Breve Retrospectiva de 2008


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Publicado em: 01/02/2009

Breve retrospectiva de 2008

Luiz Ataides JacobsenEngº-Agrº. Emater - Passo Fundo - RSE-mail: jacobsen@emater.tche.br

Começando pela inflação, fenômeno que preocupa qualquer governante, o ano de 2008 até que não foi tão assustador como o esperado em determinados momentos, alcançando 5,90% medido pelo IPCA, índice um pouco mais elevado que os 4,46% de 2007. A variação nos preços dos alimentos que desde o Plano Real segurou a inflação em níveis mais civilizados, em 2008 representou 43% da variação do índice, chegando a incorporar o termo ”agflação” no vocabulário nacional. A alimentação teve um crescimento de 10,67% em 2008, sendo neste ano um impulsor do processo inflacionário.

Praticamente em todos os casos, os preços dos alimentos foram a principal força que fez aumentar a inflação nos países em desenvolvimento. A pressão inflacionária constitui um novo desafio para a política macroeconômica dos países em desenvolvimento. Esse aumento dos preços incidiu simultaneamente sobre vários produtos de base: os cereais, a carne e os produtos lácteos e a dimensão e o caráter repentino do aumento dos preços deram origem a desequilíbrios macroeconômicos em todo o mundo.

Do lado da agricultura, o Índice de Preços Pagos pelos agricultores (IPP), que mede a variação dos preços médios mensais de insumos utilizados na produção agropecuária, agregados pelos grupos Agrotóxicos, Combustíveis, Fertilizantes, Mão-de-obra, Sementes e Serviços, manteve sua tendência de crescimento acima de outros indicadores. Desde agosto de 1994 até outubro passado a variação do IPP foi de 403,78% contra 310,52% do IGPM e 208,09% do IPCA no período.

O câmbio, que vinha mantendo uma trajetória de valorização iniciada em 2003, sofreu uma reversão a partir de agosto, chegando no final deste ano com o dólar americano valorizado em 31,87% frente a moeda nacional. Colapso da economia americana levou a uma expressiva retirada de capitais das economias emergentes, incluindo aí o Brasil, desencadeando uma depreciação da taxa de câmbio, que em agosto estava 25% mais apreciada que seu valor histórico de médio prazo.

A crise financeira global, que vem sendo apontada como a mais séria desde 1929, foi se agravando ao longo de julho e agosto, até atingir o pico em setembro quando o governo americano praticamente estatizou instituições financeiras, só começando dar sinais de calmaria em outubro, quando o Tesouro americano aprovou pacote de US$ 700 bilhões e o Fed promove dois cortes nas taxas de juros.

No decorrer de 2008, a economia brasileira manteve forte expansão da demanda interna e com a convulsão internacional não permitiu a continuidade dos cortes na taxa básica de juros. Pelo contrário, iniciou com 11,25% e terminou o ano com 13,75%.

No comércio internacional, apesar dos avanços nas exportações nacionais, as importações foram mais intensas e o saldo da balança comercial brasileira fechou 2008 com US$ 24,75 bilhões, contabilizando uma redução de 38,18% em relação ao ano anterior. No Rio Grande do Sul o impacto no saldo do comércio internacional foi menos intenso e a redução ficou em 18,85% no comparativo com 2007.

O resultado em Conta Corrente que mede as trocas com o exterior em mercadorias, serviços, rendas e transferências, apresentou até dezembro um déficit de US$ 28,30 bilhões para a economia nacional, enquanto no ano anterior o saldo foi positivo (US$ 1,55 bilhões). Essa mudança pode ser atribuída, pelo menos parcialmente à redução do saldo da balança comercial e elevação do volume de remessas de lucros e dividendos para o exterior.

Na agropecuária os aumentos súbitos e espetaculares que os preços dos produtos agrícolas registraram ao longo de 2008 inverteram uma tendência de 30 a 40 anos, quando esses diminuíram em termos reais. O aumento de preços nos mercado de alimentos ampliou sua magnitude em função das políticas de resposta de alguns países exportadores. Aumento das tarifas de exportação ou até proibições na Argentina, China, Rússia e Ucrânia, dentre outros acabaram elevando ainda mais os preços.

Por trás do problema da alta de preços e da escassez mundial de alimentos para consumo humano surgem novas forças. Um fator emergente que impulsionou o aumento no custo dos alimentos foi o alto preço da energia, a qual está cada vez mais correlacionada com o preço dos produtos agrícolas. O impacto depende dos produtos utilizados, destacando que nos Estados Unidos e na União Européia predominam culturas com desempenho energético medíocre. Na medida em que o aumento da demanda por biocombustíveis passa a ter vínculo com os preços do petróleo é possível uma correlação nova e mais firme entre o petróleo e os mercados agrícolas. A isso associou-se a aceleração das negociações no mercado futuro promovida pelos fundos de investimento que chegou a girar o equivalente a 22 safras anuais de soja em um ano comercial.

Com este cenário os preços das principais commodities agrícolas contabilizaram grandes alterações. No Golfo do México o trigo (Hard) americano chegou a US$ 481,50/t em março, recuando para US$ 235,25 em dezembro. No mesmo período, o trigo denominado Soft oscilou entre US$ 397,24 e US$ 176,85. Nos portos argentinos o cereal foi cotado a US$ 372,00 em abril para fechar o ano em US$ 175,00 como média do mês de dezembro. A média de preço FOB portos argentinos de janeiro de 2000 até dezembro de 2005 foi de US$ 140,07/t.

A soja em Chicago (CBOT), cujo preço nominal recorde até então tinha sido de US$ 12,90/bushel no dia cinco de junho de 1973 é cotada em US$ 16,58/bushel no dia três de julho, equivalente a US$ 36,55/60 kg. Em dezembro, a cotação média foi de US$ 19,24/60 kg.

O milho americano inicia 2008 cotado a US$ 203,20/t no Golfo do México, alcança US$ 294,18 em junho e recua para US$ 158,36/t em dezembro. Na Argentina a cotação nos seus portos atinge US$ 260,00/t em junho e encerra o ano com preço de US$ 140,00/t.

O leite em pó integral foi cotado em US$ 4.750,00/t FOB Oceania em março, mas apresenta queda acentuada a partir de julho e em dezembro vale US$ 2.163,00/t.

Pelo lado dos insumos o alvoroço ficou por conta dos fertilizantes, cujas importações nacionais em 2007 ficaram na média de US$ 262,26/t FOB (Cap. 31 da NCM) e foram impulsionadas para US$ 588,91 em 2008. Em 2008 o Rio Grande do Sul importou 2,86 milhões de toneladas de fertilizantes (Cap. 31 da NCM), um volume 5,83% inferior ao ano de 2007 mas que custou mais 103,97% em dólares. O valor médio das importações de 2007 foram de US$ 290,64/t e em 2008 a média por tonelada importada subiu para US$ 629,49. As importações gaúchas em janeiro tiveram US$ 334,33/t em média como valor FOB de importação, passaram para US$ 982,74 em novembro, aumentando, portanto, aproximadamente 194%.

A expressiva elevação das cotações dos fertilizantes importados foi parcialmente amortecida pela valorização da moeda nacional até agosto, mas a partir de então, a moeda já em processo de desvalorização acabou alavancando a diferença de preço em Reais no período. Os preços pagos pelos agricultores no Rio Grande do Sul seguiram trajetória de crescimento até outubro, quando surgem sinais de recuo. Nos primeiros 10 meses do ano, fertilizantes como a uréia e cloreto de potássio têm seus preços reajustados em 63,14% e 90,61% respectivamente. Ainda, olhando antes da ”porteira” do agronegócio, vimos que no país nunca se produziu tantos tratores de rodas, ou seja, algo inédito. Foram 66.504 unidades fabricadas em 2008 e 43.415 vendidas no mercado interno, um acréscimo de 38,71% sobre o ano anterior.

Com sobressaltos finda 2008, deixando dúvidas sobre o livre mercado e muitos retirando das prateleiras empoeiradas obras de Keynes.

Revista Plantio Direto, edição 109, janeiro/fevereiro de 2009. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS