Pragas: o monitoramento como base para menor impacto de inseticidas
Daniel IgarzábalIng. Agr., Diretor do Laboratorio de Pesquisa, Desenvolvimento e Experimentação Regional em Proteção de Cultivos, Córdoba, Argentina. E-mail: danieligarzabal@arnet.com.ar
Ainda que de difícil execução prática, o MIP (Manejo Integrado de Pragas) aparece como a melhor estratégia para compatibilizar ambiente e produção. A utilidade dos inseticidas é para proteger as plantas os danos que muitos insetos produzem aos cultivos.
Mas também é verdadeiro que o uso pouco criterioso, desmedido em alguns casos, e os baixos preços de inseticidas, fazem destes produtos uma arma de duplo fio. Entre estas duas correntes opostas, o manejo criterioso de pragas versus produtivismo, há questões intermédias que podem aproximar as partes: produzir com o menor impacto possível sobre o ambiente. Fazer tratamentos específicos, quando sejam necessários. Mas este conceito é qualitativo. O que significa necessário? Em princípio contrapõe-se ao critério de ”preventivo”.
Já é um avanço quantitativo importante. Muitas aplicações poderiam ser poupadas se não se tivesse a cultura de mesclar cada aplicação de herbicida ou fungicida, com ”cheirinho” de inseticida para o ”controle da dúvida”, independente da população ou da presença de pragas na lavoura.
O uso preventivo e desnecessário de inseticidas resulta no aumento de custos. Dinheiro que ”paga” um momento de ”tranqüilidade” ainda que não tenha inseto praga.
Esse dinheiro poderia ser utilizado, por exemplo, usando inseticidas de menor impacto no sistema (ainda que fossem mais caros). Dinheiro que bem poderia pagar um sistema de vigilância e monitoramento de cultivos para aproximar quantitativamente o conceito de ”quando seja necessário”. Os tratamentos preventivos funcionam bem quando não há insetos que ameaçam prejudicar o cultivo.
Os termos monitoramento e amostragem são tomados às vezes como a mesma coisa. Na realidade a amostragem é parte do monitoramento. Fazer monitoramento de pragas é ”seguir a evolução”, isto é, não se trata de tomar uma amostra isolada no tempo, senão uma seqüência espacial e temporal de amostras que indicam progresso ou recessão das populações de insetos.
O objetivo do monitoramento é poder comparar antes e depois. Se for necessário fazer uma aplicação de inseticidas sobre uma determinada população de lagartas e ao monitorar saber quantos insetos tinha antes do tratamento. Ao contar os insetos em dias posteriores, se poderá dizer qual foi a efetividade de controle.
Esse é um critério quantitativo de avaliação. Muito diferente de dizer que o controle ”foi bom” ou ”mais ou menos” ou ”não foi bom”. Se o índice de controle efetivo foi de 75 % da população, esse dado é obtido a partir do monitoramento temporal das pragas na lavoura.
O monitoramento de pragas é uma seqüência sistemática de tomada de amostras, que se estende no tempo para poder reunir acontecimentos, como aumentos e baixas de população, aumento no índice de desfolhamento, abundância de predadores ou parasitóides, influências climáticas sobre a fauna da lavoura etc.
Também, para que se possam monitorar populações relativas de insetos, para prognosticar sua ocorrência posterior nas lavouras. É o caso de monitoramento de mariposas (lepidópteros noturnos) que anunciam maior ou menor potencial de infestar lavouras nos dias posteriores.
Tendo uma rede de armadilhas luminosas (Figura 1) em diferentes regiões, será possível determinar os movimentos populacionais. Quando numa região ocorre uma situação de aumento de uma população, pode ocorrer o mesmo numa região próxima em torno de 15 dias depois. Essa disseminação é de no mínimo 80 km ao redor do foco, se a região é homogênea.
Figura 1. Armadilha luminosa para monitorar populações de mariposas que realizam postura e dão origem a lagartas.
Na Figura 2, encontram-se dados da evolução da população relativa de adultos de Rachiplusia nu (lagarta falsa-medideira ou plúsia) coletadas em armadilhas luminosas, anunciando para a zona de San Vicente (Santa Fé, Argentina), uma forte invasão desta espécie nas lavouras de soja. Nas semanas seguintes isto ocorreu, efetivamente, sobre cultivos de girassol e soja.
Figura 2. Monitoramento de adultos (mariposas) da lagarta-falsa-medideira (Rachiplusia nu) e ocorrência de lagartas em lavouras. San Vicente, Santa Fé, Argentina, 2009.
Para o monitoramento efetivo de pragas, a campo, é necessário contar com pessoal capacitado para a execução do trabalho. A pessoa que faz a amostragem e o monitoramente de pragas deve, primeiramente, monitorar o ambiente associado. Estado fenológico do cultivo, condições sanitárias gerais, umidade do solo, vegetação acompanhante (plantas daninhas), índice de área foliar (IAF) estimado e qualquer outro dado que possa colaborar para a tomada de decisões, para então definir ou não a necessidade de tratamentos químicos.
Atualmente, enquanto se tenta e se usa grande variedade de planilhas para monitoramento, o monitorador bem treinado tem sua planilha mental na cabeça. Sabe o que é importante observar e como avaliar as diferentes situações. Ou seja, ele anota o que é importante e necessário, registrando num livreto de campo.
As planilhas pré-elaboradas têm dificuldades para aplicação prática e manejo no campo. O tamanho grande das planilhas, em geral, exige aparatos para evitar perdas de folhas e o próprio manuseio se torna difícil, pelas situações de vento normal no campo. Muitas vezes uma folha inteira serve apenas para pôr uma cruz onde diz: Não há insetos prejudiciais e esse é todo o conteúdo da planilha. Um livreto, ou pequeno caderno de anotações de campo é mais útil e prático. Logo, o monitorador deverá fazer seu relatório sobre cada situação e com base nas anotações do livreto. Uma das coisas mais importantes do monitoramento é o registro dos dados. É a única maneira de comparar com avaliações anteriores e posteriores, ou ocorrências de fenômenos relacionados com as populações de insetos.
A formação profissional do monitorador é a base do sucesso de um sistema de monitoramento. A percepção da cada pessoa é diferente por muitas causas que o influenciam, como suas experiências, seus conhecimentos e seus desconhecimentos ou incertezas.
Para entender as diferentes percepções, foi organizada uma reunião com vários produtores de soja, onde foram convidados assessores técnicos agrônomos e monitoradores profissionais, para uma avaliação de índice de desfolhamento.
O número de lagartas por metro de fileira de soja no estádio R1, espaçada de 52 cm entre linhas, era em média de 8 a 9. Formaram-se três grupos e os resultados de suas observações encontram-se na Tabela 1.
Tabela 1. Estimativa de índice de desfolhamento em soja avaliado por três grupos de técnicos e de agricultores, comparado com a desfolha real.
A desfolha real (tomada por monitoradores profissionais) foi corroborada pelo método de copiar folhas, cortar as partes comidas ou desfolhadas e depois calcular por peso, em balança de precisão.
Os resultados mostram quase 100 % de diferença entre o real e avaliação do produtor (Tabela 1), por sua natural tendência a observar mais o dano que a parte sadia da planta. Os assistentes técnicos avaliaram quase 50% acima do real por causa do medo de errar. O mais importante é o impacto sobre o ambiente e a produção, da decisão que cada grupo tomou depois de ter obter os dados (Tabela 2).
Tabela 2. Decisão de controle de lagartas em soja com base em estimativa de desfolhamento por agricultores e técnicos, comparado com a desfolha real.
A decisão real do monitorador profissional treinado, era de NÃO tratamento. Quase todos os produtores (94%) decidiram pelo controle químico imediato. Os assistentes técnicos não especializados em amostragem, recomendaram o controle em 45 % dos casos.
Isto não quer dizer que um técnico geral ou um produtor não possa monitorar. Significa que ele deve receber formação específica em amostragem e monitoramento para poder tomar boas decisões com resultados econômicos e com menor impacto sobre o ambiente.
Quando se monitora pontualmente um campo há várias questões que devem ser consideradas. A primeira pergunta é: quantos pontos de amostragem devem ser tomados? E não há uma resposta numérica. A resposta é ”as que a situação determine”. Muitas vezes poucas amostras servem para tomar uma decisão. Por exemplo: tomar cinco amostras num campo de 80 hectares, em pontos distantes, como na Figura 3, usando pano de batida vertical, contando o número de lagartas e determinando o índice de desfolhamento em soja.
Figura 3. Pontos de amostragem em lavoura de soja, numa distribuição homogênea de lagartas em soja.
Nesse caso (Tabela 3), com pequeno número de amostras, não há dúvidas que a determinação é rápida e não é necessário continuar a amostragem.
Tabela 3. Resultado de população de lagartas e índice de desfolhamento em soja numa área de 80 hectares, em 5 pontos de amostragem
Quando as amostras são heterogêneas, ou há muitas que dão valores nulos (zero), é necessário tomar maior quantidade de dados para estar convencido da distribuição e da quantidade de insetos na lavoura.
Há uma tendência generalizada de trabalhar com médias ou tecnicamente, a MÉDIA estatística. No entanto, esse valor pode ser enganoso, ou não dizer toda a verdade sobre uma determinada praga.
Numa lavoura a amostragem de solo para determinar se é necessário aplicar inseticida na semente de milho, para proteger contra o coró-da-pastagem (Diloboderus abderus) (Figura 4) a média foi de 2 larvas por metro quadrado (Tabela 4). Esse é um resultado que não reflete a realidade da lavoura onde foi feita a amostragem. Nesse caso, faz falta outro parâmetro estatístico simples para entender a distribuição, é o MODO ou a MODA. Trata-se do valor da amostra que mais se repete, neste caso: o zero. Se a moda é zero e a média é 2, quer dizer claramente que a população está em manchas, ou agrupada, na lavoura.
Figura 4. Larvas de coró-da-pastagem, Diloboderus abderus.
Tabela 4. Número de larvas de coró-da-pastagem (Diloboderus abderus) por metro quadrado, em 10 amostras
Esses dois exemplos servem, claramente, para dizer que não há um número pré-determinado de amostras a tomar em monitoramento de pragas. A quantidade de amostras é a que convence o monitorador que a população e a distribuição de insetos avaliados é o que mais se aproxima da realidade.
Critério igual poderia ser tomado para determinar qual é o melhor percurso para tomar amostras. A população presente e a distribuição da praga também determinam o percurso da amostragem. Mas aqui há um ponto extremamente importante a considerar. A lavoura, por diferentes motivos, nunca é homogênea. Lugares com plantas daninhas mais abundantes ou de uma determinada espécie, que hospeda um inseto, que depois pode passar à planta cultivada, manchas de fertilidade onde a fauna pode ser diferente, relevos altos e baixos etc. Todos podem determinar ambientes diferentes para a vida dos insetos e sua distribuição vai ser também diferenciada.
Em lavouras de 100 a até 1000 hectares, uma unidade de amostragem não deveria ser maior do que 100 hectares. Uma lavoura de 120 hectares são, na realidade, duas lavouras de 60 hectares. Considera-se que possa ser atravessado por um veículo em forma diagonal. Sempre passando pelo mesmo rastro e no mesmo sentido, não há influência sobre o rendimento de soja. Além da diagonal interna a cada borda pode ter diferentes características como um bosque, uma pastagem, outro cultivo de soja ou de milho. Isto pode determinar diferentes infestações iniciais por sector e em cada borda.
Os elementos com os quais se efetuam a não são absolutamente confiáveis, e o monitorador deve conhecer estes erros para corrigi-los. Um dos elementos mais usados para o monitoramento de percevejos é o pano de batida vertical (Figuras 5 e 6). Este pano foi criado por pesquisadores de INTA Oliveros em Santa Fé, Argentina.
Tabela 5. Coleta de percevejos da soja, em 3 horários e com dois estudantes de pós-graduação em entomologia
Figura 6. Amostragem e monitoramento com pano de batida.
Os níveis de dano econômico (três palavras que dariam para escrever um artigo mais extenso que este) para percevejos, na Argentina, foram determinados para soja em R3-4, com 52 cm de espaçamento entre fileiras em: 1 percevejo Piezodorus guildinii (Figura 7) a cada 2 metros de fileira, no pano de batida. Estes dados científicos são muito bons, mas é necessário saber como usar.
Figura 7. Percevejos Piezodorurs guildinii e Nezara viridula em soja.
Uma experiência com estudantes de pós-graduação da Universidade Católica de Córdoba, Argentina, serve para explicar isto. Escolheram-se dois estudantes e explicando o método de batida. Foi solicitado tomar várias amostras em diferentes horários no mesmo lugar para ambos. Os resultados das coletas de percevejos por metro de fileira de soja, com o pano de batida vertical, encontram-se na Tabela 5.
Tabela 5. Coleta de percevejos da soja, em 3 horários e com dois estudantes de pós-graduação em entomologia
O mesmo lugar, o mesmo elemento de amostragem, duas espécies de percevejos, três horários diferentes, dois monitoradores: 10 resultados diferentes! Em quem devemos acreditar e em que hora é a correta para a tomada de amostras? Os níveis de danos podem estar muito bem pesquisados, mas se os dados de amostragem na lavoura não são ajustados, de pouco servem.
Ainda que não possam manejar, muitas vezes os horários de coleta influem sobre a estimativa da população feita com a amostragem. Nas horas de maior calor (Tabela 5), os percevejos movem-se para as partes baixas das plantas e muitos não caem no pano de batida.
Deve caminhar na lavoura e observar visualmente a presença de percevejos e de ninfas agrupadas. Após bater as plantas no pano, deve também examinar a presença de percevejos no solo, sob a palha e na base das plantas. Em definitivo, o monitorador não deve ficar só com o dado do pano de batida. O monitorador deve ter a capacidade de perceber os ambientes onde os insetos estão ou ”pensar como percevejo”.Muita coisa mais poderia se escrever sobre monitoramento de pragas. Nada foi dito sobre monitoramento de inimigos naturais, que controlam as pragas, sobre a forma de redigir relatórios, sobre como tomar as decisões com base nos dados de monitoramento. Em fim, outros aspectos do sistema de produção de cada lavoura devem ser considerados, mas o objetivo deste artigo era, somente, levantar um panorama singelo e sintético de algumas questões para desenvolver a melhor forma de fazer agricultura. Uma parte das boas práticas é atuar com base num diagnóstico. O monitoramento de pragas é a estratégia de diagnóstico até hoje mais usada e com muito bons resultados quando feita por pessoa qualificada.
A qualificação e a capacidade de percepção do amostrador e monitorador de pragas é a chave para o MIP, garantia de controle eficiente e a certeza de retorno econômico. Esse monitorador necessita estar ligado numa rede de especialistas que lhe informarão das mudanças e novidades que aparecem continuamente na dinâmica populacional de pragas.
Revista Plantio Direto, edição 109, janeiro/fevereiro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.