Análise histórica da precipitação pluvial para a cultura da soja
Ivo Urbano Richter1 & Rudinei Luis Richter21Engenheiro-Agrônomo Sócio-proprietário da Empresa Rações e Sementes Chapada.E-mail: sementeschapada@sicalnet.com.br2Engenheiro-Agrônomo do Departamento Técnico da Coagril – Cooperativa dos Agricultores de Chapada Ltda.E-mai: rudineirichter@yahoo.com.br
Introdução
A cultura da soja na região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul apresenta importante participação na composição da renda do agronegócio, sendo a produtividade da mesma influenciada pela interação entre o potencial genético do cultivar, as práticas de manejo e os fatores ambientais, cujo domínio de atuações ainda constitui-se em desafio técnico e econômico para toda a cadeia do agronegócio. Quando a tecnologia do processo produtivo é implantada dentro de técnicas economicamente admissíveis, os fatores ambientais, principalmente os climáticos, são apontados como os principais determinantes da variação interanual da produtividade da cultura da soja.
Berlato e Fontana (apud FLOSS, 2006 p. 507) demonstraram, experimentalmente, que a precipitação pluvial incidente no período de dezembro a março foi responsável por cerca de 80% da variação da produtividade da cultura da soja ao longo dos anos. Assim a avaliação histórica da precipitação pluvial, correlacionada com a produtividade da cultura da soja, constitui-se em uma ferramenta importante na determinação de estratégias de produção, como época de semeadura, ciclo do cultivar, entre outros, visando mitigar os riscos inerentes aos fatores ambientais de produção, não controláveis.
O presente estudo objetiva apresentar uma analise da evolução da produtividade da cultura da soja correlacionada com a precipitação pluvial incidente durante o ciclo da cultura, durante os meses de novembro a março do período de 1983 a 2009, em lavoura de Palmeira das Missões, localizada a 28º00’50” de latitude sul e 53º28’39” de longitude oeste, no Rio Grande do Sul.
Análise da precipitação pluvial e da produtividade da cultura da soja
Os dados e análise da precipitação pluvial e da produtividade da cultura da soja, em Palmeira das Missões, do período de 1983 a 2009, com 27 anos de observações, foram obtidos mediante a anotação minuciosa e assídua da precipitação pluvial incidida no período de 24 horas de cada dia ao longo dos anos e da produtividade média da cultura da soja em uma lavoura de 400 hectares, com predominância do solo do tipo Latossolo Vermelho Distrófico Típico (STRECK et al., 2002).
Quando a produtividade da cultura da soja é correlacionada, isoladamente, com a precipitação pluvial de cada um dos meses, entre novembro e março, percebe-se que a chuva do mês de fevereiro, na média dos 27 anos, é a que mais se correlaciona com a produtividade da cultura da soja, independente do ciclo do cultivar, como pode ser observado na Tabela 1.
Tabela 1. Coeficiente de correlação médio entre a precipitação acumulada de cada mês e a produtividade média da cultura da soja de 1983 a 2009. Palmeira das Missões/RS.
Cerca de 75 % dos cultivares de soja recomendados para a safra 2008/2009 apresentam ciclo total de desenvolvimento que varia de 125 a 140 dias, com um período reprodutivo médio que varia de 50 a 60 dias (REUNIÃO 2008). Além disso, cerca de 85% dos cultivares de soja indicados para o plantio na safra 2008/2009, apresentam ciclo de desenvolvimento precoce e médio (MITIDIERI, 2008).
Considerando o exposto acima se dividiu a avaliação em dois períodos, visando contemplar a fase reprodutiva da cultura da soja: a chuva do período de janeiro e fevereiro, sendo mais importante para os cultivares precoces e implantados no inicio da época preferencial de semeadura, e a chuva do período de fevereiro e março, sendo esta mais significativa para os cultivares de ciclo médio-tardio e implantados mais no final da época preferencial de semeadura. Os valores médios podem ser observados na Tabela 2.
Tabela 2. Número médio mensal de dias com chuva, precipitação mensal acumulada e média diária de chuva dos períodos de janeiro-fevereiro e fevereiro-março de 1983 a 2009. Palmeira das Missões/RS.
Observando os dados da Tabela 2, percebe-se que o período de fevereiro e março, na média dos 27 anos, é mais desfavorável à cultura da soja, do que o período de janeiro e fevereiro, pois vislumbra-se que no período de fevereiro e março, na média dos anos, aproximadamente 17% menos de dias com chuva, onde a precipitação média mensal e a chuva média diária são, também, aproximadamente 17% menores do que no período de janeiro e fevereiro. Além disso, no período de fevereiro e março, o intervalo médio de dias entre duas chuvas é, na média dos 27 anos, cerca de 9% maior do que o período de janeiro e fevereiro.
Outra informação importante observada na Tabela 2, e que no período de janeiro e fevereiro, a variação da precipitação entre os anos de 1983 a 2009 foi menor (29,5% para dias/mês com chuva e 44,4% para chuva média mensal e diária), em relação ao período de fevereiro e março (33,4% para dias/mês com chuva e 50,8% para chuva média mensal e diária), demonstrando que além de chover menos no período de fevereiro e março, a chuva foi mais variável ao longo dos anos.
De acordo com Reichardt (Apud FLOSS, 2006 p. 506) a demanda hídrica média da cultura da soja, durante o ciclo de desenvolvimento é de aproximadamente 4,2 mm/dia, variando, principalmente, com o cultivar implantado e o estádio em que o mesmo se apresenta, bem como com as condições atmosféricas ocorrentes. Em termos gerais, considerando a produtividade da cultura da soja em relação à precipitação pluvial dos últimos 27 anos e a atualidade do cultivo da soja, com Sistema Plantio Direto na palha e a rotação de culturas, constata-se que chuvas abaixo de 3 mm/dia são restritivas a obtenção de elevadas produtividades.
Analisando os dados da Tabela 3 percebe-se que, na média dos 27 anos (1983 a 2009), o período de janeiro-fevereiro apresentou freqüência de anos com chuvas abaixo de 3 mm/dia de 1 ano para cada 9 anos. Quando comparado com o período de fevereiro-março, vislumbra-se que a freqüência de anos com chuvas abaixo de 3 mm/dia é 66% maior, ou seja, 1 ano para cada 5,4 anos com chuvas abaixo de 3 mm/dia.
Tabela 3. Freqüência média de anos com chuvas abaixo de 3 mm/dia para os períodos de janeiro-fevereiro e fevereiro-março de 1983 a 2009. Palmeira das Missões/RS.
Outra consideração importante observada na referida analise foi a evolução da produtividade da cultura da soja e da sua relação com a precipitação pluvial, conforme apresentado na Figura 1.
Através da percepção dos gráficos é notável o aumento da produtividade da cultura da soja e da sua relação com a precipitação pluvial, principalmente nos últimos quatro anos. Assim, verifica-se nos gráficos que a produtividade da cultura da soja teve acréscimo de aproximadamente 17% na média dos últimos 27 anos, e que a relação entre a produtividade da cultura da soja com a precipitação pluvial, incidente durante o ciclo da cultura, teve um acréscimo de aproximadamente 33%. Isso demonstra o grande avanço tecnológico que se tem obtido na cultura da soja nos últimos 27 anos, principalmente com relação ao uso da água.
Figura 1. Gráfico da variação da produtividade média da cultura da soja no estado do Rio Grande do Sul (IBGE, 2009) e na lavoura de Palmeira das Missões, do período de 1983 a 2009.
Na Figura 1 observa-se que nos últimos anos (2005 a 2009) houve acréscimo significativo na eficiência produtiva da cultura da soja, ou seja, produção por milímetro de chuva precipitada, fruto de algumas mudanças técnicas do manejo da cultura. Foi adotado de forma sistêmica, o tratamento de sementes (fungicida + inseticida), renovação do parque de semeadoras, adoção de cultivares com genética de qualidade superior, melhoria da eficácia do manejo de pragas, doenças e de plantas daninhas (monitoramento e controle), incremento da participação da cultura do milho no sistema de rotação de culturas, adoção, de forma mais ampla, da adubação de sistema e o próprio efeito benéfico de longo prazo do sistema de plantio direto, pois houve aumento de aproximadamente 6,5% no teor médio de matéria orgânica do solo nos últimos 7 anos (2002 – 2009), passando de 3,1% para 3,3% na camada de 0 a 10 cm de profundidade.
Na Figura 1 visualiza-se a variação da produtividade média da cultura da soja no estado do Rio Grande do Sul, do período de 1983 a 2009. Embora a taxa de crescimento médio anual da produtividade da cultura, no estado do Rio Grande do Sul, seja maior do que aquela observada na lavoura de Palmeira das Missões, cuja análise foi realizada, percebe-se que a média da produtividade dos últimos 27 anos foi de 49 % maior, ou seja, 2.542 kg/ha na lavoura de Palmeira das Missões em relação a 1.704 kg/ha no estado do Rio Grande do Sul, o que, na soma do período, equivale a 68,6 t/ha e 46,0 t/ha, respectivamente.
Outra observação verificada na comparação do gráfico da Figura 1 nos anos de 1991 e 2005, houve duas grandes frustrações na produção da cultura da soja no estado do Rio Grande do Sul, oriundas, principalmente, de estiagens constatadas naqueles anos. Verificou-se que a produtividade, relativa à média histórica da cultura da soja, nos anos de 1991 e 2005 foi de aproximadamente 44% da produtividade média histórica de soja da lavoura de Palmeira das Missões (média histórica de 2.542 kg/ha), enquanto que no estado do Rio Grande do Sul foi cerca de 38% da produtividade média histórica da cultura da soja (média histórica de 1.704 kg/ha), demonstrando que o impacto das estiagens foi mais intenso na produtividade média de soja do estado do que na presente lavoura. Isso também pode ser percebido através da variação interanual da produtividade da cultura da soja, onde, no estado do Rio Grande do Sul onde se observa-se oscilação média de 28,7% em relação à média histórica, para 24,4% na lavoura de Palmeira das Missões entre os anos de 1983 a 2009.
Recentemente Hackbart (2009), transpareceu preocupação em relação ao aumento, evidenciado principalmente na contemporaneidade, da freqüência de anos com menor disponibilidade hídrica, afirmando que possivelmente o referido fato poderia ter alguma relação com a Oscilação Decadal do Pacifico que dura cerca de 20 a 30 anos, e se caracteriza por ciclos secos intercalados por ciclos úmidos. Segundo Hackbart (2009) estudos da Universidade de Buenos Aires e do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina, relatam à presença dos ciclos no pacifico nos últimos 150 anos e explica que ”durante ciclos secos podem ocorrer episódios de chuva em volume excessivo e enchentes, mas a característica principal é a redução nos volumes de chuva anuais”.
Embora o presente estudo possua apenas dados observacionais recentes, percebe-se tendência cíclica da precipitação pluvial, do período de novembro a março (Figura 2), variar de forma intercalada entre ciclos secos e úmidos, demonstrando esta observação ser consensual às observações relatadas no país vizinho.
Figura 2. Gráfico da variação da precipitação pluvial média diária dos meses de novembro a março de cada ano, do período de 1983 a 2009, Palmeira das Missões – RS.
Figura 3. Gráfico da variação da precipitação pluvial média diária dos meses de novembro a março de cada ano, do período de 1983 a 2009, Palmeira das Missões – RS.
Considerações finais
Através da análise da precipitação pluvial fica evidenciado a tendência de o período de janeiro e fevereiro ser mais favorável, em termos de chuva, para a fase reprodutiva da cultura da soja, em relação ao período de fevereiro e março, pois o mesmo, apresenta maior precipitação pluvial média, maior numero de dias com chuva, além disso, possui um intervalo médio de dias entre duas chuvas e uma freqüência de anos com chuvas abaixo de 3 mm/dia menor do que o período de fevereiro e março.
O incremento médio na produtividade da cultura da soja nos últimos 27 anos demonstra o grande avanço tecnológico que a cultura tem passado, fruto do trabalho de toda a cadeia produtiva, em busca do aumento quantitativo e qualitativo da produção, principalmente nos últimos anos, associado a mudanças técnicas no sistema de produção, com maior qualidade genética dos cultivares, avanços nas técnicas de manejo de pragas, doenças e plantas daninhas, além da melhor eficiência e eficácia nos processos de adubação, semeadura, e os próprios benefícios de longo prazo do Sistema de Plantio Direto com rotação de culturas.
Os dados de precipitação pluvial apresentados no referido estudo possuem uma tendência similar à apontada por pesquisas da Argentina, entretanto não devemos adotar ações pontuais e episódicas e sim obter dados com maior tempo e número de observações visando uma conclusão mais apurada no que diz respeito aos ciclos de oscilações térmicas do oceano pacifico, proporcionando uma visão holística do seu impacto na produção do estado do Rio Grande do Sul.
Referências Bibliográficas
FLOSS, E. L. Fisiologia das Plantas cultivadas: o estudo do que está por trás do que se vê. 3 ed. ampl. e atual. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2006. 751 p.
HACKBART, E. É Preciso olhar para o futuro, Correio do Povo, Porto Alegre, 10 de maio de 2009, Tempo e Clima, p. 19.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA. Histórico da produtividade da cultura da soja no estado do Rio Grande do Sul. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/servidor_arquivos_est/ Acessado em: 01 de junho de 2009.
MITIDIERI, F. J. Coordenador-geral de Zoneamento Agropecuário. Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento – Secretaria de Política Agrícola – Departamento de Gestão de Risco Rural. Zoneamento Agrícola para a Cultura da Soja no Estado do Rio Grande do Sul, ano safra 2008/2009.
REUNIÃO DE PESQUISA DA SOJA DA REGIÃO SUL. Indicações Técnicas para a Cultura da Soja no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina 2008-2009 / 36º Reunião de Pesquisa da Soja da Região Sul, Porto Alegre, RS, 29 a 31 de julho de 2008. Porto Alegre: Fepagro, 2008. 144 p.
STRECK, E. V.; KÄMPF, N.; KLAMT, E.; NASCIMENTO, P. C. do; SCHNEIDER, P. Solos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EMATER/RS; UFRGS, 2002. 126 p.
Publicado: Revista Plantio Direto, edição 111, maio/junho de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.