Decifrando a complexa equação de risco da ferrugem da soja no Brasil
Emerson Del Ponte1 & Eduardo Jesus Martins21Prof. Adjunto, Lab. de Epidemiologia de Plantas do Depto de Fitossanidade, Faculdade de Agronomia, UFRGS2Estudante de Agronomia, UFRGS
Já são contabilizadas sete safras desde que a ferrugem da soja, uma doença causada por um fungo originário da Ásia e de nome Phakopsora pachyrhizi foi detectada no Brasil. Desde então, a doença se espalhou por todas as importantes regiões produtoras de soja e demonstrou o seu potencial destrutivo. Um olhar crítico sobre os antecedentes em uma perspectiva epidemiológica permite uma análise da situação e a geração de hipóteses acerca dos fatores de risco da ferrugem da soja que devem ser considerados a cada nova safra no Brasil.
Decifrando o custo da ferrugem no Brasil
Os números que sumarizam as perdas econômicas com a ferrugem da soja no país, divulgadas pelo Consórcio Antiferrugem (CAF), levam em conta as perdas na produção e os custos com o tratamento para o seu controle. O custo total estimado desde a safra 2003/04 atinge uma cifra impressionante que se mantém acima US$ 2 bilhões, colocando essa doença no patamar de maior problema fitossanitário da cultura. A Figura 1 mostra a evolução temporal desse custo. Há uma tendência de incremento contínuo nos custos de controle e uma diminuição nas perdas diretas na produção pela doença a partir da safra 2003/04. Na última safra, as perdas em produtividade devido à ferrugem representaram menos de 1% da produção nacional. Por outro lado, o custo para o seu controle representou mais de 80% do custo total. Uma análise simplória do gráfico poderia sugerir que as perdas na produção têm uma relação de causa-efeito direta e inversa com a aplicação de fungicidas, correto? Bom se fosse simples assim, porém, a equação é bem mais complexa e deve estar embasada em conhecimentos epidemiológicos bem como econômicos (preço do fungicida, valor do dólar, etc).
Figura 1. Progresso temporal do custo da ferrugem soja no Brasil. Não há estimativas para a safra 2004/05 devido à severa estiagem. Fonte: Consórcio Antiferrugem.
A rápida evolução do custo nos primeiros anos e a estabilização em um alto patamar demonstra, primeiramente, a vulnerabilidade do país em relação às pragas de grande potencial de danos e recentemente introduzidas. A falta de preparação com base em análises e manejo de risco resulta que se leva um longo tempo para aprender a combater as doenças e as pragas introduzidas e determinar as soluções mais adequadas e duradouras. Desafios como a dificuldade de se fazer uma correta e rápida diagnose da doença, somados à falta de conhecimento técnico do manejo da doença tiveram que ser vencidos nos primeiros anos e não conseguiram evitar a perda de mais de US$ 1 bilhão na produtividade até a safra 2003/04.
Experiências frustradas de controle em várias safras, seguido de uma generalização de recomendações de aplicações preventivas ainda antes do florescimento da cultura contribuíram para que, nas últimas três safras, os custos com as aplicações aumentassem de US$ 1,5 para 2 bilhões. Uma pergunta inevitável é se o incremento do custo de controle com fungicidas a tal patamar é justificável e viável no longo prazo tanto economicamente como em relação à sua eficiência, já que parece haver relatos de perda de sensibilidade a certos fungicidas.
Conhecendo os padrões das epidemias
Cada safra no Brasil tem sido diferente da outra e, portanto, um novo aprendizado com a ferrugem da soja. Seu comportamento tem sido distinto entre regiões produtoras ou mesmo dentro de uma região em anos diferentes, o que tem levado a um impacto negativo diferenciado na produção e que não permite generalizações sobre o risco sazonal da doença. Não há, por exemplo, uma relação direta do risco da ferrugem da soja entre uma safra e outra consecutiva, exceto, em teoria, em locais em que as condições climáticas sempre são favoráveis à doença o que não tem se verificado.
Um exemplo dessa falta de correlação é a recente epidemia no RS na safra 2006/07 que resultou em perdas significativas em vários locais. Na safra seguinte (2007/08), a ferrugem não foi problema, sendo até mesmo difícil de ser encontrada em algumas regiões. Entretanto, muitos agricultores do RS tomaram decisões de aplicações antecipadas e de forma preventiva de fungicidas, talvez desnecessárias, com base apenas na experiência desastrosa da safra anterior. Nessa ultima safra em particular, diferentemente das anteriores, não foram registradas epidemias severas no país como um todo. Na Figura 2 são apresentados os mapas de ocorrência da ferrugem no Brasil nas últimas três safras, com a indicação áreas onde ocorreram epidemias em níveis mais severos, segundo informações do CAF. As três situações são interessantes uma vez que se têm duas situações extremas e uma intermediária.
Figura 2. Regiões de ocorrência da doença e de epidemias severas de ferrugem asiática da soja no Brasil em três safras consecutivas. Fonte: Consórcio Antiferrugem.
Há também diferenças nas curvas de progresso do número acumulado de detecções registradas pelo CAF no curso de cada safra (Figura 3). O distinto padrão de evolução do número de casos positivos pode ser devido às diferenças nas condições de clima sazonal e possivelmente a pressão diferenciada de inóculo no início da estação.
Figura 3. Progresso do número acumulado de casos reportados de ferrugem asiática da soja no Brasil em três safras. Fonte: Consórcio Antiferrugem.
Uma das hipóteses ainda em teste é que a ampla adoção do vazio sanitário a partir de 2007, que consiste no não plantio da soja em determinados períodos na entressafra, variável entre as regiões, pode contribuir para o controle da doença. Fica claro no gráfico um atraso na detecção a doença na safra 2007/08 comparado às duas safras anteriores, quando já se verificava anteriormente um número significativo de detecções no mês de dezembro. Mesmo no centro-oeste do país onde a ferrugem normalmente era detectada no início da safra, ainda em estágio vegetativo, se verificou um atraso. Esse fato pode ser devido ao período mais seco no período da entressafra e início da última safra associado aos efeitos do vazio sanitário e às boas práticas de manejo da doença. No entanto, observa-se que a taxa de evolução do número de detecções foi similar nas duas últimas safras (Figura 2). É importante lembrar que, embora ocorra grande dispersão da doença em uma safra, não significa que epidemias severas ocorram uma vez que a doença pode não evoluir para níveis severos em função das condições locais de clima e das práticas de manejo, o que parece ter sido o caso da safra 2007/08. Além disso, grande parte dos números relatados de detecções é oriunda das regiões do sul do país onde o monitoramento é feito de forma intensiva pela rede mais densa de laboratórios do país que recebe amostras e registra as ocorrências no site do CAF.
Comparando padrões – o caso do sul do Brasil
Para a região sul do país, os meses de janeiro e fevereiro são os mais críticos. As condições climáticas nesse período são decisivas na determinação da dispersão e severidade das epidemias. A análise comparativa dos mapas de chuva mensal nas duas últimas safras permite observar que a safra 2007/08 foi bem menos favorável para a ferrugem, embora não se tenha verificado estresse hídrico, como na safra 2004/05 (Figura 4). Em suma, na safra 2006/07 observa-se que uma grande área geográfica no RS, SC e PR recebeu precipitações pluviais mensais entre 150 e 250 mm para cada um dos meses. Na metade norte do PR as precipitações de janeiro de 2007 ultrapassaram 300 mm. Já na safra 2007/08 os totais mensais se mantiveram abaixo de 150 mm para a maioria das regiões. Sugere-se que tal condição climática somada ao atraso na entrada da doença e aplicações generalizadas de fungicidas no RS e PR parece ter contribuído para o cenário de ”tranqüilidade” da ferrugem da soja no sul Brasil na safra 2007/08.
Figura 4. Precipitações mensais (Jan e Fev) em dois anos no período crítico de evolução da ferrugem da soja no sul do Brasil. Fonte: CPTEC-INPE (http://clima1.cptec.inpe.br/)
A situação contrastante das duas últimas safras sugere que talvez se tenha um ponto de equilíbrio no clima da safra que pode ser ”bom” para a soja e não tão ”bom” para a ferrugem, como ocorreu na safra 2007/08. Já a safra 2006/07 é aquela que não se quer ver novamente tão cedo pois um clima extremamente favorável dificulta e aumenta o custo com o controle que nem sempre é eficiente para evitar as perdas na produção. Portanto, na equação de risco sazonal da doença, fatores climáticos observados na safra, especialmente a precipitação associado com a presença do inóculo na região, têm grande peso e determinam os padrões de distribuição e severidade nas epidemias. O que deve ser feito então é realizar um bom monitoramento (inóculo e clima) e tentar prever os padrões de fatores climáticos críticos como a chuva em uma safra corrente para que se possa melhor determinar o risco sazonal que pode servir de apoio a tomada de decisão para o controle. Um primeiro passo importante em regiões onde há grande variabilidade climática como no sul do Brasil é conhecer o risco potencial e tentar identificar fatores de influência.
Aprendendo com o passado
Embora alguns digam que se deve olhar apenas para frente e esquecer o passado, pode-se aprender com as situações observadas para não cometer os mesmos erros. Pode-se ir além do passado observado e se verificar a probabilidade de ocorrência de eventos indesejáveis. Um estudo conduzido recentemente em nosso laboratório de pesquisa na UFRGS, e apresentado na Reunião de Pesquisa de Soja da região Sul em 2008, objetivou verificar a probabilidade de ocorrência epidemias severas da ferrugem asiática da soja em diferentes regiões do estado do RS em função da variabilidade climática.
O trabalho teve como base um cenário hipotético de presença da ferrugem no RS nos últimos 30 anos. Usando procedimentos de modelagem em um sistema de informação geográfica, mais de uma centena de mapas de severidade da ferrugem foi produzida utilizando-se um modelo de previsão com base na chuva que foi rodado para 24 locais na região produtora de soja no Estado.
O estudo mostrou que a variabilidade no regime sazonal de precipitação entre os anos indicou que o risco potencial de epidemias severas (>60% de severidade) é baixo, variando de 10 a 20% de probabilidade nas localidades, considerando a detecção da ferrugem no início de fevereiro. No entanto, o risco de epidemias moderadas, em níveis similares aos observados na safra 2006/07, variou de 20 a 40% nas localidades. A região norte do Estado apresenta maior risco climático para a ocorrência de epidemias, sendo mais baixo na região de Cruz Alta, no centro do Estado. O fato de que o risco é baixo não quer dizer que uma epidemia que ocorre em um ano não pode ocorrer no próximo como foi o caso das duas últimas safras.
A Figura 4 é útil para demonstrar essa variabilidade em uma série temporal. É apresentada a proporção de área cultivada de soja que seria potencialmente atacada pela ferrugem em diferentes níveis de severidade. A primeira parte a analisar são os últimos 5 anos que mostra que o modelo parece realista em função do que foi observado na presença da ferrugem, principalmente na safra 2006/07 em que é quase total a proporção de área de soja no RS em que se estimou uma severidade entre 40 e 60%, níveis que levam a perdas consideráveis.
Figura 5. Proporção da área de soja no RS estimada em cada classe de severidade (leve, moderada e severa) por um modelo de previsão de severidade final da doença com base na chuva. Os dados de chuva foram obtidos na rede da Agência Nacional de Águas. Os mapas de risco foram produzidos para cada safra com base na interpolação de estimativas pontuais em 24 locais na região produtora de soja do Estado sobreposto com área de soja estimada. Fonte: Del Ponte et al. (dados não publicados).
Outras partes importantes a observar no gráfico são as duas seqüências de 5 anos na série: 1993-1997 e 1980-1984. A grande proporção de áreas amarelas e vermelhas nesses intervalos sugere que, embora o risco seja relativamente baixo nos 25 anos, epidemias ainda mais severas do que se observou no ano de 2006/07 podem ocorrer em série e com uma maior proporção de área de soja acima de 60% de severidade em alguns anos (1983, 1993 e 1997). Como ainda não enfrentamos essa situação, é importante permanecer em alerta constante a cada safra e esperar que as previsões climáticas sazonais possam ser úteis para indicar se esses eventos de risco desta magnitude podem ocorrer.
Prevendo o risco na safra 2008/09
Ainda no final do inverno de 2008, as visitas a campo para monitoramento do inóculo na Bolívia e no centro do Brasil alertavam para uma possível situação de alto risco da ferrugem na safra vindoura tendo em vista que o inóculo estava presente em várias áreas (Yorinori, J.T. Cultivar, n. 111, p.26-30, 2008). No entanto, até a primeira quinzena de dezembro, ainda são poucos os casos positivos de ferrugem da soja registrados no mapa do consórcio antiferrugem. O número é similar à safra anterior, apenas 6 focos registrados até 13 de dezembro, contra 7 focos até a mesma data em 2007. A diferença é que, no momento, os focos se concentram no centro-oeste (GO e MT), enquanto que na safra anterior se concentravam no MS.
A comparação dos mapas de chuvas para o período de 1 de novembro a 13 de dezembro nos dois anos aponta que na safra atual as condições estão bem mais secas no RS, PR e MS do que na safra anterior. As maiores precipitações se concentraram nas regiões do centro-oeste até o oeste da Bahia. A previsão probabilística de precipitação elaborada em conjunto pelo CPTEC e o INMET para os meses de DJF indica precipitações abaixo da normal climatológica para o RS, oeste do Paraná e sul do MS. Para as demais regiões a probabilidade é que permaneçam ao redor da normal climatológica.
O longo período da previsão probabilística deixa incertezas e dificulta uma análise quantitativa mais acurada do risco da ferrugem na safra em regiões específicas. Porém, analisando-se um conjunto de fatores até o momento sugere-se que o risco pode ser baixo para regiões subtropicais do Brasil e comparativamente mais alto para o centro-oeste do país. Para o RS, resultados preliminares de um estudo em andamento no nosso grupo mostraram correlação entre a severidade média das epidemias na região com as temperaturas do mar em regiões do Oceano Pacífico e do Atlântico no período de NDJ. A temperatura do mar, mais fria que o normal nesse momento, em regiões do pacífico pode indicar uma tendência de menor risco da ferrugem no RS, mas que poderá ser melhor determinado no mês de janeiro.
A previsão quantitativa de risco da ferrugem para um país de dimensões continentais como o Brasil é desafiadora. No entanto, os esforços irão se intensificar nessa safra para testar metodologias de previsão de risco que possam ser úteis para o conhecimento antecipado do comportamento das epidemias nas diferentes regiões. Nos próximos dois anos um projeto apoiado pelo CNPq e liderado pelo nosso laboratório em parceria com meteorologistas e climatologistas no INMET, CPTEC e IRI testará a utilidade das previsões de chuva para períodos de 15 a 30 dias no futuro para se mapear áreas de maior risco e orientar para tomada de decisão no decorrer da safra. A importância da soja para o país e a necessidade de sermos competitivos é motivo de sobra para pensar que não é sustentável continuar tomando decisões sem critérios embasados em situações reais de risco. A melhor forma é continuar aprendendo com o passado, documentando muito bem o presente e melhorando nossa capacidade de prever o futuro.
Revista Plantio Direto, edição 108, novembro/dezembro de 2008.