Plantas Daninhas Tolerantes e Resistentes ao Glyphosate


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Publicado em: 01/10/2008

Plantas daninhas tolerantes e resistentes ao glyphosate

Leandro Vargas1; Dionísio L.P. Gazziero2; Mário A. Bianchi3; Mauro A. Rizzardi41Eng.-Agro., D. S., Pesquisador da Embrapa Trigo. Caixa Postal 451. Passo Fundo, RS. vargas@cnpt.embrapa.br2Eng.-Agro., D. S., Pesquisador da Embrapa Soja. gazziero@cnpso.embrapa.br3Eng.-Agro., D. S., Pesquisador da Fundacep. mariobianchi@fundacep.com.br4Eng.-Agro., D. S., Professor da Faculdade de Agronomia/UPF. rizzardi@upf.br

Introdução

No Brasil o glyphosate vem sendo utilizado há mais de 30 anos pelos agricultores, principalmente no plantio direto, e em pomares para controle da vegetação na linha das culturas. A tecnologia da soja resistente ao glyphosate fez com que o uso desse herbicida fosse ampliado. Atualmente, são realizadas de duas a três aplicações de glyphosate por ciclo da soja (uma antes da semeadura e uma ou duas após na emergência da soja). Além disso, essa tecnologia permitiu reduzir ou eliminar a necessidade da aplicação de outros herbicidas, para o manejo de diferentes espécies de plantas daninhas o que contribui para o aumento da pressão de seleção e aparecimento de biótipos resistentes.

O número de plantas daninhas resistentes ao glyphosate está aumentando rapidamente em áreas cultivadas com soja transgênica em países como os Estados Unidos. No Brasil, foram identificadas três espécies resistentes (Conyza bonariensis e Conyza canadensis, Lolium multiflorum e Digitaria insularis) e constatado que leiteiro ou amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), corda-de-viola (Ipomoea spp.), poaia-branca (Richardia brasiliensis) e trapoeraba (Commelina benghalensis) apresentam tolerância ao glyphosate dependente do estágio de desenvolvimento. A identificação de outras espécies dependerá do modo que o glyphosate será utilizado nos próximos anos.

Situação de resistência de plantas de buva ao Glyphosate (esquerda), aplicação isolada de glyphosate (direita). manejo indicado com aplicação seqüencial glyphosate+2,4-D a três semanas da semeadura e paraquat+diuron a um dia da semeadura (detalhe).

Manejo indicado com aplicação seqüencial glyphosate+2,4-D a três semanas da semeadura e paraquat+diuron a um dia da semeadura.

O glyphosate é usado de forma repetida (antes da semeadura e na pós-emergência da soja) e, com raras exceções, como único produto e método de controle, impondo grande pressão de seleção de espécies tolerantes e/ou resistentes, já que a soja transgênica está presente em praticamente toda a área cultivada com soja no Rio Grande do Sul. O resultado é evidente em diversas lavouras havendo seleção das plantas daninhas tolerantes como a corda-de-viola, o leiteiro, a poaia-branca e a trapoeraba, e seleção de espécies resistentes como o azevém e a buva. Os dois primeiros casos de resistência ao glyphosate no Brasil foram identificados no Rio Grande do Sul (azevém em 2003 e buva em 2005). Casos de biótipos de buva e azevém resistentes ao glyphosate também foram identificados no Paraná assim como de buva no estado de São Paulo. O uso continuado e repetido é considerado a principal causa para seleção de espécies tolerantes e/ou resistentes.

Situação no Rio Grande do Sul

Na safra de soja de 2006/2007 foram avaliados na Embrapa Trigo 39 casos de suspeita de resistência, sendo 19 casos de suspeita de resistência em leiteiro; 5 casos de suspeita em buva e 15 casos de suspeita em azevém. Todas as amostras (casos) de azevém e buva foram positivos para resistência, ou seja, as amostras enviadas para teste eram de plantas resistentes ao glyphosate. Já os testes com leiteiro foram todos negativos, indicando que os casos avaliados se tratavam de falhas de controle e não resistência. O impacto da seleção de espécies está, principalmente, no custo de produção, já que o produtor terá que utilizar outros herbicidas na área, normalmente com custo superior ao do glyphosate e com menor eficiência, resultando em maior gasto com herbicida, menor controle e perdas na produção. Assim, o produtor que desejar usar a tecnologia da soja transgênica por maior tempo deverá adotar medidas de prevenção e controle de plantas daninhas tolerantes e resistentes.

Situação do Paraná

No estado do Paraná, o histórico das áreas de produção da ”soja RR”, resistente ao glyphosate, é um pouco mais recente do que as do Rio Grande do Sul. Mas, os problemas com plantas daninhas resistentes são semelhantes. A resistência das plantas daninhas aos herbicidas da soja convencional cresceu rapidamente não só pelo uso continuado dos mesmos produtos, mas também devido a outros fatores que devem ser destacados dada a importância. Assim como no Rio Grande do Sul, no Paraná, a maioria das propriedades são pequenas e utilizam máquinas alugadas, o que contribuiu para a disseminação. Parte do estado tem inverno relativamente quente e com boa distribuição de chuva no período, permitindo que algumas espécies, como picão-preto e leiteiro, tenham até três ou quatro gerações por ano. Adicionalmente, no final dos anos 90 o milho safrinha passou a ser cultivado com grande freqüência e como era considerada uma cultura de risco, pelo menos 80% das áreas não utilizavam herbicidas. O restante utilizava dose abaixo da recomendada. Isto contribuiu para o rápido aumento do banco de sementes, e tornou difícil o controle no verão seguinte, assim como acontece nas áreas deixadas em pousio. O problema se agravou com o tempo, e a pressão do banco de sementes associado aos problemas com plantas resistentes estimulou o cultivo da soja RR.

Uma das grandes preocupações com essa tecnologia era a seleção de plantas tolerantes ao glyphosate, como a trapoeraba e a corda-de-viola. Porem, a resistência de plantas daninhas a esse herbicida acabou sendo um dos fatores mais preocupantes. Inicialmente foram identificados biótipos de azevém resistentes ao glyphosate na região central do estado, que possui clima semelhante ao do Rio Grande do Sul. Mais tarde sugiram biótipos de buva resistentes na região oeste do estado, cujo clima é mais ameno, e recentemente foram identificados biótipos de capim-amargoso também resistente ao glyphosate, na mesma região. Nos três casos, trata-se de espécies que vegetam antes do cultivo da soja, mas se o controle for ineficaz podem se tornar um problema também para a cultura. Tanto a buva como o capim-amargoso possuem sementes pequenas facilmente carregadas pelo vento, o que pode facilitar a rápida disseminação.

Situação no Brasil Central

No Brasil Central ainda não foram oficializados casos de resistência de plantas daninhas resistentes ao glyphosate, mas sabe-se que buva e capim-amargoso compõem a lista das espécies mais importantes da região, o que no mínimo serve como um alerta para justificar a adoção de técnicas que envolvem a prevenção e o controle de plantas resistente.

Medidas gerais de controle

A maior motivação para adoção de práticas de prevenção e manejo da resistência por parte do produtor resulta da resposta da seguinte pergunta: Na impossibilidade de uso do glyphosate qual herbicida será utilizado? Seja qual for a resposta, o mais provável é que será um herbicida menos eficiente, com maior custo e maior impacto ambiental.

A decisão está nas ”mãos” do produtor. Porem, cabe a assistência técnica apresentar alternativas de manejo para que o produtor decida levando em consideração as suas preferências. Contudo, é importante salientar que para evitar o agravamento da seleção de espécies tolerantes e/ou resistentes, e prolongar o tempo de utilização eficiente da tecnologia das culturas resistentes ao glyphosate, o produtor deve adotar medidas de manejo para prevenir a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes, pois o custo para combater é maior. Dentre várias práticas de manejo as principais indicadas são:

a) Não usar mais do que duas vezes herbicidas com o mesmo mecanismo de ação na mesma área. Em casos onde a seleção de espécies resistentes e/ou tolerantes ocorrer, deve ser implantado um sistema de rotação de mecanismos de ação herbicida, eficazes sobre as espécies problema.

b) Monitorar e destruir plantas suspeitas de resistência. Após a aplicação do herbicida as plantas que sobreviverem devem ser arrancadas, capinadas, roçadas, ou seja, controladas de alguma forma evitando que essas plantas produzam sementes e se disseminem na área.

c) Fazer rotação de culturas. A rotação de culturas oportuniza a utilização de um número maior de mecanismos de ação herbicidas.

d) Reduzir a população de plantas daninhas. A aplicação de herbicidas em áreas com baixa quantidade de plantas daninhas tem menos chance de selecionar indivíduos resistentes.

Manejo e controle de azevém resistente ao glyphosate

O primeiro caso de resistência ao glyphosate no Brasil foi o do azevém, identificado em Vacaria-RS. Posteriormente, outros casos de azevém resistente foram confirmados nos municípios gaúchos de Lagoa Vermelha, Capão Bonito, Sananduva, Ciríaco, Tapejara, Bento Gonçalves, Caxias, Flores da Cunha, Marau, Passo Fundo, Carazinho, Ernestina, Tio Hugo, Tapera, Espumoso, Ibirubá e Tupanciretã, evidenciando que a dispersão está ocorrendo rapidamente no Rio Grande do Sul. Também foi identificado azevém resistente ao glyphosate em São Joaquim, em Santa Catarina. No caso do azevém, o trânsito de animais e o comércio de sementes são considerados os principais fatores que favorecem a dispersão a longas distâncias.

São muitos os casos de falhas no controle do azevém antes da semeadura do milho e da soja. O controle dos biótipos de azevém resistentes ao glyphosate, de forma geral, é obtido com uso dos herbicidas graminicidas ”fops” e ”dims” (Tabela 1). Na cultura do milho, as triazinas e o nicosulfuron, entre outros, são boas alternativas de controle do azevém. É importante o planejamento do controle antes da semeadura (15 a 20 dias antes da semeadura da soja) de forma a permitir o controle do azevém em tempo suficiente para evitar os efeitos negativos da competição e da alelopatia sobre a cultura. Além disso, em caso de uso de graminicidas, deve-se levar em consideração que alguns deles possuem efeito residual e podem afetar culturas como o milho, o trigo e a cevada.

Tabela 1. Herbicidas que controlam azevém resistente e sensível ao glyphosate1.

A identificação de capim-amargoso resistente ao glyphosate é recente e os estudos das instituições de oficiais de pesquisa estão em fase de execução. Porem, a experiência tem mostrado que alguns graminicidas pós-emergentes inibidores da ACCase são eficientes no controle desta espécie.

Manejo e controle de buva resistente ao glyphosate

As recomendações de manejo de buva são no sentido de evitar que os biótipos resistentes produzam sementes. A buva é uma espécie anual e uma planta chega a produzir mais de 200 mil sementes.

O controle manual, aplicações localizadas de herbicidas e a instalação de culturas para cobertura do solo no inverno são algumas alternativas. O cultivo de aveia-preta ou de trigo reduziu de 55 a 92% a população e no mínimo a metade do porte das plantas de buva antes da semeadura da soja (Tabela 2). Isso facilita o controle na dessecação antes da semeadura da soja com relação momento da aplicação e a dose dos herbicidas utilizados. Além disso, a redução da densidade contribui para diminuir as chances de selecionar biótipos de buva resistentes ao glyphosate.

Tabela 2. Influência do tipo de cultivo no outono/inverno sobre a população de buva (Conyza bonariensis) presente antes da semeadura da soja em três locais do Rio Grande do Sul. Safra 2007/07.

A pesquisa evidencia que o controle dos biótipos resistentes é mais eficiente quando realizado durante o inverno, já que a buva é mais sensível aos herbicidas em estádios iniciais de desenvolvimento. Na Tabela 3 constam herbicidas utilizados para controle de buva no inverno, na dessecação pré-semeadura e na pós-emergência.

Tabela 3. Herbicidas que controlam buva resistente e sensível ao glyphosate1.

Cabe salientar que o herbicida metsulfuron-metill apresenta residual no solo que deve ser considerado antes da semeadura de culturas sucessivas. A recomendação é que esse herbicida seja aplicado 60 dias antes da semeadura do milho ou da soja. Na dessecação, pré-semeadura do milho ou da soja, geralmente as plantas de buva estão em estádios avançados de desenvolvimento e apresentam maior tolerância aos herbicidas. Nesse caso, o controle eficiente da buva tem sido obtido com 2,4-D (1000 a 1340 g ha-1) e chlorimuron (15 a 20 g ha-1) associados ao glyphosate (1080 g ha-1) (Tabela 3). As aplicações seqüenciais têm apresentado excelentes resultados. Nesse caso, o glyphosate associado ao 2,4 D ou ao chlorimuron é aplicado 15 a 20 dias antes da segunda aplicação. A segunda aplicação, utilizando-se paraquat (2,0 L ha-1 de produto comercial) ou paraquat + diuron (150 a 200 g ha-1), deverá ser realizada 1 a 2 dias antes da semeadura (Tabela 3). Aplicação seqüencial de amônio-glufosinato, paraquat ou de paraquat + diuron também apresentam alta eficiência.

O uso de herbicidas pré-emergentes, como o sulfentrazone (Boral) e o diclosulam (Spider) são alternativas eficientes para manejo das plantas daninhas. Esses herbicidas quando utilizados na pré-emergência da soja (semear/aplicar e aplicar/semear) de forma geral apresentam controle eficiente das espécies tolerantes e/ou resistentes ao glyphosate provenientes do banco de sementes do solo.

A tecnologia da ”soja RR” possibilita o uso de um produto eficiente e é uma importante alternativa para o manejo de plantas daninhas. Mas, como qualquer outro herbicida, o glyphosate deve ser utilizado com base nas recomendações que permitam evitar a manifestação de biótipos daninhas resistentes.

Bibliografia Consultada

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Revista Plantio Direto, edição 107, setembro/outubro de 2008.