Tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários
Walter Boller1 ; Carlos Alberto Forcelini2; Deise Isabel da Costa31Eng.-Agr. Dr. Prof. da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAMV) e do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGAgro) da Universidade de Passo Fundo - E-mail: boller@upf.br2Eng.-Agr. PhD. Prof. da FAMV e do PPGAgro da UPF, E-mail: forcelini@upf.br 3Bióloga MS, Doutoranda do PPGAgro UPF - E-mail: dedacost@gmail.com
Introdução
A tecnologia de aplicação busca a colocação dos produtos fitossanitários em quantidades adequadas nos locais onde eles são desejados, no momento adequado, com o mínimo desperdício e com a máxima segurança ao homem e ao ambiente. Para alcançar os objetivos a que se propõe, a tecnologia de aplicação baseia-se em conhecimentos técnico-científicos dos quais alguns passam a ser discutidos. Os cereais de inverno compreendem as culturas de aveia, cevada, centeio, trigo, e triticale. Nestas culturas pode haver necessidade de aplicar herbicidas, inseticidas e fungicidas. Os herbicidas normalmente são aplicados somente uma vez e no início do ciclo dos cereais de inverno, quando o efeito guarda-chuva das plantas cultivadas sobre os alvos a ser atingidos não é muito pronunciado. Já os inseticidas e os fungicidas devem ser aplicados em função da ocorrência das pragas e das doenças, o que pode significar nenhuma, uma ou mais aplicações ao longo do ciclo das culturas, dependendo da espécie, do cultivar, do manejo adotado e das condições ambientais. Diversos aspectos dizem respeito à tecnologia de aplicação e podem interferir nos resultados das aplicações de produtos fitossanitários em cereais de inverno.
Qualidade da água
A qualidade da água utilizada nas aplicações não se limita apenas a ausência de impurezas e de argila em suspensão, sendo importante observar também a temperatura, o pH e a dureza. A pureza da água é um primeiro ponto a considerar e refere-se à ausência de detritos capazes de causar entupimentos nos componentes das máquinas aplicadoras. Argila e compostos orgânicos em suspensão podem adsorver ingredientes ativos de produtos fitossanitários e desativar os mesmos no interior do depósito do pulverizador, antes da sua aplicação.
A temperatura da água pode afetar a estabilidade das caldas. Para alguns produtos, a temperatura baixa pode ocasionar a cristalização. Considera-se ideal para a maioria dos defensivos, a faixa de temperatura entre 15 e 25 ºC.
A dureza da água refere-se à presença de cátions como o Ca++ e o Mg ++, que podem insolubilizar parte dos ingredientes ativos dos defensivos. Águas duras, com elevado teor de cátions Ca++ e Mg ++ (acima de 320 ppm de CaCO3), podem interferir no comportamento das caldas, causando floculação e originando aglomerados que podem entupir os filtros e as pontas das máquinas aplicadoras. Outro prejuízo pode ser a reação química com componentes dos ingredientes ativos, formando compostos insolúveis e afetando a atividade biológica. Quando necessário, a dureza da água deve ser corrigida, adicionando-se adjuvantes específicos, antes da preparação da calda.
O pH da água interfere no grau de acidez ou de alcalinidade das caldas de produtos fitossanitários e tende a influir na estabilidade destas. De modo geral, os produtos fitossanitários apresentam maior eficiência quando as caldas são pouco ácidas, com pH entre 6,0 e 6,5. A neutralização de íons presentes na água e o abaixamento do pH podem ser realizadas acrescentando-se alguns adjuvantes, antes da adição dos defensivos no depósito das máquinas aplicadoras. Muitos produtos comerciais já contém na sua formulação substâncias tamponantes, que se destinam a manter o pH da calda mais próximo do ideal, independentemente do pH da água utilizada.
Absorção de produtos fitossanitários e uso de adjuvantes
Os produtos fitossanitários, em geral são depositados sobre a superfície de partes vegetais, como ramos, folhas e frutos. Estas apresentam uma barreira para a penetração de líquidos denominada cutícula (Figura 1). Os compostos polares apresentam dificuldades em passar pela cera da cutícula, mas passam mais facilmente pelas demais camadas. Por sua vez, compostos apolares atravessam com facilidade a cera e com dificuldade as demais camadas. Em condições de baixa disponibilidade de água às plantas, e à medida que avança a idade das mesmas, a espessura da cutícula aumenta, aumentando a restrição à penetração de produtos fitossanitários diluídos em água. Ambientes sob alta temperatura e baixa umidade relativa do ar induzem as plantas a reduzir as perdas de água através das superfícies foliares, o que também dificulta a penetração de produtos aplicados. Da mesma forma, temperaturas amenas e umidade relativa do ar elevada implicam na hidratação da cutícula e facilitam a penetração e a atuação de produtos fitossanitários.
Figura 1. Representação dos componentes da superfície folhar. Fonte: Theisen & Ruedell (2004)
Para vencer as barreiras das plantas à penetração dos defensivos, são utilizadas substâncias inertes, denominadas aditivos ou adjuvantes, capazes de modificar a atividade dos produtos aplicados e as características da pulverização. Estes produtos podem ser acrescentados à formulação dos produtos fitossanitários pelas empresas fabricantes, ou ser adicionados à calda no momento da pulverização. No caso da adição de adjuvantes pelo usuário é interessante conhecer a indicação do fabricante do defensivo, para evitar prejuízos na ação dos produtos ou até mesmo problemas de fitotoxixidade. Dentre os efeitos dos adjuvantes, destaca-se a redução da tensão superficial das gotas pulverizadas, causando o seu achatamento, o que aumenta a sua superfície de contato com o alvo biológico e melhora a cobertura deste (Figura 2).
Figura 2. Ação de achatamento das gotas por adjuvantes tensoativos. Fonte: Theisen & Ruedell (2004)
Diâmetro das gotas
O diâmetro das gotas é uma das características mais importantes de uma pulverização e representa o tamanho das gotas expresso em micrometros (µm – milésima parte de um mm). Depende das propriedades da calda de pulverização do modelo de ponta, da sua vazão, da pressão de pulverização e do seu estado de conservação. Como o tamanho das gotas produzidas em uma pulverização não é uniforme, o seu diâmetro é representado por um número, que comumente é o diâmetro mediano volumétrico (DMV). O DMV representa o diâmetro de gota que divide o volume pulverizado em duas metades, de modo que a metade apresenta tamanho menor que o DMV e a outra metade do volume é composta por gotas maiores que o DMV. O desgaste de componentes como as pontas de pulverização das máquinas aplicadoras aumenta as diferenças entre o tamanho das gotas menores e das maiores geradas por uma mesma ponta. Quando são utilizados bicos rotativos, o fator que determina o tamanho das gotas é a velocidade de giro (rpm) dos mesmos e o espectro produzido é mais homogêneo do que aquele obtido com pontas de energia hidráulica. As gotas, ao deslocarem-se da máquina onde foram geradas até o alvo biológico, atravessam uma camada de ar, cujas condições afetam o seu comportamento. As gotas maiores percorrem a distância que separa a fonte geradora e o alvo, em menor tempo, podendo depositar-se no topo das plantas ou sofrer escorrimento, quando forem muito grandes. Gotas de categoria média apresentam menor energia do que as grossas e dependem em parte da movimentação do ar para depositar-se sobre o alvo, podendo alcançar folhas no terço médio das plantas. Por sua vez, as gotas finas são aquelas que apresentam maior probabilidade de depósito no terço inferior das culturas, desde que haja condições atmosféricas adequadas para a sua chegada nesta parte das plantas. Na Figura 3 observam-se os efeitos da pressão de pulverização sobre o DMV das gotas produzidas por algumas pontas de energia hidráulica, de jatos planos. Para a definição do tamanho das gotas deverão ser consideradas as condições ambientais no momento da aplicação, com vistas à minimização das perdas por deriva e por evaporação, como será discutido logo a seguir.
Figura 3. Efeito da pressão de operação sobre o diâmetro mediano volumétrico (µm) das gotas geradas por pontas de pulverização de jato plano das séries XR, DG e TT. Fonte: Spraying Systems Co., 1999.
Densidade de gotas
O número de gotas distribuídas por unidade de área do alvo é denominado densidade de gotas. Para um mesmo volume de pulverização, a densidade de gotas é função do diâmetro das gotas, que por sua vez depende do modelo de ponta, da sua vazão e da pressão de pulverização. As características do alvo e do produto fitossanitário aplicado são determinantes da densidade de gotas de uma pulverização. Para manter a mesma densidade de gotas, à medida que o volume de uma pulverização é reduzido, o diâmetro das gotas também deve diminuir. As gotas aplicadas deverão depositar-se, em quantidade suficiente, nas partes das plantas cultivadas ou no solo, onde deverão exercer o seu efeito. Neste aspecto, é importante levar em conta que diferentes culturas, assim como diferentes estádios fenológicos de uma mesma cultura apresentam variações importantes no índice de área foliar, o que deverá ser considerado na definição da cobertura e do volume de calda a utilizar.
Deriva
A deriva consiste em um dos mais sérios problemas que podem ocorrer durante uma aplicação de defensivos agrícolas. As gotas liberadas nas máquinas aplicadoras podem ser arrastadas pelo vento ou por correntes aéreas ascendentes, causando perdas significativas e alcançando locais indesejados, vindo a contaminar áreas próximas ou distantes, fora do local de aplicação. Neste sentido, gotas muito finas (diâmetros menores que 100 µm) permanecem pairando no ar por muito tempo, podendo evaporar ou ser carregadas pelas correntes de ar para longe do alvo biológico, constituindo as perdas por deriva e contaminando o ambiente. A resistência do ar à queda livre de uma gota é inversamente proporcional ao seu diâmetro. Pressões de operação muito elevadas e pontas desgastadas são fatores que podem ocasionar elevadas percentagens de perdas do volume pulverizado, por deriva. Via-de-regra, a redução da deriva é obtida através da geração de gotas maiores que 200 µm, obtidas com a utilização de pontas de deriva reduzida, ou por meio da redução da pressão de operação. O mercado de componentes para pulverização oferece uma série de novos modelos de pontas, cujas características são a operação em baixas pressões (em torno de 100 kPa, 1,0 bar ou 15 lbf/pol²) até médias pressões (de 400 a 600 kPa), que originam gotas muito finas (menores de 100 µm) em menos de 10 % do volume pulverizado e gotas resistentes á deriva no restante do volume aplicado. De outro lado, as pontas com indução de ar devem ser operadas com pressão acima de 300 kPa e produzem gotas de tamanhos maiores, muito resistentes à deriva.
Evaporação de gotas
De acordo com a temperatura e a umidade relativa do ar, podem ocorrer maiores ou menores níveis de perdas de produtos fitossanitários através da evaporação. Quanto menor o diâmetro das gotas, tanto maior a sua superfície de contato com o ar e mais acentuada é a velocidade da sua evaporação. A duração das gotas é sensivelmente afetada pela temperatura e pela umidade relativa do ar. Para prevenir perdas de defensivos agrícolas por evaporação, devem-se evitar pulverizações quando a temperatura do ar ultrapassa 30º C e a umidade relativa do ar está abaixo de 60 %. A evaporação deve merecer maior atenção quando se utiliza baixos volumes de calda. Neste caso, a adição de óleo à calda pode ser uma forma importante de prolongar a vida das gotas e reduzir as perdas por evaporação, antes que estas cheguem ao alvo.
Penetração
A capacidade das gotas de vencer a barreira física constituída pela folhagem das plantas, atingindo pontos no interior das mesmas, denomina-se penetração. O modelo de ponta de pulverização, a pressão de operação, o diâmetro das gotas, as condições atmosféricas, a velocidade da máquina aplicadora, a altura de condução da barra e o volume de pulverização influem na penetração das gotas pulverizadas.
Quando o alvo se encontra no interior da folhagem, devem-se utilizar equipamentos e regulagens que proporcionem maior percentagem de gotas finas, que apresentam maior habilidade de penetração. Aplicações de fungicidas, realizadas preventivamente (menor desenvolvimento das plantas) apresentam maior probabilidade de sucesso, uma vez que as folhas inferiores ainda podem ser atingidas e protegidas pelas gotas da pulverização (menos barreiras à penetração das gotas no interior do dossel das plantas), ao passo que aplicações tardias encontram dificuldades de cobertura de todas as folhas.
Condições ambientais
Um importante aspecto a considerar, em relação ao comportamento das gotas e à eficácia de uma pulverização é a interferência que estas sofrem das condições ambientais. A umidade relativa do ar, além de interferir no comportamento das gotas, afeta a absorção dos produtos pelas plantas. Os valores da umidade relativa do ar costumam ser favoráveis à absorção da calda de pulverização, nas primeiras horas da manhã e ao final da tarde. Ao longo do dia, nas horas mais quentes a umidade relativa do ar, via-de-regra, fica muito aquém dos valores considerados como limites (60 %), favorecendo importantes perdas no processo de aplicação de defensivos (Figura 4).
Figura 4. Variação típica da velocidade do vento (m s-1), da temperatura do ar (ºC) e da umidade relativa do ar (%), ao longo de um dia. Fonte: Spraying Systems, Co., 1999.
A temperatura e a umidade relativa do ar exercem grande influência sobre a duração da vida da gota. Temperaturas acima de 30 ºC comprometem a qualidade das aplicações. A umidade relativa do ar deve ser de no mínimo 55 %. Por sua vez, baixas temperaturas (abaixo de 15 ºC) podem reduzir a eficácia de herbicidas em geral.
O vento em excesso causa deriva prejudicando a qualidade da aplicação e ocasionando perdas. Velocidades do vento próximas de 8 km h-1 mostram-se como desejáveis, uma vez que possibilitam uma melhor penetração das gotas pulverizadas no interior da folhagem das culturas, porém deve-se ter atenção com a deriva das gotas. A condição mais segura para as aplicações ocorre quando a velocidade do vento se encontra na faixa de 3,2 a 6,5 km h-1, o que corresponde a uma brisa leve (perceptível pelo movimento suave das folhas), conforme ilustra a Figura 5. Por outro lado, vento excessivo (acima de 9,6 km h-1) é considerado impróprio para a pulverização. Na impossibilidade de postergar uma aplicação, sob condições de vento excessivo, a utilização de gotas de categorias grossas ou muito grossas pode ser uma solução, porém esta possibilidade somente se presta para aplicações de produtos de ação sistêmica. Por outro lado, a ausência de vento pode estar associada com a ocorrência de correntes aéreas convectivas que podem manter as gotas mais finas de uma pulverização em suspensão, podendo transportá-las a distâncias imprevisíveis.
Figura 5. Identificação prática da velocidade do vento, em função de sinais visíveis e sua interpretação para fins de pulverização agrícola. Fonte: ANDEF (2004)
Durante o período noturno as condições ambientais costumam ser mais favoráveis do que ao longo do dia, porém nem todos os produtos podem ser aplicados à noite. Há que observar também a presença de orvalho sobre as superfícies das plantas, tanto à noite quanto nas primeiras horas do dia. Resultados de pesquisas conduzidas na Universidade de Passo Fundo demonstraram que a ação de herbicidas de contato não é afetada pela presença de orvalho, enquanto herbicidas sistêmicos tiveram sua ação retardada pelo orvalho. Para aplicações de fungicidas, quando existe orvalho abundante sobre as folhas e ocorre o escorrimento das gotas pulverizadas, há risco de perda na eficácia do tratamento. Não havendo escorrimento das gotas, os fungicidas podem ser aplicados sobre orvalho, até mesmo com volumes de calda reduzidos.
A luminosidade é importante para ativar herbicidas no interior das plantas, podendo a sua ausência (aplicações noturnas) interferir negativamente no efeito desejado. A ocorrência de chuvas logo após as aplicações pode ou não interferir no resultado. Existem produtos que são prontamente absorvidos e podem não sofrer interferência de chuvas, ao passo que outros necessitam de períodos de até quatro ou seis horas após a aplicação sem precipitações pluviais, para ser absorvidos pelas plantas.
Aspectos das culturas-alvo
Cereais de inverno apresentam características de área foliar e arranjo de plantas que oferecem relativa facilidade para a deposição das pulverizações de produtos fitossanitários nas partes onde são desejadas. Após o espigamento esta condição já não é tão favorável, encontrando-se dificuldades para depositar as pulverizações em folhas mais próximas do solo. Outro caso específico é o controle da giberela, quando o alvo a ser atingido é constituído pelas anteras, o que requer pulverização com gotas de categoria fina, direcionada para o topo das plantas, a qual somente será efetiva se realizada no momento em que as anteras se encontram expostas.
Aplicações de herbicidas
Na maioria das vezes, as pulverizações de herbicidas podem ser realizadas com gotas de categoria média (250 a 350 µm) até grossa (350 a 450 µm), dependendo do modo de ação do herbicida e das características morfológicas do alvo. Plantas daninhas com folhas horizontais e com maior superfície exposta são alvos facilmente atingidos pelos herbicidas, permitindo aumentar o tamanho das gotas da pulverização. Por outro lado, plantas daninhas com folhas eretas e estreitas como as poáceas podem requerer pulverizações de categoria fina (150 até 250 µm). Via-de-regra, estes produtos são aplicados com volumes de calda em torno de 100 L ha-1, embora esta variável seja dependente da densidade de cobertura requerida (gotas/cm²) e do tamanho das gotas. Uma pulverização com volume de 100 L ha-1 e gotas de 200 µm proporciona uma densidade teórica (caso todas as gotas produzidas tivessem o mesmo tamanho) de 240 gotas cm-2, enquanto que os mesmos 100 L ha-1, porém com gotas de 300 µm representam uma cobertura teórica de 70 gotas cm-2. Herbicidas pós-emergentes com ação sistêmica podem ser aplicados com 30 a 40 gotas cm-2 e os não-sistêmicos podem necessitar de até 70 gotas cm-2. Assim, a decisão do volume de calda a ser utilizado deve basear-se nas exigências do produto a ser aplicado e nas características do alvo a ser atingido. Resultados experimentais obtidos na FAMV/UPF dão conta de que herbicidas pós-emergentes não-sistêmicos podem apresentar um desempenho reduzido quando são aplicados com pontas de indução de ar (gotas de categorias muito grossas a extremamente grossas). Por outro lado, para pontas de jato plano convencionais e de deriva reduzida, o aumento da pressão de pulverização de 100 para 200 e até 300 kPa (1,0 para 3,0 bar ou aproximadamente 15 para 45 lbf/pol²) proporcionam aumentos significativos nos níveis de controle de plantas daninhas.
Aplicações de inseticidas
As pragas mais comuns em cereais de inverno são os pulgões e as lagartas, podendo em algumas regiões haver sérios problemas causados por percevejos. O número de aplicações de inseticida é bastante variável e depende da ocorrência das pragas. Para aplicar inseticidas com ação de contato, são indicadas de 40 a 50 gotas cm-2 com diâmetro de 100 a 200 µm. Para inseticidas sistêmicos 20 a 30 gotas com 200 a 300 µm para cada cm2 de área foliar a ser tratada. Neste caso, para definir o volume de calda a ser utilizado, deve-se levar em conta, além da cobertura desejada e do tamanho das gotas, o índice de área foliar (m² de área foliar para cada m² de área de solo) da cultura no momento em que se realiza a aplicação. Por exemplo, na aplicação de um inseticida com ação de contato, no momento em que o índice de área foliar for igual a 2,0, uma cobertura teórica de 50 gotas cm-2 com diâmetro de 200 µm pode ser obtida com um volume de calda de 40 L ha-1.
Aplicações de fungicidas
O número de aplicações de fungicidas pode variar de uma a quatro e depende da doença, do clima, das condições de cultivo e do cultivar utilizado. Há genótipos que permitem bons rendimentos de grãos com uma ou duas aplicações de fungicida, enquanto outros podem requerer três ou quatro. A regra é simples: os créditos obtidos com a escolha de cultivares menos suscetíveis às doenças podem ser utilizados para reduzir a necessidade de aplicações de fungicida.
Outro ponto a ser considerado na aplicação de fungicidas é a fase ou estádio da planta em que as doenças ocorrem. Oídio e ferrugem aparecem, geralmente, a partir do final do estádio de perfilhamento ou início da elongação, as manchas foliares manifestam-se a partir do emborrachamento, a giberela na floração e a brusone no emborrachamento e espigamento. Variações para mais cedo ou mais tarde podem ocorrer em função das condições de cultivo e de clima. É necessário, então, monitorar a cultura com freqüência. As condições de cultivo também influenciam a ocorrência de doenças e a necessidade de tratamentos. A monocultura pode antecipar as manchas foliares em 20 a 30 dias em relação ao cultivo em área de rotação. O tratamento de sementes também é prática importante para proteger a cultura de infecções por oídio e ferrugem nos primeiros 40 dias após a emergência das plantas.
Altos rendimentos de grãos em trigo requerem a manutenção da área foliar das plantas. Estima-se que, na fase de formação dos grãos, sejam necessárias de 300 a 350 plantas por metro quadrado, com três a quatro folhas sadias por espiga, para se obter rendimentos de grãos superiores a 3,0 t ha-1.
O acréscimo no rendimento de grãos com a aplicação de fungicidas é influenciado pela época de sua realização. Em experimentos realizados na Universidade de Passo Fundo, o rendimento adicional variou de 282 a 846 kg ha-1 com uma aplicação e de 1056 a 1206 kg ha-1 com duas aplicações. Apenas uma aplicação na floração proporcionou o menor retorno, pois foi realizada quando a área foliar já estava demasiadamente comprometida.
Uma vez iniciada a doença, atrasos na aplicação resultam em dificuldades maiores para seu controle. Em um estudo comparativo com duas aplicações de fungicida, iniciadas com 1 ou 10 % de severidade da ferrugem da folha, o atraso na aplicação resultou em menor rendimento de grãos (450 kg ha-1). Mesmo utilizando o dobro da dose ou intervalos menores entre aplicações, não foi possível recuperar o efeito do atraso na aplicação.
A decisão quanto à aplicação de fungicidas para o controle de doenças em cereais de inverno deve considerar o estádio da cultura, a doença, as condições climáticas e a expectativa de rendimento de grãos. Em cultivares mais suscetíveis à ferrugem e ao oídio, doenças que ocorrem mais cedo, três aplicações podem ser necessárias, na elongação, emborrachamento e floração. A primeira pode ser posicionada em função da presença de sintomas ou preventivamente, antecedendo a ocorrência de chuvas. Em genótipos resistentes ao oídio e à ferrugem, porém suscetíveis às manchas foliares, pode-se optar por um esquema com duas aplicações, a primeira na elongação ou emborrachamento e a segunda na floração. O manejo da brusone envolve uma aplicação no emborrachamento, para controlar o inóculo produzido na folha, e uma segunda na floração. A aplicação na floração também tem por objetivo o controle da giberela, doença dependente da ocorrência de chuvas enquanto as anteras estiverem presentes na espiga.
Para realizar as aplicações de fungicidas em cereais de inverno, o índice de área foliar a ser tratada tem de ser levado em conta, especialmente quando os tratamentos ocorrem em fases mais adiantadas do ciclo das culturas. Fungicidas com ação sistêmica requerem de 30 a 40 gotas com tamanho de 200 a 300 µm por cm2 e fungicidas com ação de contato apresentam desempenho satisfatório quando são empregadas de 50 a 70 gotas com diâmetro de 100 a 200 µm para cada cm2 de área foliar tratada. Em termos práticos, isso significa gotas de categorias finas até médias para fungicidas sistêmicos e de categoria muito fina até fina para fungicidas de contato. Para uma cultura com índice de área foliar 3,0, a aplicação de fungicidas sistêmicos com densidades teóricas de 30 a 40 gotas de 300 µm por cm2 pode ser obtida com volumes de calda de 130 a 165 L ha-1, respectivamente. Já, para obter cobertura teórica de 30 a 40 gotas por cm2, quando estas medem 200 µm, são necessários, respectivamente, volumes de calda de 40 a 50 L ha-1.
Experiências conduzidas na Universidade de Passo Fundo têm demonstrado que a utilização de volumes de calda entre 150 e 200 L ha-1, com gotas apresentando diâmetro mediano volumétrico (DMV) de 220 µm possibilitam maior expressão do potencial de controle de doenças por fungicidas do grupo dos triazóis e triazóis + estrobilurinas, quando comparados a volumes de 100 L ha-1com gotas de mesmo DMV.
Equipamentos de aplicação
A responsabilidade de depositar os defensivos agrícolas no alvo, no momento em que são necessários, em quantidade adequada, recai sobre as máquinas aplicadoras. Estas podem ser conduzidas por via terrestre (normalmente trata-se de pulverizadores de barras) ou por via aérea. A manutenção e as regulagens das máquinas aplicadoras de defensivos são pontos-chaves em relação ao desempenho dos produtos fitossanitários aplicados. Levantamento realizado pela FAMV/UPF na região norte do RS, nos anos de 2005 e 2006 revelaram que 70 % dos pulverizadores terrestres amostrados necessitam de algum tipo de reparo ou substituição de componentes para poder operar satisfatoriamente. As regulagens das máquinas aplicadoras compreendem, entre outros aspectos, a seleção das pontas de pulverização, o espaçamento entre os bicos, o ajuste da pressão de operação, a altura de condução das barras e por último o volume de calda aplicado.
Outro aspecto que preocupa é o uso de máquinas cada vez mais velozes nas aplicações de defensivos. Pulverizadores auto propelidos chegam a desenvolver velocidades de 12 até 16 km h-1 ou mais. Sabendo-se que para determinadas aplicações são indicadas gotas de categoria fina, percebe-se que estas terão dificuldade para depositarem-se sobre os alvos quando o pulverizador se desloca a velocidades tão elevadas (ocorre um vento relativo, que é capaz de suspender as gotas finas, que passam a sofrer maior deriva e maior evaporação do que em caso de baixas velocidades). Para evitar estas perdas, a tendência é utilizar regulagens ou pontas que geram gotas de tamanhos maiores, porém isso pode alterar a qualidade da pulverização, aumentando o depósito de produtos fitossanitários no topo das culturas, em detrimento das camadas de folhas inferiores. Também se verifica uma alteração da trajetória das gotas de categoria média, que de vertical passa para inclinada na direção do deslocamento. Assim, um lado da planta (em relação ao sentido de deslocamento da máquina aplicadora) recebe a maioria das gotas e o outro lado fica com cobertura insuficiente, como se estivesse ”na sombra”. Pontas de jatos planos duplos tem se mostrado eficazes para compensar estes desequilíbrios na cobertura das folhas de ambos os lados das plantas de cereais de inverno quando as velocidades de deslocamento das máquinas se situam em torno de 2,0 m/s (7,2 km/h). Ainda, sobre este tema, pesquisas realizadas na Alemanha levaram ao desenvolvimento de pontas de pulverização com jatos planos duplos com angulação diferenciada em relação à vertical, de modo que a trajetória real das gotas permita a cobertura uniforme das folhas em ambos os lados das plantas. Os resultados indicam que este efeito é obtido com velocidades de até 12 km/h. Estas novas pontas de pulverização parecem ser promissoras e já estão sendo testadas no Brasil, mas ainda não se conhecem os resultados oficiais das pesquisas.
Outra ferramenta de grande valor em aplicações de produtos fitossanitários em cereais de inverno é a aviação agrícola. Esta caracteriza-se pela rapidez nas aplicações (mais de 100 ha por hora), pela uniformidade e pela precisão (adequada calibração e utilização de aparelhos como manômetros aferidos, fluxômetros e sistema DGPS). As aplicações por via aérea não causam amassamento das culturas (estudos mostram redução de até 5 % na colheita de cereais de inverno devido ao tráfego de máquinas aplicadoras), o que pode compensar total ou parcialmente o desembolso do agricultor com o pagamento da prestação do serviço aeroagrícola.
Na atualidade, o sistema de pulverização mais utilizado é o denominado baixo volume com adição de óleo, onde as gotas de categorias muito finas a finas (80 até 200 µm) são geradas por atomizadores rotativos (maior uniformidade do que em pontas hidráulicas). No preparo da calda, o produto comercial a ser aplicado é diluído em óleo de soja degomado, acrescido de um emulsificante, ou óleo vegetal emulsificado e o volume de aplicação considerado eficiente para determinado tratamento é completado com água. Trabalho conduzido na FAMV/UPF, comparando volumes de calda de 10 e de 15 L ha-1 aplicados com sistema de baixo volume com adição de óleo, 30 L ha-1 com barras e pontas hidráulicas por via aérea e 165 L ha-1 por via terrestre demonstrou que o tratamento por via aérea com 15 L ha-1 no sistema de baixo volume com adição de óleo proporcionou controle da ferrugem da folha e rendimento de grãos de trigo superiores aos demais tratamentos.
A escolha do equipamento e do método de aplicação de produtos fitossanitários deve ser precedida de um exame minucioso de cada situação devendo-se optar pelas alternativas que sejam mais viáveis em cada caso, sem deixar de observar a segurança ambiental, cada vez mais exigida nas atividades agrícolas.
Referências Bibliográficas
ANDEF – Associação Nacional de Defesa Vegetal. Manual de tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários. Campinas: Línea Creativa, 2004. 50p.SPRAYING SISTEMS CO. Catálogo 46M-BR/P - Produtos de pulverização para agricultura. Diadema: Spraying Systems Co., 1999. 104p.THEISEN, G.; RUEDELL, J. Tecnologia de aplicação de herbicidas: teoria e prática. Passo Fundo: Aldeia Norte, 2004. 90p.
Revista Plantio Direto, edição 106, julho/agosto de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.