Evolução Tecnológica das Semeadoras de Plantio Direto no Brasil


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Publicado em: 01/12/2009

Evolução tecnológica das semeadoras de plantio direto no Brasil

Ruy Casão Junior, Augusto Guilherme de Araújo & Rafael Fuentes LlanilloPesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná, Londrina, PR ruycasao@iapar.br, agaraujo@iapar.br, rfuentes@iapar.br

Esta é a terceira parte do artigo elaborado com informações do relatório intitulado ”SISTEMA PLANTIO DIRETO NO SUL DO BRASIL: Fatores que promoveram a evolução do sistema e desenvolvimento de máquinas agrícolas” (Casão Junior, Araújo e Fuentes Llanillo, 2008), cujo objetivo foi analisar o processo de evolução tecnológica do sistema plantio direto (SPD) no sul do Brasil, com ênfase no desenvolvimento do setor de máquinas agrícolas, e contribuir para a compreensão dos fatores que determinaram a consolidação desse sistema conservacionista de manejo do solo na região. O trabalho baseia-se nos depoimentos de 66 profissionais ligados à indústrias e revendas de máquinas, agricultores, instituições públicas de pesquisa e assistência técnica, cooperativas agropecuárias, entre outros, os quais foram registrados entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2008.

Evolução dos sistemas de distribuição de sementes e fertilizante.

O sistema de distribuição de fertilizante usado com mais freqüência até o início da década de 90 era o de rosetas dentadas. João de Freitas da Marchesan cita que a fábrica lançou o sistema de rosca sem fim já na semeadora de fluxo contínuo SD sendo depois introduzida na semeadora de precisão PST2, confirmado por Portella nos estudos de avaliação a partir de 1993. Apesar desse sistema não apresentar grande diferença no desempenho em relação aos disponíveis no mercado na época foi rapidamente adotado pela maioria dos fabricantes, sofrendo aperfeiçoamentos constantes.

A Vence Tudo, por exemplo, utiliza o dosador de fertilizante com rosetas auto-limpante, de custo barato e boa eficiência, mas oferece também, o sistema rosca sem-fim produzido pela Fertisystem. Este fabricante desenvolveu no início dos anos 2000 o distribuidor com rosca sem fim que se propõe a eliminar os problemas de desuniformidade, facilitar a manutenção e reparos. Está presente na maioria dos modelos de semeadoras de diversos fabricantes e com isso, estão surgindo outras opções no mercado, mas predominantemente mantendo o sistema de rosca sem-fim.

O sistema de distribuição de sementes usado tradicionalmente no Brasil é o de discos horizontais alveolados. É fabricado por algumas indústrias de semeadoras, mas cada vez mais está cedendo lugar a fabricantes especializados nesse componente.

A Scherer de Cascavel-PR e a Socidisco de Ponta Grossa-PR são exemplos de fabricantes de discos de sementes. Elio Scherer afirma que depende do lançamento das indústrias de semeadoras, mas praticamente não vende diretamente para os fabricantes e sim diretamente para os consumidores principalmente os produtores de sementes. Atualmente desenvolveu um disco que pode ser acoplado em qualquer semeadora de precisão de fabricação nacional. Não servindo somente na Baldan e Imasa, mas possui discos especiais para esses fabricantes, sendo 44 modelos diferentes de discos e orifícios. Cita que o material plástico possui uma composição diferenciada e exclusiva.

A Socidisco nasceu da sociedade de um agrônomo, um técnico agrícola experiente em semeadoras e um engenheiro mecânico que entendia de nylon. Foram os primeiros a introduzir discos de nylon na América Latina. Roberto Jasper comenta que depois da ICI foi a primeira empresa a desenvolver tecnologia para o SPD. Na fazenda do Franke Dijskstra junto com o administrador disponibilizaram os primeiros sistemas de distribuição de sementes para quatro máquinas. Participaram em todos os eventos do ENPDP apoiando as atividades de campo. A partir daí passaram a propiciar aos clientes cursos de regulagem de semeadoras, chegando a 10.400 pessoas, sempre em conjunto com as empresas de sementes de milho. Por este motivo foi criado outra empresa, a Sociplanta para realizar essas atividades.

A Scherer e a Socidisco concordam que o custo inicial do sistema pneumático não justifica a suposta melhora na qualidade. Todos os sistemas precisam de regulagem. Muitas empresas de máquinas pneumáticas venderam a idéia de que não é necessário regular, mas a variação da densidade das sementes exige sucção individualizada. Compensam isso aumentando em 50% a sucção recomendada aumentando a porcentagem de múltiplas. Os limpadores foram desenvolvidos para a retirada de resíduos, e ao serem usados para as sementes chegam a tirar a primeira semente do furo.

Eduir Pretto do Amaral, da Imasa afirma que fabricam discos para distribuição de sementes com maior diâmetro que os concorrentes, com isso, consegue menor velocidade periférica dos mesmos, e melhor distribuição. São mais caros, mas a durabilidade é maior, quase não há trocas, considerando que vendem a máquina com um jogo completo e discos virgens.

Rubens Dias de Moraes, da Jumil argumenta que o maior salto de qualidade da empresa foi quando lançou o sistema pneumático em 1994. Este sistema demorou para ser adotado, mas chegou a 60% das máquinas vendidas pela Jumil, contribuindo muito na qualidade de semeadura principalmente de milho, algodão e girassol.

Paulo Montagner da Khun/Metasa comenta que a Kuhn incorporou o sistema pneumático, que é um sistema simples e eficiente, trazendo tranqüilidade para o produtor e algumas culturas precisam disso. Cita que nos países onde há boa classificação de sementes por peneiras, o sistema mecânico é tão eficiente quanto o a vácuo, com a vantagem que qualquer operador de máquinas consegue trocar e fazer a manutenção na fazenda. O sistema pneumático é importante quando não há classificação por peneiras.

O principal mercado para as máquinas pneumáticas está no Norte, com a cultura de algodão cujas sementes não têm boa uniformidade. Outra cultura é o girassol, mas tem pouca expressão ainda. Estão trabalhando atualmente com uma empresa para viabilizar a semeadura de mamona, canola e girassol, com envolvimento da Emater, pois o interesse pelo biodiesel é crescente.

Predomínio das semeadoras de precisão e sua evolução geral.

Eduir do Amaral, da Imasa, disse que a fabrica sempre fabricou multissemeadora, mas em função da queda da produção do trigo, o mercado comprava quase que exclusivamente semeadoras de precisão. Neste contexto desenvolveram a semeadora de precisão Plantum no início dos anos 2000 (Figura 12), que sofreu muitas alterações, sendo que hoje somente permanece o sistema de distribuição de sementes. Introduziram o sistema de rosca sem fim, as molas que eram de compressão guiadas por varetas, foram substituídas por molas de tração, que reduzem o desgaste. Mudou-se para um sulcador estreito e reversível, destacando que os sulcadores são muito importantes, pois uma das maiores dificuldades da semeadora SPD estão nos componentes de ataque ao solo, sendo que existem vários tipos de solo e cobertura. As rodas de controle de profundidade da Plantum são estreitas e de maior diâmetro para não embucharem, passando sobre os obstáculos e palha.

Figura 12. A Imasa desenvolveu a semeadora de precisão Plantum no início dos anos 2000.

Em 2000 a Marchesan lançou a semeadora de precisão COP com sistema de paralelogramo nas linhas (Figura 13), como estavam vindo as concorrentes estrangeiras Case e John Deere. Cita João de Freitas que a vantagem é que as linhas permanecem sempre niveladas com o terreno, mas não acredita que isso traz grande diferença na prática. A característica da empresa sempre foi o disco duplo desencontrado e o sistema de profundidade com regulagem de posição, podendo afastá-lo ou não do disco duplo, além do sistema de compactação. Quanto as rodas de profundidade com ângulo de ataque em ”V”, notaram que o mercado não absorveu essa demanda, ficando no esquecimento na empresa. Mas, alguns vendedores estão solicitando e a empresa poderá reintroduzi-la.

Figura 13. Marchesan lançou em 2000 a semeadora de precisão COP, a máquina possuia sistema de paralelogramo nas linhas.

Paulo Montagner da Khun/Metasa desenvolveu primeiro a semeadora de precisão PDM no final dos anos 90. Posteriormente recebeu as linhas em paralelogramo, devido à exigência de mercado, mas como João de Freitas da Marchesan e Marcos Lauxen da Vence Tudo, não concordam que possa trazer grande vantagem no desempenho da máquina à campo, em relação as linhas pivotadas.

Rubens da Jumil, por sua vez, argumenta que introduziram o sistema em paralelogramo nas unidades de semeadura, desenvolvendo a semeadora Guerra. Esta segurou as vendas da Jumil nos anos difíceis de 2005 e 2006.

Carmen Galli, da Semeato, comenta que foram realizados muitos estudos com os rompedores de solo nas semeadoras de precisão, pois uma das metas da fabrica é o plantio direto ”invisível”. Assim, foi diminuído o ângulo de ataque das hastes sulcadoras para mobilizarem menos o solo no sulco. Passaram a eliminar o disco de corte e usar o disco duplo com centro desencontrado diferente do sistema de discos com diâmetros diferentes. Apesar de certos produtores preferirem o triplo disco ainda. O facão-guilhotina foi outro sucesso de desenvolvimento, assim como o facão afastado. Ambos a serem utilizados em condições específicas.

Benjamin da Planticenter disse que somente começou a fabricar a semeadora completa em 1999. Observou no Agrishow que os fabricantes já estavam utilizando o facão afastado e tinham em média 8 linhas. Assim, desenvolveu uma máquina para ser tracionada por tratores de 75 hp com 7 linhas para soja e 4 para milho, fáceis de serem transformadas, introduzindo um facão estreito. Em 2001 o depósito já era de polietileno, chegando a aumentar o tamanho das máquinas para até 11 linhas. Em 2002 surgiu a semeadora de precisão articulada transversalmente. Assim, podia acomodar-se sobre os terraços e teve boa aceitação (Figura 14).

Figura 14. A Planticenter desenvolveu a semeadora de precisão articulada transversalmente que e teve boa aceitação no mercado.

Luiz Külzer conta que sua primeira semeadora foi fabricada em 1998 de um trabalho de adaptações que havia iniciado em 1981. Esta decisão ocorreu por ocasião de 1985 quando participou em Ponta Grossa do III ENPDP, concentrando todo seu esforço para produzir sua própria máquina (Figura 15). Assim a semeadora de precisão já nasceu com o sistema de transferência de peso com cabo de aço. Cita que todo o desenvolvimento em sua fabrica foi feito com recursos próprios, sem apoio do governo e financiamento e somente após a máquina ter sido aprovada pelo Finame que pôde ser vendida com financiamentos.

Figura 15. A semeadora de precisão de Luiz Külzer já nasceu com o sistema de transferência de peso com cabo de aço.

Ampliação do mercado e desenvolvimento de semeadoras para atingir novas demandas.

Amaral, cita que depois da semeadora de precisão Plantum, a Imasa desenvolveu a Technum que vendeu pouco por ser uma máquina ”conceito”. Destaca que foi a primeira a ser produzida com corte laser, que facilita a construção de qualquer desenho e viabiliza a fabricação de lotes menores de máquinas. Além disso, permite a redução do uso de peças fundidas. A Plantec também de fabricação recente. Trata-se de uma multissemeadora que trás como novidade a possibilidade de deslocar as linhas na barra porta ferramenta sem a necessidade de desparafusa-las. Assim a transformação de sementes graúdas em miúdas é obtida com praticamente o movimento rotativo de um eixo. Além disso, pode posicionar o adubo ao lado das sementes, pode semear até três tipos de sementes ao mesmo tempo.

Amaral destaca que esses lançamentos foram feitos em plena crise de 2005 e 2006, procurando novos mercados e atendendo as especificidades de diferentes regiões. Outra estratégia foi o investimento na reposição de máquinas, abertura de novas fronteiras e até reforma. O esforço dedicado nessas máquinas ”conceito” permitiu transferir muitos componentes para máquinas mais simples, melhorando a qualidade das mesmas e atendendo outros mercados, surgindo assim novos modelos. Recomenda que os fabricantes invistam no projeto, mesmo que o mesmo fique engavetado, pois seu custo é muito baixo em relação aos benefícios que pode promover na criação constante na fabrica. Hoje o público está exigindo que a semeadora tenha maior capacidade de corte da palhada, que enterre as sementes com mínima de mobilização do solo e mantenha o sulco coberto com palha após a passagem da semeadora.

João de Freitas também conta que o modelo Activa foi uma máquina ”conceito” que vendeu pouco, mas aprendeu-se muito com ela. Foram introduzidos alguns conceitos internacionais que não deram certo, sendo necessário ”tropicalizar” o projeto.

Em 2008 foi lançada a PST4 Flex com linhas em paralelogramo, ao mesmo tempo em que foram mantidas as linhas pivotadas. Foi introduzida uma plataforma mais larga melhorando-se muito a parte ergonômica. Cita que foi somente a partir de 1998 que não tiveram mais problemas com a máquina cheia e vazia. Outra característica atendida foi a exigência regional, pois o que um produtor enxergava como defeito, outro citava como uma qualidade. Assim, a Marchesan possui semeadoras com 30 linhas a 50 cm de espaçamento que funciona em terrenos planos, o que não é a realidade do Paraná.

As multissemeadoras nasceram com a PDCM no conceito de se aproveitar a maior quantidade de peças possível. Foi utilizada a PST3 como base, introduzindo os discos duplos desencontrados e caixa de sementes miúdas. Conseguiu-se fazer com que a transformação da máquina para semear sementes graúdas em sementes miúdas fosse rápida e atender a demanda regional.

Rubens Dias de Moraes, cita que hoje a Jumil possui também uma multissemeadora, a Múltipla (Figura 16), com possibilidade de semear sementes de forrageiras intercalar as linhas da cultura principal. Possui três barras porta ferramentas para permitir um grande zig-zag entre as linhas e componentes, ajudando a fluir a palhada e evitar embuchamentos. Não precisa de disco de corte e a semeadura de verão pode ser realizada com o sistema pneumático. Hoje 80% das semeadoras da fabrica são exclusivas para o SPD. A Jumil possui uma grande linha de fabricação de equipamentos para a atividade pecuária, colhedoras e máquinas para a cultura de cana de açúcar, mas são as semeadoras de plantio direto o carro-chefe da empresa.

Figura 16. Multissemeadora Múltipla da Jumil

Carmen Galli da Semeato assegura que o Brasil é o grande laboratório da empresa e que sempre está ampliando seu mercado de atuação. Das máquinas pioneiras como a TD, PAR e PS surgiram uma infinidade de ”filhotes”. A caixa de pastagem, por exemplo, surgiu de uma demanda do Uruguai. Na Bolívia, onde os solos são férteis, não é utilizado o fertilizante, criaram as máquinas que somente semeiam. No Chile com solos ricos em minério, foi necessário criar discos mais resistentes ao desgaste. Na Europa existem regiões com muitas pedras, enfim, quanto mais foi sendo ampliado o mercado, novos modelos foram sendo criados.

No Centro Oeste do país, onde são necessárias máquinas maiores, nasceu a linha PF, como é o caso da Land Máster, que é a mistura da PS Máster com a PS e PAR na versão em precisão e da TD na versão em fluxo contínuo. Com o projeto METAS, surgiu a SHM, considerada outro marco importante no desenvolvimento da empresa. Era uma multissemeadora, voltada ao pequeno produtor que não podia comprar duas máquinas para semear sementes graúdas e miúdas. Essa máquina iniciou com 11 linhas espaçadas de 17 cm, foi ampliada para 17 e hoje com o modelo SSM possui até 27 linhas (Figura 17).

Figura 17. Com o projeto METAS, surgiu a SHM, voltada ao pequeno produtor, iniciou com 11 linhas espaçadas de 17 cm, foi ampliada para 17 e hoje com o modelo SSM possui até 27 linhas.

Marcos Lauxen conta que a partir de 1998 o Cerrado brasileiro iniciou grande expansão e a Vence Tudo começou a participar com a semeadora de precisão Premium, com 8 a 18 linhas para semear soja. Essas são também acopladas em tanden, chegando a trabalhar com 26 a 28 linhas de uma só vez. Consegue-se semear em um dia até 200 hectares. Ildemar, cita que o SPD ajudou a ampliação da agricultura no Cerrado e pelo fato das culturas de inverno não se desenvolverem adequadamente, estão utilizando a brachiaria e o milheto para a formação de palha. Comenta que ainda a quantidade de palha é pequena no Brasil Central, considerando que é um sistema semi-direto na sua definição.

Lauxen afirma, a medida que a empresa foi ampliando seu mercado, foram surgindo novas necessidades. Em 1996 lançaram de forma pioneira os depósitos de polietileno e se orgulha hoje da fabrica possuir máquinas apropriadas às pequenas, médias e grandes propriedades. Ildemar cita que a Vence Tudo é líder em máquinas apropriadas para o continente africano e a empresa que mais fabrica semeadoras SPD para a agricultura familiar no Brasil, chegando a vender 1200 por ano. A empresa ouve muito o cliente e tem isso com foco principal. Os proprietários também são produtores rurais e preocupam-se com a assistência técnica, reposição de peças e estruturação do departamento de vendas. Dão muita atenção aos trabalhos de pesquisa em Instituições, em especial aos desenvolvidos pelo IAPAR.

A semeadora de precisão Panther surgiu da SM e o sucesso foi tão grande que de 7 linhas já está com 13. Existe também a Panther múltipla que evoluiu da SMT (Figura 18). Ainda oferecem o sistema pula pedra. Quanto ao sistema de acabamento de semeadura, permanecem oferecendo os discos aterradores, que está muito bem difundido entre pequenos e médios produtores, mas outros maiores, principalmente por não conhecerem o sistema rejeitam este dispositivo. Assim, como fica muito caro fazer demonstrações localizadas, a fabrica optou a oferecer o que eles solicitam.

Figura 18. A semeadora Panther múltipla que evoluiu da SMT.

Jair Bottega, gerente de exportação da Vence Tudo, cita que a partir de 2000 a Empresa estruturou um departamento próprio para a exportação. Iniciou na Colômbia em 2001, pois o Uruguai e Paraguai eram tratados como se fossem estados brasileiros nas relações comerciais. As demandas de exportação vinham principalmente das grandes Feiras: Expointer, Agrishow e Show Rural. Foram ao México, Estados Unidos e principalmente por intermédio da FAO os produtos têm sido divulgado na América Latina, Ásia e África. São 20 países nesse trabalho de 6 anos de estruturação do departamento. Na Europa estão entrando por Portugal.

Paulo Montagner, da Kuhn, aprofunda as experiências dos fabricantes brasileiros explicando que o SPD não é uma receita de bolo, apesar dos fundamentos estarem bem definidos. No Maranhão, por exemplo, as sementes devem ser posicionadas a não mais do que 2 cm de profundidade, pois o solo apesar de leve, forma uma crosta superficial que impede a germinação. Hoje a fabrica acumulou muita experiência no país e estão agora mapeando o exterior.

A Empresa foi criada com a saída de diretores da indústria Semeato, que uniram esforços com empresário do setor metal-mecânico e criaram a divisão agrícola da Metasa. Em 2004, a indústria européia Kuhn com 180 anos de experiência no ramo, adquiriu a Metasa após 15 meses de negociações.

A Metasa desenvolveu primeiro a semeadora de precisão PDM e em 2002 a multissemeadora SDM (Figura 19). Dessas duas derivaram múltiplos modelos que se encontram hoje no mercado, como as demais empresas, atendendo demandas regionalizadas e nichos de mercado.

Figura 19. A multissemeadora SDM lançada em 2002 pela Metasa.

Montagner não vê problema caso a quantidade de palha aumentar no SPD, pois testou suas máquinas até 15 t/ha de palha. Outra conquista da fabrica é o domínio das exigências de outros países, como na Europa que tem outra realidade e normatização.

Benjamin Dalla Rosa, da Planticenter diz que em 2004 desenvolveu uma semeadora de fluxo contínuo com boa capacidade de cobrir as sementes miúdas, e que a crise dos anos 2005 e 2006 fez com que a fabrica procurasse alternativas, como a produção de máquinas pequenas com 2, 3 e 4 linhas e continuar fazendo adaptações em semeadoras. Fabricam o rolo faca, mas a procura é pequena. Cita que nos momentos de crise as indústrias reduzem a margem de lucro dificultando tudo para os empresários.

Luiz Külzer comenta que em 2002 e 2003 não conseguiu atender nem 10% dos pedidos solicitados, mas em 2004 começou a diminuir devido ao início da crise agrícola que se estendeu até 2006. A recuperação ocorreu somente no segundo semestre de 2007. Hoje a fábrica possui modelo de semeadora de fluxo contínuo com a característica de possuir rodados internos, que é a única conhecida no mercado. A Empresa fabrica também componentes de acabamento de semeadura para serem adaptados nas semeadoras existentes no mercado, fato que ajudou muito para enfrentar os anos de crise.

Morgenstern afirma que a crise que iniciou em 2004/05 foi grave e para ultrapassar esse período fez muitas reformas em máquinas usadas e vendendo barato. Os produtores estão agora tomando mais cuidados na manutenção dos equipamentos e continuam endividados. Percebeu que os produtores organizados, preocupados com o manejo e preservação do solo, que utilizam tecnologia inteligentemente, não encontraram dificuldades de passar pela crise.

Considerações finais

O sistema plantio direto demorou 20 anos para realmente apresentar indicadores de grande adoção. Muitos produtores que iniciaram o SPD na década de 80 e desistiram retornaram a adotar em função de vários fatores como:

A crise econômica e energética na década de 80 levou o meio rural procurar alternativas de redução dos custos de produção e o SPD necessitava menos horas/máquinas com significativa economia de combustível.

As indústrias de máquinas agrícolas estavam ofertando mais máquinas e iniciavam a desenvolver no início da década de 90 semeadoras de precisão (plantadeiras), que já existiam pela iniciativa de oficinas de adaptação de máquinas. Considera-se que, com a criação do Mercosul, o trigo argentino fez com que mudasse o sistema de produção baseado na soja e trigo para principalmente soja e milho safrinha, intensificando a necessidade do uso de semeadoras de precisão.

Vários fabricantes de máquinas agrícolas já disponibilizavam semeadoras de plantio direto mais adequadas principalmente nas regiões férteis de solos argilosos do sul do Brasil. Acreditaram na expansão do mercado e investiram fortemente no aperfeiçoamento das mesmas. Juntamente a isto, algumas instituições de pesquisa iniciaram estudos de avaliação comparativa de semeadoras de 1993 a 2003 possibilitando um intercâmbio técnico importante para o aperfeiçoamento dessas máquinas. A partir daí as indústrias desenvolveram novos modelos para atender nichos de mercado tanto nacional como internacional.

Surgiram programas para a capacitação de técnicos e produtores promovendo a expansão rápida do novo sistema que permanecia estagnado em 1.000.000 ha até 1992 para 25.000.000 ha em 2007.

A partir de 1995 o apoio de crédito agrícola principalmente para investimento, com juros fixos e menores, viabilizou a aquisição de máquinas em todo o território nacional. Associado a isso, proliferaram as exposições agrícolas com apresentações dinâmicas de máquinas agrícolas e as de plantio direto eram as que mais se destacavam. Passaram a ser referência para lançamento e aquisição e conseqüentemente financiamento desses equipamentos.

A atuação decisiva das cooperativas agrícolas e das indústrias de insumos foi importante na consolidação do SPD, oferecendo suporte tecnológico, logístico, infraestrutura para a facilitar a produção, armazenamento e escoamento da mesma. Da mesma forma que surgiram revistas especializadas no assunto, assim como, as revistas tradicionais que passaram a divulgar com destaque o SPD, proliferando a divulgação em todo o território nacional.

As indústrias de máquinas agrícolas conservacionistas no Brasil, quase todas de origem familiar, de pequeno a grande porte, responderam rápido a nova demanda por máquinas para o sistema plantio direto, principalmente as semeadoras adubadoras. Investiram pesadamente para superar as dificuldades inclusive nos períodos de crise do setor.

Das experiências consultadas, pode-se concluir que os produtores, industriais, revendas e associações que atuaram inteligentemente e de forma comprometida, obtiveram ótimos resultados, apesar das dificuldades durante esses 35 anos de SPD no Brasil.

Bibliografia

CASÃO JUNIOR, R.; ARAÚJO, A. G.; FUENTES LLANILLO, R. SISTEMA PLANTIO DIRETO NO SUL DO BRASIL: Fatores que promoveram a evolução do sistema e desenvolvimento de máquinas agrícolas. Londrina, PR: Instituto Agronômico do Paraná, 2008. 100 p. (Relatório final projeto convênio IAPAR/FAO/FAPEAGRO).

Revista Plantio Direto, edição 114, novembro/dezembro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.