Importância e Manejo de Pratylenchus brachyurus


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Publicado em: 01/12/2008

Importância e manejo de Pratylenchus brachyurus

Mário Massayuki InomotoDepartamento de Entomologia Fitopatologia e Zoologia Agrícola da ESALQ/USP, Laboratório de Nematologia - Caixa-Postal 9 - 13418900 - Piracicaba, SP - E-mail: mminomot@esalq.usp.br

Nematóides da soja no Brasil

Há pelo menos seis espécies de nematóides que causam perdas significativas na cultura da soja no Brasil: Heterodera glycines (nematóide de cisto da soja), Rotylenchulus reniformis (nematóide reniforme), Pratylenchus brachyurus (nematóide das lesões), Meloidogyne javanica, M. incognita e M. arenaria (nematóides das galhas). Atualmente, as espécies mais importantes são H. glycines e M. javanica, pois apresentam elevada distribuição e são extremamente virulentas à soja, ou seja, são capazes de causar grande redução no crescimento da planta de soja. Porém, é perfeitamente possível plantar soja em áreas infestadas com ambas as espécies sem grandes sobressaltos, graças ao uso de cultivares resistentes ou tolerantes e à rotação com culturas não hospedeiras, técnicas que foram aprimoradas ao longo dos anos por pesquisas realizadas pela Embrapa, por universidades e diversas empresas privadas, com a participação dos sojicultores. A ocorrência do nematóide reniforme na cultura da soja tem crescido nos últimos anos. Na mesma medida, os institutos de pesquisa, liderados pela Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados-MS), têm apresentado resultados importantes, resultando no desenvolvimento de técnicas de manejo altamente eficientes, a partir da identificação de cultivares com elevados graus de resistência. Assim, utilizando as técnicas adequadas, o sojicultor é plenamente capaz de enfrentar com sucesso o problema representado por R. reniformis.

O manejo de M. incognita no Brasil tem sido feito pelo uso de cultivares resistentes. Cerca de 20% das cultivares de soja são resistentes ou moderadamente resistentes a M. incognita, o que causa sensação de falsa segurança aos sojicultores, pois ocorrem perdas quando as densidades populacionais do nematóide são muito elevados (Guilherme Asmus, comunicação pessoal). Outro fator que deveria causar preocupação em relação a M. incognita é que as principais culturas utilizadas em sucessão ou rotação com a soja, quais sejam milho, sorgo granífero, algodão, girassol e aveia preta, são boas hospedeiras do nematóide. Portanto, o arsenal de técnicas de manejo de M. incognita deveria ser ampliado, considerando-se a perspectiva de aumento de sua ocorrência com a manutenção dos atuais sistemas de produção, que são favoráveis à gradativa elevação populacional do nematóide.

Por falar em arsenal reduzido, no caso dos nematóides M. arenaria e P. brachyurus, a quantidade de técnicas comprovadamente eficientes para ambos é preocupantemente pequeno. Entre os dois nematóides, a situação de M. arenaria é melhor, pois sua ocorrência em soja no Brasil é reduzida, na verdade é a menos comum das seis espécies tratadas neste artigo. Além disso, existe certa experiência no manejo de M. arenaria nos Estados Unidos, que pode ser utilizada de base para o desenvolvimento de técnicas correspondentes no Brasil. Por outro lado, o nematóide das lesões apresenta alta prevalência no país e o volume de conhecimento sobre seu manejo, que é pequeno no Brasil, é ainda menor nos Estados Unidos e em outros países produtores de soja.

A partir deste ponto, este artigo passará a tratar especificamente da importância de P. brachyurus na cultura da soja, discutindo os fatores que favorecem o nematóide e apresentado as informações disponíveis que podem servir de base para o desenvolvimento de técnicas eficientes de manejo.

Condições predisponentes

Inicialmente, é preciso tentar entender as condições que explicam a atual importância de P. brachyurus da soja. Com tal objetivo, as próximas linhas serão utilizadas para pormenorizar, nas etapas do ciclo das relações patógeno-hospedeiro entre o nematóide e a soja (sobrevivência, disseminação, infecção, colonização e reprodução), os fatores que têm favorecido a incidência de P. brachyurus na soja no Brasil.

1. Sobrevivência

É a etapa na qual o inóculo do patógeno precisa se perpetuar entre os ciclos das culturas, ou seja, na ausência de seu hospedeiro principal. No presente caso, é o período de mais de 7 meses entre a colheita da soja (fevereiro e março) e o próximo plantio da soja (outubro e novembro). No plantio convencional da soja, a perpetuação de P. brachyurus era obtida pelas raízes da soja que permaneciam no campo e também das plantas invasoras, incluindo as plantas voluntárias de soja. Portanto, a sobrevivência dependerá, em primeiro lugar, da existência de raízes de soja no campo, fornecendo abrigo a P. brachyurus após a colheita da soja. Com base as informações sobre a longevidade de P. brachyurus em fragmentos de raízes de capim gordura (3 meses segundo Charchar & Huang, 1991) e citros (21 meses segundo Felmesser et al., 1960), pode-se dizer que em raízes delicadas (como as de capim gordura e soja) a sobrevivência do nematóide é menor, pois a degradação das raízes é mais rápida que naquelas mais grossas ou fibrosas (como as de citros). Após a degradação das raízes, o nematóide estará no solo e dependerá das reservas alimentares acumuladas enquanto se alimentou das raízes da soja. Também é possível que o nematóide encontre outras plantas hospedeiras entre as invasoras presentes no local, nesse caso se destacando a soja voluntária.

Efeito do plantio direto na sobrevivência de P. brachyurus.

Comparando-se o plantio direto (PD) com o convencional, verifica-se que duas características do primeiro acabam por favorecer a sobrevivência de P. brachyurus. São eles: (1) diminuição dos danos mecânicos e exposição ao sol e a altas temperaturas, que ocorrem durante o preparo do solo com arado e/ou grade; e (2) maior disponibilidade de alimento para o nematóide, pois as culturas de cobertura podem ser hospedeiras do nematóide. De fato, é inegável que a importância de P. brachyurus na cultura da soja era muito pequena antes da popularização do PD (Ferraz, 2006).

Independentemente da cultura de cobertura utilizada para formar palhada, P. brachyurus é beneficiado pelo evento (1). Por outro lado, o evento (2) tem efeito variável, na dependência da reação da cultura de cobertura a P. brachyurus. Há escassos estudos sobre a reação do nabo forrageiro (Raphanus sativus var. oleiferus) em relação a P. brachyurus, mas eles convergem no sentido de indicar que é uma planta má hospedeira do nematóide. Igualmente, no caso do milheto (Pennisetum glaucum) e da aveia preta (Avena strigosa), que são utilizadas para formar palhada em cerca de 7 milhões de hectares anualmente cultivados sob PD, a literatura registra que são más hospedeiras de P. brachyurus (Inomoto et al., 2006; Ribeiro et al., 2007a). Isso significa que as três plantas abrigam e alimentam P. brachyurus em suas raízes, propiciando sua reprodução, porém em níveis baixos. Por exemplo, a população do nematóide não deverá crescer mais que 3x durante o ciclo do milheto (80 a 90 dias) e 2x durante o ciclo da aveia preta (110 a 130 dias), mesmo em condições altamente favoráveis a P. brachyurus (solos com textura média, umidade na capacidade de campo e temperaturas na faixa de 27 e 31 oC). Se as condições não forem ideais, a população do nematóide permanecerá constante ou mesmo cairá. Portanto, no caso da aveia preta, que é utilizado como cultura de cobertura no Sul do país e algumas regiões dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, predominantemente em meses frios do ano, é de se esperar que seu efeito seja causar a redução populacional de P. brachyurus. Por seu turno, o milheto terá efeitos variados sobre a população de P. brachyurus no solo, desde pequeno aumento populacional até redução, dependendo em grande medida da textura, umidade e, principalmente, da temperatura do solo nos 4 milhões de hectares do Brasil central (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, parte de Minas Gerais e Bahia) em que é anualmente utilizado como cultura de cobertura.

Outra questão a ser colocada é que há indícios de que as cultivares de nabo forrageiro, milheto e aveia preta apresentam diferentes níveis de resistência de P. brachyurus, ou seja, diferentes capacidades de limitar a reprodução do nematóide em suas raízes (Inomoto et al., 2006; Ribeiro et al., 2007a). Porém, para o sojicultor se beneficiar dessa característica, é preciso que ele procure tal informação, obtida em trabalhos de pesquisa, e abdique de um costume muito arraigado, que é o uso de sementes salvas, pois nessa situação não se tem o conhecimento da identidade genética das plantas de cobertura utilizadas.

Efeito da integração lavoura e pecuária na sobrevivência de P. brachyurus.

A integração entre lavoura e pecuária, em suas diversas versões, pode contribuir para o aumento da sobrevivência de P. brachyurus, dependendo da pastagem utilizada no sistema. Os genótipos de Panicum maximum são bons hospedeiros de P. brachyurus e deveriam ser evitados em locais infestados pelo nematóide. Algumas braquiárias, como Brachiaria brizantha, B. decumbens e o capim Mulato são boas hospedeiras, e outras, como B. humidicola e B. dictyoneura, são más hospedeiras (Inomoto et al. 2007).

Tanto os sorgos silageiros (Sorghum bicolor) como os forrageiros (S. bicolor x S. sudanense) são bons hospedeiros de P. brachyurus. A aveia preta é má hospedeira, mas a aveia branca (A. sativa) e a amarela (A. byzantina) são boas hospedeiras. Não há informações sobre a resposta dos estilosantes em relação a P. brachyurus.

Efeito da cultura safrinha na sobrevivência de P. brachyurus.

Técnicos mais experientes têm relatado que as perdas causadas por P. brachyurus em soja são muito freqüentes na sucessão soja-milho, o que encontra respaldo em resultados de pesquisa, pois se sabe que tanto a soja como o milho são boas hospedeiras do nematóide. Isso significa que ambas as culturas permitem que o nematóide, além de se abrigar em suas raízes, ainda se alimente e reproduza. Supondo uma situação em que se semeie soja em 1 de outubro e se faça a colheita em 10 de fevereiro, é possível semear o milho logo em seguida e efetuar sua colheita no final de junho e começo de julho. A se repetir o sistema no próximo ano agrícola, se verifica que, em áreas infestadas com P. brachyurus, o nematóide terá, a cada ano, a presença de plantas hospedeiras altamente favoráveis (soja e milho) em cerca de nove meses. Mesmo nos meses de julho, agosto e setembro, que seria único período do ano sem plantas hospedeiras em áreas de sucessão soja-milho, P. brachyurus encontrará abrigo nas raízes de milho que permaneceram no campo.

Situação semelhante à descrita acima se repete para as sucessões soja-sorgo granífero e soja-algodão, pois tanto o sorgo como o algodão são bons hospedeiros de P. brachyurus. Por outro lado, a literatura registra que o girassol é mau hospedeiro de P. brachyurus, ou seja, para girassol valem os mesmos comentários efetuados anteriormente a respeito de milheto e aveia preta (Inomoto et al., 2006; Ribeiro et al., 2007a).

2. Disseminação

É a etapa na qual o inóculo do nematóide é removido do local onde foi produzido e é disperso pelos agentes de dispersão, até ser depositado em novo local. Um dos aspectos mais importantes de P. brachyurus é a grande freqüência de ocorrência no Brasil, principalmente nos domínios do bioma Cerrado. Levantamento recente mostrou que P. brachyurus é o nematóide mais comum na cultura da soja no Mato Grosso, com freqüência de 96%, valor muito superior ao verificado para o nematóide de cisto da soja (35%), das galhas (23%) e reniforme (4%) (Ribeiro, 2008). Tais resultados poderiam indicar que P. brachyurus pertence à fauna original do Cerrado, não fosse o fato de o nematóide nunca ter sido encontrado em levantamentos feitos na vegetação primária desse bioma. Portanto, é provável que um agente muito eficiente de dispersão tenha atuado no estado de Mato Grosso. De acordo com Lordello & Mello Filho (1969), um importante agente foi o capim pangola (Digitaria eriantha), forrageira que foi muito popular há décadas passadas e que, por não produzir sementes, era plantada por estacas. Com a perda de importância do capim pangola como forrageira, atualmente o principal agente a longas distâncias é o maquinário agrícola que entra em contato com o solo. O aluguel de máquinas agrícolas, prática muito comum na região Sul do país, e o deslocamento de maquinário entre propriedades pertencentes a um único dono possibilitam a P. brachyurus (e outros nematóides do solo) condições excepcionalmente favoráveis de dispersão.

A curtas distâncias, os principais agentes de dispersão de P. brachyurus na soja são a enxurrada (transporte de solo com a água) e novamente o maquinário agrícola que entra em contato com o solo, durante seu atividade no campo.

3. Infecção

É a fase na qual ocorre a penetração do nematóide nas raízes e o estabelecimento das relações parasitárias. Não há informações sobre cultivares de soja com algum tipo de resistência pré-penetração a P. brachyurus, portanto não há indícios de que o nematóide tenha algum tipo de obstáculo para vencer essa etapa.

4. Colonização e reprodução

Na colonização, ocorre o desenvolvimento do nematóide nas raízes da soja, e na fase de reprodução, a produção de descendentes que vão continuar a colonização na mesma planta ou vão se dispersar para outra planta ou outro local distante dali. Existem cultivares de soja que apresentam fatores de reprodução1 (FR) relativamente baixos para P. brachyurus, na faixa de 1,2 a 4, valores significativamente menores que os verificados nas cultivares suscetíveis (FR = 20 a 30). Porém, tais materiais constituem minoria no conjunto de cultivares de soja. Mais importante ainda, seus FR, embora baixos, situam-se acima de 1 e portanto permitem o aumento populacional do nematóide (Ribeiro et al., 2007b).

Propostas de manejo

Neste tópico, serão relatadas as informações mais recentes disponíveis na literatura sobre P. brachyurus e que podem servir de subsídio para o desenvolvimento de técnicas de manejo de P. brachyurus na cultura da soja.

1. Diminuição da sobrevivência de Pratylenchus brachyurus

A sobrevivência do nematóide pode ser reduzida com as seguintes ações: (a) aceleração do processo de degradação das raízes de soja ou outras plantas hospedeiras; (b) uso de plantas não hospedeiras ou más hospedeiras em sucessão ou rotação com a soja. A ação pode ser obtida pela flexibilização do plantio direto, plantio do milheto na primavera, suspensão da cultura safrinha e sucessão/rotação com Crotalaria spectabilis/C. breviflora.

Flexibilização do plantio direto

Embora não existam provas definitivas, é muito provável que a adoção do plantio direto tenha contribuído para o aumento da incidência de P. brachyurus na cultura da soja. Não se discute a extensão dos benefícios do plantio direto para o agricultor e para a sociedade. Em relação ao próprio manejo de nematóides, o PD cria condições desfavoráveis à etapa de disseminação, pela redução da movimentação do solo e diminuição da erosão laminar, dois dos principais agentes do processo. Porém é presumível que a incidência de P. brachyurus seja menor onde se faz o preparo do solo com uso de arado e/ou grade, por causa do aumento da velocidade de degradação das raízes nas quais o nematóide encontra abrigo, além da mortalidade do nematóide por dessecação ou exposição direta ao sol. Assim, em locais em que se seguem os ditames do PD, uma técnica que pode contribuir para a redução das perdas causadas por P. brachyurus seria flexibilizar tais regras e efetuar aração ou gradeação depois da colheita da soja ou antes do plantio da soja.

Plantio do milheto na primavera

Conforme discutido anteriormente neste artigo, o milheto é considerado mau hospedeiro de P. brachyurus. Acredita-se que o efeito do milheto na variação populacional de P. brachyurus seja mais no sentido de propiciar a sobrevivência do nematóide entre os dois ciclos de soja, propiciando abrigo em suas raízes e sombreamento do solo com sua biomassa, do que causando seu aumento populacional. É provável que tais efeitos sejam menores quando o milheto é semeado na primavera (setembro ou outubro), algumas semanas antes do plantio da soja, do que quando isso é feito logo depois da colheita da soja (fevereiro a abril). A razão é óbvia: no primeiro caso, o milheto permanece menos tempo e forma menos biomassa que no segundo. Se, do ponto de vista estrito do plantio direto, o segundo caso oferece mais vantagens, do ponto de vista do manejo de P. brachyurus, a situação se inverte. Evidentemente, a presente técnica somente pode ser utilizada em conjunto com a anterior se a aração ou gradeação forem executadas depois da colheita da soja.

Uso de forrageiras desfavoráveis a P. brachyurus na integração lavoura e pecuária

Infelizmente, a maioria das forrageiras utilizadas na integração lavoura e pecuária são boas hospedeiras de P. brachyurus. Aquelas que permitem maior reprodução do nematóide (maiores valores de FR), que são sorgo, aveia branca, aveia amarela, Panicum maximum, Brachiaria brizantha, B. decumbens e capim Mulato, devem ser evitadas em locais infestados pelo nematóide (Figura 1). A aveia preta e algumas braquiárias, como B. humidicola e B. dictyoneura, podem ser recomendadas com restrições, pois são más hospedeiras, podendo causar pequeno aumento populacional de P. brachyurus. Em locais onde a pastagem está instalada e se pretenda fazer a dessecação antes do plantio da soja, um cuidado importante é fazer a avaliação populacional de P. brachyurus pouco antes da dessecação. Se a população tiver ultrapassado o limite de tolerância da soja para o nematóide2, deve se considerar a opção de desistir de plantar soja, devido às prováveis perdas que advirão da presença de P. brachyurus, ou flexibilizar os ditames do sistema, efetuando-se aração ou gradeação antes do plantio da soja, como meio de reduzir a população do nematóide.

Figura 1. Efeito de Crotalaria spectabilis (esquerda), aveia preta (centro) e aveia amarela (direita) sobre a soja plantada subsequentemente, em solo infestado por Pratylenchus brachyurus.

Suspensão da cultura safrinha

As sucessões soja-milho, soja-sorgo granífero e soja-algodão oferecem condições excepcionais para o desenvolvimento de elevadas populações de P. brachyurus, pelas razões apresentadas anteriormente neste artigo. Conseqüentemente, é inviável a manutenção da cultura safrinha em áreas com elevadas populações de P. brachyurus. O sistema somente seria aceitável caso existisse disponibilidade de híbridos de milho ou sorgo, ou cultivares de algodão, com elevados graus de resistência a P. brachyurus. Nessa hipótese, a população do nematóide seria reduzida durante o ciclo da cultura safrinha, beneficiando a cultura da soja. Porém é exatamente o contrário que se verifica, não há informações sobre nenhum genótipo de milho, sorgo granífero ou algodão com elevado grau de resistência a P. brachyurus. Um ponto colocado por alguns técnicos e pesquisadores é que o uso de híbridos de milho com moderada resistência a P. brachyurus poderia permitir que a população do nematóide se mantivesse em valores aceitáveis, ou seja, menores que os capazes de causar perdas à soja. Na opinião deste autor uma possibilidade com remotas chances de sucesso.

Concluindo, a recomendação é que os agricultores que se valem de cultura safrinha com milho, sorgo granífero ou algodão como forma de utilizar mais eficientemente sua área, porém venham nos últimos anos sofrendo perdas causadas por P. brachyurus, renunciem, pelo menos temporariamente, da renda propiciada pela cultura safrinha, mantendo o solo sob pousio ou escolhendo uma planta má hospedeira para formar cobertura vegetal. Há ainda uma alternativa intermediária, que seria a substituição do milho, sorgo granífero ou algodão pelo girassol como cultura safrinha, pois o girassol é mau hospedeiro de P. brachyurus (Ribeiro et al., 2007a). Em último caso, caso seja opção do agricultor manter as sucessões soja-milho, soja-sorgo granífero e soja-algodão, é importante que se crie uma descontinuidade entre as culturas, pelo preparo convencional de solo antes do plantio da soja. O ideal seria efetuar pelo menos uma aração (ou uma gradagem) logo depois da colheita da cultura safrinha e ainda mais uma operação pouco antes do plantio da soja.

Sucessão ou rotação com Crotalaria spectabilis e C. breviflora.

Dentre as poucas plantas comprovadamente não hospedeiras de P. brachyurus, destacam-se os adubos verdes Crotalaria spectabilis e C. breviflora. O uso de ambos os adubos verdes, como culturas de sucessão ou rotação com a soja, garante a diminuição populacional do nematóide, portanto são os mais valiosos adubos verdes no manejo de fitonematóides, pois também podem ser utilizados para Heterodera glycines, Meloidogyne javanica e M. incognita. Porém, como o manejo dessas três espécies pode ser feito com outras técnicas, de mais fácil execução, o maior valor de C. spectabilis e C. breviflora está no fato de não existir nenhuma outra técnica tão eficiente de redução populacional de P. brachyurus (Figura 1). Infelizmente existem vários senões para a aplicação extensiva da técnica, que explicam sua baixa aceitação. Entre elas, a mais importante é provavelmente a grande dificuldade para o controle das plantas invasoras, devido principalmente ao crescimento inicial muito lento de ambos os adubos verdes. O desenvolvimento de uma metodologia que possibilite o uso de C. spectabilis e C. breviflora na sucessão ou rotação com soja, sem os contratempos causados pela competição com plantas invasoras, resultará em uma técnica de manejo altamente eficiente para P. brachyurus, e que ainda terá a vantagem de ser válida para outros nematóides importantes da soja.

Dentro da questão, cabe lembrar que outros adubos verdes não têm a mesma importância no manejo de P. brachyurus. A crotalária mais utilizada no Brasil como adubo verde, C. juncea, embora não seja boa hospedeira, possibilita pequeno aumento populacional do nematóide, e as mucunas são boas hospedeiras de P. brachyurus (Machado et al., 2007).

2. Diminuição da disseminação de Pratylenchus brachyurus

Apesar de P. brachyurus apresentam elevada distribuição geográfica nas áreas cultivadas do Brasil, continua válida a aplicação de técnicas para reduzir a disseminação, destacando-se a lavagem do maquinário todas as vezes que sai de uma propriedade e vai para outra, como forma de evitar a dispersão a longas distâncias. Dentro da propriedade, fazer um planejamento em que as operações sejam feitas primeiramente nos talhões não infestados ou com baixa infestação, e depois nos talhões mais infestados.

3. Diminuição da infecção de Pratylenchus brachyurus

Esta ação pode ser obtida pelo uso de produtos químicos (nematicidas) que provoquem a morte ou redução da atividade do nematóide. Embora tais produtos estejam disponíveis no mercado, geralmente são pouco utilizados, por questões de viabilidade econômica. Por enquanto, é preciso esperar que novos produtos ou novas técnicas de aplicação contornem tal dificuldade.

4. Diminuição da colonização e reprodução de Pratylenchus brachyurus

Esta ação depende da disponibilidade de cultivares de soja resistentes a P. brachyurus. Conforme mencionado anteriormente neste artigo, algumas cultivares, como BRSGO Chapadões, M-Soy 8378 e M-Soy 8360RR, MG/BR 46 Conquista, M-Soy 8800, BRSGO 204 Goiânia, BRS Aurora, M-Soy 8374 e Coodetec 219 RR apresentam resistência moderada a P. brachyurus (Ribeiro et al., 2007). Como a resistência é moderada, este autor sugere que tais cultivares sejam utilizadas somente em áreas com infestações baixas ou moderadas de P. brachyurus e naquelas cultivadas com preparo convencional de solo.

Considerações finais

As informações atualmente disponíveis na literatura podem e devem ser utilizadas pelo sojicultor para o desenvolvimento de uma metodologia de manejo de P. brachyurus. É importante que ele não se iluda: as técnicas com maior potencial de sucesso exigirão uma boa dose de sacrifício, pela necessidade de mudanças significativas no sistema de produção utilizado em seu dia-a-dia.

Literatura citada

Charchar, J.M. & Huang, C.S. 1991. Sobrevivência de Pratylenchus brachyurus em fragmentos de capim gordura Melinis minutiflora. Fitopatologia Brasileira 16: 22-25.Feldmesser, J., Feder, W.A., Rebois, R.V. 1960. Longevity of Radopholus similis and Pratylenchus brachyurus in fallow soil in the greenhouse. The Anatomical Record 137: 355.Ferraz, L.C.C.B. 2006. O nematóide Pratylenchus brachyurus e a soja sob plantio direto. Revista Plantio Direto 95: 23-27.Inomoto, M.M., Motta, L.C.C., Machado, A.C.Z. & Sazaki, C.S.S. 2006. Reação de dez coberturas vegetais a Pratylenchus brachyurus. Nematologia Brasileira 30: 151-157.Inomoto, M.M., Machado, A.C.Z. & Antedomênico, S.R. 2007. Reação de Brachiaria spp. e Panicum maximum a Pratylenchus brachyurus. Fitopatologia Brasileira 32: 341-344.Lordello, L.G.E. & Mello Filho, A.T. 1969. O capim pangola difunde nematóides. Revista de Agricultura 44: 122.Machado, A.C.Z., Motta, L.C.C., Siqueira, K.M.S., Ferraz, L.C.C.B. & Inomoto, M.M. Host status of green manures for two isolates of Pratylenchus brachyurus in Brazil.Ribeiro, N.R. 2008. Nematóides e sua implicação na agricultura. In: Ciclo de Palestras da Aprosmat, II, Sorriso, Campo Novo do Parecis, Rondonópolis e Canarana, 8 a 13/9/2008.Ribeiro, N.R.,Dias, W.P., Homechin, M., Silva, J.F.V., Francisco, A. & Lopes, I.O.N. 2007a. Reação de algumas espécies vegetais a Pratylenchus brachyurus. Nematologia Brasileira 31: 157.Ribeiro, N.R.,Dias, W.P., Homechin, M., Silva, J.F.V. & Francisco, A. 2007b. Reação de genótipos de soja a Pratylenchus brachyurus. Nematologia Brasileira 31: 157-158.

Notas:1O fator de reprodução (FR) estima a variação populacional do nematóide, em trabalhos experimentais geralmente efetuados em condições controladas (casa-de-vegetação, inoculação artificial, irrigação controlada etc), e é quociente entre a população final do nematóide (Pf) e a população inicial (Pi). Por exemplo, o FR igual a 0,5 mostra que a população foi reduzida à metade; o FR igual a 10 mostra que a população cresceu 10x2O limite de tolerância da soja para Pratylenchus brachyurus é de 200 indivíduos/200 cm3 de solo, ou seja, populações abaixo desse valor - por ocasião da semeadura da soja - não devem causar perdas, mas populações mais elevadas devem causar perdas, que serão tanto maiores quanto maior a população.

Revista Plantio Direto, edição 108, novembro/dezembro de 2008.