sul. Ele diz que é difícil acreditar que em áreas com ondulação tão acentuada os agricultores brasileiros não têm maiores dificuldades para fazer agricultura. Outro ponto destacado por Palen foi a deficiência de infra-estrutura para a logística de grãos, cujo escoamento, fato percebido em todos os locais por onde o grupo passou, é feito quase que exclusivamente por rodovias. Além disso, ele reconhece que a incerteza econômica para o agricultor brasileiro é muito maior do que nos Estados Unidos. ”Talvez essa seja uma das razões pela qual a adoção do plantio direto é mais lenta entre os americanos. Aqui, há maior necessidade de eficiência na atividade, é uma questão de sobrevivência. Nos Estados Unidos não é assim”, concluiu.
Revista Plantio Direto 116, março/abril de 2010, Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.