Tecnologia de máquinas para semeadura direta de precisão no Brasil
Marcos Roberto da SilvaEngenheiro Agrônomo, Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas - Universidade Federal do Recôncavo da BahiaE-mail: mrsilva@agr.unicamp.br
O avanço tecnológico e o esforço dos difusores de tecnologia sobre os benefícios do plantio direto (SPD) entre os produtores não somente alavancou o sistema, a conservação dos recursos naturais, o aumento de produtividade, mas a produção de máquinas agrícolas em geral e, principalmente as destinadas ao processo de semeadura direta. Se no início dos trabalhos com SPD no Brasil, na década de 70, os produtores pioneiros buscavam alternativas para o processo adquirindo máquinas importadas, como a famosa Rotacaster da FNI-Howard, ou realizando adaptações nas semeadoras utilizadas no sistema convencional, hoje o mercado disponibiliza inúmeras opções de modelos.
Figura 1. Semeadura ”quase invisível”.
O mais importante é que as empresas a cada ano estão aperfeiçoando os mecanismos para atender as necessidades dos usuários. Vale lembrar que as primeiras máquinas utilizadas nem sempre conseguiam atingir a premissa do sistema que é mobilização mínima do solo, causando um processo erosivo somente no sulco de semeadura.
Atualmente, ao contrário do que ocorria é comum ouvirmos falar ”tal propriedade está realizando o processo de semeadura quase invisível”, ou seja, ”mexeu” no solo só o necessário para a deposição de fertilizante e semente, voltando à palha ao local de origem. E, lógico, comprovamos isso nas áreas onde efetivamente o sistema foi implementado na sua plenitude ao longo dos anos.
A indústria brasileira do segmento de semeadoras para o sistema cresce a cada ano, tanto na quantidade como na qualidade dos produtos fabricados. O parque fabril das indústrias está instalado principalmente no sul e sudeste do país, entre os Estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Algumas destas indústrias são de pequeno porte, muitas de origem familiar que iniciaram seus trabalhos realizando pequenos consertos e adequações de máquinas, atendendo a uma demanda regional suprindo, em muitos casos, a lacuna não preenchida pelas grandes empresas. Outras, de médio e grande porte, que tiveram a sua origem de forma familiar e conquistaram espaço no mercado pela qualidade de seus produtos. Existem também as companhias internacionais que instalaram as suas linhas de montagem com projetos próprios, ou adquiriram ou se associaram com fábricas consolidadas no país e aperfeiçoaram os produtos destas.
Outro fato interessante neste mercado é a proposição pelos fabricantes de tratores dos ”sistemas mecanizados”, ou seja, as indústrias disponibilizam máquinas para todas as etapas da exploração agrícola. Neste caso, a grande vantagem está em poder adquirir os produtos de uma mesma empresa facilitando o planejamento, padronizando as ações de manutenção e controle da frota, compatibilizando assim os produtos resultando em maior rendimento operacional, menor custo de investimento e, possivelmente, no futuro, facilitar a integração de informações.
Apesar da produção estar concentrada nas regiões citadas, a maior expansão do mercado comercial para as máquinas de semeadura ocorre na região central do país onde os produtores possuem alto nível de desenvolvimento no sistema de produção, em grandes áreas e pela adoção crescente do SPD. Porém, as áreas tradicionais de cultivo representam uma porção considerável deste mercado, principalmente levando em consideração que em algumas regiões as propriedades possuem áreas menores onde o volume de máquinas comercializado é maior.
Uma característica importante no processo evolutivo das semeadoras pelos fabricantes é a oferta de equipamentos para atender os produtores que buscam diversificar as suas atividades. É possível encontrar semeadoras específicas para SPD em áreas de renovação de cana, de pastagem, de hortaliças e para o sistema de integração entre lavoura e pecuária. Outra oferta interessante são as semeadoras ”múltiplas” para semeadura de sementes miúdas e graúdas pela mesma máquina realizando a substituição dos seus componentes, portanto capazes de realizar a distribuição das sementes com precisão ou em fluxo contínuo, tornando as máquinas mais versáteis caindo no gosto dos consumidores.
Resultado de um trabalho entre a Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP e o Centro de Engenharia e Automação do IAC, foi publicado um levantamento sobre as indústrias brasileiras fabricantes de semeadoras-adubadoras de precisão para SPD e seus modelos. Na ocasião, foram registrados 278 modelos de 13 empresas. O estudo foi baseado nas informações contidas nos materiais publicitários de divulgação do produto.
Para se ter idéia da evolução neste segmento após um ano desta publicação, no Agrishow de 2004, em um novo levantamento foi contabilizado aproximadamente 350 diferentes modelos.
Além do trabalho das marcas e modelos a equipe organizou um ”censo tecnológico” para analisar a tecnologia disponível, avaliando a variação de mecanismos e componentes ocorrente no conjunto de modelos. Estas informações permitiram compreender as inúmeras possibilidades de configurações disponíveis para as máquinas atendendo o ”gosto do freguês”, neste caso não é o gosto, mas sim atender as especificidades do sistema de produção.
Os modelos de semeadoras eram disponibilizados com inúmeras possibilidades de configuração, ou seja, vários opcionais, fato considerado de extrema importância como informação para subsidiar o produtor na análise do produto. Fazendo uma analogia, é como chegar numa empresa de vendas de computadores e escolher a melhor configuração do seu micro para o desenvolvimento do seu trabalho específico.
Na seqüência serão apresentados os principais resultados do universo tecnológico encontrado no levantamento. Foram selecionadas 31 características tecnológicas para o estudo, porém em alguns casos nem todas estas características estavam disponíveis nos materiais.
Os dados que serão apresentados nos gráficos das figuras de 2 a 9 representam as informações quanto a largura total, distância entre as unidades de semeadura, número de unidades de semeadura, capacidade de armazenamento dos reservatórios de fertilizante e semente, peso total, opção para semeadura (culturas) e potência requerida de cada um dos 278 modelos avaliados. Neste caso, para a representação gráfica de cada parâmetro foi utilizada uma estratificação por classes.
• Largura total – Corresponde à distância transversal entre as extremidades do espécime, com os marcadores de linha recolhido (Figura2).
Figura 2. Distribuição dos modelos de acordo com a largura máxima.
• Distância entre as unidades de semeadura – Corresponde às possibilidades de ajustes no espaçamento (distância) entre as linhas de semeadura adjacentes em função da cultura (Figura 3).
Figura 3. Distribuição dos modelos de acordo com as possibilidades de espaçamento entre as unidades de semeadura.
• Unidades de semeadura – Corresponde ao número máximo de unidades de semeadura de precisão (Figura 4).
Figura 4. Distribuição dos modelos de acordo com o número máximo de unidades de semeadura.
• Capacidade do reservatório de fertilizante – Corresponde à capacidade total de armazenamento do(s) reservatório(s) de fertilizante, expressa em kg (Figura 5).
Figura 5. Distribuição dos modelos de acordo com a capacidade total do reservatório de fertilizante.
• Capacidade do reservatório de semente – Corresponde à capacidade total de armazenamento do(s) reservatório(s) de semente, expressa em kg (Figura 6).
Figura 6. Distribuição dos modelos de acordo com a capacidade total do reservatório de semente.
• Peso total – Corresponde ao peso total da máquina sem fertilizante e semente (Figura 7).
Figura 7. Distribuição dos modelos de acordo com o peso total.
A Tabela 1 mostra as opções de semeadura – correspondentes a diversas culturas e sua classificação.
Tabela 1. Opções de semeadura - culturas e classificação
Apesar do estudo ter sido focado nas semeadoras-adubadoras de precisão, as empresas disponibilizavam a opção de semeadoras múltiplas que possibilitam a semeadura de sementes miúdas e graúdas e, ainda outra opção para sementes de pastagem. Como as sementes miúdas são distribuídas em fluxo contínuo consideramos apenas uma cultura, pois o mecanismo dosador não irá diferenciar, apenas quanto à regulagem. Quanto às sementes graúdas o mecanismo dosador (disco ou kit) deverá ser selecionado em função do tipo de semente, por isso foi atribuído o valor 7 e a terceira opção seria a disponibilidade do kit para semeadura de pastagem.
Como se observa dos 278 modelos, 63 era semeadora múltipla e 32 disponibilizavam como opcional o kit para pastagem (Figura 8).
Figura 8. Distribuição dos modelos de acordo com as possibilidades de semeadura.
A potência requerida para tração – Corresponde a potência exigida na barra de tração do trator para deslocamento da semeadora em operação (Figura 9).
Figura 9. Distribuição dos modelos de acordo a exigência de potência para tração.
As figuras de 10 a 18 representam os opcionais ofertados para os referidos modelos. Tomando como exemplo a Figura 10, para facilitar a compreensão, dos 278 modelos de semeadoras 262 tinham como opção o disco de corte de palha do tipo liso, 22 do tipo estriado, 17 do tipo ondulado, 10 do tipo corrugado e 1 do tipo recortado e 8 dos catálogos não apresentaram esta informação. A falta destas informações será representada nos gráficos pela sigla SI – Sem informação.
Itens analisados:
• Tipo de disco de corte – Correspondem as opções de disco de corte de palha (Figura 10).
Figura 10. Distribuição dos modelos de acordo com as opções dos tipos de disco de corte de palha.
• Diâmetro do disco de corte – Correspondem as opções de dimensões do disco de corte (Figura 11).
Figura 11. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de dimensões para o disco de corte de palha.
• Tipo de sulcador para fertilizante – Correspondem as opções dos mecanismos rompedores para abertura do sulco para deposição de fertilizante (Figura 12).
Figura 12. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de mecanismos rompedores para fertilizante.
• Tipo de sulcador para semente – Correspondem as opções dos mecanismos rompedores para abertura do sulco para deposição de semente (Figura 13).
Figura 13. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de mecanismos rompedores para semente.
• Mecanismo dosador de fertilizante – Correspondem as opções dos mecanismos dosadores para regular a quantidade de fertilizantes para distribuição (Figura 14).
Figura 14. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de mecanismos dosadores de fertilizantes.
• Mecanismo dosador de semente – Correspondem as opções dos mecanismos dosadores para regular a quantidade de sementes para distribuição (Figura 15).
Figura 15. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de mecanismos dosadores de sementes.
• Roda de compactação – Correspondem as opções de mecanismos de fechamento do sulco de semeadura (Figura 16).
Figura 16. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de roda de compactação.
• Forma de acoplamento – Corresponde à forma como a semeadora é acoplada a fonte de potência (trator) (Figura 17).
Figura 17. Distribuição dos modelos de acordo com as opções para acoplamento.
• Acionamento do marcador de linha – Correspondem as opções para acionamento do marcador de linha (Figura 18).
Figura 18. Distribuição dos modelos de acordo com as opções de acionamento dos marcadores de linhas.
O resultado final deste trabalho foi à criação de um ”índice para adequação” de semeadoras-adubadoras. Este estudo não teve por finalidade a classificação das semeadoras, ou seja, gerar um ranking, mas possibilitar adequar o modelo as características da propriedade.
A aplicação do índice no conjunto de modelos de semeadoras permitiu caracterizar a distribuição dos mesmos de acordo com o tamanho da unidade produtiva e, isso foi possível pela seleção de parâmetros utilizados para comporem a formulação, sendo eles: espaçamentos possíveis, potência requerida para tração, peso, quantidade de linhas de semeadura e culturas recomendadas.
O índice foi aplicado em 250 modelos e o resultado final foi interessante, pois apresenta uma realidade diferente da imaginada, pois, muitas vezes, acredita-se que só existe tecnologia para os ”grandes”, aqui a expressão tem a conotação do produtor de alta tecnologia e com recursos fartos, ficando o ”pequeno” esquecido pelas empresas.
Verificou-se que esta hipótese não é verdadeira, pois foi encontrado maior número de semeadoras indicadas para pequenas e médias propriedades. Verificando os valores na figura 19, tem-se 73% dos modelos mais adequados para as pequenas propriedades, 19% para médias e 8% para as grandes.
Figura 19. Distribuição percentual dos modelos de acordo com a adequação ao tamanho da unidade produtiva.
Atualmente, o usuário desta tecnologia conta com uma ampla gama de opções no mercado, pois após cinco anos da publicação dos dados da pesquisa, constatou-se um considerável crescimento da oferta de modelos. Entre as 21 empresas fabricantes e incluindo todas as variações de modelos existentes, encontrou-se um número próximo a 650 opções de semeadoras (dados de 2007).
Porém, acredita-se que o grande entrave para acesso a tecnologia está na disponibilidade das informações aos usuários. Apesar da grande oferta muitos produtores não têm acesso aos materiais de divulgação das empresas ou oportunidade de participar de feiras e eventos promocionais.
O processo de decisão para aquisição de qualquer produto requer o maior número possível de informação possibilitando assim análise comparativa entre as opções subsidiando o produtor para escolher a melhor tecnologia e a mais adequada dentro das suas necessidades e possibilidades.
Revista Plantio Direto, edição 105, maio/junho de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.