Soja


Autores:
Publicado em: 01/02/2009

Soja: A importância do ciclo, da juvenilidade e do hábito de crescimento no manejo da cultura

Héctor Baigorri1 & Dirceu Gassen21Diretor Técnico de Planeta Soja - E-mail: hectorbaigorri@arnet.com.ar 2Gerente Técnico da Cooplantio - E-mail: dirceu@dirceugassen.com

Hector Baigorri em lavoura de soja na Argentina.

1. Introdução

Para definir de modo mais preciso a escolha e o manejo de cultivares (CV) de soja, se considera de fundamental importância contar com a caracterização mais completa possível (morfologia, agronomia, sanidade etc.) de todas as CV disponíveis no mercado de sementes.

Entre os aspectos que devem ser considerados nessa caracterização, destacam-se o tempo de duração do ciclo, a juvenilidade e o hábito de crescimento (HC). Essas características afetam o desenvolvimento e o crescimento das CV e isso, por sua vez, tem forte influência na definição do zoneamento por CV e nas estratégias de manejo (data de semeadura, espaçamento e densidade) mais adequadas para elevados rendimentos.

Nesse texto serão destacados a importância dessas características, especialmente, as CV novas, que serão lançadas no mercado, para agilizar a elaboração de recomendações de manejo mais precisas. Além disso, se propõe um sistema de identificação de CV, que contemplam esses fatores, para facilitar o conhecimento dos materiais com maior potencial em cada região, ambiente e solo.

2. Ciclo

Por causa da resposta da soja ao fotoperíodo, as mudanças de faixa de latitude modificam o tempo de duração do ciclo de cada CV. À medida que se aumenta a latitude (do norte para o sul) as CV aumentam o ciclo.

No Hemisfério Sul, cada CV tem uma faixa de latitude, na qual, de acordo com o ciclo, se considera, por exemplo, como de ciclo médio; ao norte dessa faixa se comporta como ciclo curto e ao sul como ciclo longo. Isso determina que para cada região, e de acordo com a latitude da mesma, existam CV adaptadas com uma amplitude (faixa) de longevidade, que funcionam como ciclo curto, médio ou longo.

Um erro na escolha do ciclo da CV resulta em perdas de rendimento, de nível variável, de acordo com as condições de clima e de solos do lugar. Ao semear CV de ciclo mais curto do que o recomendado, as mesmas reduzem o crescimento e o rendimento. As CV de ciclo mais longo do que o recomendado atrasam demais a fase reprodutiva e o enchimento de grãos, com isso reduzindo a possibilidade de expressão do potencial de produção, aumentando os custos de controle de doenças, pragas e plantas daninhas e aumentando os riscos de geadas que afetam o enchimento de grãos.

Deve se destacar que na mesma latitude, as diferenças de altitude acima do nível do mar (ASNM), modificam a fenologia da soja, por que muda o regime térmico. Com maior altitude a temperatura reduz e aumenta o tempo do ciclo da cultura. Com o aumento da altitude se pode semear CV do mesmo ciclo, mais ao norte do que a recomendado pela latitude normal. Grupos de maturação menores, nas regiões de maior altitude.

A mesma CV pode apresentar diferente comportamento em diferentes latitudes, de acordo com a longevidade do ciclo (curto, médio e longo) em que estiver incluída.

Independente da latitude e em função da longevidade do ciclo, as CV apresentam os seguintes requerimento e características (Baigorri y Croatto, 2000).

2.1. Cultivares de ciclo curto

2.1.1. Requerimentos

- Maior população de plantas.- Melhor distribuição espacial da população de plantas.- Exige solos férteis com menores limitações físico-químicas.- Maior atenção com o controle de pragas e plantas daninhas.

2.1.2. Características

- Menor acamamento.- Maior rendimento em condições de alta fertilidade e disponibilidade hídrica.- Maior possibilidade de escape de alguns problemas sanitários (exemplo: ferrugem da soja).- Menor qualidade de semente devido à maior temperatura ambiente durante a maturação.- Desocupam antes a lavoura.

2.2. Cultivares de ciclo médio

Em relação às CV de ciclo curto apresentam os seguintes requerimentos e características.

2.2.1. Requerimentos

- Menor população de plantas.- Solo menos férteis ou com limitações físico-químicas, para reduzir seu crescimento.

2.2.2. Características

- Maior plasticidade (amplitude) na data de semeadura, com mesmo hábito de crescimento.- Maior estabilidade de rendimento, por atrasar o enchimento de grãos até o período com menor probabilidade de ocorrência de estresse hídrico.- Maior tolerância a erros no controle de pragas e plantas daninhas.- Maior tendência ao acamamento, especialmente em safras com boa disponibilidade hídrica, nas semeaduras no mês de novembro.- Maior pré-disposição para a ocorrência e severidade de doenças, como as de fim de ciclo.- Melhor qualidade de sementes.

2.3. Cultivares de ciclo longo

Em relação às CV de ciclo curto e médio, apresentam os seguintes requerimentos e características.

2.3.1. Requerimentos

- Menor população de plantas (ciclo longo e maior crescimento vegetativo).- Solos mais fracos, com maiores limitações físico-químicos e regiões de estiagens.

2.3.2. Características

- Maior suscetibilidade ao acamamento. São as CV que mais manifestam essas características em safras com boa disponibilidade de água, especialmente, em semeaduras de novembro e início de dezembro.- Maior tolerância a erros no controle de pragas e plantas daninhas.- Melhor comportamento em solos com limitações físicas e/ou químicas.- Maior competição com plantas daninhas, pelo maior crescimento.- Melhor comportamento diante de deficiências no manejo do cultivo.

Ao iniciar a produção extensiva de soja nos Estados Unidos, os pesquisadores agruparam as CV de acordo com o tempo do ciclo e denominaram de grupos de maturação (GM). Inicialmente foram definidos oito grupos de maturação (GM I a GM VIII) e com a incorporação de genótipos de ciclo mais curto, no banco de germoplasma, se criou o GM 0, depois o GM 00 e finalmente o GM 000. Da mesma forma foram incorporadas CV de ciclo mais longo e se criaram os GM IX e finalmente o GM X. Atualmente estão definidos 13 GM, as CV de ciclo com menor período são do GM 000 e as de maior longevidade do GM X.

3. Juvenilidade

Nas regiões situadas em latitudes baixas (entre os trópicos e o equador), as CV de soja de todos os GM, inclusive os de ciclo maior (GM X), são induzidas fotoperiodicamente, florescendo com pouca altura, especialmente, as CV com hábito de crescimento determinado.

Felizmente se dispõe de uma característica genética denominada de juvenilidade, que atrasa o início da floração, permitindo aumentar a altura ou o crescimento da CV.

A juvenilidade, além de possibilitar crescimento vegetativo adequado em zonas tropicais, permite que essas CV tenham a característica de maior plasticidade, ampliando o tempo de época de semeadura e aumentando o espectro de latitude com boa adaptação. No Hemisfério Sul, as CV com juvenilidade podem ser semeadas mais ao norte e em época de semeadura mais cedo, do que as CV da mesma longevidade de ciclo e HC, que não possuem essa característica.

A juvenilidade é controlada por um, dois ou mais genes recessivos, além do resto do genoma de cada genótipo (Ferraz de Toledo y col., 1994). Usando o conhecimento disponível, os melhoristas podem selecionar a demora no início da floração e o tempo de ciclo que quiserem incorporar nas suas CV. Numa latitude de 23º, os genes da juvenilidade presentes na CV Ocepar 8 tiveram o início da floração e a maturação retardados em 10 dias. Os genes presentes nas CV Ocepar 9, em 25 dias e na CV Paranagoiana em 35 dias (Bonato, 1989).

4. Hábito de crescimento

A CV de soja são agrupadas em três hábitos de crescimento (HC): determinado, semideterminado e indeterminado. Quando comparamos cultivares com o mesmo ciclo, porém com HC diferente, as com HC indeterminado serão mais altas do que as semideterminadas e essas, mais altas do que as determinadas (Figura 1).

Figura 1. Hábitos de crescimento: determinado - D (esquerda), semideterminado – SD (centro) e indeterminado – I (direita).

O HC das cultivares é da maior importância para as datas de semeaduras anteriores a novembro, denominadas do cedo ou de primavera. Isso por que essas épocas de semeadura aumentam (magnificam) as diferenças em altura das cultivares com os três HC, quando se comparam CV do mesmo ciclo. Essas diferenças são maiores, quanto mais cedo por semeado e mais curto for o GM das CV.

O melhoramento genético, em geral, tem selecionado HC indeterminado nos GM IV e mais curtos e nos GM V e maiores, o HC determinado.

A seleção de HC indeterminado nas cultivares de GM 000 a GM IV se deve à semeadura em latitudes maiores, onde há curto período de verão e maior risco de geada no fim do ciclo, obrigando reduzir o ciclo. O HC indeterminado permite manter a duração das etapas reprodutivas, ao adiantar o início das mesmas, com importante sobreposição nas etapas vegetativas (florescendo e crescendo), contribuindo com o aumento no crescimento em altura. Algumas CV com HC indeterminado podem produzir mais 6 a 8 nós com folhas, depois do florescimento.

As CV com HC determinado dos GM 000 a GM IV apresentam crescimento em altura insuficiente, em regiões de clima normal e seco. Elas somente são recomendadas para ambientes e solos de alta qualidade, pela menor tendência de acamamento.

Por outro lado, as CV dos GM V ao GM IX dispõem de períodos de crescimento maiores, nas latitudes nas quais estão adaptadas. Como conseqüência, estas CV iniciam a floração com o crescimento adiantado em altura. Se o crescimento do caule principal continuasse depois da floração, aumentaria o risco de acamamento.

Nos últimos anos o melhoramento genético mudou essa tendência de HC determinado, nos GM IV ao GM VII.

Nos Estados Unidos se obtiveram CV com HC determinado e semi-determinado nos GM IV, para ambientes de alta produtividade.

Na Argentina, CV com HC semi-determinado e indeterminado nos GM V ao GM VII (com redução no acamamento) adaptadas para ambientes de menor produtividade ou para semeaduras muito cedo. Atualmente o GM V é o que dispõem de maior quantidade de cultivares com HC indeterminado.

5. Caracterização das cultivares de soja por comprimento de ciclo no Brasil

No Brasil, tradicionalmente, não se caracterizaram as CV em grupos de maturação por três causas principais.

- A maioria das áreas de produção se localizam em regiões de clima tropical (condições de dias curtos).- A maioria das cultivares de GM maiores (GM VII a GM X) e sem genes de juvenilidade, se encontram adaptadas nessas regiões e, em geral, apresentam crescimento reduzido.- Os genes que controlam a floração sob condições de dias curtos são diferentes dos que atuam sob condições de dias longos. Em conseqüência a fenologia de uma cultivar sob condições de dias longos tem pouco valor preditivo para as condições de dias curtos (Ferraz de Toledo y col., 1994).

Por esses motivos, em geral, as CV de soja brasileiras são agrupadas pela longevidade do ciclo em: superprecoces, precoces, médias, tardias e supertardias. Esse tipo de descrição está limitada à uma faixa de latitude e altitude e, em conseqüência, obriga a avaliar as novas CV em todas as regiões de produção e em diferentes altitudes, durante vários anos, para obter conhecimento adequado e que possibilite uma recomendação precisa, especialmente, quando não se conhece se a cultivar conta com genes de juvenilidade e de que tipo.

Atualmente o GM está sendo incorporado ao nome das CV (é o caso da Monsanto, Nidera, Pioneer e outras), para facilitar o conhecimento das regiões de recomendação. Além disso, se está elaborando uma proposta de faixas de latitude de adaptação das CV de acordo com o GM (Figura 2) (Paschal et al, 2000 y Alliprandini L.F., 2008). Deve-se destacar que o registro do GM das CV, não está discriminada a presença de genes de juvenilidade.

Figura 2. Faixas de latitude para diferentes GM de soja no Brasil.

6. Proposta de identificação de cultivares de soja por longevidade de ciclo, juvenilidade e hábito de crescimento

Na Argentina, que tem a maior parte da área de soja em região de clima temperado (dias longos), sempre utilizou a característica de longevidade do ciclo da CV com o GM, na maioria dos casos, incorporado ao nome da CV.

Além disso, com a crescente liberação de CV com HC indeterminado, algumas empresas de melhoramento também incorporaram essa característica ao nome da cultivar. Por exemplo: DM5.1i. Onde:

DM: nome da empresa.

5: grupo de maturação (GM V).

1: decimal de fenologia (esses números de 0 a 9; 5.0 seria uma CV dentro do GM V de ciclo mais curto 5.9 mais longo).

i: indica que a CV é de HC indeterminado.

Para a característica de juvenilidade, as CV poderiam ser caracterizados em 4 categorias:

S: sem genes de juvenilidade.B: com genes de juvenilidade de baixa expressão.M: com genes de juvenilidade de média expressão.A: com genes de juvenilidade de alta expressão.

As CV poderiam ser caracterizadas pelo HC em 3 categorias:

D: HC determinado.SD: HC semidetermiando.I: HC indeterminado.

A proposta é anexar no nome de identificação da CV a longevidade do ciclo, a juvenilidade e o HC.

Tomando o exemplo anterior, seria o seguinte:

DM8.5md

Onde:

(8) seria o GM (5) o decimal de fenologia (cultivar de GM VIII médio)(m) com período juvenil de expressão média(d) que tem HC determinado.

7. Conclusões

A longevidade do ciclo, a juvenilidade e o HC exercem forte modificação no desenvolvimento e crescimento das CV de soja. Por esse motivo, contar com a adequada descrição dessas características é uma valiosa ajuda na escolha e no manejo de CV de soja.

A incorporação desses atributos tão importantes, no nome da CV, facilita ainda mais a tomada dessas decisões estratégicas de manejo para aumentar a expressão do potencial de rendimento.

8. Bibliografia

Baigorri H.E.J. y Croatto D., 2000. Manejo del cultivo de la Soja en Argentina INTA Centro Regional Córdoba - EEA Marcos Juárez. Setiembre de 2000Bonato E.R., 1989. Herança do tempo para o florescimento e para a maturidade en variantes naturais de soja (Glycine max (L.) Merrill). Piracicaba, SP, Brasil, Escola Sup. De Agric. ”Luiz de Queiroz”. (Tese de doutorado).Ferraz de Toledo y col., 1994. Genetics and breeding in EMBRAPA-CNPSo, ed. ”Tropical soybean: improvement and production”. p.19-36. FAO.Paschal et al, 2000. Em: ”Cultivares de soja 2007/8. Regiões Norte e Nordeste”. Documento 284. EMBRAPA Soja. Londrina, PR. 2007.

Revista Plantio Direto, edição 109, janeiro/fevereiro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.