Trigo: Safra 2008 no Rio Grande do Sul1
Luiz Ataides Jacobsen21Texto para discussão solicitado pela Cooperativa Tritícola Sepeense Ltda. Passo Fundo/RS, Novembro/2008.2Engº Agrº., Assistente Técnico Estadual de Trigo da EMATER/RS.
Cenário Internacional
Desde a safra 2004/05 até estimativa para 2007/08, a produção mundial de trigo tem sido inferior ao consumo (Quadro 1). São, portanto, três safras seguidas com redução dos estoques de passagem e, consequentemente, com aquecimento dos preços no mercado internacional. A safra mundial para 2008/09 está estimada em 682,37 milhões de toneladas e o consumo em 656,51 milhões, revertendo o processo de dilapidação dos estoques e interrompendo a elevação dos preços internacionais, pelo menos sob a ótica dos fundamentos do mercado.
Quadro 1. Oferta e demanda mundial de trigo (milhões de toneladas). *Estimativa. **Projeção. Fonte: USDA – World Agriculture Supply and Demand Estimates (nov/08).
A disputa dos grãos entre alimento, ração e energia, associada a menores colheitas de trigo em alguns países tradicionais exportadores, provocou principalmente à partir de junho de 2007 uma acelerada elevação do preço do cereal no mercado externo. No Golfo do México, por exemplo, as cotações cresceram de US$ 229,00/t em julho de 2007 para US$ 500,00 em março de 2008, superando em muito a média de US$ 145,15/t no período compreendido entre janeiro de 2000 e dezembro de 2005. Também a cotação do trigo nos portos argentinos evoluiu de US$ 236,00/t em julho de 2007 para US$ 372,00/t. em abril de 2008.
A reação de alguns países elevando tributos para exportação de cereais ou até mesmo proibições para exportar como foi o caso da Argentina, Rússia e Ucrânia, acabaram incrementando ainda mais a subida dos preços.
O quadro começa a mudar quando são divulgadas as projeções para safra mundial de 2008/09, cuja produção deve ser superior ao consumo elevando um pouco os estoques de passagem, cujos efeitos já se fazem sentir nas cotações internacionais, pois no Golfo do México o trigo passa a ser cotado a US$ 264,00 na média de outubro deste ano e na Argentina a cotação deste mesmo mês fica em US$ 233,00/t, mostrando sinais de recuo, pois nos primeiros quinze dias de novembro a cotação média foi de US$ 197,00 por tonelada, equivalente a R$ 432,51/t ou ainda R$ 25,95 por saca, considerando a cotação média do dólar na primeira quinzena do mês (R$ 2,1955).
Na Argentina, principal fornecedor para o mercado brasileiro, a expectativa é de uma safra para 2008/09 da ordem de 11 milhões de toneladas, enquanto na safra anterior a produção foi de 15,20 milhões de toneladas. A projeção das exportações também é modesta com apenas 5,8 milhões de toneladas. No Estados Unidos a projeção de preços aos produtores de trigo na safra 2008/09 fica entre US$ 14,44 até US$ 15,76/saca.
Cenário Nacional
A produção nacional que, nos últimos anos, girava em torno dos três milhões de toneladas, salta para 6.073.500 toneladas na safra 2003, e 5.845.900 toneladas em 2004, recuando para 4.873.100 toneladas em 2005. Na safra de 2006 a produção nacional foi afetada por estiagem e geada, proporcionando colheita de apenas 2.233.700 toneladas, elevando as importações para 7.809.900 toneladas para atender o consumo. Em 2007, a colheita de trigo no Brasil foi de 3.824.000 toneladas. Para atender um consumo interno de 10.311.200 toneladas foi necessária a importação de 6.624.894 toneladas de grão e 625.729 toneladas de farinha.
A produção nacional projetada pela CONAB para 2008 é de 5.722.200 toneladas, sendo 92,60% na região Sul para atender consumo estimado em 10.646.100 toneladas. Em 2008, nos primeiros dez meses, as importações de grão foram de 5.151.685 toneladas (US$ 1.670.861.361,00) e 581.548 toneladas de farinha (US$ 255.639.327,00). O grão importado foi originário da Argentina (68,03%), Canadá (5,30%), Estados Unidos (16,96%), Paraguai (8,00%) e Uruguai (1,71%). O valor médio das importações nacionais de grão foram de US$ 362,60/t FOB em julho deste ano (R$ 577,04/t), cotação que caiu para US$ 289,79/t em outubro ou R$ 629,68/t conforme a cotação média do câmbio deste mês.
Os preços mínimos de garantia estabelecidos para a região Sul na safra 2008/09 tiveram um acréscimo se 20% sobre a safra anterior e podem ser vistos no Quadro 2.
Quadro 2. Preço mínimo de garantia para o trigo (R$) na região Sul, safra 2008/09. Fonte: CONAB.
Rio Grande do Sul
A área cultivada no Rio Grande do Sul teve acentuada redução a partir de 1990, chegando, em 1995, a uma das menores áreas cultivadas na história recente do cereal, apenas 270.247 ha colhidos. Somente depois de 2001, já sob política cambial flutuante e a desvalorização do Real em janeiro de 1999, é que o trigo volta a ocupar área de maior expressão.
A maior produção e o melhor rendimento acontecem em 2003, com 2.395.554 toneladas e 2.253 kg/ha. Quanto ao rendimento, a EMATER/RS (GPL/NIC) mostra que, entre 1990 e 2004, a triticultura gaúcha ganhou, anualmente 43,14 kg/ha, com diferenças expressivas entre distintas regiões.
Na safra tritícola de 2007 a área colhida foi de 848.404 ha e a produção foi de 1.729.469 toneladas (2.038 kg/ha). A boa safra, foi ainda favorecida pelas altas cotações do grão no mercado internacional possibilitando a exportação de 640.445 toneladas no primeiro semestre de 2008 com preço médio de US$ 316,80/t FOB. O trigo gaúcho foi exportado para a Argélia (10,57%), Bangladesh (5,07%), Índia (8,64%), Marrocos (16,56%), Paquistão (41,30%), Tunísia (4,24%), Vietnã (9,25%) e República Democrática do Congo (4,36%). Por outro lado, em 2007 o Rio Grande do Sul importou 424.790 toneladas de grão e 44.609 toneladas de farinha. Nos primeiros dez meses de 2008 as importações gaúchas de trigo somaram 466.356 toneladas do grão e 45.769 toneladas de farinha.
O consumo de trigo no RS é estimado em 1.100.000 toneladas anualmente e distribuído em 90 indústrias moageiras. Pelo histórico do volume de grão importado o espaço para o trigo colhido no solo gaúcho é de aproximadamente 55 mil toneladas mensais, ou seja 660.000 toneladas. O excedente deve ser exportado ou colocado em outras unidades da federação, onerado pela incidência de 12% de ICMS (reduzido para 2% quando destinado para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, devendo vigorar até 31 de março/09, conforme Decreto nº 46.028 de 02/12/08).
O preço do mercado interno, influenciado pelas cotações nos principais países exportadores, estabeleceu-se em patamar mais elevado, tendo os triticultores recebido em média R$ 28,94/60 kg no mês de setembro de 2007. Com a oferta houve recuo nos meses seguintes até o patamar inferior de R$ 24,49 em janeiro de 2008, para a partir de então iniciar processo de recuperação até atingir R$ 33,25/60 kg em maio.
Estimulados pela possibilidade de obter vantagens com a favorável situação das cotações internacionais e as dificuldades para o abastecimento interno, inclusive aquelas impostas pela Argentina, os triticultores gaúchos ampliaram a área cultivada com o cereal, semeando 974.714 ha, ou seja mais 14,65% sobre a semeadura de 2007, conforme levantamento realizado pela EMATER/RS. A produção, mesmo com toda a adversidade imposta pelo excesso de precipitação no mês de outubro deverá situar-se em torno de 2,0 milhões de toneladas, o que pode significar a necessidade de colocar entre 1,2 até 1,4 milhão de toneladas além das fronteiras estaduais. Ressalta-se que a maior parte do trigo colhido no estado terá problemas com a qualidade, particularmente com o peso do hectolitro (PH) já que a maioria das lavouras não está alcançando o PH de 78 que enquadra o produto como tipo 1.
Com oferta mais abundante no mercado internacional e as projeções internas de produção, os preços já mostram sinais de recuo no mercado gaúcho, estando atualmente em R$ 23,00/saca até R$ 24,00 na primeira quinzena de novembro. Isto significa R$ 383,30/tonelada até R$ 400,00 e representa a participação do triticultor em modestos 7,32% sobre o preço pago pelo pão na maioria das grandes redes de supermercados gaúchos (R$ 5,85/kg de pão).
No mercado gaúcho (Figura 1), o preço recebido pelos triticultores, ao longo de 171 meses analisados (jul/94 – set/08), mostra que em apenas 54 deles o valor corrigido pelo IGP-M foi superior a R$ 30,00 por saca de 60 kg. Isto pode sugerir uma linha de resistência como limite superior, ultrapassada somente em situações especiais como preços internacionais bem acima dos padrões normais e/ou moeda desvalorizada.
Figura 1. Preço (R$/60 kg) nominal e corrigido pelo IGP-M recebido pelos produtores no RS entre julho de 2004 e setembro de 2008. EMATER/RS.
Ainda em se tratando de preço, verifica-se que o produtor de trigo no Rio Grande do Sul recebe em média 92% do valor pago pelo trigo FOB portos argentinos, variando ao longo do tempo analisado (jan/00 até ago/08) entre 72% até 109%.
Considerações Finais
Diante do cenário internacional, nacional e também em relação ao Rio grande do Sul é possível identificar algumas tendências, pelo menos em prazo relativamente curto, tais como:
- A oferta mundial superando o consumo na safra 2008/09, pelos fundamentos do mercado deve empurrar os preços para patamares abaixo daqueles que vinham sendo praticados nos últimos meses. Esta tendência já aparece nas cotações de outubro no Golfo do México e sobretudo na primeira quinzena de novembro nos portos argentinos;
- A informação positiva oriunda do mercado internacional é a baixa produção prevista para a Argentina (11 milhões de toneladas) e o reduzido volume disponível para exportação (5,8 milhões de toneladas). Isto significa que nosso parceiro de Mercosul possivelmente não terá volume suficiente para atender toda a demanda brasileira. Caso o Brasil venha buscar outros mercados fora do Mercosul para abastecer-se com o cereal será preciso manter a Tarifa Externa Comum, assegurando que a paridade de importação não pressione negativamente as cotações internas;
- Caso se confirme a produção brasileira o mercado vai agir com cautela, pois estará seguro quanto ao abastecimento, e não havendo pressão de compra os preços não devem crescer nos próximos meses. Além disso há abundante oferta de milho no mercado nacional, com preços em queda, abrindo pouco espaço para o trigo de qualidade inferior ser utilizado na elaboração de rações;
- O Rio Grande do Sul, mais distante dos grandes centros consumidores, terá necessidade de colocar além das suas fronteiras algo próximo a 1,3 milhão de toneladas, com maiores custos relativos a logística e tributação de 12% nas transações interestaduais. O cenário indica a necessidade da disponibilização dos instrumentos de apoio à comercialização como o Prêmio de Escoamento de Produto (PEP) e Contrato de Opção de Venda;
- O aviso relativo ao Contrato de Opção de Venda de trigo em grão (Nº 417/08) leiloado em 20/11/08 destinou para o Rio grande do Sul 3.705 contratos, equivalentes a 100.035 toneladas. O preço de exercício estabelecido foi de R$ 14.310,00 por contrato (27 t) com vencimento em 31/3/09, equivalente à R$ 31,80 por saca de 60 kg, válido para produto Tipo 1 (PH mínimo de 78) e Classe Pão/Melhorador/Durum. Caso o produto seja classificado como Brando e Tipo 1 ou 2 o preço de exercício cai para R$ 27,66 e R$ 26,34/60 kg, respectivamente. Todos os contratos foram negociados com prêmio de abertura de R$ 71,55/contrato e fechamento em R$ 82,00. Forte indicativo de que os produtores não esperam substanciais alterações nos preços;
- A cotação do trigo nos portos argentinos na primeira quinzena deste mês é de US$ 197,00/t ou R$ 25,95/saca. Como na média a cotação no RS representa 92% da cotação FOB Argentina, temos R$ 23,87 como referência, praticamente o que está sendo praticado no mercado gaúcho. A cotação na Argentina, bem como no Golfo do México nos indicam a paridade de importação, limite acima do qual os preços no mercado interno não se posicionariam;
- A série histórica produzida pela EMATER/RS, corrigida pelo IGP-M é outro forte indicativo que permite estabelecer o que se denomina de linha de resistência, ou seja valor acima do qual as cotações dificilmente acontecem, salvo quando ocorrem eventos críticos, como escassez em meados dos anos 1990, depreciação da moeda nacional no segundo semestre de 2002 e mais recentemente fruto de safras menores, uso de grãos para energia e forte pressão dos fundos de investimento na compra de contratos de commodities;
- A desvalorização cambial que está acontecendo desde agosto pode amenizar quedas mais acentuadas no mercado interno e facilitar alguma exportação, quem sabe agora mais difícil em razão da qualidade e da própria dificuldade relacionada á liquidez no mercado externo;
- Em síntese, quanto ao preço, reconhecendo que a única certeza do mercado é de que ele está sempre mudando, nada indica neste momento grandes alterações e a referência será o preço mínimo conforme o Tipo e Classe e o preço de referência para os Contratos de Opção de Venda;
- Como forma de alavancar a liquidez do trigo e escoar a produção para outros estados da federação é fundamental a disponibilidade de recursos para implementação do Prêmio de Escoamento de Produto (PEP), tal como o Aviso de Leilão Nº 426/08 que se propõe destinar 100.000 toneladas do grão gaúcho e paranaense para além das Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste no dia 20/11/08. Nesta oportunidade nenhum contrato foi negociado no Paraná e Rio Grande do Sul, demonstrando que os R$ 152,00/t de prêmio não despertaram interesse por parte da indústria moageira nos estados para onde se destina o cereal;
Como medida para as próximas safras, determinar a margem de contribuição, como mais uma ferramenta capaz de colaborar nos processos de tomada de decisão quanto a semeadura do cereal e as possibilidades de retorno econômico, rompendo com a estratégia de decidir com base em análise retrospectiva, incorporando a cultura de avaliação prospectiva de cenário. Um exemplo pode ser o uso de planilha a seguir que foi elaborada pela EMATER/RS.
Revista Plantio Direto, edição 108, novembro/dezembro de 2008.