Safra 2008


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Publicado em: 01/10/2008

Safra 2008: amarelecimento de cereais de inverno preocupou agricultores

Na safra 2008 agricultores e técnicos demandaram informações sobre o acentuado amarelecimento de plantas nas lavouras de trigo. A ocorrência do problema levou a realização de um debate com a participação dos pesquisadores Erlei Melo Reis, Jurema Schons, Norimar Denardin, Ariano Moraes Prestes e Elmar Luiz Floss (UPF), José Roberto Salvadori e Douglas Lau (Embrapa Trigo), Otoni Souza Rosa e Amarílis Barcellos (OR Sementes), Dirceu Gassen (Cooplantio) estudantes de pós-graduação da UPF e assistentes técnicos de cooperativas, extensionistas, produtores e Associação de Engenheiros-agrônomos de Passo Fundo. O evento, organizado pela Revista Plantio Direto, reuniu 55 participantes na Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, no dia 18 de agosto.

O amarelecimento de folhas de cereais de inverno pode estar associado com várias causas, desde a deficiência de nitrogênio, distúrbios fisiológicos causados pelo uso de produtos químicos e eventos climáticos e por agentes causadores de doenças em plantas.

Durante a reunião foram apresentados os principais fatores que podem ter causado ou influenciado o amarelecimento das plantas de trigo, tais como VNAC, mosaico e bacteriose. As identificações iniciais indicaram a predominância do vírus do mosaico. Foi considerada a possibilidade de estarem presentes dois tipos de virose nas lavouras nessa safra: o mosaico estriado já conhecido pela pesquisa, pelos agricultores e técnicos, e um novo, o ”mosqueado”.

Discussão

A precipitação média do mês de junho foi de 232mm (Figura 1), quase o dobro do normal, prejudicando a qualidade da semeadura de trigo que, na maior parte das lavouras, ocorreu com excesso de umidade no solo, condição favorável para a migração do fungo vetor do vírus do mosaico para o sistema radicular das plantas. Já em julho, fase inicial de desenvolvimento do trigo, a precipitação foi à metade da normal.

Figura 1. Precipitações médias mensais em Passo Fundo, RS.

Na apresentação de resultados de pesquisa e das observações de campo, os participantes da reunião confirmaram que a semeadura em junho, realizada sob condições adversas devido o excesso de umidade, favoreceu a compactação e o encharcamento do solo, condição ideal para o desenvolvimento do fungo Polymyxa, vetor do vírus do mosaico.

O amarelecimento de trigo atribuído ao mosaico ocorreu com maior severidade em Passo Fundo, Palmeira das Missões, Carazinho, Espumoso e municípios próximos. Já, nas regiões onde o trigo foi semeado em julho, com menos chuvas, Vacaria e Lagoa Vermelha, o amarelecimento de lavouras não foi considerado um problema.

As temperaturas médias mensais também foram diferentes das normais, com mais frio em junho e calor em julho, nas fases de semeadura e fases iniciais de desenvolvimento do trigo (Figura 2).

Figura 2. Temperaturas médias mensais em Passo Fundo, RS.

Viroses e vetores

Os vírus são patógenos que tem organização estrutural extremamente simples. Para serem introduzidos nos tecidos hospedeiros, os vírus de planta normalmente precisam de vetores, que podem ser insetos, fungos, nematóides ou ácaros. Em alguns casos, a transmissão também pode acontecer de forma mecânica, através de contato e por sementes.

Figura 3. Sintomas de VNAC em folhas de trigo e danos na espinga.

Os vírus atuam manipulando o metabolismo normal da célula para sua própria multiplicação. Essa alteração leva a desordens fisiológicas e a conseqüente expressão dos sintomas. Muitos dos sintomas de virose se assemelham a sintomas de deficiências nutricionais.

O nanismo amarelo em cereais de inverno, tradicionalmente conhecido como VNAC, é causado por várias espécies de vírus as quais possuem diferentes espécies de afídeos como vetores. Na região Sul do Brasil, nas décadas de 1970 predominavam as espécies Metopolophium dirhodum (pulgão-da-folha) e Sibobion avenae (pulgão-da-espiga). Nas últimas décadas predominam Schizaphis graminum (pulgão-verde), Sibobion avenae (pulgão-da-espiga) (Figura 5) e o Rhopalosiphum padi (pulgão-da-aveia). No início do ciclo da cultura são comuns o pulgão-verde e o pulgão-da-aveia. No final de ciclo da cultura, aparecem como vetores o pulgão-da-espiga e o pulgão-da-folha, embora a frequência deste último tenha diminuído nas lavouras do Rio Grande do Sul.

Figura 4. Vetores de VNAC, pulgão-da-aveia, Rhopalosiphum padi e pulgão-verde, Schizaphis graminum.

Figura 5. Pulgão da espiga, Sibobion avenae.

A eficiência de transmissão das espécies de vírus varia em relação à espécie de afideo vetor. A mais freqüente no Brasil é a BYDV-PAV (Barley yellow dwarf virus – PAV), transmitida principalmente pelo pulgão R. padi.

Os vírus que causam o nanismo amarelo se mantém na lavoura nos meses de verão em plantas espontâneas de cereais de inverno. Como a aveia é plantada antes do trigo, normalmente as populações de afídeos vetores e do vírus podem se multiplicar sobre este hospedeiro para depois migrarem para o trigo. Os pulgões contendo partículas de vírus adquiridas nessas plantas migram para lavouras de trigo, disseminando a virose.

O vírus do mosaico do trigo (Soil-borne wheat mosaic virus - SBWMV), transmitido pelo fungo de solo Polymyxa graminis, é responsável por uma das principais viroses que afetam a produção de trigo. Essa virose é constatada, principalemente, em áreas onde há maior umidade no solo, ambiente que favorece o desenvolvimento do fungo Polymyxa. A incidência da virose pode ser agravada em anos com excesso de precipitação.

Os sintomas podem ser verificados em plantas isoladas e/ou em ”reboleiras”. As plantas com sintomas apresentam coloração verde-clara a amarelo e reduzido crescimento. O vírus do mosaico coloniza células do parênquima, o mosaico que ocorre nas folhas é resultado da alternância de áreas sintomáticas e não sintomáticas nas folhas.

A doença influencia no perfilhamento, na formação de espiga e enchimento de grãos, com conseqüente queda na produtividade da cultura. No Brasil, há relatos de que o vírus causa reduções de até 50% na produtividade dependendo da cultivar de trigo.

Figura 6. Perfil da evolução do sintoma de mosaico em folhas de trigo.

Figura 7. Perfil da evolução do sintoma de mosaico estriado em folhas de trigo.

O fungo Polymyxa graminis necessita umidade para se movimentar e migrar com maior facilidade no solo. Depois de inoculado na planta o SBWMV necessita de temperatura amena para manifestar os sintomas na planta.

Na safra 2008, as condições ambientais foram extremamente favoráveis em termos de umidade e temperatura para a movimentação e instalação das estruturas de repouso do fungo Polymyxa nas raízes das plantas de trigo, seguido da liberação das partículas virais que passam a se replicar e translocar no interior da planta, causando danos que são perceptíveis a partir do surgimento dos sintomas.

Em condições normais os sintomas da doença ocorreriam na primavera, com as plantas de trigo espigando, amenizando os danos na cultura. Como a temperatura no mês de julho foi alta em relação à média do período, caracterizando temperatura de primavera, a condição tornou-se extremamente favorável para a implantação do patógeno e desenvolvimento da sintomatologia muito cedo. Por isso foram percebidas no campo plantas jovens com sintomas avançados de virose.

Como medida de controle do mosaico recomenda-se o uso de variedades resistentes.

Bacterioses

Em análises realizadas no laboratório de Bacteriologia Fitopatológica da Universidade de Passo Fundo na safra 2008, foi identificada em folhas de trigo com amarelecimento a presença da bactéria Xanthomonas translucens pv. Undulosa, responsável pela estria bacteriana em cereais de inverno.

A estria bacteriana da folha do trigo é uma doença de difícil controle que pode causar danos de até 40% na produção, quando as condições forem favoráveis à doença. A semente é o principal meio de transporte e disseminação, determinando focos de infecção em áreas próximas, vizinhas ou mesmo em diferentes áreas.

A bactéria sobrevive em sementes e restos culturais de trigo e cevada, onde permanece por períodos de até oito meses. A temperatura entre 15 a 30 oC, os períodos prolongados de chuvas, as noites quentes e úmidas, são fatores que propiciam a multiplicação da bactéria nos tecidos foliares. A condição de ar seco não é limitante ao progresso da doença, uma vez que durante a noite existe grande quantidade de orvalho, favorecendo a entrada da bactéria nos estômatos. As injúrias causadas por insetos e ventos também são portas de entrada para essa bactéria.

Figura 8. Sintomas estria bacteriana.

A dispersão ocorre a curtas distâncias por meio dos respingos de chuva, de insetos e contato entre as plantas. Doenças radiculares predispõem a planta de trigo para a infecção por Xanthomonas e a presença de afídios na lavoura pode resultar na disseminação a longas distâncias.

Os sintomas típicos são manchas translúcidas que são facilmente observadas na presença de luz (encharcamento) as quais produzem exsudatos que juntamente com o orvalho formam pequenas gotas de cor branca leitosa e/ou amarelas podendo pela quantidade de umidade juntar-se e formar gutação leitosa. Ao secarem mostram-se de cor parda-avermelhada passando para o marrom-pardo. Essas manchas de coloração parda-avermelhada podem ser confundidas com sintomas de outras doenças. Quando a severidade é alta as manchas coalescem (juntam-se) formando longas linhas no sentido longitudinal da folha.

A Xanthomonas além de causar doença, em temperaturas de 0 a -10 oC tem atividade nucleadora de gelo causando injúrias no tecido vegetal (orientação de cristais de gelo) intensificando os danos de geada na cultura do trigo.

As bactérias Pseudomonas syringae, Pseudomonas fluorescens e Erwinia herbicola habitam a superfície dos tecidos vegetais sem causar doenças e também possuem propriedade nucleadora de gelo, favorecendo danos físicos causados pela formação da geada. Os sintomas são manchas claras e translúcidas (encharcamento) que após a morte do tecido secam deixando a lesão com a cor parda.

A Pseudomonas syringae pv. syringae (Branqueamento ou Crestamento da folha), Pseudomonas fuscovaginae (Queima-da-bainha), Pseudomonas atrofaciens (Podridão da gluma), Xanthomonas translucens pv. translucens (Mancha estriada da folha) e Erwinia rhapontici (sementes rosadas) podem causar doenças no trigo e triticale, devido às condições ambientais que possibilitam que as bactérias se beneficiem dos ferimentos, penetrando no tecido foliar e tornando-se patogênicas.

A ação de injúrias por baixas temperaturas depende da diversidade e da quantidade de bactérias presente na planta, tanto daquelas que são apenas nucleadoras de gelo, como daquelas que, além dessa propriedade, também sejam patogênicas.

Até o momento não há um método eficiente de controle da doença. Como a semente é principal veículo de disseminação de bactérias a análise fitobacteriologica dos lotes é extremamente importante.

Altas concentrações dessas bactérias associadas às condições ambientais favoráveis e a outras doenças como viroses, doenças radiculares, doenças foliares e mesmo distúrbios fisiológicos, podem potencializar a dinâmica epidemiológica. Para minimizar os danos são recomendadas adubações ricas em potássio.

Na safra 2008, verificou-se em plântulas de trigo uma interação de fatores bióticos (microrganismos) e abióticos (ambiente) na incidência e severidade da estria bacteriana em algumas lavouras, esses fatores se relacionaram com as condições climáticas dos meses de junho e julho, período de plantio e desenvolvimento inicial do trigo e com o amarelecimento das lavouras no mês de agosto, fato que motivou a reunião.

Considerações

Durante a reunião-debate foi informado aos participantes que a Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo e a Embrapa Trigo estão conduzindo pesquisas sobre viroses em cereais de inverno. Os resultados poderão trazer novas informações sobre espécies de vetores e de viroses de mosaico do trigo.

Como conclusões do debate sobre o amarelecimento de cereais de inverno foi registrado que:

a) o controle de viroses exige a combinação de várias práticas. A mais importante é a seleção de cultivares resistentes ou tolerantes. Nesse sentido destacou-se a necessidade de que as empresas obtentoras das cultivares incluam informações sobre o nível de resistência de cada cultivar aos diferentes vírus que ocorrem nas lavouras.

b) para o VNAC, a escolha de cultivares com tolerância ou resistência, o uso de tratamento de sementes e o monitoramento da população de pulgões são estratégias importantes para impedir a disseminação da virose na lavoura.

c) em áreas com histórico de ocorrência de mosaico o agricultor deve sempre optar por variedades resistentes ou tolerantes e evitar, quando possível, semear com excesso de umidade no solo, pois a qualidade de semeadura é um importante fator para o melhor desenvolvimento de trigo e dificultar o desenvolvimento do fungo vetor.

d) um fator relacionado ao amarelecimento de lavouras de cereais de inverno foi o uso freqüente de calcário na superfície do solo, com elevação do pH, acima de 6,5. Com base em dados experimentais, destacou-se a relação entre a severidade do vírus do mosaico e o aumento na dose de calcário aplicada.

e) destacou-se o maior volume de amostras de solo com pH elevado na superfície, resultado de aplicações freqüentes de calcário e a carência de potássio, além da deficiência de manganês e outros micronutrientes importantes na construção das defesas da planta. Esses desequilíbrios podem estar relacionados com a maior incidência de microrganismos prejudiciais nas lavouras de trigo.

f) que a relação entre a severidade de mosaico e cultivares de trigo presentes na lavouras necessita ser melhor determinada. Através dos relatos apresentados na reunião, constatou-se que houve maior incidência do amarelecimento atribuído ao mosaico, em cultivares que ocupam o maior volume de área semeada atualmente. Porém, foram relatadas diferenças acentuadas de reação entre cultivares na mesma lavoura.

g) a relação entre a compactação e encharcamento do solo em períodos de chuvas gerou opiniões diversas. Foi relatado que, em áreas onde foi usado subsolador foram obtidos resultados contraditórios quanto à ocorrência e severidade de mosaico. Sabe-se que o excesso de umidade favorece a disseminação e desenvolvimento do vetor. Nesse sentido, o manejo de lavouras para melhorar a estrutura física e a drenagem de solos foi indicado como necessário para a sustentabilidade de sistemas de produção sob plantio direto.

h) para diminuir a ocorrência e a severidade de vírus do mosaico o produtor deve dar especial atenção à escolha de cultivares resistentes ou tolerantes, à qualidade da semeadura e aos cuidados no manejo do solo, principalmente quanto à aplicação de calcário.

Revista Plantio Direto, edição 107, setembro/outubro de 2008.