Pulgões, uma ameaça em soja
Dirceu GassenEgenheiro-agrônomo, Gerente Técnico da Cooperativa dos Agricultores de Plantio DiretoE-mail: dirceu@dirceugassen.com
Figura 1. Colônia de pulgões em folha de soja.
Na América do Sul a soja ocupa área aproximada de 40 milhões de hectares somando a Argentina, Paraguai e Brasil. Extensas áreas semeadas na mesma época e de forma contínua desde Buenos Aires até a região Amazônica, disponibiliza grande volume de biomassa para insetos e microrganismo que tem a soja como alimento viável, podendo atingir níveis de danos.
Nessa situação a introdução de novas pragas, em geral causa grandes prejuízos nos primeiros anos, até que os fatores de supressão natural (controle biológico) estabelecem novos níveis de equilíbrio das populações. O uso de inseticidas, fungicidas ou herbicidas poderá ter efeito direto sobre essas pragas e indireto sobre plantas hospedeiras ou entomopatógenos, interrompendo os ciclos naturais de equilíbrio. Isso, combinado com o ambiente de clima tropical e subtropical, predominante no Brasil, com intensa atividade biológica, dificulta a previsibilidade de ocorrência e a severidade de ataque de pragas e de patógenos.
As condições de clima favoráveis à atividade biológica durante o ano todo, exigem constante monitoramento de pragas e doenças, e geram demandas para a pesquisa, extensão e agricultores.
O pulgão-da-soja é uma das pragas que pode causar preocupação no Brasil. Já foi constatada em 1978 (Gassen. D. N., não publicado) e anos seguintes, porém em populações baixas. Nas últimas safras tem sido encontrado em populações maiores e distribuição mais ampla no Sul do Brasil, porém, sem demandas de controle específico.
Nos Estados Unidos, com base em visitas a lavouras e contatos com pesquisadores e agricultores, foi possível constatar que o pulgão-da-soja, Aphis glycines, é considerado praga principal no núcleo de produção, Iowa e Illinois, e está disseminado nas demais regiões. O pulgão foi constatado a partir de 2000, com danos severos em 2003, 2005, 2007 e 2008. Alguns consultores afirmam que, atualmente, o controle de pulgões é a maior demanda de uso de inseticidas para pragas em soja nos Estados Unidos. O pulgão-da-soja é a única espécie do grupo que desenvolve sobre soja, não tendo nenhuma relação de plantas hospedeiras dos pulgões que ocorrem em milho, trigo e outros cereais de inverno. Esses pulgões, de forma geral, são espécies com aparência, ciclo biológico e inimigos naturais semelhantes, porém, alimentam-se de plantas hospedeiras diferentes.
A coloração geral do corpo é verde ou amarelada com cornículos negros edistintos na parte posterior do abdome. Apresenta formas aladas, que disseminam longas distâncias levadas pelo vento e formas ápteras, que multiplicam intensamente, formando colônias numerosas. Nos Estados Unidos as populações chegam facilmente a milhares de indivíduos por planta de soja.
Algumas confusões na identificação de campo ocorrem com trips, mosca-branca e até ácaros. Mas o uso de lupa manual, com 20 aumentos, permite fácil diferenciação morfológica entre essas pragas na soja.
Figura 2. Pulgão alado sobre pubescências em folha de soja.
O pulgão é nativo na Ásia e da mesma região de origem da soja. Apresenta ciclo biológico complexo, com a presença de machos e fêmeas e diapausa de inverno na fase de ovo, sob clima temperado (neve). Ciclo que se repete nos Estados Unidos, onde a postura e sobrevivência de inverno é feita em árvores. Nas regiões de clima tropical e subtropical, a reprodução é por partenogênese telítoca, ou seja, ocorrem fêmeas que geram ninfas fêmeas, sem a presença de machos ou a necessidade de ovos para sobreviver períodos prolongados de temperaturas negativas.
A multiplicação de pulgões é muito rápida, pois, a partir de uma fêmea pode-se chegar a dezenas de milhões de indivíduos em menos de um mês. Os fatores de supressão natural (patógenos, predadores, parasitóides e clima) podem manter a população de pulgões limitada ou em equilíbrio. Mas o rompimento dessa cadeia trófica, permitindo a explosão de populações de pulgões e de outras pragas, pode ser causado pelo aumento na oferta de alimento (semeadura de milhões de hectares de soja na mesma época), pela morte de agentes de controle biológico natural, pelo uso de agroquímicos ou com mudanças repentinas de clima. Por isso, a importância do monitoramento das populações e também no uso adequado de agroquímicos, considerando as suas conseqüências nas cadeias tróficas estabelecidas.
Nos Estados Unidos, entre as plantas hospedeiras do pulgão-da-soja se destacam várias espécies de trevos, enquanto que no Brasil, a identificação das espécies, os refúgios e a dinâmica populacional da praga são pouco conhecidos.
Os danos do pulgão em soja são semelhantes àqueles causados por outras espécies de pulgões em cereais de inverno, milho, ervilha ou feijão. As folhas infestadas tornam-se amareladas, cobertas com substâncias açucaradas e até fumagina. As plantas crescem menos, deixam de produzir legumes e grãos, reduzindo o rendimento. A floração da soja coincide com o aumento das populações de pulgões nos Estados Unidos e é considerada o início da fase crítica de danos da praga.
Além dos danos diretos, pela extração de seiva das plantas, os pulgões são vetores de viroses e podem transmitir os vírus do mosaico da alfafa, do trevo e da soja. Necessitam menos de 30 minutos de alimentação para a transmissão efetiva do vírus do mosaico da soja. A transmissão de viroses é a maior preocupação no controle de pulgões, pois, o uso de inseticidas, nesses casos, pode ser ineficiente para impedir a inoculação, mesmo com a morte da praga.
O monitoramento de pulgões deve ser feito desde o início do desenvolvimento vegetativo da soja. A amostragem e as estimativas de populações indicam que um cm2 de folha ou de haste da soja pode ter até 100 pulgões.
Figura 3. Pulgões e larva de joaninha em folha de soja.
Nos Estados Unidos, os níveis de dano econômico, cujas perdas causadas equivalem ao custo do método de controle indicam populações de 650 pulgões por planta, na fase reprodutiva entre R1 e R5, semeadas com espaçamento de 70 cm entre fileiras. Porém é importante lembrar que a decisão de controle é de 250 pulgões/planta. Isso por que no período entre 5 e 7 dias essa população atingiria o nível que causaria perdas equivalentes ao desembolso para controle (650 pulgões/planta). Portanto a decisão de controle deve ser tomada antes de causar perdas significativas.
O controle biológico de pulgões é sempre intenso, com a presença visual de joaninhas, percevejos, moscas, parasitóides, múmias e patógenos. Na presença de inimigos naturais, sempre que possível optar por inseticidas que atingem a praga e mantêm os agentes de controle natural ativos.
O pulgão-russo, Diuraphis noxia, praga em cereais de inverno foi constatado na África do Sul e Estados Unidos em 1989, com danos severos. Mais tarde sua presença foi observada no Chile e na Argentina, porém, sem atingir níveis de danos severos. Essa praga causou grande preocupação e danos em alguns países, nos primeiros anos. Depois, entrou em equilíbrio, sem causar danos significativos.
É difícil prognosticar o que acontecerá com o pulgão-da-soja, se continuará com populações elevadas e danos severos nos Estados Unidos, se ainda será uma praga importante na América do Sul ou se repetirá o modelo do pulgão-russo em cereais de inverno, com danos severos nos primeiros anos, não estabelecendo-se como praga importante em regiões de clima tropical e subtropical.
Revista Plantio Direto, edição 110, março/abril de 2009.