Doenças em soja: dez razões para controlar melhor e colher mais
Carlos Alberto ForceliniEng.Agr., Ph.D., Professor Titular de Fitopatologia - Universidade de Passo Fundo - forcelini@upf.br
Figura 1. Oídio, doenças de final de ciclo e ferrugem asiática, principais doenças foliares da cultura da soja.
A cultura da soja é afetada por diversas doenças foliares, entre as quais se destacam o oídio, as doenças de final de ciclo e a ferrugem asiática (Figura 1). Além de reduzirem a atividade fotossintética da planta, tais doenças causam desfolha precoce, levando à senescência prematura da cultura (Figura 2). Trabalhos realizados no passado indicavam que o rendimento de grãos poderia ser reduzido em 40 a 50 kg/ha para cada dia de antecipação no ciclo da cultura. Estudos recentes, conduzidos na Universidade de Passo Fundo, indicam que esse dano diário no rendimento pode atingir até 80 kg/ha. Portanto, colher soja antes do tempo por motivo de doenças é mau negócio para o produtor.
Figura 2. Senescência antecipada por doenças, com redução diária de até 80 kg/ha no rendimento de grãos. UPF, 2008-2009.
Há uma relação direta entre manutenção da área foliar e rendimento de grãos. Em experimento com cultivares de soja de ciclos precoce e tardio (Tabela 1), o número de aplicações de fungicida determinou diferenças no índice de área foliar durante o enchimento de grãos, que por sua vez influenciou proporcionalmente o rendimento final. Um ponto importante no manejo de doenças em soja é, portanto, manter de 4 a 5 m2 de folha para cada 1 m2 de lavoura, até o final do enchimento de grãos.
Tabela 1. Índice de área foliar de dois cultivares de soja, no início (R5.1) e no final (R6) do período de enchimento de grãos, e sua relação com o rendimento.
Outro ponto fundamental é proteger a área foliar desde cedo, para que a planta possa manter maior número de vagens, que é o principal componente do rendimento de grãos em soja. Em trabalhos conduzidos na UPF, as diferenças em rendimento com duas aplicações de fungicida tem variado de 13 a 19 sacos/ha, o que é altamente significativo diante do custo destas mesmas duas aplicações, aproximadamente dois sacos por hectare. Contudo, é possível obter diferenças ainda maiores quando considerados alguns fatores que influenciam os resultados do manejo de doenças.
Passadas as dificuldades iniciais com a implantação da cultura, agora é a hora e a vez de se pensar e planejar como manter a área foliar da planta e otimizar os componentes do rendimento de grãos. Nesta discussão, serão abordadas dez questões que podem auxiliar ao produtor na tomada de decisão quanto à aplicação de fungicidas. Para fins de apresentação, estas questões estão estruturadas em função do clima (2), da planta (2), das doenças (2), dos fungicidas (3) e da tecnologia de aplicação (1).
1. Ano de ”el niño” potencializa o rendimento da soja e sua resposta ao controle de doenças.
A partir de resultados internos obtidos na UPF, no período de 1999 a 2007, verifica-se uma relação direta entre volume de chuvas e resposta ao controle de doenças foliares. Para lavouras estabelecidas no mês de novembro, por exemplo, o volume e a distribuição de chuva nos meses de janeiro, fevereiro e março são determinantes para o sucesso da cultura. Com base na Figura 3, a menor diferença (15%) em rendimento de grãos por conta do controle de doenças ocorreu no anos de pouca chuva e a maior (34%) no ano de ”El Niño”. Por isso uma expectativa maior de rendimento para a safra de verão 2009-2010.
Figura 3. Diferença média em rendimento de grãos com o controle de doenças foliares da soja, em diferentes anos. O volume de chuvas indicado em cada ano compreende o trimestre de janeiro a março. UPF, 2009.
2. Maior volume de chuvas favorece à ocorrência de doenças
Exceto o oídio, que desenvolve melhor sob temperaturas amenas e ambiente de pouca chuva, todas as demais, como a ferrugem asiática, as doenças de final de ciclo, a antracnose e algumas doenças de haste como o mofo branco, se beneficiam da maior ocorrência de chuvas. As condições climáticas e os relatos de sua presença em outras regiões projetam uma ocorrência mais precoce e intensa da ferrugem asiática para esta safra. Sob condições semelhantes, na safra 2006/07, houve lavouras (não tratadas) na região Sul do Brasil onde a ferrugem causou 100% de desfolha e reduziu o rendimento de grãos a menos de dez sacos por hectare. Outro agravante. Em muitas regiões, as chuvas ocorridas em novembro empurraram a semeadura da soja para mais tarde, expondo a cultura a um período de maior ocorrência de ferrugem.
Nas últimas safras, a ocorrência de doenças de final de ciclo e da antracnose da soja foi pequena. Estas doenças têm sua origem nas sementes infectadas e na palhada que fica na lavoura de um ano para outro. Plantas sem sintomas destas moléstias indicam a presença dos respectivos patógenos quando examinadas em laboratório, evidenciando que os mesmos estão presentes na lavoura. Contudo, sua ação é dependente da ocorrência de chuvas, que nesta safra deverá favorecê-los. Espera-se, portanto, maior intensidade da antracnose e das doenças de final de ciclo. Como a fonte de inóculo principal é o próprio resto de cultura da soja, a infecção se processa de baixo para cima na planta, e quanto mais cedo o controle melhor o resultado.
Em 2005/06, realizou-se estudo na UPF visando avaliar os danos causados pelo complexo DFC/antracnose. Foram realizadas duas aplicações de um fungicida triazol em toda a área experimental, onde foram colhidos 46 sacos/ha. Em outras áreas foram aplicados fungicidas também eficazes para DFC e antracnose, com rendimentos adicionais de 7 a 14 sacos/ha conforme o fungicida e a época de aplicação.
3. Cultivares precoces possuem menor área foliar
Os cultivares mais utilizados atualmente são de ciclo precoce, e se caracterizam por possuir índice de área foliar menor (3,5 a 4) que os tardios (5 a 6), além de ter um período mais curto para o enchimento de grãos (Figura 4). Portanto, são cultivares cuja produtividade está mais concentrada por unidade de área foliar e de tempo, sendo por isso mais sensíveis a fatores de estresse, como as doenças. Trata-se de uma planta que ”não tem gordura prá queimar”.
Figura 4. Comparativo entre cultivares precoce (esquerda) e tardia (direita). Material precoce tem menos tempo e área foliar para o enchimento de grãos. UPF, 2009.
4. O terço inferior da planta tem grande participação no rendimento de grãos
Os cultivares atualmente empregados, em sua maioria, apresentam maior carga de vagens entre os terços médio e inferior, enquanto materiais anteriores tinham mais vagens do meio para cima da planta (Tabela 2). Outra característica dos cultivares mais novos é a inserção de vagens mais próxima ao solo, assim como maior ramificação a partir do baixeiro. Isso significa que o terço inferior da planta tem, hoje, uma importância maior que antes, por isso precisa ser melhor protegido.
Tabela 2. Porcentagem de vagens por terço da planta em diferentes cultivares de soja. Almeida & Forcelini, 2007/08
5. Alguns cultivares muito produtivos são mais suscetíveis a doenças
O melhoramento genético da soja para altos rendimentos de grãos nem sempre consegue associar a resistência a doenças ou manter a rusticidade da cultura a outros fatores de estresse. Por este motivo, alguns cultivares atuais são muito produtivos, mas mais suscetíveis a doenças, requerendo maior nível de proteção. Um exemplo disso são as epidemias de oídio verificadas nas últimas safras, as quais tem ocorrido mais cedo na fase vegetativa e mais intensamente.
6. A monocultura de soja favorece ao aumento de doenças
A área de cultivo de milho na safra 2009-10 é uma das menores dos últimos anos, o que significa que há maior quantidade de lavouras com monocultura de soja. Esta condição, associada às chuvas previstas, favorece muito ao aumento das doenças que tem na palhada uma fonte de inóculo importante, como a antracnose, as doenças de final de ciclo e o mofo branco.
7. Fungicida aplicado cedo apresenta controle mais eficaz
A eficácia dos fungicidas é máxima quando os mesmos são aplicados preventivamente (ferrugem asiática) ou bem no início do aparecimento da doença (oídio e DFCs). Na aplicação preventiva o fungicida age de três formas: adiando o início da epidemia, reduzindo sua quantidade inicial e diminuindo o ritmo da sua evolução. Apenas este último efeito é possível na aplicação curativa. Na safra 2008-09, houve aparecimento precoce e intenso do oídio em diversos cultivares de soja. Em experimento com o cultivar Apolo (Figura 5), obteve-se rendimento de grãos de 27,2 sc/ha nas áreas não tratadas e de 38,3 a 41,7 sc/ha naquelas submetidas a duas aplicações, sendo a primeira com 20% de severidade de doença e a segunda 21 dias após. Outras áreas do mesmo experimento, que tiveram uma aplicação extra 14 dias antes das demais, renderam de 50,4 a 57,5 sc/ha, evidenciando o melhor desempenho do controle químico quando realizado cedo.
Figura 5. Áreas de soja (cv. Apolo) com zero, duas e três aplicações de fungicida.
8. Controle inicial de doenças apresenta efeito mais prolongado
O melhor desempenho dos fungicidas em aplicações antecipadas também se reflete em maior período de proteção da cultura. Em sua dissertação de Mestrado na UPF, o Eng. Agr. Rodrigo Almeida analisou o intervalo entre aplicações de fungicida, quando a primeira foi realizada no pré-fechamento do espaço entrelinhas. Em oito experimentos com diferentes cultivares e duas épocas de semeadura, os resultados obtidos com três ou quatro semanas de intervalo foram semelhantes (Tabela 3). Na prática, recomenda-se que o período entre aplicações não ultrapasse três semanas, mas tais resultados mostram que a aplicação antecipada proporciona maior segurança no caso de imprevistos na reaplicação.
Tabela 3. Rendimento de grãos de soja em função do momento e do intervalo de aplicação. Média de oito experimentos. Almeida & Forcelini, 2007/2008.
9. Aplicação cedo permite flexibilidade de escolha do fungicida
A aplicação de fungicida no pré-fechamento da cultura ocorre na ausência da ferrugem ou sob baixa pressão por esta doença. Por este motivo, outras opções de fungicida (ex: triazóis + benzimidazóis) também apresentam resultados satisfatórios, especialmente se houver presença de oídio e DFCs. Neste caso, a próxima aplicação deve ser de triazol + estrobilurina e o intervalo de, no máximo, duas semanas. A substituição da aplicação da mistura de triazol + estrobilurina em outros momentos (Tabela 4), ou a não realização de uma das aplicações (Tabela 5), resultou em controle inferior da ferrugem e em menor rendimento de grãos.
Tabela 4. Efeito de combinações de fungicidas sobre a severidade da ferrugem e o rendimento de grãos em soja (cv. Fundacep 53 RR). UPF 2008-2009.
Tabela 5. Rendimento de grãos em função do número de aplicações de triazol + estrobilurina em soja (cv. Fundacep 53 RR). UPF, 2008-2009
10. Aplicação em pré-fechamento atinge melhor o alvo
Trabalhos do Professor Ulisses Antonuassi (Unesp) mostram que a distribuição do fungicida, nos terços inferior e médio da planta, é precária quando o fungicida é aplicado após o fechamento do espaço entrelinhas (Figura 6). Contudo, estas partes da planta respondem por cerca de 70% do rendimento da cultura, o que requer melhor qualidade de aplicação, a qual pode ser obtida antecipando o primeiro tratamento para o estádio de pré-fechamento da cultura. Essa é uma alternativa simples, que não implica em mudança de espaçamento de cultivo ou maquinário. Na safra 2008-09, dois programas com três aplicações de fungicida, iniciados em V9 (planta com nove nós ou folhas) ou R1 (início do florescimento) foram comparados com relação a diferentes variáveis de doença e do rendimento de grãos (Tabela 6). Plantas pulverizadas a partir do estádio V9 apresentaram melhor controle do oídio, menor desfolha, maior número de vagens e de grãos, assim como peso de grão maior em 1 g/planta. Em um hectare, isso significa quatro sacos a mais, simplesmente pela antecipação do primeiro tratamento.
Figura 6. Distribuição de gotas, concentração de 82,9 % no terço superior, 13,3 % no médio e 3,8 % no inferior de plantas de soja.
Tabela 6. Severidade de doença, desfolha e componentes do rendimento de grãos de soja (cv. Fundacep 55 RR) em função do momento de aplicação dos fungicidas. UPF, 2008-2009.
Com os dez pontos apresentados objetivou-se argumentar a favor de uma aplicação de fungicida mais cedo, no pré-fechamento da cultura, a fim de permitir à parte inferior da planta, que hoje tem uma importância maior, a reter mais folhas e vagens, com reflexos positivos no rendimento de grãos. Esta antecipação resulta em melhor manejo das doenças, uma vez que atinge os possíveis alvos, atua nos estádios iniciais do problema e permite desempenho superior ao fungicida. Em algumas situações, essa antecipação poderá resultar em uma aplicação a mais, ao custo adicional de 1 saco/ha, mas cujos benefícios deverão ser maiores nesta safra, dada à perspectiva de mais chuvas, condição que favorece às doenças, mas permite maiores rendimentos à cultura da soja.
Revista Plantio Direto, edição 114, novembro/dezembro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.