Compactação do solo por rodados: podemos evitá-la?
Carlos Ricardo Trein1; Aramis Picinin Machado2 & Renato Levien11Professor de Mecanização Agrícola, Departamento de Solos (UFRGS); trein@ufrgs.br2Bolsista do projeto ”Mapeamento da Compactação do Solo”
Rastros de pneu de trator e de semeadora
A mecanização eficiente é um dos principais fatores que suportam produtividades elevadas na agricultura atual. Sem a possibilidade de semear e colher com máquinas, a produção de alimentos poderia não existir nas quantidades necessárias para suprir a demanda. Todavia, como os tratores vêm se tornando cada vez maiores e mais pesados, eles também aumentaram o potencial para danificar o solo. Este dano pode ser diretamente visível pela observação de rastros sobre o solo ou então, ser completamente contido na camada subsuperficial e não ser visível da superfície. E o que não é visível de imediato, leva mais tempo para ser descoberto. De qualquer forma, o efeito do tráfego veicular pode refletir negativamente na produtividade agrícola, por poder causar alterações na condição do solo que são inaceitáveis para suportar adequadamente um sistema de produção sustentável.
A compactação do solo é o reflexo mais imediato e mais devastador do tráfego de tratores e colheitadeiras sobre o mesmo. O solo é composto por três elementos: ar, água e minerais. Quando há trafego sobre a superfície, e acontece compactação, ocorre uma aproximação das partículas minerais, e o volume dos vazios por onde circulam ar e água diminui. O efeito da compactação pode durar anos, e é de difícil reversão.
As medidas ”curativas” normalmente associadas ao uso da força, ou seja, escarificação ou subsolagem, são as que exigem maior gasto de energia. Prevenir é o melhor remédio, mas implica na tomada de decisões adequadas no momento certo. Uma decisão correta tem que ser baseada num diagnóstico correto: é necessário reconhecer as causas da compactação, para, a partir daí, tomar as providências necessárias para tentar evitar, ou, se isto não for possível, minimizar seus efeitos.
Neste artigo, abordamos algumas das principais causas da compactação, efeitos, e finalmente formas para tentar aliviar ou minimizá-los
1. Causas da compactação
Solos autocompactáveis. Alguns solos são particularmente propensos à autocompactação. A textura do solo, que pode ser identificada pela distribuição do tamanho de partículas, é indicadora da propensão à auto-compactação do mesmo. Um solo com uma distribuição de tamanho de partículas mais uniforme, onde temos boa proporção de partículas de todos os tamanhos ((grosseiras (areia), médias (silte) e menores (argila)) é mais facilmente autocompactável do que um solo que tenha uma péssima distribuição de tamanho de partículas.
Solos cultivados ou escarificados. Ao ser mobilizado intensamente e repetidamente um solo perde sua resistência intrínseca. Operações posteriores causam um rearranjo das partículas sólidas que as deixa num estado de empacotamento maior que o anterior. A estrutura alterada não resiste à aplicação das tensões que um pneu transmite e o solo é compactado a um nível de magnitude tão grande ou maior do que o anterior.
Figura 1. Parâmetros que interferem no processo de compactação do solo e capacidade de suporte do solo após a passagem de uma máquina (Diserens, 2004 apud Boukonga, 2009).
Solos úmidos. Os solos têm menos resistência quando úmidos e podem ser compactados quando trafegados próximos de sua capacidade de campo.
Tratores mais pesados. À medida que a massa dos tratores e implementos aumenta, a carga sobre o solo também aumenta, causando compactação severa do solo. Um trator é construído de forma a transformar em força de tração o seu peso. Tratores grandes, colheitadeiras, distribuidores de fertilizantes e corretivos podem causar compactação severa.
Tráfego repetido. Cargas menores, mas repetidas diversas vezes também podem causar compactação se aplicadas no mesmo local, embora, neste caso, o risco seja muito menor. Se um trator aplicar uma pressão de contato maior que o solo pode resistir, vai haver deformação. A primeira passada causa 90 % do dano. Se a pressão de contato que o trator exerce sobre o solo for menor que a resistência do mesmo, não haverá compactação.
1.1. Determinação do estado de compactação do solo.
Duas medidas de compactação do solo são usadas comumente: a densidade do solo e a resistência à penetração de um penetrômetro. A densidade do solo é uma medida de massa de solo pelo volume no qual esta massa de solo está contida. A compactação de solo ocorre quando a densidade aumenta, ou seja, mais partículas estão contidas no mesmo volume de solo. A compactação varia naturalmente com o tipo de solo: os arenosos tem maior densidade que solos argilosos (relacionado ao elevado número de pequenos poros associados com os solos argilosos). Valores variam de 1,1 Mg/m3 até 1,6 Mg/m3 para solos francos e argilosos dependendo do uso anterior a que foram submetidos. Solos arenosos têm valores de densidade que variam entre 1,2 e 1,8 Mg/m3. Existem referencias de solos trafegados que exibem densidades superiores a 2,0 Mg/m3.
Outra medida de compactação, que vem sendo cada vez mais usada, é a resistência á penetração no solo, medida por um penetrômetro composto por um cone de 30° conectado a uma haste de ferro. A haste de ferro, acoplada a um cabo, força o cone para dentro do solo. A força exercida é medida por célula de carga, colocada entre a haste e o cabo. Um sensor de profundidade também é incorporado. Penetrometros modernos são dotados de unidades armazenadoras de dados de alta capacidade que, além da resistência do solo experimentada pelo cone a cada centímetro que avançam solo adentro, são usadas para armazenar a posição no terreno (com o acoplamento de GPS). A resistência a penetração pode ser referida também como índice de cone, definido como sendo a força exercida pela área da seção da base do cone. O índice de cone é citado normalmente como sendo de camadas do solo e consiste nas medias das resistências à penetração medidas na camada em destaque. Se pressões acima de 2 MPa são medidas, há referencias que mostram desenvolvimento de raízes prejudicado (diminuído)
O desenvolvimento de penetrômetros automatizados, acoplados a quadriciclos, permite que uma área relativamente grande possa ser amostrada em um mesmo dia de trabalho. As medições feitas no mesmo dia podem ser comparadas entre elas, uma vez que a variação no teor de água não é demasiadamente grande no mesmo dia. Desta forma, facilita um diagnóstico rápido e preciso das áreas sob exploração agrícola.
Da mesma forma que a densidade do solo, os maiores índices de cone são obtidos em solos trafegados quando comparados aos não trafegados. Raper et al. (1995) acharam que, depois de cinco anos de trabalho com área em que o tráfego foi controlado, de modo a fazer coincidir as passadas de trator, o índice de cone medido foi muito grande nas áreas trafegadas, e foi reduzido drasticamente nas áreas sem tráfego quando comparadas ao solo original. Estas diferenças foram observadas em profundidades de até 45 cm.
Tanto a densidade do solo como o índice de cone mostram conclusivamente que seus valores aumentam á medida que aumenta a intensidade do tráfego. Muitas vezes este aumento mostra que há diminuição do desenvolvimento radicular com conseqüentes diminuições na produtividade, mas, outras vezes, as condições de tempo ou outras condições de solo evitam que relações significativas de causa–efeito sejam encontradas.
1.2. Rastro do trator
Um dos primeiros sinais de que o solo está sendo afetado pelo tráfego de máquinas é a deformação exagerada da área sob as rodas, ou rastro. O rastro costuma acontecer quando o solo é trafegado em condições em que se apresenta deformável. As condições em que o solo se apresenta deformável aparecem quando a resistência do mesmo está diminuída seja por escarificação anterior, seja por aumento do conteúdo de água por chuva recente ou por irrigação. Muitos estudos conduzidos no laboratório de dinâmica de solos em Auburn, nos Estados Unidos, em caixões de solo (”soil-bins”) mostram que aumento na carga aplicada (peso sobre eixo) e aumento na pressão de inflação aumentaram a profundidade do rastro do pneu. Raper et al. (1996) acharam que, além da profundidade do rastro, o aumento da carga por eixo também aumentava a largura do mesmo, ou seja, a deformação do solo no sentido horizontal. O aumento da pressão de inflação, porém, não causava este tipo de efeito. O aumento da pressão de inflação aumentava a profundidade do rastro, mas não a largura do mesmo; desta forma, a área transversal do rastro não mudava, uma vez que o pneu mais inflado produzia rastros mais estreitos.
Rastros de pneu de trator sobre preparo convencional de solo
O rastro do pneu muitas vezes é debitado à ação do pneu traseiro do trator. Em ocasiões em que a carga sobre os eixos dos tratores é mal distribuída, ou quando simplesmente se divide o peso sobre o eixo traseiro sobre quatro rodas (rodas pareadas), a marca mais profunda que aparece no solo depois da passagem do trator pode ser a do pneu dianteiro, pois aí terá havido a maior pressão de contato.
É importante notar também, que, apesar do rastro do pneu ser um indicativo de dano à estrutura do solo, nem sempre o solo trafegado exibe rastros de trator, e, mesmo assim, pode ter sido afetado significativamente. A passagem seguida de sulcadores na operação de semeadura pode disfarçar ou até remover os rastros, mas raramente remove a compactação produzida.
Um detalhe que poucas vezes é observado: A ação do sulcador da semeadora muda de acordo com o estado de compactação do solo. Os mais compactados podem ter menos água, serem mais difíceis de romper, e o resultado pode ser a formação de torrões e a expulsão destes do sulco. Já solos não compactados permitem que o sulcador atue à profundidade para a qual foi regulado, uma vez que as condições de rompimento são diferenciadas em relação ao solo ”pisado”. Assim, numa área que sofreu tráfego com elevada umidade em algum tempo anterior, a abertura de sulco pode ser variada, podendo haver diferença na germinação e emergência das plantas.
1.3. Infiltração reduzida e aumento da erosão
Ainda que os rastros de pneus não sejam visíveis, os danos acontecidos por ocasião do tráfego podem mostrar os efeitos mais tarde quando ocorrerem chuvas mais intensas. A quantidade de chuva infiltrada será menor nas áreas que tiveram o solo trafegado e a porosidade reduzida. A água da chuva não penetra por causa da compactação excessiva e por causa de selamento superficial induzido pela passagem da roda. Devemos considerar que esta quantidade de água que não infiltra, é uma quantidade de água que não está disponível para a cultura. Gaultney et al. (1982) mostraram que a água ficou mais tempo empoçada nas áreas onde passaram os pneus do que em áreas não trafegadas. Diversas pesquisas mostram aumento do escorrimento de água nas áreas de tráfego de máquina quando comparadas com áreas sem tráfego. Kaspar et al. (2001) acharam que a taxa de erosão que acontece no espaço entre rodas é metade da taxa que ocorre na área trafegada. As conclusões deles cobrem um período de três anos, em solos de textura franca sob plantio direto.
Infiltração de água com corante azul em 2 cm de profundidade na faixa compactada pela roda da colhedora (esquerda) e em 16 cm de profundidade na faixa de solo sem tráfego recente (direita) (Passo Fundo, 6 dezembro de 2009).
Outros trabalhos feitos em solos com maior teor de argila mostraram que a área atingida pela roda do trator servia de guia para o fluxo de água que não infiltrava no solo (Potter et al., 1995). A infiltração reduzida resultante da compactação permite a concentração de fluxo e, dessa forma, há energia suficiente para cisalhar a superfície do solo e originar sulcos com a remoção do solo.
Erosão de solo e pé-de-grade em área sob preparo convencional
1.4. Restrição ao desenvolvimento de raízes
A passagem de rodas sobre o solo reduz o espaço poroso e aumenta a densidade do solo. As raízes das plantas forçadas a crescer no espaço poroso diminuído sofrem restrições, tanto pelo impedimento mecânico como pela diminuição da disponibilidade de oxigênio. Taylor et al. (1980), estudaram o efeito da compactação por pneus no crescimento radicular em vários tipos de solo e mostraram que nenhuma raiz conseguia penetrar em solos cuja resistência era maior que 2,5 MPa. Também acharam que solos com maiores resistências à penetração também produziram plantas com sistemas de raízes com maior diâmetro. A passagem de pneus também limita o desenvolvimento de raízes em profundidade. Raghavan et al. (1979) acharam que a profundidade de exploração pelas raízes decresceu de 90 cm em áreas não trafegadas, para 37 cm em áreas trafegadas repetidamente com pressões de contato não maiores do que 62 kPa. A falta de resposta de algumas culturas à diminuição de produção deve-se à compensação de crescimento radicular na área não atingida pela compactação da roda. As raízes das plantas cresceriam mais no solo não compactado compensando a restrição sofrida na área trafegada.
2. Minimização dos efeitos do tráfego
Eliminar o efeito do tráfego é impossível. A necessidade de realizar os serviços no campo ainda é fundamental para a produção de alimentos. No entanto, alguns métodos podem ser utilizados para reduzir os efeitos negativos do tráfego na produtividade. Os principais são, reduzir a quantidade de tráfego, reduzir a carga dos veículos, introduzir o tráfego controlado, minimizar a pressão de contato do elemento de tração e o solo práticas que mantenham uma boa estrutura do solo. Alternativas como escarificação devem ser consideradas apenas em casos extremos, pois são extremamente consumidoras de energia e os efeitos são efêmeros, quando a prática não é seguida de outras alternativas de manejo. De fato, a escarificação no sistema de plantio direto (SPD) tem sido indicada como alternativa para o rompimento de camadas compactadas de solo que podem surgir nesse sistema (Klein & Camara, 2007). Os efeitos da escarificação não são observados depois de um ano (Veiga et al., 2007; Reichert et al., 2009). Além disso, a escarificação nem sempre resulta em aumentos na produtividade (Klein & Camara, 2007), especialmente em solos de textura arenosa a média (Lima et al., 2006), onde o nível crítico de compactação é mais elevado (Reichert et al., 2003). O problema que ocorre com a recompactação rápida do solo está ligado ao tráfego não controlado após a operação de escarificação, e ao uso de culturas cujos sistemas radiculares não sejam eficientes em ”reconstruir” o solo, ou cuja produção de biomassa é muito baixa. Alternativas que podem melhorar a qualidade estrutural do solo passam pelo emprego de plantas de cobertura com elevada produção de fitomassa e sistema radicular abundante, capaz de romper camadas compactadas e produzir bioporos através dos quais as raízes das culturas implantadas podem se desenvolver (Silva & Rosolem, 2002). Ao contrário dos poros produzidos pela mobilização mecânica do solo, os bioporos são longos e contínuos e, assim, de alta efetividade para a condução de água e ar (Oades, 1993). Além disso, os resíduos das plantas de cobertura tendem a manter maiores conteúdos de água na superfície do solo (Andrade, 2008), aliviando assim parte dos efeitos produzidos pela compactação. No entanto, ainda persistem dúvidas quanto à eficiência dessa prática, principalmente no que se refere à produtividade das culturas durante o período de recuperação do solo. Alguns pesquisadores recomendam usar sulcadores que rompam a linha de semeadura mais profundamente, e propiciar a deposição mais profunda dos fertilizantes (Veiga et al., 2007), medida que pode estimular o desenvolvimento radicular e, reduzindo desta forma os efeitos da compactação sobre a produtividade das culturas enquanto a recuperação física por processos biológicos está em andamento.
Adubação verde para a produção de bioporos no solo
A utilização de culturas de cobertura também cria um efeito na capacidade de suporte de cargas do solo. Em uma área sem tráfego, Debiasi (2008) evidenciou uma baixa capacidade de sustentação de cargas externas, independente do tipo de planta de cobertura do solo de inverno utilizada (nabo forrageiro, consórcio aveia + ervilhaca). Concluiu que as tensões aplicadas ao solo, através da realização das operações agrícolas, num teor de água correspondente à tensão de -33 kPa (teor de água de aproximadamente 0,16 kg kg-1) leva à compactação adicional do solo.
Mas, importante notar que medidas preventivas devem ser preferidas e entre estas estão: reduzir a quantidade de tráfego, reduzir a carga dos veículos, introduzir o tráfego controlado, minimizar a pressão de contato do elemento de tração no solo e adotar práticas que mantenham uma boa estrutura do solo.
2.1. Redução da carga por eixo
As pesquisas com compactação do solo pelo tráfego mostram que a compactação da camada superior do solo é controlada pela pressão de contato enquanto que a compactação das camadas mais profundas é causada pelo total de carga por eixo. Taylor et al. (1980) verificaram que o aumento na carga por eixo foi responsável pelos aumentos de forças compressivas a 18, 30 e 50 cm de profundidade apesar das cargas aplicadas terem a mesma pressão de contato superficial. Estes estudos mostram a necessidade de reduzir, além da pressão de contato superficial, o peso aplicado, como uma maneira de evitar a possibilidade do trator causar compactação subsuperficial. Em contraposição à compactação superficial, que pode ser eliminada com práticas mecânicas ou sistemas de manejo que consigam aportar boas quantidades de material vegetal de qualidade, em freqüência suficiente para manter o solo vivo, a compactação subsuperficial é muito difícil ou até impossível de ser removida sem altos investimentos.
Grades com desestruturação e compactação de solo
A aplicação de altas cargas foi investigada por diversos pesquisadores, e o que se conclui da grande maioria deles é que pequenas modificações no estado de compactação em camadas mais profundas só são produzidas quando o solo está com baixo conteúdo de água, relativamente seco. Quando úmido, o solo destas camadas compacta significativamente. Dificilmente esta compactação pode ser removida. Por isso a recomendação de se trabalhar com cargas de até 6 t por eixo, quando o tráfego é feito sem controle, ou seja, quando o tráfego não segue trajetos planejados (Voorhees et al., 1986). Alguns acharam efeitos desta compactação profunda seis anos depois de produzida, ou seja, mesmo não evitando tráfego, o solo a 50 cm de profundidade ainda mostrava a compactação produzida seis anos antes. Gameda et al. (1994) mostraram que cargas de 12 e 20 Mg aplicadas sobre um solo franco argiloso causaram aumentos significativos na densidade do solo e reduções no rendimento de grãos por seis anos e reduções na matéria seca total produzida mesmo após quatro anos da aplicação da carga.
Hakansson e Reeder (1994) fizeram uma revisão sobre experimentos desenvolvidos em diversas partes do mundo, nas diversas condições de manejo para examinar os efeitos do aumento da carga sobre o eixo e afirmam que ”quando operando uma máquina em solo friável, podem ser esperadas compactações mensuráveis até 30 cm de profundidade quando a carga sobre o eixo for de 4 Mg; se a carga sobre o eixo for de 6 Mg a compactação pode ser mensurada a 40 cm de profundidade; cargas de 10 Mg refletem em compactação a 50 cm e 15 Mg causam compactação a 60 cm de profundidade ou mais. Usando os resultados destes autores, parece certo reduzir as cargas por eixo a 6 toneladas ou menos, se o objetivo for o de reduzir a compactação de camadas profundas e manter ou melhor, restringi-la à camada superficial, onde pode ser manejada.
2.2. Redução da pressão de contato pneu-solo
A pressão de contato é a relação entre o peso da máquina dividido pela área de apoio. Para reduzir a pressão de contato é necessário aumentar a área pneu-solo ou pela diminuição do peso sobre o mesmo. A área de contato é diretamente proporcional às características construtivas (largura e diâmetro) do pneu, da carga que carrega e inversamente à pressão à qual está inflado; além disso, depende da capacidade do solo em resistir à pressão aplicada. Considerando um mesmo solo, pneus radiais, construídos com sobreposição de lonas dispostas radialmente e desta forma, distribuindo melhor a pressão interna, diminuem a pressão de contato uma vez que há uma maior área de contato pneu solo. Desta forma há redução na deformação do solo e o potencial de tração tende a ser até 20 % maior. Estas vantagens se manifestam mais facilmente em solos mais firmes como os sob plantio direto (Taylor et al. 1976).
Rodas pareadas (duplas) também são usadas para dividir o peso do trator mais uniformemente sobre o solo. A compactação em profundidade diminui sensivelmente quando são usadas mais rodas para dividir o peso. No entanto, devemos considerar que rodados pareados atingem duas vezes a área que rodados simples atingem, e dependendo do estádio em que a cultura se encontra o dano a elas pode ser significativo.
O aumento do diâmetro dos pneus, que também causa um aumento na área de contato, pode ser alternativa para diminuir a pressão de contato. Há, porém, um problema referente ao aumento da rigidez da carcaça dos pneus quando o tamanho é aumentado; esta rigidez reflete diretamente na maior pressão de contato. Dentre as tentativas em diminuir a pressão de contato e ao mesmo tempo, aumentar a eficiência trativa, o uso de esteiras se mostra promissor. Um trator com esteiras tem maior eficiência de tração do que um trator similar com tração quatro por quatro ou quatro por dois com tração dianteira auxiliar. Taylor e Burt (1975) compararam esteira de aço, esteira de borracha e um pneu num caixão de solo (terra desestruturada) e acharam que o pneu causou a maior pressão sobre o solo e causou a maior compactação (densidade). No entanto pressões de contato similares foram medidas sob veículos de mesma massa equipados com pneus ou esteiras de borracha. Mesmo que a pressão de contato média seja muito menor sob a esteira, há picos de pressão sob os roletes de sustentação da esteira, similares às pressões sob o pneu (Turner et al., 1997).
A melhor alternativa, quando possível, é trafegar em solo com menor conteúdo de água. O solo resiste mais à compactação devido à menor deformação por ter menos lubrificação entre as partículas sólidas (Vomocil et al. 1958 ). Mesmo com tráfego moderado, com 4,1 Mg por eixo (trator leve), solos com 60 % da capacidade de campo se mostraram bastante frágeis compactando significativamente e reduziram a infiltração de água ( Ekwue e Stone, 1995).
2.3. Sistemas de tráfego controlado
Uma opção interessante para reduzir os efeitos da compactação é o tráfego controlado. Isto significa concentrar o tráfego a áreas determinadas criando, na lavoura, zonas de tráfego e zonas sem tráfego algum, permanentemente separadas. Justifica-se esta opção pelos benefícios que cria, tanto para as plantas, que passam a crescer em solo sem tensões compressivas impostas pelas máquinas, como para os rodados, que passam a trafegar em solos que, trafegados sempre, estão mais compactos e aumentam o potencial de tração. A capacidade do trator em traduzir a potencia do motor em potência para operar os implementos aumenta com o aumento da coesão do solo e do ângulo de atrito interno, características influenciadas pelo estado de compactação do solo. Quanto mais compacto o solo maior é a sua coesão. As áreas compactadas são capazes de resistir a mais tráfego sem deformar. As áreas que não são atingidas pelos rodados são usadas somente para o crescimento das culturas. O solo está sujeito apenas aos fenômenos naturais, e, desta forma, as raízes das plantas encontram menos resistência ao crescimento.
Sem tráfego, e com sistemas de rotações culturais que aportam quantidades expressivas de matéria orgânica , tendem a recuperar a qualidade de solos degradados. Em trabalhos realizados na Estação Experimental Agronômica da Ufrgs foram observadas reduções de densidade do solo em um período de seis anos, utilizando sistemas de cobertura que incluem aveia preta e nabo forrageiro (de 1,71 Mg.m-3 para 1,22 Mg.m-3 na camada superficial do solo). Já o solo trafegado apenas com trator, teve diminuição da densidade menor, para 1,34 Mg.m-3 na mesma camada. No entanto, amostras tomadas a 10 cm de profundidade mostram que as reduções de densidade são semelhantes (1,48 Mg.m-3 para solo não trafegado e 1,51 Mg.m-3 para solo com tráfego de trator). Isso mostra que, efetivamente, há efeito do sistema de manejo, pelo menos na camada mais superficial. A inabilidade de promover grandes modificações em camadas um pouco menos superficiais, no entanto, mostra que o sistema de rotação cultural, por si só, não consegue remover a compactação. A melhoria da condição físicado solo pelo uso de plantas necessita de uma sequencia de culturas durante mais tempo para que se possam notar seus efeitos.
Muitas tentativas de controle de tráfego foram feitas usando os equipamentos com o espaçamento de rodas existente. Morrison (1985) analisou diversas opções usando tratores normais e equipamentos de colheita sem adaptações especiais.
Os espaçamentos mais usados seriam de 1,5 m, 2,3 m ou 3,0 m. Também considerou que o sistema de rodas pareadas (duplas) comum em tratores mais potentes, teria que ser deixado de lado: se houvesse necessidade de aumentar a área de contato, o sistema de rodas em tandem, com uma roda atrás da outra, deveria ser preferido.
O desenvolvimento de sistemas que permitem a direção automática de tratores (usando sistema de posicionamento global) para controlar equipamentos agrícolas já está difundido e com preços competitivos. Estes sistemas têm uma acuracidade que pode chegar a 2 cm de exatidão, permitindo a volta ao mesmo lugar da lavoura. Além de facilitar o trabalho do operador, permite evitar perdas por superposição de passadas de pulverização ou faixas sem pulverizar, o que, sem dúvida são hoje preocupações na lavoura sob plantio direto.
Rastros de pulverizadores em área de trigo
O tráfego controlado ao ser adotado, reduz o solo trafegado para apenas 17 % do total da área. Para fins de comparação, no sistema de semeadura direta adotado atualmente, a superfície trafegada varia de 43 a 75 % da área por estação. Quando o solo das linhas de tráfego já estiver consolidado, pode-se optar por pneus mais estreitos, pois a resistência ao recalque aumentará. Pneus estreitos não são recomendados no início, pela possibilidade de formarem rastros fundos que serão ”guias” para o escorrimento de água não infiltrada. Mas, combinando o uso de sistemas de rotação que incluam culturas com alta produção de massa e que influam positivamente sobre a agregação do solo, há um aumento da porosidade das áreas entre rodados, e, com isso, a capacidade de absorção de água aumenta.
A força necessária para a passagem de sulcador na semeadora pode ser diminuída, com esta prática (Cepik et al., 2005). De fato, observamos que a necessidade de tração para operar um sulcador a 12 cm de profundidade pode ser diminuída pela metade, comparando à área que foi trafegada. Linhas atuando atrás do pneu são afastadas para os lados do rastro do trator, adequando o espaçamento destas linhas á largura dos pneus. Nas culturas de inverno, época em que raramente falta de água nos solos do sul do Brasil, a linha de tráfego até pode ser usada para a semeadura.
3. Resumo
A compactação do solo é um problema complexo. É difícil estabelecer uma única relação de causa-efeito entre o tráfego de máquinas e produtividade das culturas, devido à diversidade existente nas condições de solo, diferenças de clima, diferenças em regime de chuvas, variação espacial das características do solo, diferenças nas variedades de plantas e também, diferenças nas formas em que se apresentam os rodados. Resumidamente, as seguintes opções podem ser usadas como guias para aqueles que estão tentando reduzir os efeitos do tráfego veicular nas suas lavouras.
(a) Só trafegar quando o solo estiver em condições de suportar o peso do trator. Normalmente, solos com teor de água maior que 60% da capacidade de campo já sofrem dano que reflete por diversos anos; ou pior, pode ser permanente.
(b) Adotar um sistema de produção que minimize o tráfego e procure aumentar o nível de material orgânico do solo. Isso significa investir em culturas de cobertura no inverno, que tenham uma boa produção de massa, além de um sistema radicular eficiente na agregação do solo.
(c) Adotar um sistema que limita a ação das rodas á áreas permanentes, desta forma limitando o tráfego sem controle
d) Reduzir a carga por eixo, adequando o conjunto do trator-semeadora ao mínimo necessário às atividades na propriedade.
(e) O uso de pneus radiais maximiza a área de contato pneu-solo e aumenta o potencial de tração do conjunto trator-solo.
(f) Usar a menor pressão de inflação recomendada pelo fabricante para a carga que o trator está carregando. Nesta recomendação não se esquecer de calcular a transferência de peso que acontece quando o trator traciona.
(g) Considerar o uso de esteiras para aumentar a área de contato. Observar que pneus pareados também diminuem pressão de contato, mas atingem uma área maior.
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Revista Plantio Direto, edição 114, novembro/dezembro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.