Ciclo da Ferrugem da Folha do Trigo


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Publicado em: 01/08/2009

Ciclo da ferrugem da folha do trigo

Erlei Melo Reis; Anderson Luiz Durante Danelli; Vânia BianchinUniversidade de Passo Fundo – RS, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária - Programa de Pós-graduação em Agronomia - E-mail: erleireis@tpo.com.br

Introdução

A ferrugem da folha é de ocorrência freqüente na cultura do trigo, estando presente em todos os locais aonde o cereal é cultivado podendo causar danos de até 63% (Reis & Casa, 2007).

O ciclo de uma doença é constituído pelas seguintes sub-fases do processo: sobrevivência do patógeno, esporulação, liberação, remoção, transporte, deposição, germinação, penetração, colonização (parasitismo), expressão dos sintomas e esporulação nos tecidos mortos. Assim, ao findar o ciclo primário o processo é repetido várias vezes resultando no crescimento da doença pela sucessão de ciclos secundários.

O entendimento detalhado do ciclo ou do desenvolvimento da doença, leva ao aperfeiçoamento do seu controle pela observação do manejo integrado. As estratégias de controle visam sempre interferir numa ou mais fases do ciclo.

Etiologia e tipos de inóculo

A ferrugem da folha é causada por um fungo pertencente à Classe do Basidiomicetos, Ordem Uredinales e a Família Pucciniaceae (Menezes e Oliveira, 1993).

Durante a safra de trigo, a frutificação é do tipo pústula, urédia ou uredínia e os esporos denominados de uredosporos ou urediniosporos. No final do ciclo, quando a planta senesce surge outro tipo de frutificação, a télia com teliosporos (Agrios, 2005).

Este fungo apresenta raças virulentas tendo sido até a safra 2008 identificadas 61 raças no Brasil (Barcellos informação pessoal). Tem sido registrado que surge no mínimo uma nova raça por safra devido à adaptação do fungo, por mutação, aos novos cultivares de trigo resistentes tornando-se suscetíveis. Esse fenômeno é chamado de ”quebra-da-resistência”.

Figura 1. Sintomas foliares e em plantas da ferrugem da folha do trigo (Fotos D. N. Gassen).

Ciclo das relações patógeno-hospedeiro: Puccinia triticina Eriks. x Triticum aestivul L.

No Hemisfério Norte o ciclo é completo aonde o fungo produz cinco tipos diferentes de esporos: uredosporos, teliosporos, basidiosporos, picniosporos e aeciosporos (Agrios, 2007). Isto pela presença de planta de família botânica diferente da do trigo como as dos gêneros Anchusa, Anemonella, Clematis, Isopyron e Thalictrum (Wiese, 1977). Estas plantas, denominadas funcionalmente de hospedeiros intermediários não ocorrem no Hemisfério Sul. Por isso, aqui o ciclo é incompleto, sendo produzidos apenas dois tipos de esporos, os uredosporos e os teliosporos (Figura. 2g, c, d). No entanto, somente os primeiros cumprem função biológica no Hemisfério Sul. Nada se sabe sobre a germinação dos teliosporos nas condições climáticas da América do Sul mesmo que germinem não teriam função biológica por falta de planta suscetível aos basidiósporos.

Figura 2. Ciclo da ferrugem da folha do trigo (Reis e Danelli, 2009).

Sobrevivência e fontes de inóculo primário

O agente causal da ferrugem da folha do trigo é parasita biotrófico, e por isso, somente sobrevive na fase parasitária em plantas voluntárias presentes em lavouras, ao longo de caminhos, estradas e rodovias (Reis e Casa, 2007) (Figura 2a). Nestas plantas de trigo não cultivadas são produzidas urédias com uredosporos. Destas plantas dentro ou fora da lavoura, os uredosporos são levados pelo vento para as lavouras de trigo (Figura 2c, d).

Merece destaque também, para a manutenção e multiplicação do inóculo durante todo o ano, a presença de lavouras de trigo cultivadas durante quase todos os meses na América do Sul, como representado na Tabela 1.

Tabela 1. Meses de semeadura e de colheita do trigo na América do Sul*

Infere-se que em todos os meses do ano, em algum lugar ou região do Cone Sul da América do Sul, plantas de trigo verde recebem o inóculo levado pelo vento. Nesta grande região os esporos migram pelo vento de lavoura para lavoura ao longo de toda a área mantendo o fungo viável ao longo dos anos. As plantas voluntárias reforçam a sobrevivência do fungo nas proximidades das lavouras.

Remoção e transporte do inóculo

Os uredosporos são esporos secos senso Maude (1996) sendo por isso. removidos das frutificações quando a superfície da planta estiver seca, principalmente durante o dia quando não ocorre chuva. Segue-se o seu transporte pelo vento, até serem depositados nas folhas de plantas voluntárias dentro ou fora da lavoura ou lavouras cultivadas. Os uredosporos, esporos infectivos e envolvidos com a doença na América do Sul, são pequenos e leves medindo 15 – 24 x 21 - 40 µm (Wiese, 1977) (Figura 2d, e).

Deposição, germinação e penetração

Os uredosporos são depositados na superfície do trigo, sítios de infecção por sedimentação ou impacto quando levados por correntes aéreos. Sob um filme de água, à noite, germinam e penetram o hospedeiro, principalmente folhas, via estômatos. A luz inibe a sua geminação (Figura 2f,g).

Colonização (Figura 2h).

Consiste no desenvolvimento de micélio intercelular e emissão de haustórios para dentro das células exercendo o parasitismo com a manifestação dos sintomas.

Sintomatologia

Os sintomas são do tipo pústula, uma lesão com bordos do tecido epidérmico elevado, rompida pela pressão da multiplicação da massa de esporos em seu interior. Apresenta coloração interna devido à cor da massa de esporos sendo amarelo-avermelhado, cor de tijolo, com aparência de óxido de ferro do que decorre o nome comum de ferrugem (Figura 1). (Reis, 1991). Quando as plantas senescem são produzidas as télias com teliosporos sem função biológica no Hemisfério Sul.

Ciclos secundários (Figura 2i).

Uma vez o inóculo sendo introduzido na lavoura nova, a doença cresce em intensidade pelos ciclos secundários que se sucedem no cultivo, resultando no ataque de novas plantas e folhas e aumento do número de urédias por folha. Em algumas safras a epidemia resulta na morte de folhas. Um ciclo de vida completo de uredo a uredo dura 6 a 8 dias a temperatura de 22oC (Reis e Barcellos, 1988) (Figura 2j). O ciclo do trigo tem uma duração média de 135 dias no Sul do Brasil.

Quando a lavoura de trigo entra em senescência o fungo produz o segundo tipo de frutificação, as télias, com os teliosporos presentes (Figura 2k, l). Estes são bicelulados e não cumprem função biológica no Hemisfério Sul, pela ausência de hospedeiros intermediários.

Referências bibliográficas.

AGRIOS, G.N. Plant Pathology. San Diego. Academic Press. 5 ed. 2005. p. 922.

MAUDE, R.B. Sedborne diseases and the control principles and practice. Oxon: CAB Internacional, 1996. p. 70-88

MENEZES, M.; OLIVEIRA, S. M. A. Fungos Fitopatogênicos. Recife: UFRPE, 1993. 227p.

REIS, E.M. Doenças do trigo V: Ferrugens. São Paulo, 1991. 20p.

REIS, E.M. & BARCELLOS, A.L. Geração de informações básicas para o desenvolvimento de um sistema de previsão de algumas doenças do trigo. In: Reunião Nacional de Pesquisa de Trigo, 15, Passo Fundo, RS, 1988. Resumo dos trabalhos apresentados na XV Reunião Nacional de Pesquisa de Trigo. Passo Fundo, EMBRAPA/CNPT, 1988, p.147.

REIS, E.M.; CASA, R.T. Doenças dos cereais de inverno – diagnose, epidemiologia e controle. Lages, 2007. 176 p.

WIESE, M.V. Leaf Rust. Compendium of wheat disease. Lincoln: The American Phytopathological Society, 1977. p. 39-40.

Revista Plantio Direto, edição 112, julho/agosto de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.