Critérios para o monitoramento e manejo químico das doenças foliares
Marcelo A. CarmonaEngenheiro-agrônomo, Mestre, Professor Associado de Fitopatologia. FAUBA, Buenos Aires, ArgentinaE-mail: carmonaensayo@gmail.com
Manchas-foliares com 2 mm de diâmetro,em folha de trigo.
Primeiras pústulas e início de desenvolvimento de ferrugem-da-folha em trigo.
Resumo
Geralmente, no momento de aplicar fungicidas prevalece a idéia de priorizar seus efeitos sobre a planta hospedeira, mais do que sobre o patógeno. Existe uma aceitação geral entre os agricultores e assistentes técnicos que o principal objetivo de um fungicida seja ”proteger e curar” a planta hospedeira sem ter presente que essa tarefa é realizada mediante sua ação sobre os patógenos.
Desta forma, muitos produtos são aplicados em função do estádio fenológico e com a missão de que as folhas envolvidas na geração de rendimento recebam o fungicida, mesmo sem considerar o nível de doença presente na planta. Como exemplo, muitos decidem aplicar fungicidas com a missão fundamental de proteger a folha bandeira e a imediatamente inferior.
Neste quadro de análise é altamente provável que, por exemplo, ao momento de aplicar a cultura apresente elevados índices de incidência e severidade nas folhas inferiores (principal multiplicadores das doenças na área), excedendo os limiares de recomendação com danos irreversíveis. Está claro que compreender a fisiologia da planta hospedeira é importante, porém, não deve ser a única informação que guie a aplicação de fungicidas.
Esta visão fitocêntrica pode levar ao atraso na aplicação ou a ineficiência da ação química de controle. Deve-se compreender que a ação principal de um fungicida é interagir com seu principal objetivo, para o qual foi criado: o fungo (fungicida, fungus = fungo; cida = morte).
Na área de sanidade vegetal o uso de herbicidas ou inseticidas é diferente dos fungicidas. Caracterizar e até quantificar insetos e plantas daninhas é uma tarefa freqüentemente possível, enquanto que contar esporos para caracterizar a população patogênica no campo, é impossível na prática. Dessa forma, na fitopatologia e, em especial, nas doenças de difícil previsão, torna necessário aceitar um limiar de dano (manchas ou frutificações) para ter a certeza da presença da população do patógeno no campo.
Esses níveis de doença são os denominados limiares de dano econômico e de ação (LDE; LDA) que não é mais que o máximo de nível de doença tolerável economicamente e que nos oferece a certeza da presença da epidemia. Estes limiares são suficientemente baixos para fortalecer e aproveitar as principais ações de um fungicida: as ações preventiva e curativa, e para frear a taxa de multiplicação dos patógenos registrados no início de uma epidemia.
Os índices mais baixos de incidência e severidade são os mais importantes e devem ser detectados mediante ao correto e freqüente monitoramento a partir do elongamento. Esta nova safra, que começa com incertezas de rentabilidade, exigirá ainda mais a adoção de um critério fácil e prático que assegure o retorno econômico do investimento em fungicidas.
Concluindo, definir o momento de aplicação de fungicidas não é uma tarefa simples e não deve ser feita guiada apenas por um critério. Pelo contrário, a complexidade com a qual nos deparamos é muito diversificada e deve ser analisada profundamente. A tomada de decisão necessariamente nos obriga a considerar diversos aspectos integradamente, onde a epidemiologia interage com o hospedeiro, com o fungicida e com as variáveis econômicas. É necessário analisar os atributos do patógeno (monocíclico ou policíclico, raças, pressão do inoculo); do hospedeiro (período crítico de geração de rendimento, grau de susceptibilidade, potencial de rendimento); do fungicida (doses, tipo de molécula, o ambiente (orvalho, chuvas, temperatura, molhamento) e a análise econômica de danos e investimento. Neste contexto, LDE e LDA atualizados, poderão ser uma boa referência para otimizar a decisão.
Doenças foliares
As doenças são atualmente um dos principais limitantes do potencial produtivo da lavoura de trigo. Entre elas, o grupo de doenças foliares, formado por oídio, septória, mancha-amarela e ferrugem, se destaca pelo maior impacto sobre a produtividade. As perdas variam, fundamentalmente, de acordo com o ano e a suscetibilidade dos genótipos.
As manchas foliares são mais severas e aparecem freqüentemente em área sob monocultivo e plantio direto. Os estudos sobre mancha amarela e septória em trigo registram diminuição no rendimento até 40-60%. No que diz respeito a ferrugem da folha, a grande plasticidade em termos de exigências térmicas e o freqüente plantio de cultivares suscetíveis, permitiu o seu crescimento contínuo na região Pampeana da Argentina.
Estas razões fazem com que a ferrugem da folha seja considerada uma das mais importantes doenças e objeto de controle. As perdas de rendimento de grãos causadas pela ferrugem dependem do estádio de desenvolvimento em que ocorre a doença e, principalmente, da severidade a qual é definida por: suscetibilidade da cultivar, virulência da raça e das condições ambientais. De maneira geral pode-se afirmar que a gravidade da ferrugem é tão grande que obriga os agricultores a abandonar cultivares e os melhoristas a gerar outros materiais constantemente.
Monitoramento
Deve ficar claro que através do monitoramento é determinado o verdadeiro ”status” de um patógeno no campo. Com esta técnica leva-se a cabo o diagnóstico, detecta-se mudança de comportamento varietal (quebras de resistência), quantifica-se o nível do ataque (incidência e severidade) e determina-se o limiar de decisão. Pelo exposto o monitoramento deve ser considerado obrigatório e imprescindível para aumentar a eficiência no manejo dos fungicidas.
Estimativa da incidência foliar das doenças presentes
O monitoramento das doenças da cultura deve começar a partir do elongamento, porque durante o afilhamento há rápida emissão de novas folhas e ocorre uma redução da intensidade das doenças. Assim mesmo, a partir do elongamento os danos e perdas causados pelas doenças são muito mais significativos. O monitoramento deve consistir em duas visitas semanais para o segmento da ferrugem (se forem observadas pústulas) e uma vez por semana para as manchas-foliares. A determinação da incidência (porcentagem de folhas doentes em relação ao total de folhas) deve ser feita separando as folhas verdes e expandidas portadoras dos sintomas daquelas sadias. Será considerada folha infectada com ferrugem aquela que apresente ao menos uma pústula esporulante e folha infectada por mancha aquela que tiver no mínimo uma lesão maior que 2 milímetros.
A recomendação por parcela é de coletar 50 afilhos ao acaso, por lavoura seguindo um deslocamento em zig-zag, separando as folhas sem sintomas (totalmente sadias) daquelas que apresentam sintomas e calcular a incidência.
I(%) = Número fd/Tf x 100 (Onde: fd são folhas doentes e Tf total de folhas)
Fungicidas e sua relação com os limiares de decisão e a geração de rendimento
O uso de fungicidas para controlar doenças foliares deve realizar-se no momento em que a cultura pode beneficiar-se pelo aumento da área fotossintéticamente ativa devido ao controle da doença. Um fungicida não aumenta o rendimento por si mesmo, mas só permite expressar o potencial de rendimento do genótipo, eliminando o fator patógeno/doença.
Em muitas culturas de grãos são determinados períodos fenológicos e fisiológicos denominados ”críticos” pela importância que têm os eventos que ocorrem dentro dos mesmos e de suas interações com o ambiente na geração de rendimento agronômico. O período crítico (PC) na cultura do trigo para a geração de rendimento, compreende de 20 a 30 dias antes de 50% da floração e os 10 dias posteriores a 50% da floração (Fischer, 1985).
É justamente nesse período que a cultura deve chegar com a maior área foliar sadia possível para que a absorção da radiação seja ótima e possa completar-se a formação das flores e início da formação dos grãos, determinando o número final de grãos por espiga. O rendimento da cultura pode ser explicado numericamente através do número de grãos por m2 (NG) e pelo peso dos grãos (PG). O primeiro componente é o que melhor explicaria a variabilidade dos rendimentos. Nesse período um sombreamento, estresse ou diminuição da área foliar sadia (menor absorção da radiação) afetará significativamente o número de grãos por m2, principal componente numérico do rendimento, além do peso dos grãos.
Neste sentido os limiares determinados há alguns anos estão orientados para conseguir preservar o período crítico do trigo contra estresse gerado pelas doenças. Portanto é aconselhável não atrasar a aplicação, devendo realizar um oportuno monitoramento a partir do fim do perfilhamento e início do elongamento até o início do estádio de grão leitoso, seguindo orientação dos limiares de decisão.
Uso de limiares de decisão
Os limiares de decisão foram desenvolvidos para participarem da tomada de decisão de técnicos e produtores. Eles são apenas um ponto de referência que agiliza e fortalece a certeza da aplicação. Seus dados foram obtidos de ensaios realizados a campo onde foram registrados diferentes gradientes de doença que, por sua vez, foram associados aos rendimentos visando obter as funções de dano. Com a aparição de novos cultivares e novas moléculas seria interessante projetar ensaios que envolvam essas novas variáveis.
O conceito de Limiar de Dano Econômico (LDE) se expressa como o valor da doença na qual a perda ocasionada equivale ao custo de aplicação de fungicida. Além disso, para formular a recomendação prática ao produtor é necessário calcular o Limiar de Ação (LA), é decidir o valor da doença na qual deverão efetuar-se as aplicações para evitar que se alcance o LDE. Considerando que para a eficiência do controle químico não se deve permitir que a incidência e/ou severidade exceda o LDE (relação de indiferença), a aplicação deve ser feita um pouco antes devido a que tanto a implementação do controle assim como a ação do fungicida demandam tempo. Como o LA é sempre menor que LDE se propõe, preliminarmente, um LA 5 pontos inferior ao LDE.
Neste caso, a aplicação de um produto fitossanitário encontra justificativa considerando que os benefícios futuros superarão amplamente os custos atuais.
O valor do LDE não é fixo e por isso deve ser calculado a cada safra considerando as oscilações de preço do trigo e do fungicida. Se as perdas causadas pela doença forem menores que o custo de aplicação de fungicidas, o controle químico já não é justificável. Se, ao contrário, não se realiza a aplicação ao chegar ao limiar, as perdas poderão ser irreversíveis.
Quando ocorrem na cultura duas doenças conjuntamente (exemplo: ferrugem e manchas-foliares) a primeira que alcance o LA determinará o momento para a primeira aplicação. Uma posterior aplicação será feita sempre que alguma das doenças alcance outra vez o LA.
Não se recomenda somar os LA de duas ou mais doenças. Geralmente existe predominância de uma das doenças que finalmente guiará a decisão. Os cultivares classificados como resistentes (R) a ferrugem-da-folha não respondem economicamente ao controle químico.
Importante
1) O monitoramento a partir do perfilhamento-elongamento e a determinação da incidência das doenças são imprescindíveis.
2) Realize o monitoramento também em cultivares que mostraram resistência em safras passadas para detectar precocemente a possibilidade de quebra de resistência.
3) Para lavouras onde o potencial de rendimento é elevado, é conveniente a escolha de mistura de estrobilurinas + trizol por combinar mecanismos e modos de ação e somar os efeitos preventivo, curativo e erradicante. Além disso, é assegurado o controle de eventuais raças de ferrugem da folha insensíveis aos triazóis.
4) Não é aconselhável diminuir as doses recomendadas dos fungicidas. Diminuir doses põe em risco o efeito residual e a sensibilidade de raças ao fungicida (resistência do fungo ao produto).
5) Utilize como referência os limiares de dano desde o alongamento até o início de grão leitoso. Lembre-se que quanto mais elevado o nível de doença, acima dos limiares, menos eficientes e rentáveis serão os fungicidas.
6) Os cultivares classificados como resistentes (R) não respondem economicamente ao controle químico de ferrugem.
7) Se a cultura está passando por uma fase de estresse (seca, geada, nutrição), é conveniente esperar a recuperação da mesma para melhorar a compatibilidade da relação fungicida-planta.
8) Lembrar que quando os fungicidas são aplicados no momento certo e na dose recomendada, se produz uma diminuição do inoculo presente na lavoura. Esta é uma forma de exercer ”proteção indireta” sobre as folhas que ainda não surgiram na planta (diminuição do inoculo na lavoura).
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Publicado: Revista Plantio Direto, edição 111, maio/junho de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.