Trigo: Expectativas para a safra 2008
Luiz Ataides Jacobsen11Engº Agrº. EMATER/RS. E-mail: ataidesj@terra.com.br
No Brasil, o ano de 1990, marca o fim da tutela estatal na produção tritícola, acompanhando um movimento mais amplo de redução da interferência do Estado e da liberalização dos mercados. Com a consolidação do Mercosul, o problema pode ser expresso pela queda na área cultivada com trigo no Brasil e sobretudo no Rio Grande do Sul, a redução no número de estabelecimentos que tinham na atividade parte da sustentação econômica e a conseqüente diminuição nos postos de trabalho, refletindo a competição externa.
Os preços internacionais se tornam referencia para as cotações do produto produzido internamente. A produção gaúcha, distante dos grandes centros consumidores, colhida depois da safra do estado do Paraná e muito próxima da Argentina, têm a sua fragilidade potencializada. A área cultivada no Rio Grande do Sul teve acentuada redução a partir de 1990, chegando, em 1995, a uma das menores áreas cultivadas na história recente do cereal, apenas 270.247 ha colhidos.
Nas últimas cinco safras a média anual colhida com o cereal no Rio Grande do Sul foi de 896.694 ha colhidos e a produção média foi de 1.677.032 toneladas (1.870 kg/ha). No período a produção variou de 2.395.554 toneladas em 2003 até 817.097 toneladas no ano de 2006. Mesmo com produções capazes de praticamente abastecer o mercado, estimado em 1.100.000 toneladas a média anual das importações foram de 393.926 toneladas anuais.
Produções maiores associadas às importações relativamente estáveis do cereal fazem crescer o saldo exportável para os demais estados da federação ou para o exterior, já que o consumo interno se mantém ao redor de 1.100.000 toneladas. Isto significa que o trigo produzido no estado tem espaço para aproximadamente 600.000 toneladas anuais dentro das nossas fronteiras e aquilo que exceder esse volume necessita ser comercializado com outros mercados, fora das fronteiras estaduais (Tabela 1).
Tabela 1. Oferta de trigo produzido no Rio Grande do Sul, importação, disponibilidade, consumo interno e saldo exportável (em t). 2003 – 2008.
Fonte: Secretaria de Comércio Exterior. Sistema ALICEWEB. IBGE – LSPA.*Produção de 2007 e importações de jan/abr 2008.
No final de 2003 e primeiros meses de 2004, o Rio Grande do Sul exportou 1.138.400 toneladas (US$ 156,23/t), aproveitando-se dos preços elevados no comércio internacional que aconteceram a partir de maio de 2003 até maio de 2004. Nessa época, ainda o câmbio era favorável às exportações, com o dólar americano cotado em R$ 2,95, em dezembro de 2003, e entre R$ 2,85 e R$ 3,10 nos primeiros cinco meses de 2004. Com preços em queda no mercado internacional e moeda valorizada, as exportações não se repetiram em 2005, só ocorrendo quando as cotações voltam a se elevar a partir de janeiro de 2006 e as exportações somaram modestas 76.300 toneladas. Em 2007 as exportações gaúchas crescem para 102.497 toneladas, amparadas pela acelerada ascensão dos preços externos.
O cenário de escassez em 2008, propiciou que o Rio grande do Sul exportasse nos três quatro meses deste ano 587.406 toneladas de trigo para países como o Paquistão, Marrocos, Índia, Argélia e Tunísia. O valor médio das exportações foi de US$ 313,60/t. Mesmo assim, as importações gaúchas no período somaram 383.123 toneladas com valor médio de US$ 326,72/t FOB.
A Medida Provisória Nº 433 de 27 de maio passado, reduz a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS incidentes na importação e na comercialização do mercado interno de farinha de trigo, trigo e pão comum e isenta do Adicional ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante - AFRMM as cargas de trigo e de farinha de trigo, até 31 de dezembro de 2008. Também está extendido até 31 de agosto do corrente ano o prazo para importação de 2 milhões de toneladas de trigo isentos da Tarifa Externa Comum.
Essas medidas para assegurar o abastecimento interno e conter o aumento do pão e outros derivados da farinha de trigo, contaminado pelas crescentes cotações no mercado internacional parecem ter contribuído mais para a internalização do produto importado do que alavancar a produção interna, já apresentando certo bloqueio em função da rápida e acentuada elevação no preço dos fertilizantes. Preços mínimos melhores e ampliação dos limites de crédito ajudam, mas nem sempre são suficientes para o fechamento das contas no final da colheita, principalmente para a triticultura gaúcha mais distante dos grandes centros consumidores.
No mercado internacional, um dos fatores que estão impulsionando os preços do trigo no mercado internacional é o fato do mundo estar colhendo sua terceira safra consecutiva com volume de produção inferior ao consumo. Nesta safra de 2007/08, por exemplo, a produção projetada é de 606,40 milhões de toneladas para um consumo de 620,43 milhões (USDA, maio de 2008). Isto tem dilapidado os estoques de passagem que representam apenas 17,73% do consumo. Esta relação entre estoque de passagem e consumo é a mais baixa desde que temos acompanhado estes números, ou seja, desde 1960 (Quadro 1). Para a safra 2008/09 os americanos projetam 656,01 milhões de toneladas com os estoques subindo para 19,31% em relação ao volume que deverá ser consumido. O Conselho Internacional de Grãos, em seu último relatório (30/5/08) projeta para a safira 200/09 uma colheita de 650 milhões de toneladas e um consumo de 632 milhões, resultando em estoque de passagem igual a 132 milhões de toneladas (20,95% do consumo).
QUADRO 1 - Oferta e demanda mundial de trigo (milhões de toneladas). *Projeção. Fonte: USDA – World Agriculture Supply and Demand Estimates (09.05.08).
Esta folga um pouco maior em relação ao abastecimento mundial, parece já ter contribuído para os preços terem declinado depois do pico de alta em março deste ano. Ainda, quanto ao mercado futuro, é preciso levar em conta a maior participação dos fundos de investimento em relação as commodities, depois da crise do sistema de crédito habitacional nos Estados Unidos. Esta migração das ações para as commodities acelerou as negociações no mercado futuro, fazendo girar 22 safras anuais de soja em 2007, enquanto nos últimos tempos o padrão era de 15 vezes. Trigo e milho também apresentaram maior número de giros e a volatilidade agora acompanha a revoada dos fundos.
A Argentina, maior fornecedor de trigo para o Brasil, além de tarifar está contendo suas exportações não liberando registros, numa tentativa para conter a inflação interna, que segundo alguns institutos independentes, poderá chegar a 23% neste ano. As primeiras informações sobre a safra de trigo na Argentina apontam uma redução de 500.000 ha em relação à safra passada.
Na Argentina o preço médio da tonelada de trigo (NCM 10019090) em março foi de US$ 347,00/tonelada e no mês de abril a média ficou em US$ 372,00 FOB portos argentinos, recuando para US$ 353,00 em maio. O preço de abril foi a melhor cotação nominal, pelo menos desde 1980. Há um ano atrás a cotação nos portos argentinos era de US$ 205,00 e há dois anos passados US$ 142,00. É preciso observar que em maio de 1996 a cotação do trigo nos portos argentinos foi de US$ 285,00/t que corrigido (Consumer Price Index) equivaleria a US$ 389,06 em abril deste ano, mas rapidamente recuou em função da safra mais abundante, passando para US$ 136,00/t em dezembro, ou US$ 182,71 corrigido.
As projeções para o Brasil indicam ser possível atingir 4,8 milhões de toneladas de trigo nesta safra, caso se confirmem às primeiras intenções de semeadura. No Rio Grande do Sul a área cultivada com o cereal deve situar-se em 950.130 ha.
No mercado gaúcho (Figura 1), o preço recebido pelos triticultores, ao longo de 166 meses analisados (jul/94 – abr/08), mostra que em apenas 31 deles o valor corrigido pelo IGP-M foi superior a R$ 30,00 por saca de 60 kg. Isto pode sugerir uma linha de resistência como limite superior, ultrapassada somente em situações especiais como preços internacionais bem acima dos padrões normais e/ou moeda desvalorizada.
Figura 1. Preços médios mensais recebidos pelos produtores no Rio Grande do Sul em valores nominais e corrigidos pelo IGP-M. (R$/60 kg – jul/94 – abr/08).
Além da volatilidade sempre presente no mercado internacional e dos sinais de um possível recuo, mesmo que pequeno, nos preços do trigo nas principais praças exportadoras, espera-se que as tentativas de abastecer o Brasil com trigo pelo menor preço possível, não se constituam em mais um obstáculo para o grão oriundo do Rio Grande do Sul ultrapassar as fronteiras estaduais em direção ao Sudeste e Nordeste brasileiro.
Revista Plantio Direto, edição 105, maio/junho de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.