Consórcio de milho safrinha com brachiária em lavouras de agricultores
Gessi Ceccon1, Aline de Oliveira Matoso2,Fernanda Ferreira Pedroso3 e Priscila Gonzales Figueiredo31Embrapa Agropecuária Oeste, BR 163, km 253, Caixa Postal 661 - 79.804-970, Dourados, MS gessi@cpao.embrapa.br2,3 Acadêmicas de Agronomia da UFGD, Dourados, MS. Bolsista CNPq/PIBIC(2)
Crescimento do milho safrinha e da Brachiaria ruziziensis. Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados, MS, 2008.
1. Introdução
A ausência de palha na superfície do solo resulta em menores teores de matéria orgânica no solo e aumenta sua densidade, promovendo efeitos negativos no desenvolvimento radicular e na produtividade de culturas. Uma alternativa para aumentar a disponibilidade de palha é a rotação com pastagem em sistemas de integração lavoura-pecuária. Nesse sistema, apenas parte da forragem é consumida pelos animais, com excedente para a cobertura do solo e de raízes.
Estes resíduos permitem recuperar os teores de matéria orgânica do solo, próximos ao original (SALTON, 2005). Além da matéria orgânica, os resíduos vegetais são indispensáveis para aumentar o tamanho e a estabilidade dos agregados, favorecendo o controle da erosão (SALTON, 2005). Outro aspecto importante dos resíduos da forrageira é o controle de plantas daninhas. Cobucci et al. (1999) observaram considerável redução de Euphorbia heterophylla, Amaranthus hybridus e Digitaria horizontalis em área de feijão cultivado em sucessão ao consórcio de soja e braquiária.
O estabelecimento de pastagens em consórcio de culturas anuais é bastante divulgado para cultivo na safra verão, sem reduzir significativamente o rendimento de grãos de milho (KLUTHCOUSKI et al., 2000). Tsumanuma (2004) observou maiores valores de massa seca de B. ruziziensis no corte realizado durante a floração do milho, porém, no corte realizado na colheita do milho e 60 dias após, o autor verificou maiores rendimentos de Marandu e de B. decumbens. Ainda na safra verão, Borghi e Crusciol (2007) verificaram que a Brachiaria brizantha em consórcio com milho, semeada na linha e na entre linha, em espaçamento de 0,45 e 0,90 m, reduziu o rendimento de grãos, mas não interferiu na nutrição do milho, porém, a semeadura de uma linha intercalar, não afetou a produtividade do milho e permitiu a rápida formação da pastagem após a colheita da cultura.
O cultivo de forrageiras perenes em consórcio com culturas anuais na safrinha proporciona forragem de boa qualidade para o período, além de palha para o plantio direto. Neste sentido, Machado e Assis (2006) observaram que os capins Panicum maximum cv Mombaça, Brachiaria brizantha cv Xaraés e B. decumbens, podem ser mais produtivos que as espécies anuais, durante a safrinha.
O consórcio de espécies forrageiras com milho safrinha representa uma importante alternativa para manter o milho como cultura de rendimento econômico, sem apresentar reduções significativas no rendimento de grãos (CECCON, 2008), por aumentar o aporte de resíduos na superfície do solo e de nutrientes, além de proporcionar maior retorno econômico na sucessão soja-milho safrinha.
O consórcio de milho safrinha, em espaçamentos normais, com uma linha intercalar de B. ruziziensis tem sido adotado por agricultores interessados em produzir palha no sistema plantio direto, por ser de fácil implantação, com menor competição com o milho, onde basta utilizar o disco de semeadura de sorgo, para semeadura da braquiária na entrelinha que, por sua vez, permanece produzindo massa até a semeadura da soja subseqüente (CECCON, 2007).
O cultivo em consórcio tem maior potencialidade para retirar água do solo (MOREIRA et al., 2007), visto que são duas espécies no mesmo espaço. No entanto, são poucas as informações sobre o consumo de água e coeficientes dos cultivos (Kc) em consórcio. Em Planaltina, DF, Silva et al. (2007) verificaram que a demanda máxima de água do milho consorciado chegou a 8 mm dia1 e superou em 17 % a do milho solteiro (6,6 mm dia1), e o valor máximo do Kc do milho consorciado foi 2,3 e 29% maior que o do milho solteiro (1,63). Restrições maiores foram observadas por Sans et al. (2007), em Sete Lagoas, MG, com Kc de 1,40 para o milho solteiro e de 2,12 para o consórcio. No entanto, o consórcio apresentado neste trabalho preconiza a produção de palha, e a competição entre as espécies pode ser minimizada pelo ajuste das populações de milho safrinha (ROCHA et al., 2007) e de braquiária na entre linha (CECCON, 2008).
Nota: 1Comunicacão pessoal do Eng. Agr. Antonio Sacoman, da Cocamar (Maringá, PR), para o pesquisador Gessi Ceccon, da Embrapa Agropecuária Oeste, em 12.8.08.
A arquitetura do híbrido interfere no desempenho do consórcio, e mesmo existindo um grande número de variedades comerciais de milho (302 para a safra 2008/09), incluídos os híbridos geneticamente modificados (CRUZ; PEREIRA FILHO, 2008), estas podem ser classificadas em pequenos grupos, em função do ciclo, arquitetura de plantas, entre outras, de interesse para consórcio.
Em 2008, o consórcio de milho safrinha com uma linha intercalar de B. ruziziensis foi cultivado em dez mil hectares de lavouras no Paraná e aproximadamente quinze mil hectares em Mato Grosso do Sul. Assim, o objetivo deste trabalho é apresentar resultados do desempenho desse consórcio em lavouras comerciais em Mato Grosso do Sul e Paraná.2. Metodologia para avaliação do consórcio
2.1. Características das lavouras
As condições de precipitação e temperaturas registradas apresentaram-se dentro da normalidade do período de cultivo. Porém, houve restrição de chuva e ocorrência de baixas temperaturas durante o ciclo do milho safrinha (Fig. 1), com as menores temperaturas mínimas (2,7 e 2,4 ºC) registradas em 16 e 17/06/08, em Dourados, MS.
Figura 1. Chuvas e temperaturas mínimas médias decendiais, registradas em Dourados (MS*), Maringá e Cianorte (PR1), durante o cultivo de milho safrinha. Embrapa Agropecuária Oeste, 2008.
Entre os dias 23 e 30 de julho de 2008, foram amostradas 30 lavouras, em 24 propriedades, com quatorze híbridos de milho, entre os Municípios de Iporã e Maringá, no Paraná, até Rio Brilhante e Maracaju, em Mato Grosso do Sul (Tabela 1). Dessas 30 lavouras, dezesseis tinham milho safrinha com uma linha intercalar de B. ruziziensis em espaçamento de 0,70 a 0,90 m, uma lavoura de milho safrinha estava com B. ruziziensis distribuída à lanço, em espaçamento de 0,45 m e quatro lavouras de milho safrinha solteiro, que foram semeados na mesma data do milho consorciado (Tabela 2).2.2. Tratos culturais
Tabela 1. Referências geográficas extremas das lavouras avaliadas, com milho solteiro e sob consórcio com B. ruziziensis, em 2008.
Na adubação de semeadura, verificou-se um predomínio de fórmulas NPK concentradas (8-16-16, 6-18-18, 8-20-20 e 12-15-15), em doses de 200 a 250 kg ha-1. Em seis lavouras (5, 6, 7, 8, 10 e 17), de quatro propriedades, utilizou-se nitrogênio em cobertura. Em todas as lavouras utilizou-se inseticida para tratamento de sementes e em três (6, 11 e 14) utilizou-se fungicida foliar. Na maioria das lavouras (exceto 19, 25 e 26), foi utilizada atrazina em pós-emergência na dose de 2 l ha-1. Foi utilizado herbicida graminicida (nicosulfuron e/ou mesotrione) nas lavouras 5, 14, 15, 16 e 27, nas doses indicadas para o controle das plantas daninhas. 2.3. Avaliações nas lavouras
Em cada lavoura, foram coletadas três amostras representativas de milho safrinha e três de braquiária que foram processadas na Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS. As demais informações das lavouras foram obtidas junto aos agricultores ou com os técnicos da Cocamar Cooperativa Agroindustrial (Maringá, PR), que acompanharam o desenvolvimento do consórcio (Tabelas 2 e 3).
Tabela 2. Desempenho dos híbridos de milho solteiro e em consórcio com B. ruziziensis, em lavouras comerciais, nos Estados do Paraná e de Mato Grosso do Sul, em 2008.
Tabela 3. Desempenho de B. ruziziensis em consórcio com híbridos de milho safrinha, em lavouras comerciais, nos Estados do Paraná e de Mato Grosso do Sul, em 2008.
O milho foi avaliado mediante a anotação do número de plantas com espiga em uma linha de cinco metros, e colheita de cinco espigas ao acaso. As espigas foram trilhadas, sendo quantificadas a massa total de grãos (RGM), massa de grãos por espiga (MGE) e massa de mil grãos (MMG), a 13% de umidade.
A B. ruziziensis foi avaliada mediante o arranquio de uma linha de um metro, onde foram anotados a altura (APB) e o número de plantas (NPB), o número de colmos (NCB), o índice de colmos - número de colmos/número de plantas (ICB) e a massa seca de colmos e folhas (RMB), secos em estufa a 60ºC, durante 72 horas.
Os resultados foram submetidos à análise de variância e as médias agrupadas pelo teste de Skott-Knott, a 5 % de probabilidade. O rendimento de grãos de milho foi submetido análise de correlação com seus componentes de rendimento e de braquiária.
O rendimento de grãos de milho foi agrupado em três classes de rendimento: superior, intermediário e inferior.
3. Resultados e discussão
3.1. Desempenho do milho safrinha
Durante as avaliações, foram encontrados 15 híbridos, em regiões de baixa altitude (Tabela 1), semeados entre os dias 16 de fevereiro e 08 de março de 2008. Apesar do reduzido número se comparado aos 302 cultivares disponíveis no mercado (CRUZ; PEREIRA FILHO, 2008), estes híbridos abrangem representantes da maioria das classes e tipos.
Foram identificados: um híbrido duplo precoce (Balu 761), um híbrido duplo super precoce (DKB 615), três híbridos triplo super precoces (DKB 330, AG 9040 e AGN 3150), quatro híbridos triplos precoces (BRS 3003, DG 501, DKB 979 e Garra), quatro híbridos simples precoces (DOW 2B710, P 30K73, Penta e Premium Flex), um híbrido simples super precoces (AG 9010), um híbrido simples modificado (P 30K75), (Tabela 2).
Considerado um novo sistema de cultivo, o consórcio de milho safrinha com uma linha intercalar de B. ruziziensis apresentou potencial de rendimento médio de grãos de 4.912 kg ha-1 (Tabela 2), enquanto que a estimativa para o milho safrinha para 2008 é de 3.706 kg ha-1 no Brasil, 3.636 kg ha-1 no Paraná, e 3.400 kg ha-1 em Mato Grosso do Sul (LEVANTAMENTO..., 2008). Mesmo considerando que essa lavouras foram acompanhadas por profissionais especializados; os resultados presentes nesse trabalho conferem margem de segurança ao consórcio para ser utilizado em larga escala na sucessão soja e milho safrinha, como alternativa de iniciar a rotação de culturas, inclusive pelos benefícios deixados às culturas subseqüentes (CECCON, 2007).
Colheita do milho safrinha com Brachiaria ruziziensis em consórcio, São João do Iavaí, PR, 2008
Entre as lavouras avaliadas, o rendimento de grãos de milho safrinha apresentou correlação positiva com a massa de grãos por espiga (90%), com a massa de grãos (71%), com a sua população (28%) e com o índice de colmos de braquiária (3%). Esses componentes são determinados tanto nas fases iniciais de desenvolvimento, período em que a braquiária cresce distante de linha do milho, quanto semeada em linha intercalar, com milho, em espaçamento de 0,80 m a 0,90 m. Considerando a presença de braquiária, o rendimento de grãos de milho apresentou baixa correlação negativa com a população inicial (-17%) e número de colmos finais (-8%) de braquiária.
Isso indica que a população de braquiária apresentou baixa interferência sobre o desenvolvimento do milho, sem reduzir significativamente o rendimento de grãos, corroborando com Tsumanuma (2004), Borghi e Crusciol (2007) e Silva et al. (2007). A população de milho (ROCHA et al., 2007) e de braquiária podem ser ajustadas para maximizar o rendimento de grãos de milho e de massa de braquiária.
No entanto, na presença de ”plantas infestantes problema” (capim carrapicho - Cenchrus echinatus e o capim colchão - Digitaria spp.), com necessidade de aplicar herbicidas graminicidas (Lavouras 5, 14, 15, 16 e 27), que afetam o desenvolvimento de braquiária, é possível aumentar a população inicial de braquiária. Este procedimento tem o objetivo de controlar as plantas infestantes, manter o rendimento de grãos de milho e de massa de braquiária, principalmente após a colheita do milho, tendo em vista que a maior presença de luz proporciona maior crescimento da braquiária (ROCHA et al., 2007).
Crescimento da Brachiaria ruziziensis após colheita do milho safrinha para posterior dessecação e semeadura de soja.
Quanto aos tipos (graus de hibridação) e ciclo dos híbridos, foram encontrados sete híbridos no grupo de rendimento superior, com predomínio de híbridos simples super precoce, mas com a presença de dois híbridos triplos, um super precoce e um precoce. No grupo intermediário foram encontrados quatro híbridos precoces, sendo dois simples e dois triplos. No grupo inferior foram encontrados todos os tipos e ciclos de híbridos (Tabela 2). Esses resultados demonstram o predomínio de híbridos super precoces para obtenção de melhores resultados.
Quanto aos tipos de solo; vinte e duas lavouras apresentavam solos tipicamente argilosos e oito tipicamente arenosos. As lavouras de solos argilosos estavam mais freqüentes no grupo superior de rendimento de grãos.
No grupo de maior rendimento de grãos de milho verificou-se predomínio de híbridos que apresentaram maior população de plantas (47 a 54 mil plantas por hectare), massa de grãos e massa de grãos por espiga (Tabela 2). Estes valores forma similares aos encontrados por Rocha et al. (2007), com diferentes híbridos de milho safrinha.
3.2. Desempenho da Brachiaria ruziziensis
Quanto ao desempenho da B. ruziziensis, verificou-se rendimento médio de 1.611 kg ha-1 de massa seca, com população inicial de 27,2 plantas por metro e 62,7 colmos finais, com índice de 2,40 colmos por planta (Tabela 3).
Considerando que o milho é o fator principal desse consórcio, vale ressaltar que foram encontrados populações e rendimentos intermediários de massa seca de braquiária no grupo superior de rendimento de grãos. Destacando-se duas lavouras: 1) lavoura 17, avaliada em solo arenoso, e que apresentou rendimento de grãos de milho de 6.274 kg ha-1 e de massa de braquiária de 2.242 kg ha-1 no grupo superior; e 2) lavoura 30, em seu terceiro ano de consórcio, com rendimento de grãos de milho no grupo de maior rendimento, com 6.656 kg ha-1 e de massa de braquiária de 1.659 kg ha-1 (Tabela 3).
A altura média de plantas de braquiária foi de 1,03 m, com máximo de 1,26 m. Esses resultados estão de acordo com os valores encontrados por Rocha et al. (2007) e podem coincidir com a inserção de espigas do milho, que poderiam dificultar a colheita de grãos, porém, também por tratar-se de uma linha intercalar de braquiária, não foram verificadas dificuldades para a colheita mecanizada do milho safrinha.
Os maiores índices de colmos foram encontrados nas menores populações iniciais de braquiária, e indicam a possibilidade de ajustar a população de braquiária com a população de milho (ROCHA et al., 2007), tendo em vista a maior demanda de água pelo consórcio com maior população de braquiária (SILVA et al., 2007; SANS, et al., 2007).
Entre outras características, vale ressaltar que a braquiária continua produzindo massa após a colheita do milho (julho/agosto) e até a semeadura da soja (outubro), proporcionando quantidade suficiente de palha para cobertura do solo. Além disso, favorece maior ciclagem de nutrientes, melhor controle de plantas infestantes (COBUCCI et al., 1999) e melhores condições às culturas subseqüentes (CECCON, 2007).
4. Conclusões
O milho safrinha com uma linha intercalar de B. ruziziensis apresenta rendimentos de grãos semelhantes ao milho solteiro e superiores à estimativa de rendimento médio de milho solteiro regional.
Este consórcio, realizado de acordo com as indicações técnicas constitui-se de importante alternativa para explorar a sucessão soja e milho safrinha com palha em sistema plantio direto.
5. Agradecimentos
À Cocamar – Cooperativa Agroindustrial, pela iniciativa do consórcio em lavouras de agricultores e pelo apoio irrestrito na obtenção das informações.
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