Comportamento e Tendências do Mercado de Grãos


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Publicado em: 01/12/2009

Comportamento e tendências do mercado de grãos

Luiz Ataides JacobsenEngenheiro Agrônomo, Emater/ RS - E-mail: jacobsen@emater.tche.br

Praticamente toda atividade econômica incorre em algum tipo de risco, ou seja, está sujeita a fatores capazes de proporcionar resultados diferentes daqueles esperados. Tanto em quantidade como em qualidade, os resultados obtidos na agricultura são particularmente dependentes do clima. Além disso, devido ao grande número de ofertantes, os agricultores, individualmente só podem estabelecer as quantidades vendidas, sendo o preço uma variável exógena, fixada pelo mercado.

No momento em que este texto foi elaborado, restava ainda parcela da lavoura de trigo a ser colhida no Rio Grande do Sul, a semeadura da soja estava atrasada em relação aos anos anteriores e a lavoura de milho teve redução de área. É sobre esses grãos que trataremos, já que é chuva em excesso nos dois primeiros casos e preço nada convidativo no terceiro, interferindo de forma aguda no processo produtivo das commodities referidas.

Trigo

Depois de ausência temporária, as estimativas oficiais do Ministério de Agricultura, Ganaderia y Pesca divulgadas pela Argentina, na segunda quinzena de novembro, mostram que o cultivo de trigo ocupa área de 3,1 milhões de ha e a produção será de 7,0 milhões de toneladas, menor até do que prognósticos oriundos de empresas privadas. A Bolsa de Cereais de Buenos projeta como teto máximo 7,75 milhões de toneladas, alertando que se o clima não for amigável na região sudeste de Buenos Aires esta cifra não se confirmará.

O relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – USDA (10/11/09) projetou em 8,0 milhões de toneladas safra de trigo argentina com apenas 2,5 milhões disponíveis para a exportação e o consumo interno em 5,18 milhões. Logo, qualquer que seja a fonte, não haverá trigo argentino para suprir a necessidade de importação nacional estimada em 5,45 milhões de toneladas. Mesmo com o produto ofertado pelo Paraguai e Uruguai, a complementação do abastecimento brasileiro será com cereal de fora do Mercosul, considerando que a última projeção da colheita nacional realizada pela CONAB é de 5,04 milhões de toneladas. E isto implica em Tarifa Externa Comum (TEC) e Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), talvez as âncoras que restam para segurar a internalização de trigo extra Mercosul e consequentemente aproximar um pouco mais as cotações do mercado com os preços mínimos.

Na semana de 23 a 27 de novembro o trigo argentino esteve cotado em US$ 220,00/t o que representa aproximadamente R$ 27,50/saca na região Metropolitana de Porto Alegre. Nesta mesma semana o trigo Hard americano teve cotação FOB no Golfo do México de US$ 225,00/t, chegando aos portos do Sudeste em R$ 32,34/saca. O trigo Soft de mesma procedência, teria o preço de R$ 30,83 no idêntico destino.

Ainda em se tratando de preço, o produtor de trigo no Rio Grande do Sul recebe em média 92 % do valor pago pelo trigo FOB portos argentinos, variando ao longo do tempo analisado (jan/00 até ago/08) entre 72 % até 109 %. Tomando como referência os 92 % recebidos pelos produtores gaúchos, as cotações nos portos argentinos e o câmbio que é um dos fatores mais importantes na composição do preço de internalização, é possível que o mercado interno se aproxime do preço mínimo estabelecido com US$ 260,00 FOB e o dólar cotado a R$ 2,10 (Quadro 1). O preço mínimo para o trigo Tipo 1 e Classe Pão em outubro passado eqüivalia a US$ 305,00/t e o produto classificado como Brando US$ 254,00/t. Isto significa que as cotações FOB do cereal americano, canadense, argentino, paraguaio, uruguaio, russo e francês, não superam o Tipo 1, classe Brando nacional.

Quadro 1. Possibilidade de preço (R$/60 kg) a ser recebido pelo triticultor gaúcho em função de diferentes cotações do trigo nos portos argentinos e possíveis taxas de câmbio.

Para dar escoamento à produção nacional o governo tem usado o Prêmio para Escoamento de Produto (PEP), concebido como um mecanismo alternativo à Aquisição do Governo Federal (AGF). Trata-se de subvenção econômica concedida pelo governo, através de leilão público que será utilizada posteriormente pelo arrematante para aquisição de produtos pelo valor de referencia garantido pelo governo federal. O objetivo do PEP, lançado em 1996, é permitir que a iniciativa privada adquira a produção no período de safra, garantindo o preço mínimo ao produtor e ao mesmo tempo facilitar o abastecimento interno.

Por intermédio da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) é oferecido um bônus ou prêmio, em leilões públicos, aos interessados em adquirir o produto pelo preço de referência, diretamente do produtor ou cooperativa. Esse prêmio em média eqüivale à diferença entre o preço de referência e o preço efetivo a ser pago pelo comprador.

No dia 19 de novembro foram realizados dois leilões de PEP. Em um deles foram ofertadas 56.000 t de trigo gaúcho, destinado ao escoamento do produto para qualquer localidade, exceto as Unidades da Federação que compõem as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste sendo todas negociadas. Todo o volume ofertado foi negociado, com prêmio de abertura de R$ 190,00/t e fechamento R$ 173,00 (média ponderada de R$ 183,60). Em outro leilão foram ofertadas 56.000 t e negociadas 54.440 t. Neste último, o prêmio de abertura e fechamento ficou em R$ 94,00/t e puderam participar indústrias moageiras de trigo, sediadas na Unidade da Federação (UF) de plantio, que estejam em plena atividade industrial, que adquiram o trigo em grãos de produtores rurais e/ou suas cooperativas localizados na UF de plantio, comprovem o pagamento do Preço Mínimo e comprovem a venda de farinha de trigo para qualquer consumidor final sediado dentro ou fora da UF de plantio, observada a proporção de 750 g de farinha de trigo para cada 1 Kg de trigo em grãos arrematado no leilão. Participaram ainda comerciantes de cereais, sediados na UF de plantio, que estejam em plena atividade comercial, que adquiram o trigo em grãos de produtores rurais e/ou suas cooperativas localizados na UF de plantio, comprovem o pagamento do Preço Mínimo a esses produtores/cooperativas e comprovem a venda e/ou escoamento do trigo em grãos exclusivamente para indústrias moageiras sediadas em qualquer localidade fora da UF de plantio. Também indústrias moageiras de trigo ou comerciantes de cereais, sediados em qualquer localidade fora da UF de plantio, que estejam em plena atividade industrial ou comercial, que adquiram o trigo em grãos de produtores rurais e/ou suas cooperativas localizados na UF de plantio, comprovem o pagamento do Preço Mínimo a esses produtores/cooperativas e comprovem o escoamento do trigo em grãos para qualquer localidade fora da UF de plantio. O mesmo instrumento, com editais semelhantes foi ao mercado em 26/11/09, e a oferta de grão do RS de 70.000 toneladas com prêmio de R$ 190,00/t e 56.000 t cujo bônus foi estipulado em R$ 94,00/t, foi totalmente negociada.

Outra forma de comercialização do trigo nesta safra, tem sido através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na modalidade de Formação de Estoques pela Agricultura Familiar. Conforme o Decreto Nº 6.959 de 15 de setembro de 2009 a compra direta da agricultura familiar tem limite de R$ 8.000,00 no ano civil e por agricultor, que necessariamente precisa ter a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP).

Soja

A produção mundial de soja está projetada pelo USDA em 250,23 milhões de toneladas na safra 2009/10 e o consumo em 233,36 milhões, elevando o estoque final para 57,39 milhões de toneladas, superior em 35,39% ao do ano passado. Este estoque representa 24,59% do consumo previsto, valor muito semelhante aquele da safra 2005/06.

A mesma fonte (em 10/11/09) projetou a colheita americana em 90,34 milhões de toneladas e caso confirmada será a maior colheita dos Estados Unidos. O Brasil, se atingir a projeção de 63 milhões de toneladas também terá a melhor produção da sua história. Pelo lado da Argentina, como a safra de 2008/09 frustrada pela seca (32 milhões de t), deve adicionar neste ano mais 21 milhões de toneladas. Em resumo, a oferta até agora projetada indica abundância. Em relação às importações, a China segue com apetite e deverá comprar 40,5 milhões de toneladas de soja em grão ou 52,3% das importações mundiais.

Nos intervalos de preços praticados na Chicago Board of Trade (CBOT), apresentados no Gráfico 1, verifica-se que ocorre a partir do início de 2007 um crescimento acelerado. O grão que chegou a ser cotado em US$ 33,06/saca na média do mês de junho de 2008 recuou, e um ano depois estava em US$ 26,63/saca, já sob os sinais de recuperação da crise financeira mundial. Tornou a recuar e em novembro fecha o mês com aproximadamente US$ 23,00/saca, cotação nada desprezível quando confrontada com séries históricas.

Gráfico 1. Intervalo de cotações da soja na bolsa de Chicago (CBOT) em US$/60 Kg de janeiro de 2005 até setembro de 2008 e projeção para períodos seguintes. Fonte: Doane Advisory Services. Adaptação do autor.

No mercado interno, analisando os preços recebidos pelos agricultores do Rio Grande do Sul de julho de 1994 até outubro de 2009, portanto 184 meses com os valores sendo corrigidos pelo IGP-M, observa-se que em 90 deles o preço esteve aquém de R$ 40,00/saca e em 125 meses foi inferior a R$ 45,00. Em 37 meses o preço foi superior a R$ 47,00 e em 21 deles a partir do segundo semestre de 2002 até o final do primeiro semestre de 2004, período em que o dólar americano esteve cotado sempre acima de R$ 2,85. É ilustrativo os R$ 50,04 recebido pelos agricultores gaúchos como média do mês de abril de 2004, para demonstrar a importância do câmbio na composição do preço. Neste mês a cotação em Chicago foi de US$ 9,85/bu (US$ 21,72/saca) e o preço praticado aqui no estado representava 79,28% daquele da Bolsa, mas o dólar estava cotado em R$ 2,906.

Para avaliar as possibilidades de preço no mercado interno (preço de balcão) é preciso ter em conta que no RS normalmente o preço recebido eqüivale de 85% até 90% daqueles praticados na CBOT. Em função do prêmio muito elevado nos portos brasileiros, nos últimos três meses as cotações internas superaram o mercado externo, chegando em outubro a 13,63% acima do valor praticado na CBOT.

Milho

A produção mundial projetada é de 789,73 milhões de toneladas e as exportações devem somar 84,08 milhões. A safra 2009/10 é um pouco inferior a safra passada (-0,28%), e consumo de 803,27 milhões de toneladas derrubará os estoques para apenas 16,48% do consumo.

No Brasil a CONAB estima que a safra 2009/10 será de 51.539.500 toneladas, mais 1,10% do que foi colhido na safra passada. Essa produção será suficiente para manter os estoques de passagem em patamar elevado (8.976.700 toneladas).

Em 2008 as exportações brasileiras de milho somaram 6.368.467 toneladas e a cotação média FOB foi de US$ 207,47/t (US$ 12,45/saca). Nos primeiros 10 meses deste ano o Brasil exportou 5.443.483 toneladas, cujo preço médio foi de US$ 160,45/t, mas que declinou para US$ 149,23/t em outubro quando foram destinadas 817.329 toneladas para o mercado externo. Considerando a cotação do dólar aproximadamente R$ 1,74 a cotação nos portos nacionais representou R$ 15,58/saca.

Na semana de 23 a 27 de novembro a cotação do milho foi de 165,35/t no Golfo do México e US$ 169,00 FOB portos argentinos. A expectativa de preço no mercado americano, projetada pelo USDA prevê entre US$ 7,68 e US$ 9,09/sc o valor a ser recebido pelos produtores dos Estados Unidos na safra 2009/10. No mercado gaúcho a evolução dos preços do milho em valores nominais e corrigidos pelo IGPM podem ser vistos no Gráfico 2.

Gráfico 2. Preço médio mensal do milho recebido pelos agricultores no RS, nominal e corrigido pelo IGPM em R$/saca no período de jul/94 até out/09. Fonte: EMATER/RS.

No gráfico 2 pode ser observado que o valor da saca de milho, mesmo corrigido, dificilmente atinge R$ 30,00 (4 meses) o que aconteceu no último trimestre de 2002 e janeiro de 2003, quando houve acentuada desvalorização da moeda nacional. É possível nestes 184 meses de análise perceber que em apenas 24 meses superou R$ 26,00/saca, podendo ser entendido este valor como linha de resistência, acima do qual, salvo havendo a presença de algum evento crítico, será superado. Abaixo de R$ 20,00 foram 48 meses ao longo do período analisado.

Finalmente, o relatório do Conselho Internacional de Grãos (IGC na sigla em inglês), divulgado em 26/11 alerta que os preços de exportação dos cereais registraram alta generalizada ao longo do mês de novembro, em muito devido as operações técnicas e especulativas nas bolsas de futuros. No caso da soja o relatório indica ainda que a evolução do preço no mercado americano foi afetado pela queda do dólar, demanda interna e exportação acima do esperado. Com juros baixos os investidores estão se voltando para outros mercados como o de grãos e os fundamentos que regem este mercado (oferta e demanda) poderão ser insuficientes para indicar com segurança a tendência de preços. O dólar que até o final de novembro perdeu 25% do valor frente ao real ao longo de 2009, faz com que a política cambial adequada para sustar o contínuo processo de valorização da moeda nacional, seja decisiva na remuneração da agropecuária.

Revista Plantio Direto, edição 114, novembro/dezembro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.