Aspectos econômicos do amassamento causado por máquinas utilizadas para aplicações de fungicidas em grandes culturas
Walter BollerEng.-Agr. Dr. Professor do Curso de graduação em Agronomia e do Programa de Pós Graduação em Agronomia da Universidade de Passo Fundo (FAMV/UPF) - E-mail: boller@upf.br
Introdução
A utilização de fungicidas para a proteção das culturas agrícolas contra as doenças é viável quando os agentes causais das doenças são sensíveis aos mesmos, quando estes apresentam segurança do ponto de vista ambiental e quando a sua aplicação proporciona retorno econômico. Ao utilizar um fungicida, o agricultor está se propondo a fazer um ”seguro” para a sua lavoura, com vistas a garantir a produção, porém o resultado positivo vai depender das combinações entre uma série de outros fatores que atuam conjuntamente no campo. Além destes aspectos, a utilização de fungicidas implica em três novos itens da planilha de custos de uma lavoura: o custo dos produtos aplicados, o custo das operações de aplicação e o custo do amassamento causado pelo tráfego das máquinas aplicadoras no campo. O custo dos fungicidas é uma função das doenças que deverão ser controladas, dos produtos a ser utilizados, da respectiva dose efetiva e do número de aplicações necessárias. Em alguns casos, deve-se agregar ainda o custo de um adjuvante que venha a tornar-se necessário devido a alguma particularidade como a qualidade da água disponível para a pulverização ou as condições atmosféricas durante a realização das aplicações dos produtos. O custo das aplicações depende do custo do equipamento utilizado e da sua capacidade de trabalho. Por fim, o custo equivalente ao dano causado pelo tráfego das máquinas aplicadoras na área (amassamento da cultura) está relacionado com as características e com o estádio de desenvolvimento das culturas, com as dimensões das máquinas utilizadas (em especial dos rodados), com o número de aplicações e com a habilidade do operador que conduz a máquina no campo. O texto a seguir propõe-se a apresentar e discutir aspectos relacionados com os danos decorrentes do amassamento de parte das plantas causado pelo tráfego de máquinas aplicadoras de defensivos.
Danos por amassamento
das culturas
Os danos decorrentes do tráfego das máquinas sobre uma lavoura ao longo do ciclo de uma cultura podem reduzir significativamente o resultado econômico final. Após a semeadura de uma cultura é comum o tráfego de máquinas na lavoura para aplicações de adubações em cobertura, herbicidas, inseticidas e fungicidas. Na medida do possível, as larguras úteis das máquinas utilizadas nestas operações devem ser padronizadas, buscando evitar o tráfego dos rodados destas em diferentes locais a cada nova operação mecanizada. Assim, as máquinas distribuidoras de fertilizantes em cobertura e os pulverizadores devem apresentar a mesma largura útil, permitindo que o tráfego das máquinas ocorra sempre em um mesmo ”trilho”, até o final do ciclo de uma cultura. Este cuidado, associado à utilização de barras maiores e de rodados mais estreitos nas máquinas e com o comprometimento dos operadores das mesmas, minimiza perdas por amassamento das culturas. Existe carência de dados oficiais sobre os danos causados pelo amassamento em operações de pulverização agrícola no Brasil. Apesar disso, encontram-se alguns relatos indicando danos no rendimento de grãos de soja próximos de 1 % até 5 % (Carvalho, 1997, Abi Saab et al., 2007, Hanna et al., 2007, Camargo et al., 2008). Trabalho realizado por Costa (2009) na cultura da soja, em Tapejara-RS, constatou redução de rendimento entre 149 e 167 kg ha-1 (dano médio de 3,82 %) em função do tráfego (duas aplicações) de um conjunto trator/pulverizador montado com barra de 14 m. Outro trabalho, realizado por Schröder (2007), no município de Rio Pardo-RS, demonstrou que a redução de produção de soja devida ao amassamento causado pela passagem de um pulverizador autopropelido (uma aplicação com as plantas medindo 1,10 m de altura, na fase de formação de vagens) foram de 102 kg ha-1 o que representou redução de 4,5 % da produção de grãos. Levantamento de dados e simulações realizadas na FAMV/UPF (Figura 1), em lavoura de trigo que produziu 3600 kg ha-1 de grãos, demonstraram que a redução de produção obtida variou entre 5,6 % e 2,8 % quando a largura da barra variou entre 12 m e 24 m. Neste estudo o rodado do trator mediu 35 cm de largura, não tendo sido substituído por rodado estreito e o trator trafegou apenas uma vez na área, quando a cultura se encontrava no estádio de floração plena.
Figura 1. Redução de rendimento de grãos (%) de trigo causado pelo tráfego do rodado de um trator em uma aplicação de fungicida realizada no estádio de floração.
Trabalho realizado com as culturas de trigo (2005 e 2006) e de soja (2005/2006) no município de Londrina-PR (Abi Saab et al., 2008) revelou que o deslocamento dos pulverizadores segundo faixas de tráfego controlado causou reduções no rendimento de grãos que variaram de 0,70 % até 9,42 %, dependendo da largura da barra do pulverizador e da largura do pneu do trator (Tabela 3). Neste estudo foram realizadas três aplicações no trigo da safra 2005 e na soja e duas aplicações no trigo de 2006. Os rodados utilizados foram os estreitos e os normais (largura respectiva de 0,30 m e de 0,50 m) e as barras de pulverização mediram 12, 18 e 24 m. Quando o tráfego foi realizado sem controle (cada aplicação em um novo local), a redução do rendimento de grãos variou entre 14,48 e 30,29 %, demonstrando claramente a gravidade das perdas quando não se toma os cuidados necessários com o tráfego das máquinas aplicadoras. Além disso, observando os dados contidos na Tabela 1 verifica-se que a utilização de rodados estreitos em soja reduz sensivelmente os danos pelo tráfego.
Tabela 1. Danos causados (% de redução no rendimento de grãos) de trigo e de soja devido ao tráfego dos rodados de um trator com pulverizador em função da largura do rodado do trator e da largura da barra do pulverizador, com tráfego controlado e sem controle (Abi Saab et al., 2008)
Relatos de Hanna et al. (2007), nos Estados Unidos da América do Norte, informam que os danos devido ao tráfego de máquinas aplicadoras de defensivos em lavouras de soja, em estádios anteriores a R1 podem ser recuperados, desde que o estande de plantas seja no mínimo de 250.000 plantas ha-1. Por outro lado, estes autores observaram que os danos causados pelo tráfego de pulverizadores do estádio R3 em diante são irreversíveis, refletindo-se na produção final. Avaliando o efeito do tamanho da barra de pulverização sobre a redução no rendimento de grãos de soja, estes autores constataram danos de 4,9 %, 2,5 %, 1,9 % e 1,3 % quando a barra mediu, respectivamente, 9 m, 18 m, 27 m e 36 m. O trabalho também permitiu concluir que múltiplas passagens de um pulverizador no mesmo trilho não aumentam o dano causado pela primeira passagem da máquina, o que reforça a justificativa da utilização de sistemas de tráfego controlado em máquinas aplicadoras de fungicidas.
Trabalho conduzido por Schröder (2007), no município de Rio Pardo-RS, comparou uma aplicação de fungicida em soja por via aérea com aplicação por via terrestre e demonstrou os danos devidos ao tráfego da máquina aplicadora nesta cultura. No momento da aplicação do fungicida (segundo tratamento), a soja apresentava estatura de 1,10 m encontrando-se na fase de formação de vagens. Os resultados evidenciaram que os equipamentos não influenciaram o controle das doenças, sendo avaliadas as doenças de final de ciclo e a ferrugem asiática da soja. A análise do rendimento de grãos revelou um ganho de 4,6 % (102 kg ha-1) quando a pulverização foi realizada por via aérea em comparação com a terrestre. Para a análise econômica, este autor considerou o custo da pulverização por via aérea de R$ 22,00 ha-1 e por via terrestre de R$ 11,00 ha 1. O preço da saca de 60 kg de soja foi de R$ 28,00 e o dano decorrente do amassamento da cultura pelo rodado do pulverizador automotriz correspondeu a R$ 47,60 ha-1. O custo da operação de pulverização terrestre somado ao custo do amassamento foi de R$ 58,60 ha-1 enquanto que o custo da aplicação por via aérea, por não ocorrer amassamento foi de R$ 22,00 ha-1. A diferença foi R$ 36,60 ha-1 a favor da aplicação por via aérea, demonstrando a vantagem desta técnica de aplicação.
Também na cultura da soja, trabalho conduzido por Costa (2009), demonstrou que o tráfego do trator com pulverizador montado e barra de 14 m reduziu o rendimento de grãos em 3,82 % ou seja, 156 kg ha-1, o que equivaleu a R$ 130,00 ha-1. Neste experimento, o custo de dois tratamentos com fungicida foi de R$ 100,80 ha-1, o custo das aplicações por via aérea foi de R$ 52,00 ha-1 e das aplicações por via terrestre R$ 21,72 ha-1. Computando-se as despesas (produto + aplicação + amassamento) com os dois tratamentos químicos, chegou-se a R$ 152,80 ha-1 quando foi utilizada a aeronave agrícola e a R$ 252,50 ha-1 com a aplicação por via terrestre. Do custo total do tratamento com aplicação por via terrestre, o custo do fungicida correspondeu a 39,92 %, o custo da aplicação a 8,60 % e o custo equivalente à redução do rendimento de grãos devido ao amassamento a 51,48 %. Calculou-se o ganho da utilização do fungicida na lavoura, computando o aumento do rendimento de grãos devido ao tratamento químico e o custo deste. Observou-se que em ambos os casos, a utilização do fungicida foi uma prática economicamente sustentável, porém as aplicações por via aérea proporcionaram um ganho líquido de R$ 375,00 ha-1 enquanto que as pulverizações por via terrestre tiveram um ganho de R$ 263,00 ha-1, indicando uma superioridade de R$ 112,00 ha-1 no resultado econômico quando se utiliza a pulverização por via aérea. Outra análise que pode ser feita revela que ao aplicar o fungicida por via aérea o benefício em relação à aplicação por via terrestre foi superior ao custo do fungicida utilizado.
Na cultura do milho, trabalho realizado por Costa e Boller (2008), no município de Coxilha-RS, demonstrou reduções de rendimento de grãos entre 52 e 832 kg ha-1, dependendo da freqüência de aplicações e do estádio da cultura no momento da entrada de um pulverizador automotriz modelo Uniport 2000, com barra de 21 m. O menor dano foi observado com a pulverização aos 50 dias após a semeadura do milho quando as plantas se apresentavam com estatura entre 0,7 e 0,8 m e o maior dano quando a entrada da máquina na lavoura ocorreu no estádio de espigamento e a sua condução foi em sentido diagonal às linhas de semeadura. Neste último caso, o dano causado pelo amassamento devido à entrada do pulverizador terrestre anulou o ganho em produção de grãos decorrente do controle das doenças proporcionado pela aplicação do fungicida.
Considerações finais
A desejada sustentabilidade econômica da agricultura baseia-se na adoção de técnicas cada vez mais aperfeiçoadas e o uso de fungicidas para o controle das doenças que atacam as plantas cultivadas é uma delas. Para que esta medida seja realmente rentável, no momento da tomada de decisão, os produtores rurais devem munir-se do maior volume possível de informações técnicas. As questões relacionadas com os custos dos tratamentos químicos passa a ser preocupante, ao passo que a margem econômica permitida pelas principais culturas tende a estreitar-se. Neste caso, aplicar da melhor maneira possível um tratamento é uma forma de evitar desperdícios e para tanto devem ser sempre consideradas as diversas variáveis que influenciam em uma aplicação. No quesito custo devido ao amassamento das culturas pelo tráfego das máquinas aplicadoras de fungicidas, deve-se buscar a redução de danos pelo aumento da largura da barra do pulverizador, assim como pela diminuição da largura do rodado das máquinas e pelo controle rigoroso do tráfego das mesmas. Neste sentido, para reduzir os erros de condução das máquinas aplicadoras é importante a máxima atenção dos operadores de máquinas aplicadoras e já se encontram disponíveis meios auxiliares como as barras de luzes e o sistema denominado piloto automático. Ambas as ferramentas são baseadas em sinal de GPS e podem proporcionar uma condução precisa das máquinas no campo, reduzindo o amassamento das culturas. Por outro lado, a aplicação de fungicidas por via aérea, especialmente nos estádios de desenvolvimento mais adiantados das culturas, não provoca danos por amassamento e apresenta-se como uma ferramenta eficiente para aplicações de fungicidas e pode propiciar maior retorno econômico aos produtores rurais, quando comparada com a aplicação dos mesmos produtos por via terrestre.
Referências Bibiográficas
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