Potencial das forrageiras para adubação verde
Renato Serena Fontaneli1 e Dirceu Gassen21Egenheiro-agrônomo, Ph.D. Embrapa Trigo, Universidade de Passo Fundo e CNPq - Fone: (54) 3316 5800E-mail: renatof@cnpt.embrapa.br2Egenheiro-agrônomo, MSc, Gerente Técnico da Cooperativa dos Agricultores de Plantio DiretoE-mail: dirceu@dirceugassen.com
1.0. Introdução
O conceito moderno de adubação verde é a utilização de plantas em rotação, sucessão ou consorciação com as culturas, incorporando-as ao solo ou deixando-as na superfície, visando a proteção superficial, bem como a manutenção e melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo (Costa et al., 1992).
O objetivo do artigo é discutir estabelecimento, manejo e potencial de acúmulo de biomassa das principais espécies forrageiras de inverno usadas para forrageamento de ruminantes e como adubo verde para aumentar a quantidade de resíduos além da propiciada pelos cultivos tradicionais de soja/milho/trigo, visando diminuir um dos gargalos da tecnologia sistema plantio direto (SPD) a palhada superficial. O SPD tem sustentabilidade se ocorrer além da semeadura direta na ausência de preparo de solo convencional (exceto na linha de semeadura), executado com sistemas de rotação de culturas eficientes, e manter cobertura vegetal viva ou morta todos os dias do ano em quantidade que supra a disponibilidade de NH4+ e NO3- para as plantas em cultivo. Apresentam-se algumas alternativas para aperfeiçoar os sistemas de produção de grãos e de integração lavoura-pecuária praticados na região sul-brasileira, região com boa distribuição de chuvas durante todo o ano.
2.0 Sistema de produção de grãos sul-brasileiro predominante
Baseado em diversos trabalhos de desenvolvimento de sistemas de produção para as condições sul-brasileiras indicam-se diversas combinações como a sumariada na Tabela 1, como também a combinação de culturas produtoras de grãos com pastagem anual de inverno ou de cobertura de solo como sistema de menor risco, além de maior rendimento do ponto de vista econômico e, também mais eficiente energeticamente. Nesse exemplo de sistema de produção de grãos com integração lavoura-pecuária constituído de 67% da área com soja e 33% com milho e, no inverno, 34% da área com trigo, 33% com pastagem anual (aveia preta) e 33% com adubos verdes antecedendo o milho (nabo forrageiro, ervilhaca ou ervilha forrageiro).
Tabela 1. Exemplo de sistema de produção de grãos integradas com pastagem anual e adubação verde.
3.0 Principais espécies e cultivares de inverno para adubação verde para o Sul do Brasil
Características Agronômicas Azevém
Azevém italiano (Lolium multiflorum Lam.) é uma espécie rústica, vigorosa e agressiva, que perfilha em abundância, razão pela qual é uma das gramíneas mais cultivadas no Rio Grande do Sul, no inverno e na primavera, tanto para corte como para pastejo (Pupo, 1979). Azevém anual apresenta desenvolvimento inicial lento, entretanto, até o fim da primavera, supera as demais forrageiras em quantidade de forragem. A ressemeadura natural contribui para que a espécie seja a mais difundida no Sul do Brasil. Produz alimento de elevado teor de proteína e de fácil digestão, sendo aparentemente muito palatável aos ruminantes. Na região da Campanha do Rio Grande do Sul, faz parte da mais tradicional consorciação de pastagens cultivadas, ou seja, azevém + trevo branco + cornichão (Fontaneli, 1988).
Mescla de aveia preta + nabo forrageiro + azevém + ervilhaca
O produtor Luiz Graeff Teixeira usou azevém para cobertura e formação de raízes visando a estruturação do solo na fase inicial de adoção do plantio direto em 1991.
Aveia Preta
Aveia preta (Avena strigosa Schreb.) é uma espécie rústica, pouco exigente em fertilidade de solo, que tem se adaptado bem nos estados do Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Possui grande capacidade de perfilhamento e sementes menores, quando comparadas às da aveia branca. Os grãos não são usados na alimentação humana.
A aveia preta caracteriza-se por crescimento vigoroso e tolerância à acidez nociva do solo, causada pela presença de alumínio. É a forrageira mais usada para pastejo no inverno, no Sul do Brasil. É espécie mais precoce comparado a maioria dos cereais de inverno e ao azevém. A aveia preta presta-se para consorciação com espécies como azevém, centeio, ervilha-forrageira, ervilhaca, serradela, trevo branco, trevo vermelho, trevo vesiculoso e trevo subterrâneo. Quando visa ao forrageamento animal até o fim da primavera e início do verão, pode-se consorciar a aveia preta com o azevém, mais trevo vesiculoso, ou com trevo vermelho, ou trevo branco e/ou cornichão.
Pastagem de aveia preta
A aveia preta pode ser pastejada diretamente ou conservada como feno ou silagem ou, ainda, cortada mecanicamente para distribuição em cochos. É cultura adequada para uso em sistemas de rotação de culturas com cevada, trigo, centeio e triticale, pois diminui a população de alguns patógenos que afetam esses cereais, tais como a podridão comum, Bipolaris sorokiniana, e, também, o mal-do-pé, Gaemannomyces graminis var. tritici. Assim, aveia preta e aveia branca podem compor sistemas de integração de lavoura com pecuária que não favoreçam as doenças do sistema radicular para a cultura de trigo.
Aveia Branca
A aveia branca (Avena sativa L.) é cultivada nos estados do Sul para alimentação de eqüinos ou para suprir as indústrias. É considerada como de duplo propósito, ou seja, pode ser pastejada e ainda produzir grãos. As cultivares em uso podem apresentar ferrugem da folha e ataque de pulgões, se esses problemas não forem tratados adequadamente, a produção de forragem da cultura de aveia branca pode ser comprometida e a produção de grãos pode ser totalmente perdida. A incidência de pulgões-da-aveia (Rhopalosiphum padi L.) que transmitem virose (Vírus do Nanismo Amarelo da Cevada) pode comprometer a produção de forragem e de grãos, especialmente em anos com estiagem no início do ciclo. A aveia branca caracteriza-se por ter grão maior do que o da aveia preta, sendo de grande valor na alimentação humana e animal.
Centeio
O centeio (Secale cereale L.) desenvolve-se bem em diferentes tipos de solo e de clima. Destaca-se pelo crescimento inicial vigoroso e pela rusticidade, resistência ao frio, à acidez nociva do solo, ao alumínio tóxico e a doenças, possuindo sistema radicular profundo e agressivo, capaz de absorver nutrientes indisponíveis a outras espécies. É o mais eficiente dos cereais de inverno no aproveitamento de água, pois produz a mesma quantidade de matéria seca com apenas 70% da água que o trigo requer. A resistência a doenças é uma característica do centeio, entretanto, a partir de 1982, no Brasil, o ataque de ferrugem do colmo (Puccinia graminis Pres. f. secalis), no fim do ciclo, tem sido responsável por perdas em muitas lavouras.
Centeio
Chícharo
Chícharo, Xinxo, Chicho ou Sincho
O chícharo (Lathyrus sativus L.) é uma espécie precoce, originária da Ásia Central e Mediterâneo. Cultivada na Índia como colheita anual de inverno, seus grãos são mais apreciados que os da ervilha na alimentação humana. A forragem verde pode ser utilizada para alimentação de ruminantes em pastejo, cortada verde e fornecida no cocho ou na forma de feno. Os grãos devem ser cozidos para evitar a intoxicação por latirismo. Chícharo apresenta elevadas tolerância ao frio e resistência à seca.
Ervilha Forrageira
A ervilha forrageira (Pisum sativum var. arvense) é precoce, com razoável desenvolvimento em clima sub-tropical. Destaca-se por possuir certa rusticidade, apresentando rápido crescimento inicial e elevada capacidade de cobertura de solo minimiza crescimento de plantas daninhas. A cultivar BRS Sulina é indicada para uso como forragem ou para cobertura de solo. Constitui alternativa ao uso de ervilhaca comum (V. sativa) e de ervilhaca peluda (V. villosa), leguminosas anuais mais usadas no Sul do Brasil, como também ao nabo forrageiro e à aveia preta. É utilizada para adubação verde, na melhoria da fertilidade do solo, como fonte de nitrogênio, como forragem verde, feno, silagem, ou como grãos secos e tostados (triturados), na alimentação animal. Como as demais leguminosas, necessita de inoculante específico. A precocidade e a uniformidade de maturação da cultivar permitem dispensar o uso de herbicidas dessecantes precedendo a semeadura de milho, ao ser semeada em abril ou maio, favorecendo a composição de sistemas de produção de grãos orgânicos ou que diminuem o impacto da agricultura sobre o ambiente e reduzem o custo de produção de alimentos (Tomm et al., 2002).
Ervilha forrageira
Ervilhaca Comum
Ervilha de vaca (Vicia sativa L.) é a leguminosa de inverno mais cultivada em pequenas propriedades como adubo verde e planta forrageira. É anual, de clima temperado a subtropical, sensível ao frio, à deficiência hídrica e ao calor, embora muitas plantas tenham se adaptado a invernos rigorosos e secos. Possui folhas compostas 10-12 pares de folíolos com uma gavinha terminal, que a torna escandente. Os cereais de inverno funcionam como tutor para colheita de sementes. É a leguminosa forrageira anual de inverno mais cultivada no Rio Grande do Sul, onde encontra ampla adaptação e necessita de inoculante específico.
Ervilhaca Comum
Ervilhaca Peluda
Essa espécie de ervilhaca (Vicia villosa Roth) é uma planta forrageira pilosa, de ciclo anual, de clima temperado a subtropical, confunde-se com outras espécies espontâneas na região como Vicia atropurpurea e Vicia dasycarpa, com poucas diferenças morfológicas quanto a pilosidade e comprimento de talos. É bastante resistente ao frio, com hábito de crescimento prostrado/escandente, com gavinhas fortes, possui folíolos alongados, mas quando semeada solteira, tem hábito prostrado. A exemplo da ervilhaca comum, pode deve ser semeada consorciada com aveias, centeio, canola, nabo, tremoço, etc. para aumentar o acúmulo de biomassa. Como componente de pastagens apresenta bom rebrote. É considerada uma das leguminosas mais tolerantes a solos com baixo pH, a exemplo do cornichão, mas ambas espécies são responsivas a adubação.
Serradela
A serradela (Ornithopus sativus Brot.) é uma espécie anual de clima temperado e subtropical muito rústica, possuir elevada resistência ao frio e a geadas, mas não tolera umidade excessiva (Costa, 1999). Tolera solos com acidez moderada (pH 5,8 a 6,0). É mais rústica que chícharo e ervilhaca comum. Aconselha-se consorciar com pelo menos um cereal de inverno para adubação verde ou para compor pastagens. Como o desenvolvimento inicial é lento pode ser ceifada ou pastejada antes pela contribuição dos cereais precoces. É indispensável a inoculação com bactérias específicas, especialmente no primeiro cultivo. Na fase final de crescimento da serradela é possível semear milho em sulcos, sem uso de herbicidas, que permitirá ressemeadura natural (Costa, 1992).
Trevo Encarnado
O trevo encarnado (Trifolium incarnatum L.) é uma das plantas mais coloridas e belas. É uma planta anual, com hábito de crescimento ereto e ótima ressemeadura natural. As flores são vermelhas brilhantes, com inflorescência cilíndrica com até mais de 5,0 cm de comprimento. As folhas são verde-escuras com pilosidade densa. É adaptado em solos argilosos com pH 5,0-8,0, bem drenados, com desenvolvimento pobre em solos arenosos ou com drenagem insuficiente. Cresce mais em baixas temperaturas que outros trevos. Indica-se semeadura consorciada com cereais de inverno, aveia preta e azevém anual. Para ressemeadura natural quando componente de pastagens, proceder o diferimento (retirada dos animais) por três semanas no florescimento pleno (Stanley, 1999).
Trevo Vesiculoso
O trevo vesiculoso (Trifolium vesiculosum Savi) destaca-se por produzir forragem durante períodos mais longos do que os trevos anuais (Ball et al., 1996). Como apresenta ressemeadura natural, persiste no solo por muitos anos. Resiste bem à seca e apresenta alta produção de forragem, mas na primavera é mais tardio que os demais trevos.
Pode ser usado com sucesso no melhoramento do campo natural, juntamente com aveia preta ou com azevém, a lanço, após gradagem. Essa prática, no entanto, só é recomendável quando o solo não tiver problemas de acidez nociva.
Pode ser consorciado com várias gramíneas anuais de inverno nas seguintes densidades de semeadura: trevo vesiculoso (5 kg/ha) com aveia preta (80 kg/ha), azevém (20 kg/ha) ou centeio (40 kg/ha).
Trevo Vesiculoso
Trevo Alexandrino
O trevo de alexandrino (Trifolim alexandrinum L.) também conhecido como trevo egípcio é muito produtivo em solos alcalinos, mas pouco tolerante ao frio. É mais produtivo em solos argilosos com pH de 6,5-8,0 e não deve ser indicado para regiões com temperaturas de -6oC. Na Califórnia com irrigação chegou a produzir rendimentos de 12 a 16 t/ha e de 260-350 kg/ha de nitrogênio, embora o rendimento usual é da ordem de 5-7 t MS/ha.
Trevo Persa
O trevo persa (Trifolium resupinatum L. var. resupinatum) é nativo da Ásia Menor e países Mediterrâneos. É uma planta decumbente sob pastejo, mas não enraíza nos nós dos colmos que são ocos e alcançam até 0,6m quando não pastejados. Desenvolve bem em solos argilosos com pH 5,7-6,4. Possui até 95% de sementes duras, com boa ressemeadura natural, que conferem alta persistência (Hoveland & Evers, 1995).
Trevo Subterrâneo
Trevo subterrâneo (Trifolium subterraneum L.) é originário da bacia de Mediterrâneo, possui hábito de crescimento prostrado, com alguma pilosidade. O fato de o trevo subterrâneo enterrar a semente assegura a ressemeadura desta. Como leguminosa, necessita de inoculante específico, principalmente no primeiro ano de cultivo (Ball et al., 1996). As sementes, apesar da pouca dormência, apresentam dureza de tegumento. Isso é problema em regiões de verão seco, em que precipitações pluviais ocasionais podem fazer germinar as sementes, e as plantas assim originadas, morrem quando as condições voltam a predominar de seca. É componente básico de 20 milhões de ha de pastagens melhoradas no sul da Austrália e comum em outros países como Nova Zelândia, África do Sul, Argentina, Chile e Uruguai.
Trevo-de-Carretilha
O trevo-de-carretilha (Medicago polymorphum) é uma espécie exótica naturalizada a exemplo do azevém anual ou italiano, tal sua rusticidade e facilidade de disseminação.
Trevo Doce ou Melilotus
O trevo doce de flor branca (Melilotus albus) e o de flor amarela (Melilotus officinalis), de ciclo mais longo que o branco, é reconhecido como melhorador de solo desde 1900 (Stanley, 1999), encontrado expontaneamente em beira de estradas, linhas férreas e terrenos urbanos abandonados. Essa disseminação é atribuída a carregamentos de fenos e camas com essa espécie, possui alta percentagem de sementes duras que pode persistir no solo por mais de 20 anos (Sheffer & Evers, 2007). É adaptado a ampla variedade de solos e clima, sendo tolerante à seca e moderadamente a solo úmidos, mas não tolera encharcamento. É uma planta considerada bienal (dura dois anos) e, em condições de estresse, comporta-se como anual. A estatura média é de 1,2 m mas pode atingir até 2,0 m. Embora seja utilizada prioritariamente para adubação verde e pastagem apícola, pode ser utilizada para formar pastagens consorciadas, fenação ou ensilagem. Possui, em sua composição cumarina, composto aromático que pode resultar inicialmente em baixa palatabilidade para os animais até tornarem-se acostumados. As sementes devem ser inoculadas com bactérias fixadoras de nitrogênio específicas como as demais leguminosas.
Tremoço ou Lupino
Os tremoços branco (Lupinus albus L.), amarelo (Lupinus luteus L.) e azul (Lupinus angustifolius L.) são leguminosas de origem Mediterrânea, planta herbácea, de crescimento ereto, podendo alcançar até 2,0 m de altura, capazes de fixar até 150 kg/ha de N e aumentar a produção de milho em cerca de 30% (Calegari, 1989). Necessitam de inoculação específica e umidade adequada para germinação e crescimento inicial, que geralmente é lento. As restrições ao cultivo de tremoço nas condições sul-brasileiras estão ligadas a susceptilidade a doenças, sendo a principal a antracnose (Colletotrichum sp.), seguida de esclerotínea (Sclerotinia spp.) e podidões radiculares por Fusarium spp., Rhizoctonia solani e Verticillium spp., podendo aparecer algumas viroses (Costa, 1992).
Dirceu Gassen em lavoura com cobertura de tremoço, em Assis, SP
Trevo Branco
O trevo branco (Trifolium repens L.) é a espécie de trevo mais cultivada no mundo. É a leguminosa forrageira de inverno mais usada para pastejo, em associação com gramíneas (Ball et al., 1996). Possui hábito de crescimento prostrado-estolonífero espalhando-se pelo enraizamento nos nós. Embora perene comporta-se como planta anual em verões secos frequentes na Campanha do RS. É planta típica de clima temperado, não tolerando elevada temperatura. Desenvolve-se bem em solos neutros e nos que contêm elevado nível de matéria orgânica. É razoavelmente tolerante à geada e vegeta bem à sombra. Desenvolve pobremente em solos ácidos, arenosos e encharcados (Stanley, 1999). O trevo branco é planta que produz abundante e densa folhagem. No inverno as folhas são menores do que na primavera e no verão. É ótima restauradora de solo, com grande capacidade de fixação de nitrogênio atmosférico. Sua qualidade superior é constatada pelo aumento no ganho de peso diário, produção de leite, taxa de desmame, enfim todos parâmetros de performance animal quando em consorciação com diversas gramíneas.
Trevo Branco
Trevo Vermelho
Trevo vermelho (Trifolium pratense L.) é intensamente cultivado nos países de produção pecuária, por ser rústico, palatável e nutritivo. É muito produtivo e de elevado valor forrageiro, semelhante a alfafa, quando semeado em solos férteis com boa drenagem (Stanley, 1999). Admite múltiplos aproveitamentos, como corte, pastejo, fenação, ensilagem e adubação verde (Ball et al., 1996).
Trata-se de espécie de extrema importância para o RS, principalmente na região do Planalto e nos Campos de Cima da Serra. Consorcia-se bem com cereais de inverno, azevém, aveia preta, festuca e outras gramínes perenes de inverno.
Trevo Vermelho
Cornichão
Cornichão cv. São Gabriel (Lotus corniculatus L.) possui ampla adaptação, chegando a ser naturalizada em algumas situações na América do Sul (Beuselinck, 1999). É leguminosa recomendada para pastagem permanente em regiões de clima temperado (Ball et al., 1996). Possui valor nutritivo semelhante ao da alfafa, com a vantagem de ser menos exigente em fertilidade. Necessita de inoculante específico e peletização. Cornichão é rústico e se desenvolve melhor que alfafa em solos moderadamente ácidos. Adapta-se à maioria das regiões do RS e é mais tolerante às condições desfavoráveis de inverno do que a alfafa. Em termos de qualidade, pode substituir o feno de alfafa. Por essa razão, o cultivo de cornichão é preferido em solos de fertilidade média a baixa em grandes áreas. É pouco tolerante ao sombreamento, sendo prejudicado em consorciação com espécie de porte alto e produtora de grande massa.
Nabo Forrageiro
O nabo-forrageiro está entre as mais antigas espécies usadas na produção de óleo, sendo cultivado principalmente na Ásia Oriental (Derpsch & Calegari, 1992). Em cultivo próximo a outras espécies do gênero Raphanus, como nabo comestível, rabanete e nabiça ou nabo comum (planta daninha de inverno), poderá ocorrer fecundação cruzada. O nabo-forrageiro é acentuadamente precoce e apresenta maior rusticidade que colza, mostarda e outras crucíferas.
O nabo-forrageiro tem demonstrado elevada capacidade de reciclagem de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, o que o torna uma planta de cobertura vantajosa em sistemas de rotação de culturas. Apresenta elevada produção de massa verde durante a época mais fria do ano, cobrindo o solo eficientemente durante um período de alta erosividade.
Consórcio de aveia preta + nabo forrageiro
4.0 Consorciações
Uma das finalidades do cultivo de mais de uma espécie na mesma área e na mesma safra agrícola é aumentar o aproveitamento de recursos de ambiente (água, luz, nutrientes) melhorando a proteção do solo e a distribuição de forragem aos animais, bem como o valor nutritivo (Santos et al., 2007). As consorciações mais tradicionais com potencial para adubação verde são aveia preta-ervilhaca comum, aveia preta-nabo forrageiro, centeio-ervilhaca comum e centeio-aveia preta-nabo-ervilhaca para agricultores que produzem grãos no inverno, além de consorciações com azevém para os praticantes da integração lavoura-pecuária com bovinocultura. Nesse caso, são estabelecidas inicialmente para pastagens precoces e no final de inverno, são diferidas para adubação verde. O potencial de rendimento de biomassa acumulada é, geralmente, de 30 a 60% maior que o cultivo isolado. Por exemplo, aveia preta comum estabelecida isoladamente, sem adubação, produz de 3,0 a 5,0 t MS/ha, mas quando consorciada com ervilhaca ou nabo forrageiro acumula de 5,0 a 7,0 t MS/ha (Mello, 1998). A consorciação com espécies anuais com maior potencial de acúmulo de biomassa na região do Planalto do RS, é aveia preta-azevém-trevo vesiculoso que juntas podem superar 8,0 t MS/ha (Fontaneli e Scheffer-Basso, 1995). Barni et al. (2003) obtiveram na Depressão Central-RS 9,3 t MS/ha com centeio-nabo forrageiro-ervilhaca comum, 8,6 t MS/ha com aveia preta-nabo forrageiro-ervilhaca peluda, 8,4 t MS/ha com tremoço azul-aveia preta-ervilhaca peluda e 8,3 t MS/ha com aveia preta-ervilhaca peluda.
Tabela 2. Potencial de produção de fitomassa seca (MS) das principais espécies e cultivares de inverno para adubação verde para o Sul do Brasil
Considerações Finais
O potencial de produção de biomassa seca com espécies anuais de inverno, pode superar 10 t MS/ha, conforme pode-se constatar com o centeio (BRS Serrano) e de aveias branca (IPR 126 e FUNDACEP-FAPA 43). O azevém anual por ressemeadura natural e mesmo a aveia preta comum não superam 3,0 a 4,0 t MS/ha sem adubação. As consorciações de aveia preta-azevém, aveia preta-nabo forrageiro, aveia-ervilhaca comum e mais complexas como aveia preta-centeio-nabo forrageiro com alguma adubação podem acumular de 6,0 a 10,0 t MS/ha, podem contribuir para a sustentabilidade de nossos sistemas de produção de grãos ou de integração lavoura-pecuária com pastagens anuais, em que parte da fitomassa é pastejada por ovinos, bovinos de corte e de leite.
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Publicado: Revista Plantio Direto, edição 110, março/abril de 2009.