Uma Nova Fase do Cultivo no Brasil


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Publicado em: 01/06/2008

Uma nova fase do cultivo no Brasil: produção com seguro e todo o suporte ao produtor

Antes da publicação do Zoneamento Agroclimático para o cultivo de canola no estado do Rio Grande do Sul apenas os produtores habilitados às linhas de financiamento do PRONAF tinham acesso ao seguro agrícola sobre o valor de financiamento de custeio de suas lavouras de canola. Após a publicação da Portaria 60 do MAPA, da definição do código e do prêmio para o seguro, também os demais agricultores podem ter esta cobertura. Segundo o Dr. Gilberto Tomm, pesquisador da Embrapa Trigo, de Passo Fundo, o zoneamento oferece também uma base científica mais detalhada para a escolha de municípios e épocas de semeadura. ”O Zoneamento Agroclimático constitui um marco importantíssimo para viabilizar o cultivo de canola em todos os tamanhos de lavoura”, destaca o pesquisador.

Dr. Gilberto Omar Tomm, Pesquisador da Embrapa Trigo

Esforços diferenciados na produção

Para Gilberto Tomm, as duas operações que requerem mais atenção são a semeadura e a colheita, mas em compensação o cultivo não requer pulverizações de fungicidas. ”Por possuir sementes pequenas, e se empregarem aproximadamente 3 kg/ha, e apresentar maior rendimento de grãos quando se emprega espaçamento entre-linhas de 17 cm, do que em espaçamentos maiores, a semeadura de canola demanda alguns esforços diferenciados na escolha e no preparo das semeadoras disponíveis e empregada nas demais culturas”, explica.

Entretanto, o maior envolvimento de empresas como a Socidisco, especializadas em sistemas de semeadura e de fabricantes de semeadoras, aliados aos treinamentos que tem sido proporcionado aos técnicos e o suporte das empresas e cooperativas que fomentam a produção de canola, estão permitindo a realização de semeadura com qualidade e facilidade.

De acordo com Tomm, os temporais de vento e chuvas intensas às vésperas da colheita constituem desafio nos cultivos de inverno, e também na canola quando se emprega a colheita direta. Porém, com a introdução do corte-enleiramento, as plantas são cortadas e enleiradas quando os grãos estão com aproximadamente 35% de umidade, para posteriormente serem colhidas. ”Esta tecnologia, empregada na maioria das lavouras do Canadá e Austrália, reduz o risco de debulha e perdas de rendimento pela ação de temporais. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul por solicitação dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento-COREDE, está adquirindo 9 conjuntos de corte-enleiramento para atender os agricultores do Planalto Médio do RS”, informa o pesquisador.

Com o uso do corte-enleiramento são reduzidos os riscos de debulha e perdas de rendimento pela ação de temporais. As plantas são cortadas e enleiradas quando os grãos estão com aproximadamente 35% de umidade, para posteriormente serem colhidas.

Emprego de tecnologia facilita a produção

A canola constitui uma das melhores alternativas para diversificação de cultivos de inverno e geração de renda, pela produção de grãos, no Sul do Brasil. Os produtores com experiência no manejo da cultura têm colhido em torno de 30 sacas/ha com custos variáveis de 14 sacas/ha. A compra de toda a canola produzida no Brasil é garantida.

Gilberto Tomm lista como os principais atrativos da cultura: 1) o preço semelhante à soja; 2) a facilidade de comercialização por não haverem exigências qualitativas (PH, W, Falling Number, etc.); 3) ter pagamento imediato; 4) as grandes vantagens para o aumento de rendimento, qualidade e sanidade (através da redução de doenças e pragas) nos cultivos subseqüentes de leguminosas (soja, feijão) e gramíneas (trigo, cevada, triticale, aveia etc.). Estes benefícios indiretos se devem ao fato da canola ser uma crucífera (família do repolho e das couves); 5) a demanda de canola para uso como alimento funcional e para produção de biodiesel (não há como atender toda a demanda mundial por óleo vegetal para a produção de biodiesel); 6) maior tolerância à seca que outros cultivos como milho e o trigo em função de seu sistema radicular mais profundo; 7) menor risco de prejuízos que o milho e o trigo e por apresentar período de floração mais longo e assim, maior capacidade de compensar os danos de geadas e 8) todo o suporte de pesquisa e tecnologia de produção disponíveis, assistência técnica ao produtor oferecida gratuitamente por empresas interessadas na compra da produção.

Segundo o pesquisador, no Brasil os principais estados produtores são o Rio Grande do Sul e o Paraná. A transferência aos agricultores do Paraguai das tecnologias geradas e adaptadas no sul do Brasil têm permitido a expansão da área de produção de canola também naquele país, onde já ultrapassou 60 mil ha, com rendimento médio de lavouras de até 2.500 kg/ha. ”Nossas melhores lavouras atingiram 2.400 kg/ha e os produtores com experiência no cultivo geralmente obtém rendimentos de 33 a 35 sacas/ha (1.980 a 2.100 kg/ha). Entretanto, o potencial genético dos híbridos empregados é de 4.500 kg/ha, evidenciando a necessidade de continuado aperfeiçoamento e aprendizagem de tecnologias de manejo em cada região e o desenvolvimento de maior experiência dos agricultores” comenta.

De acordo com Gilberto Tomm, a expansão do emprego do corte-enleiramento da canola, em substituição da colheita direta, permitirá aumentar a produtividade média de lavoura através da redução das perdas associadas à períodos com chuva e vento na maturação e a relativa desuniformidade de maturação dos híbridos de ciclo mais longo (com maior capacidade de compensar efeitos de geada e estiagens).

Custo x benefício

Os custos de produção variam em função da tecnologia empregada. De acordo com o pesquisador, em estimativa realizada pela BSBIOS em 16/5/2008, com o preço de NPK e uréia, respectivamente em R$ 1400/t e R$ 1.300/t, a empresa identificou um custo total de insumos de R$ 592/ha que somados ao custo das operações mecanizadas totalizou R$ 676/ha. ”Historicamente o custo variável corresponde ao valor de 14 sacas de 60 kg de grãos. Assim, a margem de lucro em condições intermediárias de desempenho da lavoura tende a ser de 17 sacas/ha, que atualmente estão sendo contratadas a R$ 42/sc, perfazendo R$ 714/ha”, avalia .

”Entretanto, é importante acrescentar à lucratividade direta, os benefícios indiretos obtidos nos cultivos subseqüentes, especialmente em função do resíduo de fertilizantes aplicados na canola que podem aumentar o rendimento de soja em 400 a 500 kg /ha, conforme resultados obtidos no Paraguai, pelo Eng. Nilson Österlein. Além disto, especialmente em anos favoráveis às doenças, a canola propicia a redução dos prejuízos com doenças que depreciam a qualidade e comprometem o rendimento de trigo, milho e as outras gramíneas e leguminosas cultivadas”, reforça Tomm.

Cuidados na opção pelo cultivo

O pesquisador explica que o agricultor precisa ficar atendo para usar o menor espaçamento entre-linhas que a semeadora disponível permitir, preferencialmente 17 cm. Esse cuidado proporciona um maior rendimento de grãos do que quando se emprega espaçamentos maiores. Entretanto, ele observa que onde existem solos compactados é preferível empregar semeadoras de soja (espaçamento de 40 a 45 cm) equipadas com sulcador (facão), sistema de disco com alvéolos de 3,5 mm de diâmetro e o SEAJUSTE, anel que evita vazamento de sementes. ”Estas semeadoras possuem rodas que limitam a profundidade de deposição das sementes, que deve ser de no máximo 3 cm e rodas compactadoras, que aumentam o contato solo-semente favorecendo a uniformidade de emergência e posteriormente a uniformidade de maturação”, ressalta.

Pragas e doenças da cultura

Na canola o principal inseto-praga é a traça das crucífereas (Plutella xylostella), cuja densidade populacional e os danos são relacionados com períodos de estiagem. O pesquisador destaca que a qualidade de semeadura, permitindo distribuição eqüidistante e uniforme de pelo menos 20 plantas/m2, proporciona maior desenvolvimento do cultivo e menor efeito de danos por insetos-praga no rendimento. Existem vários defensivos eficientes tornando o controle de insetos efetivo a custo relativamente baixo.

Entre as doenças a canela-preta, causada pelo fungo (Leptosphaeria maculans/Phoma lingam) é tida como a mais importante da canola. Esta doença começou a causar perdas em algumas lavouras do Rio Grande do Sul, no ano 2000. Entretanto, trabalhos de pesquisa coordenadas pelo pesquisador Gilberto Tomm, e realizados com o suporte da iniciativa privada e muitos colaboradores, permitiram verificar em 2003 que o grupo de patogenicidade da doença que ocorre no Brasil e no Paraguai é o mesmo existente na Austrália e identificar híbridos resistentes a este fungo. ”O emprego de híbridos Hyola resistentes a estas e outras doenças permite que até o momento não seja necessário o uso de fungicidas em canola”, complementa.

O pesquisador recomenda que em locais em que ocorreram elevados danos causados por mofo branco, causado por Sclerotinia sclerotiorum, em feijão, girassol ou soja é preferível evitar o cultivo de canola pois a mesma poderá ser prejudicada por esta doença que afeta a maioria das plantas de folhas largas.

Sementes

De acordo com Tomm, as sementes de canola adaptadas às nossas condições de cultivo e resistentes à canela-preta são importadas da Austrália pelas empresas que realizam a extração e comercialização de óleo para consumo humano ou para produção de Biodiesel. A distribuição das sementes de canola de híbridos testadas em vários locais do Brasil e registradas são distribuídas por empresas de produção de biodiesel, como a BSBios, cooperativas, como a Cotribá, Cotrijal, Coagrisol e outras empresas, como a Giovelli, Celena Alimentos, Bunge Alimentos, Agrícola Ferrari, Camera Alimentos, e outras.

Canola na rotação

A canola é um cultivo de inverno que deve seguir preferencialmente o cultivo de soja por facilidade de semeadura. ”Após a canola é recomendável semear milho para que esta gramínea aproveite os nutrientes, especialmente o Nitrogênio, que é liberado gradualmente para a cultura. Pelo controle de doenças nas raízes a canola tem potencial de aumentar a sanidade das raízes dos cultivos de milho e trigo, por exemplo, otimizando o uso dos nutrientes do solo, aspecto especialmente relevante neste período de elevados custos de fertilizantes” ensina.

Perspectivas

”A área de cultivo de canola tende a expandir com mais rapidez em função do Zoneamento Agroclimático e seguro agrícola e disponibilidade de equipamentos de corte-enleiramento, que somados à disponibilidade de sementes de híbridas resistentes à doenças, novos indicativos técnicos, treinamento de técnicos e produtores, assistência técnica, compra garantida da produção e preços semelhantes à soja, vieram a constituir ”a nossa soja de inverno”, conforme sugerido recentemente por Erasmo Carlos Battistella, da BSBios”, finaliza Gilberto Tomm.

Para saber mais:

Gilberto Omar Tomm - Caixa Postal 451, CEP 99001-970 Passo Fundo, RS. E-mail: tomm@cnpt.embrapa.brZoneamento agroclimático da canola:http://www.cnpt.embrapa.br/culturas/canola/portaria_zoneamento_canola2008.pdf

Corte-enleiramento da canola: http://www.cnpt.embrapa.br/biblio/do/p_do89.htm

Tecnologia de produção da canola: http://www.cnpt.embrapa.br/culturas/canola

Canola como alimento funcional: http://www.cnpt.embrapa.br/culturas/canola/aspectos_nutricionais.htm

Doenças da canola (canela-preta): http://www.cnpt.embrapa.br/biblio/p_co58.htm

Indicativos técnicos para a cultura da canola: http://www.cnpt.embrapa.br/culturas/canola/p_sp03_2007.pdf

Revista Plantio Direto, edição 105, maio/junho de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.