O Brasil entre os principais produtores de grãos
Dirceu GassenGerente Técnico da Cooplantio Eladorado do Sul, RS - E-mail: dirceu@dirceugassen.com
Cultivo de colza na França
Introdução
A agricultura deixou de ser uma atividade protegida pelo Estado e se transformou em um negócio cada vez mais competitivo, controlado pelo mercado e por grandes corporações internacionais, mas regulamentada por legislações ambientais e sanitárias.
Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, com o relaxamento das tensões e ameaças de conflitos internacionais, desapareceu a necessidade de armazenar grandes quantidades de alimentos como estratégia competitiva e de sobrevivência.
As demandas ambientais evoluíram significativamente, sob legislações cada vez mais rigorosas. As polêmicas do aquecimento global, a necessidade de reduzir o dióxido de carbono da atmosfera, a escassez de petróleo, a crise da água a erosão de solos e outras ameaças sobre recursos naturais determinaram novo perfil para a agricultura.
Atualmente, em todas as reuniões e visitas técnicas se evidencia a necessidade de uso responsável de recursos naturais para produzir alimentos. A água, as árvores e a terra são, cada vez mais, consideradas bens da humanidade e tem, no agricultor, um gestor de uso e de manejo desses recursos naturais. O homem perdeu o direito de propriedade e domínio total sobre recursos naturais. As práticas de uso da terra, da água e das plantas estão sendo regulamentadas com legislações que determinam penas e restrições cada vez mais severas.
Nesse texto serão descritas algumas características da agricultura do Brasil, Argentina, Austrália, Estados Unidos, Comunidade Européia e países de Ex-União Soviética. As informações foram coletadas em visitas e intercâmbios técnicos relacionadas com plantio direto e com agricultura conservacionista.
Água
Entre as principais regiões produtoras de alimentos do mundo, o Brasil é o país da água. Tanto pelas chuvas como pela quantidade de rios e barragens.
No sul do Brasil, entre os paralelos 24 e 32 S, as chuvas são distribuídas durante os 12 meses do ano com médias de 1786 mm/ano (Figuras 1 e 2). Nos cerrados, com base em Brasília, a precipitação média anual é de 1553 mm/ano, com chuvas nos meses de verão, e seco no inverno (Figuras 1 e 2).
Figura 1. Chuvas médias anuais em diferentes regiões de produção de grãos do mundo.
Figura 2. Chuvas médias mensais em diferentes regiões de produção de grãos do mundo.
A quantidade de chuva, em geral, é medida em mm de lâmina de água na superfície. Na Espanha os agricultores e a imprensa usam a medida em litros/m2, ou seja, um mm equivale a um litro/m2. Isso facilita entender a dimensão real do volume de água da chuva. Com base nessa forma de mensurar, no Brasil chove entre 1600 e 1800 litros de água/m2/ano. Pode ser considerado um grande volume de água para diluir nitrogênio e outros sais solúveis no solo, e causar erosão. Nesse ambiente, a cobertura do solo, o manejo e a produção de matéria orgânica são muito importantes para a manter a fertilidade e as características físicas, químicas e biológicas favoráveis para as plantas. Por isso, a necessidade e o êxito do plantio direto com palha na superfície.
O sul do Brasil se diferencia pela distribuição de chuvas abundantes em todos os meses do ano e temperaturas favoráveis para o crescimento de plantas.
A Austrália é um país considerado seco, onde se produz grãos nos meses de inverno, especialmente o trigo, nas bordas sul, leste e oeste, com chuvas médias anuais de 350 mm/ano (Figuras 1 e 2).
Na Argentina as chuvas são muito importantes para armazenar água no solo. O plantio direto, pela eficiência no aproveitamento de água das chuvas, permitiu ampliar as áreas cultivadas com soja e outras culturas, onde no passado, com aração e gradagens, os solos eram considerados muito secos.
Na Europa, a água é um fator crítico, cada vez mais importante para o abastecimento de cidades. Na agricultura, com chuvas em torno de 600 mm/ano (Figuras 1 e 2), a água escassa deve ser manejada para maior armazenagem no solo e maior aproveitamento pelas plantas.
Nos países da ex-União Soviética, de forma geral chove em torno de 600 mm/ano. Nos meses de verão e de outono chove pouco inviabilizando investimentos e estabilidade na produção de soja, milho e culturas de verão.
No inverno as temperaturas são baixas, chegando a média de -17 graus em Barnaul, no oeste da Rússia. Em determinados anos, os rigores de clima dificultam até o desenvolvimento de trigo, cevada e colza, que são adaptadas para o frio.
A vantagem diferenciada dos Estados Unidos na produção de grãos está na qualidade de solos e na distribuição de chuvas nos meses de desenvolvimento das culturas de verão (Figura 2).
Com exceção do Brasil, as demais regiões de produção de grãos têm a água como grande preocupação e necessidade de manejo.
Temperaturas
As temperaturas médias mensais formam grupos distintos, como as dos cerrados tropicais do Brasil, constantes durante o ano todo (Figura 3), porém seco no inverno. As regiões de clima subtropical (Sul do Brasil, Argentina e Austrália) com temperaturas médias em torno de 10 oC, nos meses de inverno (Figura 3), com geadas freqüentes, e verão quente.
Figura 3. Chuvas médias mensais em diferentes regiões de produção de grãos do mundo.
O contraste maior está nas regiões localizadas no Hemisfério Norte e em latitudes maiores, com temperaturas médias mensais negativas, durante 3 a 5 meses por ano. O manejo das lavouras, as atividades dos agricultores e o comportamento geral das pessoas se diferenciam das regiões de clima tropical e subtropical.
Quando as temperaturas ultrapassam 10oC, para o início do crescimento das plantas, inicia a semeadura. Esse período é relativamente curto (2 a 3 semanas), pois o tempo para o crescimento até a maturação das culturas é limitado pelo início do inverno seguinte, em poucos meses.
Durante o período frio, sem atividades nas lavouras, os agricultores revisam e preparam cuidadosamente as máquinas e equipamentos, para conduzir as lavouras na próxima primavera.
O frio mantém o agricultor dentro de casa, lendo, planejando atividades e participando de eventos. Esse período é a estação das reuniões e eventos técnicos (winter conferences).
O gado é confinado, produzindo grandes quantidades de excrementos e custo elevado de produção. Essa vantagem comparativa das regiões de clima subtropical, com chuvas regulares, como as do Sul do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, onde o gado pode ser criado no campo, com menor custo e melhor qualidade de manejo.
Argentina
As freqüentes crises financeiras e instabilidades na economia da Argentina, determinaram a necessidade de parcerias eficientes na prestação de serviços e na gestão dos negócios da agricultura.
A Aapresid (Asociación Argentina de Productores de Siembra Directa) o CREA (Consorcios Regionales de Experimentación Agricola) e o INTA (Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria) formaram a base para mudanças de princípios e de estratégias de condução de agronegócios.
De acordo com Hector Baigori e Carlos Grosso (engenheiros-agrônomos de referências em manejo de soja e gestão de lavouras, na Argentina), em 2008, mais de 60 % das práticas de semeadura, de colheita e de pulverização na produção grãos foram terceirizadas. Em torno de 70% dos agricultores tem assistência técnica remunerada e independente de empresas fornecedoras de insumos.
A percepção da importância do ”conhecimento” na viabilidade de negócios resultou na crescente participação de engenheiros-agrônomos que passam de assistentes técnicos remunerados, ou com participação proporcional na renda, para gestores do seu próprio negócio. Estão arrendando terras, contratando serviços e assumindo como empresários da produção. São produtores de grande escala sem terra, sem máquinas, sem empregados e sem infra-estrutura de lavouras. Os técnicos difundem o conceito de que ”a rentabilidade é proporcional ao uso de conhecimento por hectare”. Administram a produção arrendando serviços e infra-estrutura.
Os solos, de forma geral, são férteis, com pouco uso de fertilizantes e a topografia é plana. Quase 80% da soja da Argentina é produzida num raio de 300 km do porto de Rosário, com diferença de altitude inferior a 100 m, facilitando o transporte.
A severidade e perdas causadas por patógenos, especialmente doenças em soja, são pequenas em relação às constatadas no Brasil. Assim, os custos de produção com o uso de fertilizantes, transporte e proteção de plantas são muito inferiores na Argentina, com diferenças que chegam a US$ 400,00/ha de soja, quando comparados com os dos Cerrados Brasileiros.
A pesquisa da Argentina foi concentrada em melhoramento genético e em práticas de manejo para produções elevadas. Diferente do Brasil, onde as grandes demandas são com a baixa fertilidade dos solos e a severidade de doenças e pragas.
Comunidade Européia
Os principais países do Velho Continente fazem parte da Comunidade Européia, com acentuadas diferenças culturais e regionais. Porém as políticas agrárias estão sob o comando único da PAC (Política Agrária Comum).
A Europa é uma situação única no mundo. Povos com história muito rica, domínios e invasões nórdicas, romanas, francesas, árabes e também protagonistas das maiores guerras mundiais, que ocorreram no século XX. Por isso, existe grande preocupação com a segurança alimentar, pois está na história e na mente das pessoas o horror da fome e o valor estratégico da disponibilidade de alimentos em períodos de crise. Proprietários de terras herdadas mantêm os patrimônios, como valor estratégico e cultural, muitas vezes, sem saber exatamente onde se localizam.
Consórcio de fava + ervilhaca + aveia para formação de palha na França
No centro da Europa, onde se produz a maior quantidade de grãos, o clima é temperado, com neve no inverno.
De forma geral os produtores de grãos cultivam áreas extensivas, mais de 200 ha. A maior parte é arrendada, com grande número de pequenas lavouras fragmentadas, formando ”colchas de retalhos”. Isso dificulta a execução de práticas de semeadura, controle, monitoramento e colheita.
É interessante destacar que a orientação para a adoção de novas tecnologias, a escolha de práticas culturais e o manejo do agroambiente não é definida por critérios de planejamento local ou por assistência técnica, mas sim, regulamentada por normas do PAC. O agricultor fica na expectativa das definições políticas que orientam benefícios financeiros para a estabilidade na renda.
Quando se comenta sobre a necessidade de regras que obrigam adotar práticas conservacionistas, como ocorre nos EUA, a opinião de líderes mais conscientes é a de que a agricultura européia está ”doente e surda”, necessitando de mudança de valores éticos.
O pesquisador Rolf Derpsch e o agricultor francês Algred Gassler.
O agricultor europeu tem paixão por tratores e por arar o solo, ou trabalhar a terra. Para adotar o plantio direto, reage dizendo que aí ele não teria mais trabalho na lavoura e sentiria ”vergonha” de se posicionar como desocupado.
O pesquisador Rolf Derpsch (trabalhou no Iapar, PR e no Paraguai, foi consultor da GTZ-Alemnaha e é importante referência mundial em plantio direto) considera que a agricultura da Europa é subdesenvolvido em tecnologia de plantio direto e em agricultura conservacionista.
Por outro lado a Comunidade Européia está se posicionando como referência de padrões de qualidade de alimentos, de boas práticas agrícolas e questões ambientais para o mundo todo.
Na Europa, de forma geral, a aração ainda é uma prática comum entre os agricultores.
Os custos elevados da mão-de-obra na agricultura, alternativas de ocupação com maior rentabilidade em atividades urbanas e a baixa estima da profissão de agricultor, levam à falta de interesse dos jovens em continuar na atividade.
Estudos na Europa, assim como nos Estados Unidos, na Austrália e nos países de maior importância econômica, a idade média do agricultor aumenta quase um ano, todo o ano. Isto é, a atividade está sendo executada por pessoas mais idosas e os jovens não fazem a sucessão.
Austrália
A Austrália é um país pouco menor do que o Brasil, de superfície plana, de clima seco e quente, com raros rios. A agricultura é praticada nas bordas oeste, sul e leste do País.
As preocupações dos agricultores estão sempre direcionadas para o manejo de água e a salinização da superfície do solo. Com as temperaturas elevadas, a evaporação é constante, concentrando sais na superfície do solo.
Uma característica da Austrália, máquinas de grande porte inviáveis para o plantio direto.
A aração e as gradagens, com solo desnudo, aumentam a temperatura da superfície e a evaporação, concentrando sais, gradativamente, na superfície do solo, até chegar ao nível de inviabilizar a agricultura. O foco de manejo está em fazer com que os sais sejam diluídos e infiltrados no perfil do solo, com a água das chuvas esparsas. Agricultores usavam escarificadores profundos com tratores de grande potência.
O plantio direto é adotado como forma de facilitar a infiltração de água e com eles os sais, através de canais das raízes e de restos culturais na superfície, mantendo a temperatura amena do solo e reduzindo a evaporação.
Azevém após a cultura do trigo em lavoura australiana
Os grupos que desenvolvem plantio direto na Austrália desenvolveram, de forma irônica, 10 razões para o agricultor não adotar o plantio direto (Quadro 1).
Quadro 1. Os motivos para o agricultor não adotar o plantio direto, segundo os defensores da técnica na Austrália.
Dez razões para o agricultor não adotar o plantio direto
1. Você comprou ações da fábrica dos maiores tratores do país.2. Os vizinhos podem receber seu melhor solo, pois você não precisa dele.3. Você lavra a terra e controla plantas daninhas há 40 anos, mas com certeza no próximo ano você terá domínio sobre elas.4. Trabalhando na lavoura você não tem tempo para seus filhos e não se preocupa com isso.5. Abrindo a boca em dias de vento, terra é uma boa fonte de proteína.6. Arados e grades ainda são suas referências de tecnologia.7. Você detesta minhocas.8. A importância da camada de solo fértil da superfície está sendo superestimada.9. Matéria orgânica é coisa para hippies.10. Cuidar da terra e gerar renda nunca foi sua preocupação.
Assim como na Argentina e em outros países com deficiência de chuvas, os agricultores australianos estão ampliando as áreas de cultivos com a adoção do plantio direto, pelos benefícios no manejo da água.
As pequenas cidades do interior da Austrália apresentam crescimento populacional negativo. O tamanho das propriedades rurais crescem, porém com a mesma rentabilidade. Os jovens, raramente, fazem a sucessão familiar nas lavouras, pela atração de alternativas mais rentáveis e de maior reconhecimento na sociedade urbana.
Ex-União Soviética
Os países da ex-União Soviética têm áreas extensivas de solos que impressionam pela fertilidade e pela topografia plana.
Os agricultores e a sociedade ainda sofrem, fortemente, os efeitos do regime comunista que perdurou por mais de cinco gerações. A pergunta mais freqüente dos agricultores é a de como administrar um negócio sendo proprietário da terra?
No início do regime comunista as terras de proprietários foram tomadas dos agricultores e organizadas em ”fazendas coletivas”, com direitos e obrigações iguais para todos. Os gestores eram escolhidos pelos membros componentes de cada fazenda.
Mais tarde, com a conseqüência de guerras e ineficiência na produção, foram criadas fazendas soviéticas, com a colonização de novas áreas e a gestão de membros do partido oficial do governo.
Segundo informações obtidas de agricultores, os caminhões para transporte de grãos e outros bens eram administrados pelo Partido Comunista. Isso permitia o controle total da produção nas fazendas e a distribuição de bens e alimentos. Também impedia a organização de grupos, pois, agricultores das fazendas coletivas e soviéticas, não recebiam documentos que permitissem viajar para cidades ou para outras regiões.
O governo central determinava a área, espécies, cultivares, fertilizantes, aquisição de máquinas, preços de produtos e a comercialização. Ainda hoje é possível ver grandes quantidades de máquinas e equipamentos nas fazendas, com pouco ou nenhum uso. O Governo determinava a renovação e aquisição periódica e compulsória, independente da demanda ou necessidade.
Hoje, o modelo sofre completa mudança com áreas extensivas e proprietários privados. Numa reunião, em 2004, sobre plantio direto, 600 agricultores de vários países da região, declararam cultivar 4 milhões de hectares. Esse novo perfil de agricultor, jovem e empresário terá grande influencia mundial na produção de culturas de inverno.
Os solos são férteis e a topografia é plana, porém as temperaturas médias de inverno são muito baixas, durante vários meses do ano (Figura 3), podendo até inviabilizar a cultura de trigo, cevada e colza, em alguns anos.
Os solos, a topografia e a extensão das áreas impressionam e podem ser consideradas melhores do que os da região de produção de soja e milho nos Estados Unidos. O fator limitante está na falta de chuvas nos meses de primavera e de verão
As variações de temperatura e de chuvas determinam grande efeito na produção de cereais de inverno e influenciam na oferta e demanda no mercado internacional.
Nos países da ex-União Soviética estão ocorrendo extraordinárias mudanças com o arrendamento ou a aquisição de direito de uso das áreas que eram de fazendas coletivas e fazendas soviéticas durante o regime comunista totalitário. Hoje é freqüente conhecer agricultores que cultivam mais de 100 mil hectares, com tratores e máquinas modernas importadas, em contraste com o modelo passado. Isso, ainda sem a propriedade legalizada das terras que pertenciam a fazendas coletivas ou fazendas soviéticas.
Na Rússia a topografia e extensão das áreas impressionam. Lavoura de trigo com quebra-ventos ao fundo.
Depois de 15 anos da perestróica, a propriedade da terra ainda está indefinida. A agricultura está sendo conduzida por empreendedores que apostam num futuro promissor. Algumas das fazendas coletivas foram abandonadas e nenhum dos antigos ocupantes se mantém nas áreas.
Além dos aspectos relacionados com o rigor do clima, ocorrem problemas com erosão eólica (vento), exigindo o plantio de árvores para quebra-vento. Grandes perdas de solos ocorreram nos primeiros anos de abertura de fazendas soviéticas, na década de 1950, onde havia florestas nativas.
A evolução recente na adoção de novas tecnologias e a gestão privada das terras resultarão no aumenta e na eficiência da produção de grãos de culturas de inverno.
Estados Unidos
É um País diferenciado pela quantidade e qualidade da tecnologia e disponibilidade de informação. Além de infra-estrutura invejável em transporte e armazenagem, e políticas definidas de suporte, seguro, comercialização e renda da propriedade rural.
É um ambiente onde as regras estão estabelecidas e existe previsibilidade nos negócios de produção de alimentos.
Os Estados Unidos produzem quase 50% do milho e 40% da soja do mundo. A viabilidade econômica está associada ao aumento na escala de produção. A unidade mínima para viabilizar a renda necessária na manutenção de uma família, com a produção de grãos e estimada em mais de 500 ha. Em geral, o agricultor é proprietário de 1/3 da área que cultiva e arrenda 2/3 de vizinhos ou investidores que compram terras.
Nos Estados Unidos a infra-estrutura de transporte e armazenagem são invejáveis e as políticas definidas para garantir renda e manter o agricultor na propriedade.
Há grande dificuldade para envolver e motivar jovens na agricultura. Raramente o agricultor faz a sucessão familiar.
A propriedade da terra está sendo usada como especulação e investimento de grupos para arrendamento e forma de reduzir o pagamento de impostos de renda gerada em outras áreas.
O valor do arrendamento da terra varia entre 800 e 2000 kg de soja/ha. Valores semelhantes de arrendamento são praticados na Argentina.
Uma característica diferenciada do agricultor norte-americano é a paixão pelo trator, potência, automatização e velocidade de realização das atividades.
Outra diferença da agricultura dos Estados Unidos, semelhante à Europa é uma pequena janela (período curto) de 2 a 3 semanas para a semeadura, por causa das temperaturas baixas de inverno.
Vista aérea de lavouras americanas com irrigação sob a neve de inverno
Comentários gerais
Na Austrália, Brasil, Argentina, Estados Unidos e nos vários países da Ex-União Soviética, se desenvolve o mesmo discurso de que individualmente poderiam alimentar o mundo, com a adoção de novas tecnologias, gestão e apoio de seus Governos. Portanto, não é privilégio do Brasil, ter um grande potencial para produção de alimentos.
Os solos, a genética e o clima formam o tripé mais importante no manejo da produção de grãos. Os solos e as características de cada cultivar são conhecidos e devem ser de domínio do agricultor eficiente. A previsão de tempo é deficiente e necessita de pesquisa e informação mais consistente, para o planejamento estável da produção.
O Brasil é o país da chuva, com mais do que o dobro da precipitação média anual da Austrália, Estados Unidos, Europa Central e Ex-União Soviética e 50 % mais do que na Argentina.
Na América do Sul a adoção do plantio direto e de práticas conservacionistas foi, principalmente, iniciativa de agricultores inovadores e empreendedores. As mudanças aconteceram por necessidade de reduzir custos diretos no uso de máquinas e de controle da erosão da camada mais fértil do solo.
Estudos na área de viabilidade dos negócios e gestão das lavouras. Consideram que o agricultor deve estabelecer metas anuais de 4 % no aumento de produção por unidade de área e 7 % na rentabilidade financeira, para acompanhar o crescimento constatado nos últimos 20 anos.
A composição de preços de commodities agrícolas exige comparações e análises, além da oferta e demanda. Pois, a eficiência dos melhores agricultores ou dos países mais produtivos, determina a viabilidade do negócio, o preço final dos produtos e a exclusão dos menos eficientes, em qualquer parte do mundo.
Entre as dificuldades que se repetem em todas as regiões de produção de grãos do mundo está a falta de mão-de-obra qualificada para execução de atividades rurais. A família do proprietário da terra o do gestor do negócio tem dificuldades para fazer a sucessão familiar. Os jovens, filhos de agricultores, não permanecem nas atividades, com isso a média do agricultor aumenta, com menor inovação de tecnologias.
Entre as ameaças ou influências no mercado mundial de grãos estão os países da ex-União Soviética, que tem possibilidades de grande crescimento na produção de cereais de inverno com a adoção de tecnologias disponíveis no Ocidente e de gestão privada da agricultura. Além da proximidade da Europa, China e Índia e da necessidade de alianças econômicas regionais.
Em todo o mundo estão ocorrendo mudanças no modelo de condução da agricultura com o uso de tecnologias cada vez mais eficientes na produção, porém, atendendo as demandas relacionadas à ciclagem de carbono, uso de água, atividade biológica, qualidade de alimentos e rastreabilidade dos produtos.
Entre as mudanças mais importantes está a necessidade de aplicar conhecimentos de biologia e a redução de produtos químicos.
O agricultor brasileiro necessita mais de conhecimento e de informação, por estar localizado em ambiente de clima tropical, com intensa atividade e diversidade biológica. Não há parâmetro de referência de agricultura desenvolvida em outras partes do mundo, com clima e ambiente semelhantes aos do Brasil.
A gestão, a deficiência de organização dos agricultores brasileiros e a falta de infra-estrutura são os grandes desafios para a evolução no contexto de geração de renda e de influência estratégica no mundo.
Os investimentos da pesquisa pública, no mundo todo, estão direcionados, principalmente, para a nanotecnologia, biotecnologia, modelos matemáticos complexos, automatização e eventos climáticos. Enquanto, as demandas de soluções de agricultores são bastante básicas, como o controle de lesmas e ratos nas regiões de clima temperado e frio, controle biológico e supressão de pragas e doenças, transferência de conhecimentos gerados e qualificação de mão-de-obra para a gestão e a execução de atividades nas lavouras.
Revista Plantio Direto, edição 109, janeiro/fevereiro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.