A demonização da soja na Argentina
A Revista Plantio Direto acompanha a evolução das atividades do plantio direto e da agricultura da Argentina, dos posicionamentos de entidades e governo, que influenciam a produção de soja daquele País. Os solos são férteis e as planícies extensas concentram 80% da produção num raio de 300 km do Porto de Rosário. Nos últimos anos aumentaram as tensões econômicas e os conflitos, com foco direcionado para a soja. O artigo do Pesquisador do INTA, de Pergamino, Dr. Ricardo Melgar, trata dessa polêmica e apresenta os principais componentes que alimentam a discussão sobre o avanço da sojicultura sobre áreas supostamente impróprias para agricultura.
Ricardo MelgarPesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária – INTA, Estação Experimental de Pergamino,Buenos Aires, Argentina - E-mail: rmelgar@pergamino.inta.gov.ar
Os engenheiro-agrônomos estão acostumados a, não só aqui como em todas as latitudes, debater com os ecologistas e ”ambientalistas” em geral, desde posições científicas até as dogmáticas. Contudo, alguns argumentos, especialmente aqueles que surgem do âmbito político, são difíceis de digerir. Talvez porque popularmente se diga que os políticos só têm opiniões e não conhecimento.
O que motivou esse artigo foi um documento ”oficial” sobre a famosa ”sojização”, um tema tratado desde o âmbito profissional até a sociedade. O conflito que impulsiona o setor desde março do ano passado levou à redação e divulgação do trabalho anônimo ”O avanço da fronteira agropecuária e suas conseqüências” sob o guarda-chuva da Secretaria de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O artigo está na Internet para quem tenha interesse em masoquismo mental e foi uma resposta política do governo para disseminar na opinião pública os malefícios do cultivo da soja provocados pelos agricultores contra a sociedade (www.ambiente.gov.ar/archivos/web/File/032808_avance_ soja.pdf).
O documento em questão inclui alguns argumentos que são claramente originados no dogma, e não é interessante refutá-los com argumentos científicos. Muitos ambientalistas irão automaticamente nos qualificar como servidores das empresas multinacionais que discursam a favor dos agroquímicos.
Insinua-se, por exemplo, que o uso de glifosato pode trazer riscos para a saúde humana porque se acumula nos grãos, pondo em risco a segurança dos alimentos processados. O artigo diz: ”...Mesmo na ausência de efeitos imediatos, pode levar até quarenta anos, um potencial cancerígeno para atuar em um número suficiente de pessoas para ser identificada como agente causal...” É difícil realmente elaborar uma resposta inteligente.
Em vez disso gostaria de comentar sobre temas que conheço, o efeito do avanço da soja sobre o solo. Usam-se argumentos tomados um pouco isolados. Mas argumentaremos sobre três aspectos principais: a extração de nutrientes, o risco de desertificação e o avanço sobre solos frágeis.
Comecemos pelos argumentos sobre o solo: ”O solo está subsidiando os agricultores e o país”, adverte Roberto Casas, Diretor do Instituto de Solos do INTA Castelar.
Se levar em conta a perda da matéria orgânica em solos dedicados à agricultura contínua, o déficit de nutrientes – como conseqüência da insuficiente reposição de fertilizantes -, a diminuição da acidez dos solos, a erosão e a deterioração da estrutura edáfica, se compreenderá o sentido desta afirmação.
Geralmente o agricultor não inclui no cálculo de margem bruta o que os grãos exportam em fósforo, cálcio e enxofre. Casas exemplifica: ”Se partirmos do fato de que a produção de soja exporta 160.000 toneladas de fósforo, para aplicar o conceito de balanço – posto que só se aplica hoje 16% daquilo que a cultura exporta - havia que agregar 800.000 toneladas de superfosfato triplo de cálcio, o que significaria um investimento de 230 milhões de dólares, em torno de US$ 20,00/hectare”.
Todas as culturas extraem nutrientes, e não só a soja, e em quantidades crescentes seguindo os rendimentos. Uma frase solta, retirada do contexto, como a do eng.-agr. Casas, é totalmente vazia e sem sentido para um agricultor que exerce a atividade lícita de cultivar o solo e produzir sem subsídios e com uma carga tributária grotesca, sem sequer mencionar as retenções (35 % de impostos sobre exportação). Não há nenhum argumento agronômico que justifique fertilizar com fósforo por exemplo, quando o nível de P disponível medido por Bray 1 em análises de solo é superior a 15 ppm. Muito menos o argumento é econômico já que o agricultor que o faça não recuperará o custo com maior rendimento. Simplesmente porque ele dificilmente obterá qualquer resposta. O mesmo se aplica para outros nutrientes. Nenhum agricultor aplicará cálcio ou enxofre onde não espere obter vantagens econômicas medidas em grãos.
Se o argumento for seguido rigorosamente, também se deve adubar com os 16 nutrientes. Não só com o cálcio e o enxofre como se refere a publicação. Notoriamente o potássio é habitualmente omitido dos cálculos de extração e exportação de nutrientes, simplesmente porque estes argumentos provêm da indústria de fertilizantes e são bastante conhecidos.
É certo que as reservas de nutrientes baixam. Também baixam as de petróleo, de gás o de outros recursos minerais. No caso do petróleo se usam técnicas para fazer render um poço mais do que sua vida útil imediata, normalmente incrementando-se os custos de extração. Na agricultura, quando um nutriente baixa sua disponibilidade no solo abaixo de um limite, este é adicionado como fertilizante, aumentando-se o custo de produção da cultura, mas com um retorno sobre esse aumento de custo, que faz com que a atividade econômica siga sendo sustentável.
Em todo o documento do boletim da Secretaria do Ambiente, se omite o fato de que outras culturas como os cereais, supostamente mais benignos que a soja, exijem fertilizantes nitrogenados, além do fósforo e de outros relatados por falta de reposição. Contudo isso é perfeitamente normal para os agricultores que assumem os custos que estes fertilizantes representam. Isto porque seu resultado é satisfatório do ponto de vista econômico, pois de outra maneira não fariam uso dos fertilizantes.
A soja permite, por exemplo, aportar nitrogênio (N) no solo para seu próprio sustento e produção de grãos, sendo que seus resíduos contribuem parcialmente com as necessidades de N do cultivo seguinte. Enquanto alguns pesquisadores argumentam que o N fixado por simbiose é suficiente para seu próprio sustento e deve extrair do solo a diferença, vale como prova o fato de que a soja não responde as aplicações de fertilizantes nitrogenados salvo excepcionalmente: quando não foi possível estabelecer a simbiose com os rizóbios. O tópico é sujeito a árduo debate, contudo, estes debates chegam às revistas científicas em trabalhos que são exaustivamente revisados por colegas antes da publicação e enriquecimento da ciência.
O agricultor argentino repõe os nutrientes das culturas que produz em quantidades muito próximas as exportadas. Este balanço, apesar de levemente negativo a nível global, está afetado pelo fato de que boa parte é cultivada em áreas novas com alta disponibilidade de nutrientes e, como afirmado, não justificaria economicamente nem agronomicamente sua aplicação.
Para o caso da soja, dados de levantamentos recentes (ICASA-Fertilizar) indicam que a maioria dos agricultores considerando a média ponderada de todas as fontes de fósforo, utiliza uma dose média de 27 Kg P2O5, ou 11.6 kg/ha de P. Cifra que para um rendimento médio nacional de 2.8 t/ha e entre 4 a 6 kg de P de extração por tonelada (segundo vários autores) apenas equilibra as quantidades extraídas.
Pelo contrário, os cálculos de balanços de nutrientes indicam que os aportes de fertilizantes nitrogenados aos cereais são insuficientes para as produções médias. O uso de N em milho, por exemplo, segundo os níveis recordes de utilização de fertilizantes em 2007 se aproximava dos 70 kg/ha enquanto que a extração era mais que o dobro, entre 140 e 190 kg/ha, segundo os rendimentos da província, e o nível de extração por tonelada de grão, que alguns autores estimam em 22 kg e outros em 24 kg/t (Tabela 1).
Tabela 1. Extração e reposição média de Fósforo e Nitrogênio nos cultivos de soja e milho.
O documento da Secretaria do Ambiente diz em outro parágrafo: ”Outro problema relacionado com o auge da soja e seu rendimento econômico, é o considerável avanço da fronteira agrícola sobre solos não aptos e morros nativos de importante riqueza natural, não só quanto a preservação da biodiversidade da região e o fornecimento de bens e serviços, mas como local e meio de vida para milhares de pessoas”.
Os números oficiais de área plantada, no período de 2001 a 2007 (SAGPyA), indicam que a Região Extra Pampeana aumentou o plantio de soja em 553 mil hectares, na mesma Região Pampeana este incremento foi de 4,4 milhões de hectares, demonstrando que, certamente, mais que o avanço sobre mata nativa, são áreas de pecuária e de outras culturas na região tradicionalmente dedicada a agricultura da Argentina (Tabela 2). Por outro lado, considerando a expansão na área Extra Pampeana, não é evidente e nem fácil de descriminar que essa superfície tenha recebido soja em substituição a mata nativa ou se provém de pastagens naturais.
Tabela 2. Área plantada com soja nas regiões Pampeana e Extra Pampeana da Argentina de 2001 a 2007.
Outro argumento freqüentemente mencionado é que na fronteira agrícola a soja avança sobre solos ecologicamente frágeis, Não há na ciência do solo uma alusão clara a essa fragilidade, Para usar conceitos bem conhecidos por aqueles que estão vinculados ao campo, existem as capacidades de uso, A capacidade de uso vincula a capacidade produtiva com as praticas de conservação, a menor capacidade de uso leva a maior necessidade de práticas de conservação que aumentam o custo de desenvolvimento e eventualmente de produção, Muitas vezes a menor capacidade de uso deriva de uma maior suscetibilidade a erosão e torna-se necessário o uso de praticas que previnam a erosão e conservem a produtividade do recurso solo. É importante destacar que essas práticas existem, são conhecidas e têm sido desenvolvidas com êxito há muitos anos em todas as regiões agrícolas do mundo, Precisamente, o plantio direto é uma prática que combate a erosão e tem facilitado a expansão em áreas mais sensíveis, É desnecessário indicar que áreas suscetíveis e afetadas pela erosão e assim com diferente capacidade de uso existem em todas as províncias agrícolas, especificamente na região pampeana,
Dado que o único incentivo que os produtores têm para produzir soja em novas áreas é o mercado, o processo de ”sojização” é nada mais que um reflexo da redistribuição dos fatores econômicos da produção. Algumas atividades são deslocadas a favor da soja quando os resultados econômicos motivam os produtores rurais de outros segmentos, por exemplo da pecuária, à arrendar suas terras aos produtores de soja. Os capitais são dirigidos ao setor que oferece maior rentabilidade que os demais setores produtivos e, por conseqüência, aumentam a oferta desse bem pelo maior investimento,
Como conclusão, apesar da existência de documentos oficiais como o mencionado, o avanço da área cultivada com soja continuará na medida em que prevaleçam as mesmas condições econômicas que favoreceram o processo, Superestima-se a importância da expansão da área cultivada com soja sobre áreas virgens, embora seja importante sobre as outras atividades agropecuárias como a produção de leite e carne ou de outras culturas que são deslocados, Esta mudança de atividade responde principalmente as motivações econômicas e financeiras das empresas agropecuárias, que embora sejam afetadas pelos mercados internacionais, em última instância é resultado das políticas para o setor, orquestradas pelo governo,
Apesar da maior importância relativa do avanço da soja em áreas não pampeanas, é inegável que isto pode causar impactos ambientais negativos, já que a agricultura incide sobre o ambiente com outras atividades humanas, Estes impactos são perfeitamente mitigáveis pela tecnologia disponível de manejo de solos, principalmente no que diz respeito ao controle da erosão e esgotamento das reservas de fertilidade.
Publicado: Revista Plantio Direto, edição 111, maio/junho de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.