Tratamento de Sementes de Cereais de Inverno com Fungicidas


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Publicado em: 01/04/2009

Tratamento de sementes de cereais de inverno com fungicidas: ênfase a cobertura das sementes

Erlei Melo Reis1 e Ricardo Trezzi Casa21Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RSE-mail: erleireis@tpo.com.br2Centro de Ciências Agro-veterinárias - Universidade do Estado de Santa Catarina, Lages, SCE-mail: a2rtc@cav.udesc.br

1. Introdução

O manejo integrado de doenças preconiza o emprego de todas as estratégias de controle disponíveis que visam ao controle econômico de doenças resultando em menor impacto negativo ao ambiente. Dentro desse conjunto de táticas de controle de doenças, enquadra-se a produção de sementes sadias e o seu tratamento com fungicidas.

A importância da patologia de sementes decorre: (a) da eficiência dos métodos de detecção de fitopatógenos associados às sementes, (b) da quantificação da transmissão semente-plântula, (c) da eficiência dos métodos de tratamento de sementes desenvolvidos e utilizados, de modo a evitar (erradicar) que a semente infectada leve os patógenos para as áreas de cultivo. A finalidade do controle é evitar a transmissão semente-plântula e manter na lavoura uma intensidade de doença abaixo do limiar de ação (LA). O LA é aquela incidência da doença na qual as medidas de controle devem ser implementadas para evitar que o limiar de dano econômico (LDE) seja alcançado (Reis & Carmona, 2001).

”O objetivo do tratamento de sementes com fungicidas é o de evitar a transmissão patógeno para os órgãos aéreos da plântula”

As táticas aqui discutidas baseiam-se sempre no princípio de que a semente infectada transporta e pode transmitir os parasitas necrotróficos para a área cultivada.

”A transmissão dos patógenos de sementes para órgãos aéreos é um processo eficiente que resulta na introdução dos patógenos nas áreas de cultivo”

Posteriormente, os patógenos mantém-se na fase saprofítica, multiplicando-se nos restos culturais. Isso resulta num aumento do inóculo disponível na área cultivada, o qual dependendo do clima, pode causar epidemias com danos e perdas nas culturas.

Em conseqüência, cabem duas medidas fundamentais de controle: (a) o tratamento eficiente da semente, com fungicidas e doses que levem à erradicação, e (b) a rotação de cultura, que elimina ou reduz o inóculo disponível na lavoura. Trata-se de duas medidas de erradicação do inóculo primário sendo uma complementar da outra.

”A eficiência do tratamento de sementes deve ser de 100% de modo a eliminar ou erradicar os patógenos a elas associados”

Neste trabalho, dá-se ênfase, principalmente, ao parasitas necrotróficos, agentes causais de manchas foliares, cancros e antracnoses. Os exemplos citados referem-se a dados obtidos na pesquisa de patossistemas em cereais de inverno. Procura-se mostrar a importância da tecnologia do tratamento de sementes com fungicidas e o reflexo de sua qualidade na eficiência do controle. Os princípios aqui apresentados e discutidos, obviamente, aplicam-se à qualquer patossistema semelhante.

2. Relação entre a sanidade da lavoura e a sanidade da semente colhida

Como regra, pode-se aceitar a afirmação de que a incidência de um parasita necrotrófico em sementes é proporcional à intensidade da doença nos órgãos aéreos da cultura que a produziu. Essa afirmativa encontra suporte nos dados de Stevenson (1981)(Tabela 1).

Tabela 1. Relação entre estádio fenológico da cevada, severidade foliar, esporos no ar e infecção de grãos de cevada por Bipolaris sorokiniana

Por isso, deve haver a preocupação em manter baixa intensidade de doenças causadas por necrotróficos, nas lavouras produtoras de sementes. O aumento da área foliar necrosada relaciona-se com o aumento da população de esporos no ar, se refletindo num crescente aumento da incidência do patógeno em sementes (Tabela 1).

Sob monocultura e plantio direto, a intensidade das manchas foliares atinge as maiores incidências. Por outro lado, sob plantio direto e rotação de culturas, a incidência tem sido significativamente reduzida. Experimentos em que a distância entre as parcelas era de aproximadamente três metros, a incidência das manchas foliares foi estatisticamente reduzida nos tratamentos com rotação de culturas. Isso é uma evidência de que o transporte de ascosporos e conídios se processa a curta distância (Reis et al, 1992) (Tabela 2).

Tabela 2 . Efeitos do manejo do solo e da rotação de culturas na incidência foliar de manchasz foliares do trigo

Portanto, lavoura com rotação de culturas produz semente com baixa incidência; o inverso é verdadeiro: lavoura com alta intensidade de doença (monocultura) produz semente com alta incidência dos parasitas necrotróficos (Tabelas 3 e 4). Desta maneira, para se reduzir a incidência em sementes se deve manter a lavoura com baixa intensidade de manchas foliares, cancros e antracnoses. Isso é obtido pela rotação de culturas.

Tabela 3. Efeito da rotação de culturas e do manejo do solo na incidência (%) de Drechslera tritici-repentis na semente de trigo colhida.

Tabela 4. Efeito da rotação de culturas e do manejo do solo na incidência (%) de Bipolaris sorokiniana na semente de trigo colhida.

O desenvolvimento de uma patógeno necrotrófico a partir da semente infectada, sua transmissão para os órgãos aéreos, o progresso posterior da epidemia nas folhas devido aos ciclos secundários até, finalmente, a colonização das infrutescências e a infecção das sementes é um processo cíclico determinado pelas condições climáticas que se refletem no número de ciclos secundários.

Convém lembrar o princípio de que, na natureza, os patógenos procuram não se separar do hospedeiro, principal fonte nutricional ou substrato; uma vez separando-se, correm o risco de perecerem por desnutrição.

”Numa lavoura os parasitas procuram não se parar do hospedeiro do qual dependem nutricionalmente”

Portanto, a maneira mais segura dos fitopatógenos de garantirem o acesso ao substrato é manterem-se associados às sementes. Sementes plantadas sem tratamento ou aquelas com tratamento ineficiente que não leve à erradicação não cortam o ciclo de vida do parasita (Reis & Casa, 1998).

A pesquisa em patologia de sementes deve se concentrar em trabalhos que visem à quantificação da transmissão semente-plântula e da sua erradicação. Atualmente, são poucos os patossistemas que apresentam essa informação.

Os fundamentos anteriormente descritos e discutidos permitem apresentar sugestões para o controle de fungos associados à sementes de cereais de inverno e evitar os prejuízos que as doenças causam à agricultura.

3 Práticas recomendadas para reduzir o inóculo em sementes

3.1 Rotação de culturas

A rotação de culturas reduz o inóculo inicial dos parasitas necrotróficos presentes nos restos culturais e, conseqüentemente, a intensidade das doenças nos órgãos aéreos (Tabela 2). Esse é o caminho para a produção de sementes sadias. Portanto, as lavouras produtoras de sementes devem apresentar como padrão a observância da rotação de culturas (Reis et al, 2004). Por exemplo, qual o percentual de lavouras produtoras de semente de arroz, de feijão, de milho e de soja que são conduzidas sob rotação? O manejo da lavoura visa ao controle ou ao aumento da intensidade das doenças?

Todos os parasitas necrotróficos que apresentam baixa habilidade de competição saprofítica, esporos relativamente grandes (> 50 mm), ou, se pequenos, veiculados e transportados em gotículas d’água, gama restrita de hospedeiros secundários e que não produzam estruturas de resistência (clamidosporos, esclerócios e oosporos), são potencialmente controláveis pela rotação de culturas (Reis & Forcelini, 1995)

3. 2 Tratamento eficiente de sementes

Considera-se eficiente o tratamento de sementes com fungicidas e doses que levem à erradicação do patógeno alvo do controle.

A eficiência depende:

a) da incidência do fungo alvo na semente, ou seja, quanto mais elevada for a incidência, menor será a eficiência e, quanto menor for a incidência, maior será a possibilidade de eliminação do inóculo. Em cereais de inverno, tem sido demonstrado que alguns fungicidas recomendados para o controle de patógenos veiculados pelas sementes alcançam a erradicação somente nas amostras com incidência de B. sorokiniana inferior a 30% (Tabela 5) (Reis & Forcelini, 1992).

Tabela 5. Efeitos de fungicidas, doses e incidências na semente no controle de Bipolaris sorokiniana (%) em sementes de triticale

Estes dados evidenciam que as doses maiores determinam percentuais de controle mais elevados. A erradicação é uma meta difícil de ser alcançada e, o mais, importante, quanto maior a incidência do fungo alvo em sementes, menor é a eficiência do controle, por isso, seria ideal se ter a preocupação de se produzir sementes de cereais de inverno com a menor incidência possível, talvez o ideal seja < 10% (Tabelas 5) Desta tabela se pode extrair valores para se estabelecer os níveis de tolerância ou de padrão sanitário de sementes de cereais de inverno relativos à B. sorokiniana.

”A erradicação é difícil de ser atingida tornando-se um desafio aos pesquisadores”

b) da potência ou da fungitoxicidade do fungicida. Este atributo depende das características das moléculas e do espectro de ação resultante. Os fungicidas mais potentes para o controle de Drechslera tritici-repentis (Tabela 4), D. teres, D. avenae e Bipolaris sorokiniana em sementes de cereais de inverno são a guazatina, a iminoctadina e a iprodiona (Tabelas 6 e 7). Para o controle de Stagonospora nodorum e Fusarium graminearum são o carbendazim e o benomil (Tabela 8). Em conseqüência, para aumentar o espectro de ação é requerida a mistura de dois ingredientes ativos.

Tabela 6. Efeito de fungicidas sobre o controle ”in vitro” de Drechslera tritici-repentis, em diferentes incidências, em sementes de trigo.

Tabela 7. Efeito de diferentes fungicidas sobre o controle ”in vitro” de Bipolaris sorokiniana, em sementes de trigo com diferentes incidências

Tabela 8. Efeitos de fungicidas benzimidazóis (50 g de i.a./100 kg) aplicados em sementes de trigo na incidência de Fusarium graminearum

Na Tabela 9, entre os fungicidas mais potentes a iminoctadina foi o mais eficiente (maior número de erradicações). Na Tabela 7, mesmo os fungicidas mais potentes não erradicaram o fungo alvo. As incidências oscilaram de 4,25 a 26%. Com a maior incidência ocorreu o menor controle de apenas 28% (Tabelas 10 e 11).

Tabela 9. Controle de Bipolaris sorokiniana (in vitro) pelo tratamento de sementes de cevada com fungicida + solventes orgânicos.

Tabela 10. Efeitos do tratamento de sementes de cevada com a mistura fungicida iprodiona + carbendazim e de volumes de calda na incidência de Bipolaris sorokiniana.

Figura 1. Efeito do tempo de imersão em suspensão aquosa de guazatina (0,3%) na incidência de Bipolaris sorokiniana, em sementes de cevada (Incidência no tratamento testemunha de 30%). Fonte: Tognon & Reis, 2006 (Dados não publicados).

3.3 Melhoria da cobertura

Tão importante quanto a potência do fungicida é a cobertura da semente com a calda.

A cobertura da superfície da semente pode ser melhorada por três princípios:

a) aumento do volume de água (volume da calda para tratar 100kg de sementes. Em geral são utilizados volumes de 500 a 600 mL/100 kg sementes. Resultados de pesquisa têm indicado que à medida que aumenta o volume da calda incrementa a eficiência do tratamento. Alguns exemplos são apresentados nas Tabela 10 e 11 relativos ao controle de Bipolaris sorokiniana e de Fusarium graminearum em sementes de cevada.

b) imersão da semente na calda fungicida. Por exemplo, a imersão de sementes de cevada na suspensão aquosa do fungicida guazatina, por um período de tempo de quatro horas, foi necessária para atingir-se a erradicação (Figura 1).

Tabela 11. Efeitos do tratamento de sementes de cevada com a mistura fungicida iprodiona + carbendazim e de volumes de calda na incidência de Fusarium graminearum

c) imersão associada a termoterapia. Segundo Maude (1983) a imersão da semente na calda fungicida permite alcançar a erradicação. Por exemplo, este autor trabalhou com a imersão de sementes de aipo na calda fungicida de tiram, a 30oC por 24 horas levando a erradicação de Septoria apiicola.

”A erradicação é mais facilmente obtida pela termoterapia do que pela quimioterapia”

d) uso de veículos não aquosos. O emprego de veículos não aquosos como o monoetilenoglicol e o propilenoglicol, como veículo do fungicida, melhoram a cobertura da semente pela calda fungicida e conseqüentemente tornam o controle mais eficiente (Tabela 9) .

Houve um aumento da eficiência do controle pelo uso do veículo (MEG ou PPG) não aquoso e do aumento do seu volume de 0,5 para 2,0 L/100 kg. Demonstra-se que a água não é um bom veículo por ser prontamente absorvida pelas sementes e que há a necessidade de aumento do volume da calda para obtenção da erradicação. Pode-se também, observar a potência dos fungicidas testados. Quanto mais valores de 100% de controle (erradicação) mais eficiente é a substância química (Tabela 9).

e) máquinas para o tratamento de sementes. São equipamentos que dosam o produto, distribuem sobre as sementes e promove sua homogeneização na superfície. As dificuldades de erradicação estão relacionadas com: (a) a incidência do fungo alvo na semente; (b) com a potência do fungicida; (c) com sua dose; (d) com o tipo de veículo de cobertura; e (e) com o volume da calda de modo a cobrir completamente a superfície da semente. Este último atributo pode ser melhorado com a disponibilidade de equipamentos que cubram completamente a superfície das sementes com o fungicida formulado.

Talvez, o equipamento do futuro seja aquele que proceda a imersão da semente na calda fungicida à quente e realize imediatamente sua secagem.

4 Considerações finais

A fitopatologia precisa reconhecer a importância do inóculo associado às sementes e sua relação com a continuidade do ciclo vital dos fitopatógenos.

Como a transmissão é suficientemente eficiente para garantir a introdução dos fitopatógenos nas áreas de cultivo, a eficiência do controle deve ser de 100%. Talvez, a tolerância de controle menor do que a erradicação leva a descrença do tratamento de sementes e a crença de que a presença de doenças em todos os locais de cultivo de plantas anuais que se propagam por sementes o inóculo deve-se ao transporte dos propágulos pelo vento.

A maior dificuldade na busca da erradicação é a cobertura das sementes. Esse desafio pode ser vencido principalmente pela imersão da semente na suspensão aquosa do fungicida. Logicamente que grandes quantidades de semente não podem ser tratadas e não é isso que se preconiza. O caminho a ser seguido, é num programa contínuo de limpeza, se faça a erradicação via imersão, ou com novos equipamentos. Veículos não aquosos como o PPG são promissores com volumes de calda superior a 2,0 L/100 kg sementes.

Talvez os princípios aqui apresentados para cereais de inverno possam ser aplicados a outros patossistemas.

5 Referências bibliográficas

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Revista Plantio Direto, edição 110, março/abril de 2009.