IPCC — Mudanças Climáticas (Editorial)


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Publicado em: 01/04/2010

IPCC: passar mão na cabeça, puxar a orelha ou dar uma surra?

Gilberto R. CunhaChefe-Geral da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RSE-mail: cunha@cnpt.embrapa.br.

A revista Nature, volume 463, edição de 11 de fevereiro de 2010, trouxe, sob o título ”IPCC: cherish it, tweak it or scrap it?”, um conjunto de opiniões de cientistas de reconhecida autoridade nas ciências atmosféricas, pertencentes aos quadros de instituições americanas e européias, sobre os acontecimentos, relativamente recentes, envolvendo o vazamento de e-mails de pesquisadores da Universidade de East Anglia, do Reino Unido, e possíveis erros nas previsões do derretimento das geleiras do Himalaia, que foram inseridas no 4º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change), liberado em fevereiro de 2007.

Não sei se consegui captar todas as nuanças que o título dado pelo editores da Nature contempla. Acredito que, em uma adaptação livre para o português, seria algo como uma reflexão sobre o que pode ser feito, em relação à instituição IPCC e, mais especificamente, aos nomes envolvidos nos episódios. Não raro, dependendo da gravidade dos fatos, em situações deste tipo, costumamos passar a mão na cabeça, relegar, consolar e até fazer afagos. Ou damos uns puxões de orelha ou beliscões, chegando até o extremo, no sentido figurado e, ás vezes, literalmente, de aplicar uma surra daquelas de arrasar (mesmo sem desconhecer as implicações judiciais). Exageros e emoções a parte, o episódio serve para uma análise crítica do tema da mudança do clima global e de como, institucionalmente, estamos lidando com o mesmo.

Aos fatos e opiniões. Pouco antes da COP 15 (Conferências das partes das Nações Unidas que trata do tema da mudança do clima global), quem ocorreu em Copenhague em dezembro de 2009, veio a conhecimento público uma série de e-mails, trocados entre pesquisadores da Universidade de East Anglia e membros do IPCC, que dava a entender a manipulação de dados da série histórica que correlaciona temperaturas globais com concentração de CO2, formando a figura conhecida como ”taco de hóquei”. O objetivo era a criar uma situação catastrófica de aquecimento global, diferentemente do que os dados mostravam. Também se identificou um erro (deliberado ou não) em relação à previsão do derretimento total das geleiras do Himalaia, incluída no relatório do IPCC; além de denuncias de que o cientista indiano Rajenda Pachauri, maior autoridade do IPCC, que recebeu, em nome da entidade, o Prêmio Nobel da Paz em 2007, dividido com Al Gore, estaria beneficiando-se do cargo para capitalizar arrecadações em projetos de pesquisa próprios e prestando consultoria a empresas.

Os céticos do aquecimento global (não raro defensores de agendas ocultas) vibraram com os acontecimentos. Era a oportunidade que esperavam para reverberar suas críticas internacionalmente. O IPCC foi criado a partir do reconhecimento, nos anos 1980, por cientistas como Steve Schneider e Jim Hansen, de que havia a possibilidade de uma perigosa mudança no clima da Terra, em decorrência da elevação da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Na ocasião, o eminente climatologista sueco Bert Bolin convenceu a ONU a criar o IPCC, colocando como co-presidentes o britânico Sir John Houghton e o brasileiro Gylvan Meira Filho, cuja institucionalidade é merecedora de todo o crédito. Os discutidos relatórios do IPCC, refletindo a situação do clima global, desde então, foram liberados em 1991, 1995, 2001 e 2007, estando o próximo previsto para 2014.

As propostas quanto ao futuro do IPCC vão deste a extinção do órgão (após o 5º relatório, em 2014), mudança de procedimentos no processo de revisão e elaboração dos relatórios, periodicidade e estrutura dos documentos (número de páginas e linguagem), implementação de debate aberto estilo Wikipedia, até a criação de uma Agência Internacional do Clima, com quadro próprio de cientistas, diferentemente do formato de colaboração voluntária e indicações de governo.

O que não nos serve é tentar colocar no lixo um dos mais relevantes trabalhos de cooperação científica da história da humanidade. Quanto às denúncias, no caso do IPCC e em tantos outros, nunca é demais lembrar o que escreveu Edgar Morin sobre a comunidade científica: ”De alguma forma, a ciência é um lugar onde se desfraldam os antagonismos de ideias, as competições pessoais e, até mesmo, os conflitos e as invejas mais mesquinhos.”